Uma Viagem...

 

Ana Catarina Amaral

Elisabete Gonçalves

3º Ano do Curso de Comunicação Social

Aos nossos pais, que souberam ensinar-nos a luz da vida...

A todos os nossos amigos...

Ao nosso docente de Literatura Portuguesa II, Doutor Luís Miguel Oliveira de Barros Cardoso, que nos dirigiu conscientemente...

 

 

Introdução

Abordando o grande tema "Dos Mares de Cabral ao Oceano da Língua Portuguesa", escolhemos como base de análise o poema "Horizonte", pertencente à segunda parte (Mar Português) da obra "Mensagem" de Fernando Pessoa.

A escolha deste poema deriva, sobretudo, da sua localização na obra, isto é, a segunda parte da "Mensagem" que é caracterizada pela realização e vida da nação portuguesa, trata da grande realização da pátria, que ansiava pelo desconhecido e esforçava-se na luta com o mar. Além disso, é nesta segunda parte que são referidas personalidades e factos dos descobrimentos portugueses, é aqui que se destaca a projecção universal que os descobrimentos portugueses implicaram e os esforços sobre humanos que foi preciso desenvolver na luta contra os elementos naturais, hostis e desconhecidos.

Mas, não só pela sua localização, como também pelo seu próprio título "Horizonte", ou seja, subjaz neste título a ideia de desconhecido, o objectivo, que apesar de longínquo, já se vê ao longe e, com isso, fica mais fácil de o alcançar.

Com o poema "Horizonte", podemos relembrar a chegada das naus portuguesas à Terra de Vera Cruz e fazer uma ligação, ainda que imaginária ao pequeno excerto da "Carta de Pêro Vaz de Caminha" a D. Manuel I, sobre o achamento do Brasil. Dizemos imaginária, pois sabemos que a encosta que se ergue em árvores (que nos é falada no poema) não é o Brasil, mas sim a Índia, onde também os portugueses marcaram a sua presença.

Serão mostradas as semelhanças existentes entre o poema "Horizonte" e a "Carta de Pêro Vaz de Caminha", para melhor retirar o poema do contexto da "Mensagem" e inseri-lo na descoberta do Brasil, igualmente com o intuito de ilustrar essa grande aventura.

Apresentaremos duas perspectivas consideradas importantes e que dizem respeito à possibilidade de ter havido êxito ou fracasso por parte de Pedro Álvares Cabral e os seus companheiros durante a viagem. Em consonância, será comentado o facto de a lenda poder estar possivelmente enganada: "Será que Pedro Álvares Cabral realmente se deixou levar pelo temporal que o fez mudar de rumo ?"

Numa perspectiva linguística, falaremos do simbolismo expresso na linguagem utilizada no poema, que com certeza nos reporta para todos os aspectos nacionais. A partir desta perspectiva e voltando a inserir o poema no seu contexto inicial, provaremos as razões para a escolha do autor por um tema relacionado com Portugal e a sua paixão pelas obras portuguesas.

Ligado, ainda, ao simbolismo e ao patriotismo, abordaremos o conceito de Sebastianismo, o que ele representa para nós, portugueses, e qual a sua importância na obra "Mensagem". Quanto a Pedro Álvares Cabral, defenderemos de que modo este mito poderá estar presente na personagem da viagem.

Iremos, também, referir de que modo podemos ligar o poema "Horizonte" aos dias de hoje, que ilações podemos retirar da sua leitura e em que medida as conclusões podem ser aplicadas aos problemas da nossa sociedade, nomeadamente à economia, à política, à cultura ou educação...

Por último: porquê o sonho? Qual a importância do sonho neste poema e qual o objectivo que Fernando Pessoa quis transmitir com esta abordagem.

Deste modo, tentaremos ilustrar da melhor forma a descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral, construiremos hipóteses baseadas (por agora, nos sonhos) para o nosso horizonte e quando falamos em "nosso horizonte", queremos dizer o Horizonte de toda a nossa sociedade.

O "Horizonte" na época de Pedro Álvares Cabral

"Deus quer, o homem sonha, a obra nasce."

Fernando Pessoa (s/d)

 

Por vezes, perguntamo-nos como eram as expedições, em 1500 e quais os instrumentos utilizados nas navegações... Estudos históricos e científicos dão-nos a conhecer estas respostas.

Nós perguntámo-nos o que viram os portugueses ao chegarem à costa brasileira e qual a reacção produzida no seu interior ao avistarem uma nova terra.

Para isso, centrámo-nos no poema "Horizonte", da obra "Mensagem" de Fernando Pessoa e num excerto da "Carta de Pêro Vaz de Caminha" sobre o achamento do Brasil. Retirando o poema do contexto inicial da "Mensagem", verificamos apenas que se trata da descoberta de uma terra. Assim, podemos fazer uma interligação com a carta, que nos fala sobre a descoberta do Brasil. Existem, visivelmente, semelhanças entre um texto e outro. Ambos se referem a um mar longo, ao mar onde navegaram as naus portuguesas. A evocação presente no primeiro verso do poema ("Ó mar anterior a nós") transmite-nos o respeito, a admiração e devoção que o sujeito poético possui perante a imensidão e a sabedoria do mar.

