III Colóquio

do

Curso de Comunicação Social

O Curso de Comunicação Social teve o privilégio de assistir a uma conferência proferida pelo jornalista Carlos Daniel, no dia 17 de Maio de 2000, integrada no seu terceiro colóquio, realizado na ESEV. Publicamos nesta edição um excerto da citada comunicação, preparado por Lúcia Margarida, Ana Lúcia, Mónica Castro e Silvério Pinto, alunos do 1º Ano.

 

O que eu acho é que o jornalismo é essencialmente um exercício de verdade e respeito. Estes são os valores primeiros que nos devem nortear. A verdade, que não é necessariamente verdade filosófica absoluta e definitiva, pois como dizia Mia Couto "a verdade é filha mulata de uma pergunta mentirosa" e nós tantas vezes fazemos perguntas mentirosas para obter uma verdade, perguntas capciosas dos jornalistas, ou como disse outro homem que é poeta, embora não se assuma como isso, o Fernando Alves da TSF "o contrário da verdade absoluta é outra verdade absoluta". Muitas vezes nós temos as nossas, inclusive o vizinho tem a dele, no jornalismo oral não existe seu e sua, porque seu e sua é quem nos está a ouvir e não necessariamente de quem estamos a falar.

Acredito que este é o jogo de uma verdade, é claro que é uma verdade restrita, verdade particular, verdade modesta se assim a quiserem chamar; é verdade pontual. Muitas vezes, a verdade definitiva que devemos procurar é aquela que podemos construir na cabeça daqueles que nos vêem, que nos lêem, que nos ouvem; eu estou certo que este tem que ser um fito a perseguir. Não podemos ter a pretensão de dar às pessoas o total conhecimento, o conhecimento definitivo, aquilo que é mais puro do que se pode contar, até porque esse puro, de facto, não é posse de ninguém; mas ter sempre a noção, de que estamos a respeitar muito daquilo que é a realidade que se nos depara no momento em que tentamos traduzir por palavras e sons, as imagens, aquilo que é essa mesma realidade aos olhos do público vasto.

Por outro lado falo-vos daquela que deve ser a segunda grande preocupação que o jornalista deve ter, isto também em termos genéricos, que é o respeito. Divido o respeito em duas dimensões fundamentais: 1) o respeito pelas pessoas que são tratadas nas nossas notícias; 2) o respeito pelas pessoas que são os alvos das nossas notícias: o chamado público. No fundo, não é o respeito pela pessoas humana, não, é mais do que isso, seja essa a pessoa que é retratada como a protagonista de uma determinada informação, seja aquela que nós servimos em cada momento.

A palavra "serviço" é muito mais bonita no jornalismo que a palavra "produto", embora nós corramos tantas vezes o risco de andar a vender notícias, muito mais do que apontar ou tentar explicá-las. São duas abordagens que têm muito de ético, porque acredito nestes valores, e que os tenho, que tento pô-los em prática.

O jornalismo é, como vocês sabem, uma actividade exercida cada vez mais na vertigem do tempo. Portanto, muitas vezes sobra pouquíssimo tempo para que nós possamos procurar a verdade, mesmo que seja a tal verdade modesta, e para que nós possamos pensar duas, três vezes, as que forem precisas, se estamos ou não a respeitar que as pessoas de quem falamos, quer as pessoas para quem falamos. Esta é uma das questões que considero mais prementes, num momento em que nós temos a informação cada vez mais feita na hora.

Foi realçado pelo Professor Luís Miguel o facto de eu me relacionar bem com situações de directo e improviso. É verdade e dá-me um gozo particular, não é verdade que me dê bem e isso cada um julgará por si mesmo. A verdade é que me sinto bem porque sinto que estou a ser eu e que estou a pôr tudo de mim naquele trabalho e não há nada de mais motivador no nosso jornalismo, nomeadamente no jornalismo radiofónico e na televisão, que são aqueles que eu conheço melhor. Nós sentimos que nos estamos a pôr à prova, que estamos a ser o mais fundo de nós profissionalmente.

Um texto muito bem escrito de um colega meu que eu vá ler, embora possa alterar sempre as minhas vírgulas e pontos finais, quando apresento o jornal, não tem tanto de meu como uma emissão em directo que eu faço durante cerca de uma hora e meia a duas horas. Portanto, a grande recompensa que nós temos é chegar ao fim do trabalho e acreditar que alguém gostou de todo o trabalho que nós fizemos. Não há coisa melhor que essa, a não ser o salário ao fim do mês. Eu penso que é bem melhor que o salário ter às vezes uma palavra, embora não seja tão indispensável em termos fisiológicos.

