A CARTA SOBRE O ACHAMENTO DO BRASIL

 

Marisa Batista

Carla Aparício

3º Ano do Curso de Comunicação Social

«A bebida sacia a sede; o alimento extingue o desejo de nos alimentarmos; mas a prata e o ouro nunca chegam a satisfazer a avareza.»

Plutarco

INTRODUÇÃO

As narrativas que constituem a Literatura dos Descobrimentos e da Expansão Ultramarina apresentam como principal marca distintiva um sistema de referências que acentua a alteridade, na medida em que situam o conteúdo do texto numa realidade completamente diferente daquela que é comum ao narrador e ao leitor, têm um certo carácter mais preciso, mesmo científico, que nos permite a nós, leitores, ter uma visão mais clara e enriquecedora da etnografia de outros povos, por isso, M. Ema Tarracha Ferreira detalha certos aspectos pormenorizados na Literatura de Expansão: «topónimos e antropónimos, nomes de vegetais, de animais, de objectos de uso, de vestuário e de alimentação, de armas e de barcos, assim como de cargos políticos administrativos e religiosos, além de templos e de deuses».1

 

«As narrativas de viagens, em que o exotismo substitui a fantasia e a efabulação, mesmo nas obras mais objectivas e em que a verdade é rigorosamente respeitada, constituem, portanto, uma das originalidades da Literatura portuguesa, tendo surgido na segunda metade do século XV e prolongando-se pelo século XVII, quando os Descobrimentos marítimos deram lugar às viagens de exploração geográfica por terra.»2

A Carta a ElRei D. Manuel Sobre o Achamento do Brasil é uma relíquia na Literatura Portuguesa, pelo facto de relatar uma viagem e uma vontade dos portugueses de «dar ao mundo novos mundos». Ao longo desta exposição teórica, relativamente ao testemunho escrito de Pêro Vaz de Caminha, vai-nos ser possível notar a riqueza de cada assunto, acerca do qual Pêro Vaz teve o engenho de discorrer. A concretização do trabalho não pretende apenas, ser um roteiro explicativo de leitura da Carta, detalhamos também pormenores mais relevantes guardados no tesouro literário que é a Literatura de Viagens. Assim, ser-nos-á possível mostrar que os portugueses não só foram movidos por um programa de catequese, mas o contacto com os indígenas também era motivado por uma certa sede de prata e ouro, que como refere Plutarco, «nunca chegam a satisfazer a avareza»!

O RENASCIMENTO

Desde o final do século XV a meados do século XVI, os principais países do Ocidente da Europa, seguindo a Itália, entram decisivamente, na fase moderna da sociedade mercantil. Nesta época foi possível contar um surto de invenções e melhoramentos técnicos, favorecidos pela procura crescente de mercadorias. Há que reconhecer que esta imagem dinâmica da história é correlata da concepção de avanço evidenciada pelos homens do mar ou a ele ligados, como é o precioso testemunho de vivências no exterior, por parte de Pêro Vaz de Caminha. Exemplo destas evidências humanas é, também, Luís de Camões com a ilustre obra Os Lusíadas e Fernão Mendes Pinto e a sua Peregrinação, entre outros. Para que, efectivamente, houvesse uma revolução na consciência histórica estavam, assim, abertas as portas à ideia de modernidade e à de progresso, onde faces opostas e complementares, como sendo a face «literária» e a «naturalista» do humanismo dos Descobrimentos contribuíram para o tesouro da cultura europeia do Renascimento.

Nesta época, é nítido o aumento do volume das trocas, implicando o da circulação monetária, que trouxe como resultado a procura de ouro, prata e outras mercadorias preciosas. Este interesse é também notório na Carta Sobre o Achamento do Brasil. O descobrimento da prata na América e o do Caminho Marítimo para a Índia vêm ao encontro desta necessidade de acréscimo dos meios de troca e provocam uma alta de preços ruinosa, para aqueles que vivem, até então, de foros e serviços feudais.

Tornam-se possíveis grandes acumulações de capital e operações bancárias à escala de toda a Europa e respectivos interesses ultramarinos. Com todo este circuito de transacções, o incremento do comércio europeu e intercontinental, acelera-se ao ritmo de algumas cidades.

Estas circunstâncias facilitaram a propagação da heresia religiosa desencadeada pelo protesto de Lutero contra a venda de indulgências, em 1517. A Igreja atravessa, então, um momento difícil ( o Rei de Inglaterra separa-se do Papa; o Rei de França toma uma atitude ambígua) e torna-se urgente uma reforma religiosa, cuja corrente tem como intérprete máximo Erasmo de Roterdão, que apareceu como um compromisso possível entre Luteranos e «Papistas».