O poema de Fernando Pessoa mostra-nos que a "longínqua costa" começava a abrir-se em flor, em tons e cores, a erguer-se em árvores e onde, mais tarde, avistaram aves. Na carta, encontramos os mesmos elementos da natureza e outros, pois por ser uma narração permite ao autor uma maior expansão e aprofundamento do assunto que está a tratar. Nela encontramos, novamente as aves e os grandes arvoredos, demonstra-nos que viram sinais de terra, ervas compridas, um alto e redondo monte, além de serras mais baixas ao sul.

Esta foi a imagem que nos transmitiram os dois autores, uma imagem que no início era apenas uma "linha severa" e abstracta, mas que logo em seguida, se transformou numa paisagem colorida, firme, precisa e cheia de movimentos e vida. Ficámos a conhecer a paisagem que revestia a Terra de Vera Cruz, um horizonte cheio de nada, mas que com os proveitos de uma dura espera e do intenso cansaço se tornou num quadro vivaz e propício a aventuras e novas descobertas.

Mas que sentimentos são expressos? Que poderiam ter sentido os portugueses ao avistarem tal paisagem desconhecida?

Ora, visto que se tratava do achamento de uma terra totalmente desconhecida, os autores deveriam ter manifestado surpresa, espanto e admiração, mas muito pelo contrário eles, simplesmente, demonstraram uma tal preocupação em relatar, minuciosamente, o que tinham visto ao longe e, mais tarde, no desembarcar. Como exemplo, citaremos esta passagem do poema "Horizonte", para verificarmos que não existe qualquer sentimento, nem de espanto nem de admiração:

 

"Linha severa da longínqua costa –

Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta

Em árvores onde o Longe nada tinha;

Mais perto, abre-se em tons e cores:

E, no desembarcar, há aves, flores,

Onde era só, de longe a abstracta linha."

 

Temos ainda conhecimento de um outro testemunho da descoberta do Brasil, trata-se de um relatório escrito por um piloto português que ia na armada de Cabral, este por sua vez, também não mostra a tal surpresa e admiração pelo achado, mas "...com o que tendo todos grandíssimo prazer..."

Mas, como podemos explicar a não existência de surpresa e espanto por parte dos portugueses, já que, como nos conta a lenda, a expedição de Pedro Álvares Cabral foi impelida por uma tempestade a descobrir terras no ocidente, facto que causaria muito mais espanto e admiração? Este assunto será abordado no fim deste capítulo, pois é o assunto que consideramos mais delicado e oneroso.

Por agora, queremos demonstrar se a viagem de Pedro Álvares Cabral deu para colher muitos frutos ou, pelo contrário, foi um desperdício para o reino português. Em poucas palavras: a viagem conquistou o êxito ou o fracasso?

Ao termos conhecimento do exílio voluntário de Álvares Cabral e da sua morte no ostracismo, que o levaram a ser esquecido por todos, após a viagem e descoberta do brasil, podemos concluir erroneamente que houve um insucesso. Além destes dois factores negativos, existiram outros que nos levam a inferir o mesmo raciocínio, como a perda em grande quantidade da sua frota, os problemas que teve de enfrentar no principal centro de comércio da Índia, os vários equívocos que cometeu e o seu regresso a Lisboa sem festas, apesar de lhe ter sido assegurada recompensa económica.

Contudo, temos consciência de que ao longo da sua expedição colheu um sucesso inexcedível. Apesar de todos os imprevistos no Índico, Pedro Álvares Cabral chegou a Portugal com imensas mercadorias e com a garantia de novos e promissores acordos comerciais, facto bastante significativo para a economia do nosso país. Foi o primeiro navegador a tocar os quatro continentes numa única viagem marítima e, o mais importante de tudo, foi ter alcançado a terra nova, ou para descobri-la pela primeira vez ou, então, para confirmar a sua existência.

Assim, firmemente confiamos que este grande homem, que morreu da vida que merecia, conseguiu um êxito primoroso em nome de uma nação, alcançou os seus objectivos, as suas metas, o seu horizonte...

Entramos, desta forma, no solene assunto já citado acima: será que Pedro Álvares Cabral realmente se deixou levar pelo temporal que o fez mudar de rumo?

Nas escolas, ensinam-nos que a frota determinada para a armada de Cabral foi alterada por uma tempestade, esta empurrara-os para terras ocidentais, fazendo com que fosse descoberto o Brasil. O autor desta lenda é desconhecido e dificilmente será identificado, mas afirmou-se, de vento em popa, que esta tinha sido a causa directa da descoberta do Brasil. Porém, as palavras expressas, na carta, por Pêro Vaz de Caminha contêm uma naturalidade impressionante: "E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-feira das Oitavas de Páscoa..." A existência desta naturalidade e a não referência ao temporal fazem-nos desacreditar da história normalmente ensinada.