Falei-vos também do tempo, dos constrangimentos; vocês sabem que o jornalismo hoje vive num centro de poderes. Não há que ter medo de usar as palavras, nós temos o poder político, o poder económico, temos esses poderes ligados aos programadores e o exemplo da televisão é o mais fácil de perceber. Temos o poder institucional e hierárquico dentro da empresa onde trabalhamos. Temos que ter respeito pelas pessoas que estão hierarquicamente acima, devemo-lhes alguma obediência, embora tudo isto seja um conjunto de conceitos problemáticos, quando de jornalismo se fala e quando se pretende que no outro prato da balança esteja sempre uma grande liberdade individual, uma plena liberdade redactorial, uma autorização para ter opinião iditorial. Mas de facto, há aqui uma série de balizas à nossa volta que colocam o jornalista cada vez mais como alguém que não tem que ser, se calhar, contorcionista. Para lá caminhará, mas tem que fazer uso de algum jogo de cintura, que nem sempre é o mais fácil de compatibilizar com aquelas que são as exigências éticas e deontológicas mais rigorosas desta profissão.

Ainda tentando abrir o leque daquilo que podemos falar aqui e que eventualmente pode ajudar-vos nalgumas coisas em que a minha experiência, que não é larga, mas que é alguma e pode ser útil. É importante dizer que o jornalismo pode ser uma profissão da moda e dar a ideia que é uma profissão simples, mas é uma profissão difícil, sobretudo quando se quer fazer bem.

Portanto, nunca desanimo ninguém e acredito que quando alguém acredita que se pode dar bem nisso e fazer bem isso, deve apostar tudo nisso. Eu não me dei mal, outros não se deram mal. É claro que chegamos à conclusão da eterna questão que existem cursos a mais de comunicação e jornalismo. Vocês conhecem essa realidade tão bem ou melhor do que eu porque lidam todos os dias com preocupações destas, e eu felizmente já me livrei de algumas delas; mas o que vos digo é que o jornalismo é a melhor profissão do mundo para quem gosta mesmo disto.

Não se é jornalista para ter um emprego, não se é jornalista das nove às cinco, ou se é permanentemente, ou não se consegue ser alguém na profissão. Não quero com isto dizer que tenhamos que ser todos workaholics para sermos afogados em informação e infelizmente existe uma data de coisas que não têm nada a ver com jornalismo enquanto informação. Vocês compreendem que quem trabalha neste meio, ainda que o meu trabalho só recomece amanhã por volta das oito e meia da manhã e não ao meio dia como muita gente o julga. Alguns pensam: "isso é que é vida!!!".

Não é exactamente assim, isso permite um trabalho de permanente actualização e mesmo aquilo que nos parece facilitar a vida, como a Internet, acaba por ser muitas vezes mais uma exigência. Por exemplo, eu monto às vezes uma reportagem que pode chegar através das agências noticiosas internacionais (Reuters e Eurovisão) que normalmente era um trabalho que em televisão se fazia assim: recebiam-se as imagens, a acompanhar as imagens há uma informação específica com um resumo da história e a enunciação de cada uma das imagens que nós dispunhamos, que lia-mos e traduziamos para Português, porque normalmente vinham em Inglês, e procurar nos jornais do dia que poderiam conter coisas que pudessemos enquadrar melhor, para ver se às vezes assim se percebiam melhor as histórias, porque às vezes contamos coisas que nunca chegamos a perceber, como vocês sabem.

Hoje as coisas não são assim, porque nós temos acesso a uma data de jornais dos países onde acontecem as coisas, os portais de informação estão-se a multiplicar, felizmente para alguns de vocês, porque vão ter aí um meio profissional onde se podem encaixar no sistema de emprego. Agora temos a preocupação de irmos à Internet, ver mais uns quantos jornais, uns quantos portais, mais uns sites que têm informação sobre isto e aquilo, aumenta-nos muito a dificuldade de fazer notícias, porque nos abre mais um caminho, neste caso a possibilidade do saber. Nem sempre o saber mais é sinónimo de mais facilmente fazer, e sobretudo nesta profissão, que, de facto, temos de estar permanentemente a olhar para o relógio.

Espero ter-vos dado algumas pistas sobre o que me parece ser relevante, actualmente, quanto à problemática do jornalismo.

 

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