Após a anarquia e a indecisão, define-se a nova fisionomia política e religiosa da Europa. No Concílio de Trento, a Península Ibérica torna-se o mais forte baluarte do mundo católico. Dentro da ruptura católica desenvolveu-se a «Contra Reforma», que não foi mais do que uma repressão de todas as manifestações culturais suspeitas de heterodoxia e uma tentativa de recuperação da Escolástica. O principal instrumento de repressão ideológica traduziu-se na Inquisição, sendo a Companhia de Jesus o órgão que dava voz à difusão do Novo Catolicismo.

A defesa da fé católica é o motivo mais, frequentemente, invocado pele nova aristocracia para as guerras, no exterior, e as confiscações ou perseguições, no interior.

Em Portugal, depois da descoberta do Caminho Marítimo para a Índia, o processo de centralização do poder político e económico acentua-se sob a chefia do Rei. A exploração económica do ultramar faz-se grandemente, em regime de monopólio da Coroa. Esta espécie de monopólio comercial e ultramarino a favor da nobreza palaciana encontra dificuldades crescentes, não só por vícios internos do seu funcionamento, mas também por ataques vindos do exterior (Holanda, França, Inglaterra), que dificultaram o domínio militar das estradas e feitorias.

Em meados do século XVI, o sistema entra em crise, e os olhares voltam-se para as minas de ouro e prata na América e África. A bancarrota económica agrava-se com o desastre de Alcácer Quibir, devido ao colapso militar e político. A união de Portugal com Castela faz com que se viva numa extensa coligação de coroas «acumuladas sobre a mesma cabeça imperial»3 a dos monarcas Habsburgos.

Todavia, a burguesia não deixa de predominar, desafiando o monopólio do Estado e o poder da Nobreza e, pouco a pouco, domina o comércio entre o ultramar e a Europa. Grande parte destes homens eram judeus e, por isso, a Inquisição encontra aqui um bom plano de acomodação. Descendentes destes, também, os «Cristãos-Novos», verdadeiros homens de negócios, viam-se nas mãos do Santo Ofício. Esta perseguição conheceu o reverso da medalha, porque estes homens emigraram e construíram redes internacionais com núcleos na Holanda, França, Brasil, Perú, África, Índia, pelas malhas da qual passava uma grande parte do comércio mundial. Desta forma, o século XVI foi marcado, a nível europeu, pela desintegração do sistema feudal, acompanhada por um grande surto de desenvolvimento económico que se traduziu no crescimento da produção artesanal e agrícola, no desenvolvimento do comércio e na manifestação das primeiras manufacturas. Este desenvolvimento económico é favorecido também pelos Descobrimentos portugueses e espanhóis, com a consequente ocupação e saque de vastíssimos territórios, na África, Ásia e Américas, zonas produtoras de matérias primas muito procuradas. Estes são os pontos fulcrais de caracterização de uma época, que se dá pelo nome de Renascimento, já que se comprova um «renascer» a diversos níveis, como nos foi possível expor.

«Há mais de cinco séculos atrás, partir para os Descobrimentos era a aventura de ir ao encontro do obscuro, do ignorado, do mistério onde se esperava encontrar um qualquer proveito. A chegada a terras estranhas oferecia então a visão de uma realidade diferente que havia que explorar»4 a todos os seus níveis, desde a cultura até ao ouro e à prata. Esta é a mensagem que Pêro Vaz de Caminha nos transmite com a sua Carta, que não é mais do que um testemunho vivido intensamente pelos portugueses na «terra nova».

BREVE PERFIL BIO-BIBLIOGRÁFICO DE PÊRO VAZ DE CAMINHA

Supõe-se que Pêro Vaz de Caminha nasceu no Porto, em data desconhecida. Desempenhou cargos que o tornaram um homem muito respeitado e culto. Entre eles, foi Cavaleiro das casas de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I. No reinado deste monarca foi enviado para a Índia como escrivão da feitoria de Calecut, integrado na armada de Pedro Álvares Cabral. Da nau do Capitão desta armada, escreveu a famosa Carta do Achamento.

Mais tarde, foi nomeado feitor, na Índia, onde morreu, no assalto dos Mouros à feitoria, tendo cerca de cinquenta anos.