Com bastante pena, desconhecemos as várias cartas de Pedro Álvares Cabral, as dos outros capitães da frota referidos por Pêro Vaz de Caminha e a carta de Arias Correa, para vermos se estes declaravam com tanta naturalidade a aventura da tempestade e do achamento da nova terra.

Naquela época, já era do conhecimento de Portugal as ilhas da Madeira e dos Açores, a primeira a 535 milhas de Lisboa e a outra a 735 milhas, também o arquipélago de Cabo Verde a 1510 milhas era conhecido, Vasco da Gama passava, em 1497, para o lado oriental de África. Não é de estranhar se pensarmos que o rei, ao mesmo tempo que mandava oficialmente e publicamente Pedro Álvares Cabral à Índia, o mandasse, em sigilo, ver terras ocidentais e a sul. Será que podemos pensar assim? Será que não? Não o sabemos.

Contudo, podemos afirmar que não existem fundamentos precisos para se continuar a dizer que a descoberta do Brasil foi por acaso ou obra dum temporal, que afastou a armada da sua frota normal.

O "bacharel mestre João", também citado por Pêro Vaz de Caminha, conta ao rei D. Manuel o sítio exacto em que se encontrava no dia 27 de Abril, ora esta exactidão não é de quem navegava às escuras ou de quem se encontrava perdido. Ele fez os seus cálculos "com la carta e com el astrolabio". Além disso, acrescenta: "quanto, senor, al sytyo desta tierra, mande Vosa Alteza traer un napamundi que tiene Pero Vaaz Bisagudo, e por ay podra ver Vosa Alteza el sytyo desta tierra."

Seria terra desconhecida? Descoberta por acaso? Como se vê, ela já estava no "napamundi" que Pêro Vaz, o Bisagudo, possuía, e tão eficazmente podia ser identificada por Mestre João.

O que importa será continuar a afirmar que fomos nós, portugueses, que descobrimos o Brasil e de nada nos temos a envergonhar. É mesmo caso para dizer que Deus quis, o homem sonhou e a obra nasceu!

 

O "Horizonte" nacional

"Porque a ideia patriótica, sempre mais ou menos presente nos meus propósitos, avulta agora em mim; e não penso em fazer arte que não medite fazê-lo para erguer alto o nome português através do que eu consiga realizar."

Fernando Pessoa (1915)

 

A nossa nacionalidade deve ser algo que nos identifica, algo que cria expectativas na nossa vida, boas ou más, algo que surge no nosso pensamento e nos traz saudades sempre que nos afastamos do nosso país. É um conjunto de sensações que permanece no pensamento com a lembrança de um dia vermos o nosso país cheio de vigor e alegria.

Nacionalismo pode ser entendido como um patriotismo que, excede o simples patriotismo instintivo e natural de ter amor à terra onde se nasceu, mas que tem o intuito de a defender não só através da palavra, como também através do combate e que a procura defender intelectualmente contra a invasão de estrangeirismos que lhe transformam as origens, ou de internacionalismos que lhe diminuam a personalidade.

Com estes termos, podemos dizer que Fernando Pessoa foi uma das personagens da literatura que mais acreditou no heroísmo português e como mesmo ele disse: "A língua portuguesa é a minha pátria". Mas, mediante o poema "Horizonte", que influências nacionais podemos verificar?

De todo o poema "Horizonte" se podem retirar expressões e palavras bastante simbólicas e significativas, que nos fazem lembrar o patriotismo de Fernando Pessoa e um conjunto de elementos e descobertas do nosso país, já que pertence a um livro de versos nacionalistas e que contém nítidas intenções ocultistas e disseminadas. A "Mensagem" é o elogio do Português, aquele que desvenda e domina os Mundos, definido não pela ânsia de obter o poder terreno, mas um Absoluto, um sentimento de realização que só poderá existir ao nível interior.

Assim, logo no início, quando o sujeito poético faz uma evocação ao mar, de imediato utiliza o pronome pessoal "nós" que, evidentemente se refere a todo o povo português. Um povo português, que tinha medos, mas que conseguiram descobrir "coral e praias e arvoredos", ou seja, outras terras, nomeadamente a África, o Brasil e os arquipélagos da Madeira, dos Açores e de Cabo Verde. A evocação feita pelo sujeito poético mostra-nos o respeito e a admiração que este tem pelo "mar português", pela imensidão e sabedoria dos oceanos.

Este poema tem referências à noite, à cerração e às tormentas, que são precisamente os medos que existiam, as inseguranças que se sentiam, a pobreza que o nosso país vivia, antes dos descobrimentos.

Com o início dos descobrimentos, "abria em flor o Longe". O longe que nos sugere as grandes esperanças dos portugueses, o tentar alcançar os seus objectivos, o horizonte importante de ser desvendado e de ser atingido. O facto desta palavra estar em letra maiúscula reforça o significado dela, longe, longínquo, mas, contudo e por fim se abre em flor. Mais uma vez, este longe, que se abre em flor, dá-nos a ideia de todas as conquistas realizadas pelos portugueses.

E o "sul sidério ‘splendia", o sul onde se situavam as serras mais baixas, que também Pêro Vaz de Caminha nos fala na sua carta a D. Manuel e que os portugueses viram ao chegarem ao Brasil, o sul que esplendia sobre as "naus da iniciação". É evidente que, estas são as naus portuguesas, as que iniciaram os descobrimentos ou que, pelo menos, conseguiram desvendar a maior parte das terras desconhecidas.

Estas terras desconhecidas eram ao princípio, apenas, uma "linha severa na longínqua costa", mas que conseguiram ser alcançadas pelos portugueses e "quando a nau se aproxima ergue-se a encosta em árvores". A nau portuguesa aproxima-se da encosta, que é o Brasil, se continuarmos a integrar o poema na viagem de Pedro Álvares Cabral e, num sentido global, podemos dizer que esta encosta são todos os lugares onde os portugueses marcaram a sua presença.

Que sinais de vida encontraram? "Árvores, tons e cores, aves e flores" também presentes na "Carta de Pêro Vaz de Caminha". Estes sinais, estes elementos da natureza negam o niilismo do longe, da "abstracta linha".

Este é um dos poemas que demonstram um Pessoa nacionalista místico, que respira um patriotismo de exaltação e de incitamento.

Porém, encontramos poucos aspectos negativos, ou seja, aspectos que denunciam o pessimismo ou o sofrimento que Pessoa, de certa forma, transmite no grande poema "Mensagem", as lágrimas de Portugal.

Em "Horizonte" apenas nos deparamos com as lágrimas ou sofrimento de Portugal através de raras expressões como "noite e cerração", "tormentas", "distância imprecisa" e "linha fria do horizonte".

Mas, estas poucas palavras não vão negar o que Fernando Pessoa escreveu nos seus 20 anos, mais propriamente em 1906: "Ninguém suspeita do meu amor patriótico, mais intenso do que o de todos quantos conheço... O seu calor, a sua intensidade – terna, revoltada e ansiosa – jamais conseguirei exprimir".

Além disso, declara que foi com Vieira que o seu sentimento patriótico despertou: "Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele vocálico em que os sons são cores ideais, tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política e social. Tenho, porém, um sentido, um alto sentimento patriótico." (1)

 

Sebastianismo no "Horizonte"

"Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade."

Fernando Pessoa (1982)

 

Acreditamos, por vezes, no impossível, no imaginário, mas o afincamento em que essa crença se constrói torna real aquilo em que acreditamos, nem que seja no nosso interior. Acreditar em algo, por menos material que seja, é ter esperança, é a construção de bases fortes, para mais tarde quando aquilo em que acreditamos se tornar realidade, tenha liberdade e segurança suficiente para que continue a existir.

Existem várias formas de crer e inúmeras coisas para crer. Não nos interessa aqui explanar as muitas crenças que estão ao nosso redor, mas apenas centrarmo-nos numa bastante pertinente para o nosso estudo: o Sebastianismo.

O que podemos dizer sobre o Sebastianismo? Ora, fundamentalmente, o Sebastianismo é um movimento religioso, feito em volta de uma figura nacional, no sentido de um mito. Neste caso, trata-se de um mito gerado à volta da figura do rei D. Sebastião.

Este foi o décimo sexto rei de Portugal, neto de D. João III e recebeu uma educação que o tornou fascinado, quase fanático, na recuperação das praças de África, abandonadas pelo seu avô, e na conquista do império de Marrocos.

A jornada de Alcácer Quibir foi o desfecho trágico da sua incessante aventura, onde desapareceu. Desde então, o povo português não se convenceu da sua morte.

Simbolicamente, D. Sebastião é considerado Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza de pátria com a morte desta mítica figura, e que só a conquistará de novo quando D. Sebastião voltar, ipso facto, não só simbolicamente, mas realmente. Com o regresso dele, um regresso simbólico – como, por um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica – mas em que não é absurdo confiar.

Tal como nos diz a lenda, D. Sebastião voltará por uma manhã de névoa, no seu cavalo branco, vindo da ilha longínqua onde esteve esperando a hora da volta. A manhã de névoa indica, evidentemente, um renascimento anunciado por elemento de decadência, por restos de noite onde viveu a nacionalidade.

O Sebastianismo, por vezes, não é bem compreendido. Muitos tomam-no como uma mera superstição popular, para outros é só um devaneio imperialista da decadência, na verdade é que ele tem sido, em geral, entendido por assunto desprezível e obscuro. Obscuro, até talvez seja, para aqueles que desconhecem o caminho das profecias do Sebastianismo. Desprezível, talvez nem tanto, pois o Sebastianismo é o único movimento profundamente nacional que tem havido entre nós e que tem toda a força de um movimento religioso.

Além de que, a lenda sebastianista não deve ser considerada um acontecimento singular na vida da humanidade. Do mesmo modo que surge a crença na volta de D. Sebastião, surgem também outras lendas similares noutros cantos do mundo, como é o caso da lenda de Carlos Magno em França, a do imperador Frederico Barba-Roxa, na Alemanha e a do rei Artur, no País de Gales. Eis-nos, pois, perante uma atitude geral do comportamento humano.