A Carta de Achamento do Brasil é, segundo afirma Carlos Eduardo de Soveral, no Dicionário de Literatura, «o mais vivo testemunho relativo ao reconhecimento oficial da terra de Vera Cruz. Nela se patenteia com pitoresco inexcedível a impressão que no civilizado, saído da Idade Média, infunde o espectáculo genesíaco, e também, especialmente, o atractivo que a mulher indígena exerce na forte compleição do português.

Com esta Carta se pode considerar de algum modo inaugurado o ciclo do bom selvagem, ou do primitivismo, que encontra a maior expressão na obra de J. J. Rousseau. Datada de 1 de Maio de 1500, só em 1817 foi impressa pela primeira vez».

Assim, da vida e obra de Pêro Vaz de Caminha destaca-se, com grande nitidez, a sua preocupação em dar a conhecer ao Rei D. Manuel, com todo o rigor e pormenor, os detalhes de um contacto com o povo de Vera Cruz, bem como a cultura daqueles povos, não esquecendo as riquezas que aquelas terras produziam, sendo este um dos grandes interesses da «gente de Luso», para além do intuito dos mesmos na conversão ao Catolicismo. Falamos pois, de um tesouro da Literatura Portuguesa: Carta a ElRei D. Manuel sobre o Achamento do Brasil.

CARTA A ELREI D. MANUEL SOBRE O ACHAMENTO DO BRASIL

Pêro Vaz de Caminha foi testemunha presencial da descoberta da «terra nova», por isso, descreveu em Carta ao rei de Portugal os aspectos gerais, mas detalhados, do país e os seus habitantes. Joel Serrão opina que há dois pontos a reter: «a intencionalidade ou não do descobrimento e a prioridade portuguesa do achamento da terra: embora haja razões de peso para admitir respostas afirmativas para ambos, não tiveram até hoje elucidação definitiva.».5 Deste modo, a chegada ao Brasil teria interesse para os portugueses não só pela sede de conhecer novas culturas e, por isso, novas formas de vida, mas também pela ânsia das riquezas materiais que poderiam ser abundantes por aquelas paragens e que não estavam fora das intenções da «gente de luso», como podemos confirmar com a afirmação de Plutarco, já citada.

Com precisão minuciosa, a Carta de Pêro Vaz de Caminha evidencia a atitude cordial dos índios e dos portugueses. Apesar de ser uma Carta onde transparece uma visão romântica da vida indígena - que posteriormente influenciou Rousseau com a teoria do «Bom Selvagem» - a Carta é a única fonte que nos resta do relato dos primeiros contactos com os nativos.

Na Carta em questão, Pêro Vaz de Caminha promete fazer jus à sua honestidade (cf. «não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu»), contudo reconhece a sua incapacidade e ignorância (cf. «para o bem contar e falar - o saiba fazer pior que todos»), para dar conta a «Vossa Alteza» da «terra nova».

Um dos pontos mais importantes a notar, ao longo da Carta, é a precisão ideológica de Caminha. Em primeiro lugar, esclarece bem o facto de não narrar acerca «da marinhagem e singraduras do caminho» (navegação diária por navio à vela), à semelhança d' Os Lusíadas, de Luís de Camões. Relativamente à viagem, a Carta informa sobre as circunstâncias situacional e temporal da partida de uma grande armada, treze naus, tendo como capitão-mor Pedro Álvares Cabral. A partida de Belém com destino à Índia teve lugar dia 9 de Março de 1500. Ao longo da Carta, existem breves referências sobre os locais onde passou a armada de Pedro Álvares Cabral, com os respectivos dias de tais ocorrências, sendo esta uma das preocupações maiores de Caminha, ou seja, o rigor do pormenor é uma marca que acompanha toda a sua narrativa. De acordo com a opinião de Duarte Leite «Se a Carta nos relata da vida vegetal e animal na terra nova é interessante, muito mais o são os informes etnográficos, que permitem classificar com segurança o homem novo como duma tribo tupi-guarani, tal a precisão dos detalhes e a acuidade das observações, servidas pela ingenuidade primesautière das apreciações, qualidades que conferem inestimável valor a esta magnífica peça.»6

Antes de partir, os perigos de uma viagem como esta eram de todos conhecidos. A nau comandada por Vasco de Ataíde simplesmente desaparece e apesar das diligências feitas para encontrá-la, durante dois dias de infrutíferas buscas, nunca mais se soube de seu paradeiro. Cento e cinquenta homens tinham sido «comidos pelo mar». Nessa tormenta naufragam as naus de Aires Gomes, Simão de Pina e Luís Pires, além da caravela de Bartolomeu Dias, o descobridor desse «Cabo das Tormentas». Foi, então, este cenário de horrores que povoou uma viagem, que viria a ser promissora para portugueses e brasileiros.