Agora, incidindo na obra "Mensagem", propriamente dita, o Sebastianismo constitui um elemento importante para o entendimento da mesma. Por ser um mito, "é nada que é tudo", é nada porque não existe materialmente, é tudo porque é Portugal e todo o seu heroísmo nacional. É, através deste mito e da crença de muitos outros, que os heróis da "mensagem" tomam as suas atitudes, tentando atingir um "objecto longínquo, indeterminado", mas nunca conseguindo completar uma satisfação plena.

Toda a formulação simbólica e mitológica, faz com que a obra implique e transporte uma concepção trans-histórica. É todo o conjunto de mitos e de símbolos que incute na "Mensagem" uma realidade que se situa muito além das coordenadas do tempo e do espaço. Mas, esta realidade ao transpor as coordenadas temporais e espaciais, não deixa de nos mostrar a história de uma nação, uma história transfigurada, onde as suas personagens também sofrem uma transfiguração, passam de figuras históricas para figuras míticas.

D. Sebastião é um bom exemplo desta transfiguração. Ele é, basicamente, o protótipo da loucura heróica, mas pode simultaneamente simbolizar a decadência ou pode despertar as esperanças messiânicas no ressurgimento pátrio.

No âmbito da viagem ao Brasil, podemos fazer uma ligação entre Pedro Álvares Cabral e D. Sebastião, mas em que medida este mito pode estar presente na personagem principal da viagem?

Em primeiro lugar, já que D. Sebastião é o mito da aventura, do progresso e do heroísmo nacional, também Álvares Cabral é símbolo de uma viagem cheia de aventuras, de imprevistos, do progresso pelo descobrimento de uma terra nova, o que implica novos pontos comerciais, novas riquezas, empreendimentos e o conhecimento de novas culturas, símbolo do heroísmo nacional, pela coragem de ultrapassar os medos da época, o desconhecido, por suportar uma viagem que o levou a ter contacto com quatro continentes e, além disso, por ter conseguido sobreviver a tantas doenças que ameaçavam os navegantes.

D. Sebastião, o desejado, inspira grande confiança aos que acreditam na sua volta, e com o seu regresso a emergência do poderio nacional, assim assemelha-se Pedro Álvares Cabral que a pedido do rei, fez a viagem com a rota marcada para a Índia, mas que conseguiu alcançar uma terra nova, o Brasil. Com esta descoberta surgem a esperança e o sonho de ver Portugal construir-se materialmente e espiritualmente.

Diz-se que D. Sebastião é a loucura, loucura por tentar obter o que desejava, por tentar conseguir algo inumérico, por outro lado Pedro Álvares Cabral também nos mostrou uma certa loucura com o seu exílio, a sua fuga à realidade caindo, assim, no esquecimento dos que lhe deviam gratidão. Mas, ambos fazem prevalecer uma loucura heróica, D. Sebastião por tentar reconquistar as terras perdidas pelo avô e Pedro Álvares Cabral por ter conseguido encontrar a Terra de Vera Cruz, que logo tornou Portugal o país pioneiro nos descobrimentos.

Os dois ligados ao mar, ao mar que os fez desaparecer no horizonte, ao mar que apesar de ter sido muito generoso para todo o povo português, os fez cair na decadência. D. Sebastião, ao sofrer as vicissitudes de uma batalha tornou-se num sonho, numa esperança, daí fica provado a sua decadência, decadência, porque um sonho não existe materialmente e contém sempre a dúvida de um dia vir a existir ou não; Álvares Cabral, ao sofrer as vicissitudes de um reino em expansão, caiu, como já foi referido anteriormente, no exílio sem qualquer gratificação ou lembrança dos seus contemporâneos.

Pedro Álvares Cabral pode, então, ser igualado ao mito de D. Sebastião, pois existem certamente e evidentemente semelhanças entre um e outro.

Contudo, o mito sebastianista tem felizmente raízes no passado e na alma portuguesa, o que o tornará eterno, mas será que devemos criar um novo mito ou então renová-lo? Este é um problema proposto por Augusto da Costa, este pede-nos para começar precisamente nesse sonho, deste modo evoluir-se-ia "na alma da nação o fenómeno previsível de onde nascerão as nossas descobertas, a criação do mundo novo, o Quinto Império".

Tal como Fernando Pessoa, deveremos ser criadores de mitos, pois é esta a obra mais importante que alguém pode construir.

O "Horizonte" no presente

"Tudo vale a pena se a alma não é pequena."

Fernando Pessoa (s/d)

 

Nos dias de hoje, perdemo-nos com tantas expectativas e desiludimo-nos com tantos "horizontes". O Portugal do nosso presente encontra-se perdido por razões várias, que mais adiante citaremos. Mas, nem sempre foi assim e este poema de Fernando Pessoa prova-nos isso. Nele tomamos conhecimento de um horizonte que se abriu em formas, em cores e em sons, ou seja, de um objectivo idealizado passa-se a um objectivo concretizado, materializado, alcançado. Porém, para que Portugal conseguisse atingir os seus ideais precisou de portugueses harmónicos, com mente segura e planeadora, com braço apto a realizar o que eles próprios planearam.

Sir Peter Wyche refere-se aos portugueses do século XVIII, como homens "tão notáveis pelo estudo do empreendimento, como pela bravura de empreendê-lo". Parece que os homens da nossa nação, pelo menos até ao século XVIII, não só não perderam a fama de corajosos e trabalhadores, como também não perderam o proveito, pois as descobertas do século XV são um testemunho disso.

Por outro lado, há quem considere a existência de três espécies de Portugal ou de portugueses:

1 - uma das espécies começa na nacionalidade, ou seja, trata-se do português típico, que dá forma ao fundo da nação e o da sua expansão numérica, é aquele que trabalha obscura e modestamente em Portugal e por todos os cantos do mundo.

Desde 1578, este típico português encontra-se afastado, até mesmo divorciado de todos os governos e abandonado por todos. Existe, simplesmente pela razão de existir e é por isso que a nação existe também.

2 - outra espécie é o português que o não é. Surge no tempo do Marquês de Pombal, com a invasão mental estrangeira, agravada com o Constitucionalismo, tornando-se completa e perigosa com a República. Este português, que governa, o país é formado por grande parte das classes médias superiores, certa parte do povo e quase toda a gente das classes dirigentes. Encontra-se completamente divorciado do país que governa. É, por sua livre vontade, parisiense e "moderno". Contra a sua vontade e inconscientemente, é estúpido e ignorante.

3 - existe, ainda, o terceiro português, que começou a marcar a sua presença quando Portugal, por alturas d’El rei D. Dinis, começou a nação a esboçar-se Império. Este é o português das descobertas e das viagens marítimas, aquele que construiu a civilização transoceânica moderna e depois foi-se embora. Foi-se embora em Alcácer Quibir quando desapareceu o último verdadeiro Rei de Portugal, D. Sebastião. Este deixou presumivelmente alguns parentes e simpatizantes que têm estado e continuarão a estar à espera dele. É na esperança da sua vinda e no seu símbolo e mito que os portugueses da saudade imperial projectam a sua crença de que a nação vitoriosa ainda não se extinguiu.

No início deste capítulo, mencionámos que o nosso país estava perdido, começaremos neste momento a divulgar as razões que nos levaram a essa conclusão.

Antes de mais, a crise ou decadência de Portugal, se assim se pode chamar, após o formidável esforço com que realizámos as descobertas e as conquistas, resulta sobretudo da grande ruptura de equilíbrio que se deu na vida nacional. A esta ruptura de equilíbrio segue-se a fatal supertradicionalização. Constatamos que apesar de sermos independentes como país, éramos dependentes como indivíduos. Tornámos a ser portugueses de nacionalidade, mas nunca mais tornámos a ser portugueses de mentalidade.

Com o Marquês de Pombal, ainda vivemos um grande desenvolvimento industrial e comercial no país, mas apesar de ser grande foi também um período de desenvolvimento muito rápido, breve, sem potencialidades para alimentar a curiosidade e o espírito trabalhador dos portugueses.
A desorientação ou decadência em que temos vivido e vegetado, deriva da acumulação de três factores, que em três épocas diferentes intervieram na vida nacional: o primeiro factor é a decadência propriamente dita, que começou na Batalha de Alcácer Quibir, prolongando-se pelo domínio dos Filipes, e até hoje ainda não passou; o segundo aspecto relaciona-se com a desnacionalização, que surgiu com a vinda do sistema monárquico estrangeiro que ao ser implantado, primeiro em 1820, se arrastou, através de uma guerra civil constante, latente ou patente, até à sua fixação em 1851, e a corrupção definitiva dos nossos costumes políticos e administrativos, o abandono total do governo à portuguesa; o terceiro e último factor é precisamente o prolongamento do segundo, isto é, surge plenamente em 1910, com a implantação da República. A desnacionalização tornou-se, nessa altura, degenerescência. Nem a degenerescência se limitava aos partidos que a República trouxe (não há estado social mórbido que seja pertença exclusiva de um partido), mas abrangeu também os velhos partidos monárquicos, cuja obra a República, anarquizando mais, apenas continuou.

Começando pela temática cultural, devemos reflectir, primordialmente, na abordagem e no uso da própria língua portuguesa. Esta é sincronizada tanto por pessoas que possuem o excesso de zelo em embelezar o seu discurso, utilizando termos verdadeiramente eruditos, mas que não estão inseridos no seu adequado contexto, muitas vezes por se desconhecer o seu significado; ou por pessoas que têm o intuito de sobrevalorizar a descrição, pois assim podem, por vezes, diminuir a qualidade do objecto a retocar e também tornar o discurso inoportuno ou, até mesmo, ininteligente. Por outro lado, com a subtileza discreta resulta o realce deste ou daquele elemento dentro de parâmetros esteticamente perfeitos e aceitáveis.

 

O sonho do "Horizonte"

"É a nossa grande raça que partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas daquilo de que os sonhos são feitos."