Numa «terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de Abril» (note-se, como referimos anteriormente, o rigor do pormenor) avistaram-se os primeiros sinais de terra. Na quarta-feira seguinte tiveram o primeiro contacto com a mesma, à qual o Capitão pôs o nome de Terra de Vera Cruz. Os contactos entre a «gente de Luso» e os povos daquela «terra nova» não demoraram a estabelecer-se, ainda que, fosse difícil a junção daquelas duas culturas completamente distintas, contudo os portugueses «registaram» as primeiras aparências. Aliás, os Brancos encontraram no Brasil grupos indígenas numerosos, do tipo físico dos que habitavam o litoral da Baía e a mais antiga e fiel descrição foi-nos deixada pelo cronista Caminha. Assim, Pêro Vaz de Caminha caracteriza aqueles povos do seguinte modo: «eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Nas mãos traziam arcos com setas.». Todavia, não foram estas linhas culturais que construíram as possíveis barreiras de contacto, que poderiam vir a existir entre portugueses e índios, porque, efectivamente, não se registaram obstáculos para que o seu relacionamento fosse impedido, como dará conta, com toda a minúcia, Pêro Vaz de Caminha a D. Manuel.

Deste modo, apesar de que «Ali não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito», certo é que eles arranjaram forma de contactar. Todavia, os portugueses ficaram com uma primeira imagem daqueles homens com «maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos», que foi suficiente para saber que se tratava de uma cultura distinta da nossa. Mas como «um gesto vale mais do que mil palavras», como dita a sabedoria popular, bastou a linguagem mímica para que os portugueses se apercebessem que, por aquelas paragens havia grandes e preciosas riquezas naturais, como o ouro e a prata. O facto de apontarem para o colar do Capitão e de seguida para a terra, bem como o castiçal de prata, foi o suficiente para que os portugueses se apercebessem das relíquias do Brasil. De qualquer forma, mesmo que assim não fosse «Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos»!

No que respeita à gastronomia dos índios, não era esta que os portugueses mais apreciavam (cf. «mal lhe puseram a boca»).

Para que o contacto entre estes povos se estabelecesse, de forma mais nítida, e para melhor conhecer o «seu viver e maneiras», o Capitão mandou para terra Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias com dois homens para que esse contacto se tornasse verdadeira realidade. «Um mancebo», Afonso Ribeiro, foi para junto daquela gente para conhecer os seus hábitos, no fundo, a sua cultura. Este foi também o papel de Pêro Vaz de Caminha, na companhia de Nicolau Coelho.

Para os portugueses era estranha aquela forma de apresentação, tinham «os beiços furados», andavam «quartejados de cores», mas, por sinal, as moças apraziam-lhes ... «bem moças e bem gentis...» e, a estas de as olhar, não tinham muita vergonha como refere Caminha (cf. «mulheres moças, nuas como eles, que não pareciam mal»).

«Ao Domingo de Pascoela, pela manhã, determinou o Capitão de vir ouvir missa e pregação naquele ilhéu». À cerimónia assistiram, tanto portugueses como índios. Seguiu-se a hora da refeição, recheada de mariscos, e foi assim que por vontade unânime todos concordaram «em mandar a nova do achamento desta terra» a Sua Alteza ElRei D. Manuel. «A nova do achamento desta terra» incluía um pedido que consistia num «intercâmbio», ou seja, dois índios ficariam com os portugueses e dois dos nossos homens ficariam no Brasil. Entendeu-se que este seria o modo mais fácil de cada um dar conta das vivências das culturas em causa, já que «tantos dos nossos, (e) andavam assim misturados com eles», apesar de os índios andarem mais «seguros entre nós» do que «nós entre eles».

A partida começava a aproximar-se para anunciar ao Rei a «terra nova», da qual os portugueses eram, agora, testemunhos da existência de tais vivências.

Os indígenas pareciam de tal modo «inocentes» (cf. «esta gente é boa e de boa simplicidade»), que facilmente seria fácil convertê-los em Cristãos, basta notar o facto de os dois homens se ajoelharem e beijarem a Cruz, uma realidade que agradaria, de certeza, a Sua Alteza, que lutava para acrescentar a sua santa fé católica. Aqui, será também de notar, a missa final, à qual só uma mulher assistiu e a simplicidade e inocência das suas atitudes. Foi-lhe dado um pano para que ela se cobrisse quando se sentava, mas acabou por não lhe dar utilidade porque a sua ingenuidade não a deixava ver o mal que isso poderia ter, era a sua maneira natural de estar. Por isso, Caminha depreendeu que quem é tão inocente converter-se-á, facilmente, à fé católica. De facto, aquela gente era simples, por isso, o contacto entre as duas comunidades tornou-se simples (cf. « dançaram e bailaram sempre com os nossos»)!