Fernando Pessoa (1912)

 

Sonho. É um horizonte? É possível considerarmos esta hipótese aventada, mas nem sempre. Um sonho ao ser ligado a comportamentos inconscientes trata-se, simplesmente, de uma reacção, de um efeito provocado por um estímulo proveniente da vivência de um indivíduo, por outro lado, quando uma pessoa surpreende-se a sonhar acordada, com algo que já traçou como objectivo de vida, aqui sim pode-se tratar realmente de um horizonte.

No poema de Fernando Pessoa, mais propriamente na última estrofe encontramos o sonho. Tem este posicionamento, talvez, porque o sujeito poético tinha o interesse de captar e manter a atenção do leitor a algo que interessa tanto a si mesmo como a toda a humanidade. Para o sujeito poético, o sonho é conseguir captar formas invisíveis e longínquas, que com a ajuda da vontade e da esperança essas formas invisíveis se tornam em objectos concretos.

Este sonho para se realizar e para devolver à pátria a grandeza perdida, na ideia de Fernando Pessoa, era necessário a vinda de um outro Camões, um Supra-Camões a aparecer em breve. Para muitos, este Supra-Camões é considerado ele mesmo, pois enriqueceu bastante a língua e cultura portuguesas. Mas, em que termos se poderia realizar este sonho tão distante?

Pensamos que, a grandeza e a importância de Portugal não será em relação a domínios territoriais, mas sim, em valores espirituais e morais. O nosso país seria o império da língua portuguesa (que em pouco tempo se prevê que seja falada por mais de 300 milhões de pessoas, nos cinco continentes; neste momento é a terceira língua mais falada no mundo inteiro), o império do modo de ser português, do culto da solidariedade e capacidade de adequação às mais imprevistas situações.

O sonho de Pessoa tem imenso a ver com o ideal da Renascença Portuguesa. Ele antevê o ressurgimento assombroso de Portugal, uma época de criação literária e social como poucas o mundo tem tido, onde a alma da futura civilização europeia será uma civilização lusitana. Esta criação literária e social da Raça Portuguesa será qualquer coisa que é ao mesmo tempo religiosa e política, ao mesmo tempo democrática e aristocrática, ao mesmo tempo ligada à actual fórmula de civilização e outra coisa nova.

Materialmente, o primeiro passo para a realização da grande empresa marítima foi o sonho do infante. O medo era o grande obstáculo a ser vencido para a concretização desse sonho. Na época, era o mar que exercia uma atracção muito convincente, mas as lendas e os mistérios que o envolviam aterrorizavam os marinheiros. Estes teriam de vencer muitos perigos, precisando, para isso, de grande coragem. Era precisamente, o medo e a distância que deveriam ser ultrapassados para se alcançar as formas invisíveis.

O oxímoro utilizado, no primeiro verso da última estrofe, torna o sonho do eu poético impreciso, tal como todos os sonhos. "Ver as formas invisíveis" é captar algo que ainda não existe, algo que se pensa irrealizável.

Este poema, em conjunto com os outros constituintes da obra a "Mensagem", assume completamente o destino português em oito séculos de existência e em vários problemáticos anos de futuro temido e sonhado, esse Portugal em ser, decidido entre angústia da decadência e da queda, e a esperança messiânica de redenção.

O sonho está necessariamente interligado com o messianismo, ou melhor, com o sebastianismo que abordámos num dos capítulo anteriores. Ambos são formados por uma certa esperança e uma certa crença em buscar "os beijos merecidos da Verdade" na "linha fria do horizonte".

Para este poeta, o império material é antes "um obscuro e carnal anterremedo". O seu objectivo é perseguir uma Índia que não há. Tem um objectivo, portanto, espiritualista, desligado do espaço e do tempo reais; é uma Índia nova, para onde só se viaja em naus construídas daquilo que os sonhos são feitos.

Podemos considerar a existência de aspectos positivos e negativos no poema "Horizonte". Como aspectos negativos, são considerados o sonho, as formas invisíveis, a distância imprecisa, a esperança e a linha fria do horizonte.

Passamos a explicar: o sonho, tal como a esperança (pois ambos se complementam), podem ser negativos, porque enquanto existem estes dois componentes, não existe a realização efectiva. No momento em que haja realização ou concretização, o sonho deixa de existir ou, então, surgem novos sonhos.

Todos os outros elementos, isto é, as formas invisíveis, a distância imprecisa e a linha fria do horizonte estão todos qualificados com adjectivos depreciativos, com uma carga forte de negativismo. As formas são invisíveis, não são captáveis aos olhos humanos, tornando-nos cegos, a distância é imprecisa, não é nítida tornando-nos confusos e a linha do horizonte é fria, provocando uma certa apatia ou, talvez, mesmo um certo descontentamento e pessimismo aos aventureiros.

Por outro lado, existem evidentemente aspectos positivos, que eliminam os anteriores, ou seja, presenciamos um sonho, uma esperança e, consequentemente, uma vontade. Na medida em que estão visíveis estes elementos subjectivos, podemos dizer que a força de vontade existe, logo existe vida e optimismo. Para mais, este é um sonho especial, pois vêem-se as formas invisíveis e capta na linha fria do horizonte a árvore, a praia, a flor, a ave e a fonte, objectos concretos, sensíveis. São estes os beijos merecidos da Verdade; mais uma vez, uma ideia antitética, um sonho bastante referenciado contrapõe-se com o substantivo verdade que aparece reforçado com letra maiúscula.

Devemos ter em conta, também, que nesta última parte do poema estão concentrados os quatro elementos da natureza: a terra, a água, o fogo e o ar. São verificáveis através das palavras árvore e flor em ligação com o elemento terra; praia e fonte com a água; beijos com o fogo e a ave com o ar. Assim, concluímos que também Fernando Pessoa, teve a preocupação com o meio envolvente, captando a nossa atenção para algo que já na altura se tornava decadente. Ou, talvez, porque pensava que o sonho de Portugal se deveria realizar através do desenvolvimento interno de uma aventura que se faz (e se deve ver) no mundo e tempo tanto da alma, como da natureza. Pode-se afirmar que ele anteviu no futuro um Portugal distinguido do material.

Ainda, nesta terceira estrofe, podemos retirar cinco símbolos muito importantes. A árvore, que simboliza a vida em perpétua evolução, onde existem três níveis de comunicação: o nível subterrâneo por meio das raízes; à superfície da terra através do tronco e o nível elevado, por intermédio da copa e dos ramos superiores. Ela representa a relação entre o mundo superior e o mundo inferior.

Esta interpretação pode estar relacionada com o sonho, porque este também poderá ter três níveis de existência, o seu nascimento que o torna impreciso, sem formas nítidas; o seu desenvolvimento, onde já são traçados alguns objectivos e a sua morte, em que deixa de ser sonho e passa a ser uma realidade. Na mesma linha, está o nosso país que também sofreu todas estas fases, bem explicadas pela obra "Mensagem".

A praia é uma zona de extenso areal que simboliza a libertação. Talvez, a libertação do sonho, quando este ganha asas da imaginação ou, quando ele se liberta precisamente para a sua concretização.

A flor é a imagem do amor e da harmonia. Simbolismo da infância e, de certo modo, ao estado edénico. Segundo o Taoísmo, o simbolismo da "flor de Ouro" é o de alcançar a realização espiritual.

A ave que se opõe à serpente é símbolo do mundo divino, talvez do sonho. As aves simbolizam os estados espirituais, os estados superiores do ser, assim como o sonho.

Por último, a fonte simboliza a origem da vida. É a imagem da alma, origem da vida interior e da energia espiritual. Também o sonho pode ser considerado a vida, muitas vezes a sua origem e a imagem da alma.

Como Gerard de Nerval afirma: " O sonho é uma segunda vida."

 

Conclusão

 

Com um horizonte aberto, concluímos o nosso trabalho. Temos consciência de que nem tudo foi abordado, mas o essencial foi dito para que novos horizontes sejam descobertos.

O nosso intuito de referir os problemas sociais, políticos, económicos e, até morais, foi alcançado com certo êxito, através de um poema que para muitos não diz nada. Com ele, iluminámos a nossa perspectiva quanto aos aspectos e acontecimentos tanto do passado como também do presente. O futuro deixamos ao critério de cada um de vós, leitores, pois possuem a liberdade de o dominar e de o construir da melhor forma. Da abstracta e fria linha do horizonte poderão evocar e apelar por objectivos mais concretos e amenos se souberem utilizar a capacidade de sonhar.

O Longe é o nosso maior obstáculo, a Verdade é o nosso ponto de chegada e como exemplo categórico de uma vitória, podemos pegar na viagem de Pedro Álvares Cabral. As nossas armas deverão ser os simples e sensíveis movimentos da esperança e da vontade, para que os beijos da Verdade nos sejam dados ou retribuídos.

"Valete, fratres!"

 

 

Bibliografia

 

 - Coelho, Jacinto do Prado – "Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa"; Editorial Verbo.

 - Coelho, Jacinto do Prado – "Problemática da História Literária, ext. da 2ª edição, 1961, Ática.

 - Lencastre, Maria José – "Fernando Pessoa: Uma Fotobiografia", IN-CM, Lisboa, 1981.

 - Lisboa, Eugénio – "Poesia Portuguesa: do Orpheu ao Neo-Realismo", Biblioteca Breve, ICLP, 1980.

 - Pimenta, Alfredo - "Elementos de História de Portugal"; 3ª edição, Lisboa: Empresa Nacional de Publicidade, 1936.

 - Prada, Valentin Vazquez – "História Económica Mundial"; Barcelos: Livraria Civilização Editora, 1980.

 - Romão, José António de Arez - "Brasil – 500 anos"; O Cofre, n.º 19 (2000) 11-15.

 - Soares, João - "A Idade Moderna e Contemporânea"; Coimbra Editora, 1926.

__________________

1. In "Livro do Desassossego" de Bernardo Soares.

«« SUMÁRIO