Os índios não se alimentavam com trigo e legumes como nós, porque era aquilo que as nossas terras mais nos ofereciam. Como refere Pêro Vaz de Caminha, os índios não «comem senão desse inhame» e andam mais «rijos» do que nós, porque vivem à lei da natureza, que naquela altura não era tão submetida à força humana e, por isso, era mais pura do que o é actualmente, que é uma natureza artificial corrompida pela acção infiel do homem.

No mesmo clima cordial se daria a oficialização do Descobrimento. Ao contrário da África, onde Portugal deixava seus padrões de pedra (sinal de sua posse), aqui ele deixou a Cruz com as insígnias reais. Depois de «chantada a Cruz» por todos, a missa foi dita pelo padre Frei Henrique. Esta missa é descrita com um tal pormenor, que pelas palavras fiéis de Caminha ficamos a conhecer a forma simples de ser daqueles povos, que assistiram, também, à missa com a mesma devoção com que os portugueses o fizeram (cf. « eles se levantaram connosco e alçaram as mãos»).

A partida era no dia seguinte, dia 2 de Maio de 1500, e Pêro Vaz de Caminha fazia a retrospectiva daquelas paragens, onde não tivera visto ouro nem prata, mas afirma que a terra «é de muitos bons ares», semelhantes aos de Entre Douro e Minho. As águas? Essas são «infindas» e as terras são férteis, todavia, para Pêro Vaz de Caminha afirma que o «melhor fruto» a colher por aquelas paragens seria a salvação daquela gente, devia ser, a semente que ElRei D. Manuel podia lançar naquelas terras de boa gente. (cf. «Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar, parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.»).

Caminha faz a ElRei as recomendações finais, elevam-se estandartes e bandeiras, retinem e silvam trombetas, atabaques, flautas e rufam tambores.

Em conclusão à sua Carta, Pêro Vaz de Caminha pede perdão a Sua Alteza ElRei D.Manuel por se ter demorado a contar tudo «pelo miúdo» e aproveita para deixar um pedido, ou seja, solicita a libertação do seu genro, Jorge Osório, degredado em São Tomé, por ordem de D. Manuel.

Segundo a posição de Manuel Simões «A Carta cumpre uma precisa função ideológica, toda centrada no programa de catequese e da conversão religiosa do «outro». Neste aspecto, e como lhe parece que «não têm, nem entendem em nenhuma crença», Caminha assume-se como intérprete da vontade divina, o que põe em causa as teses da intencionalidade da descoberta: «E logo Nosso Senhor [...] por aqui nos trouve, creio que não foi sem causa». O texto, porém, não deixa de revelar preocupações de ordem económica e de maneira bastante explícita. Logo no primeiro contacto com os índios, a atenção dos portugueses concentra-se na tentativa de decifrar a linguagem gestual, seguindo a interpretação que mais interessava os reais objectivos da viagem. A ambiguidade do gesto resolvia-se assim em função do que mais se esperava encontrar na «nova terra», não sendo surpreendente que «ouro» e «prata» apareçam como signos obstinados, ainda que seja para constatar a sua ausência no espaço controlado pela frota. Não conhecendo a real extensão da terra, Caminha opta pela generalização e é certamente este mecanismo a reconduzi-lo, na última parte da Carta, ao programa ideológico do «acrescentamento de nossa santa fé», que obsessivamente apresenta ao rei como um projecto a realizar com a futura colonização.

A narrativa de Caminha é, além do mais, um instrumento de conhecimento que alarga a própria concepção do mundo. Nela se faz a exaltação da terra recém - descoberta e do homem novo e diverso, contribuindo não pouco para a difusão do mito da natureza edénica e da inocência do «outro», este último mito mais tarde assumido por uma Europa desencantada, para o qual transfere, através do conceito do «bom selvagem», a sua necessidade de evasão. Os dois aspectos confluem no texto de modo interdependente, como se um justificasse o seu recíproco e lhe conferisse uma colocação lógica. Com a conquista e colonização, perdurará a ideia da natureza incontaminada, enquanto a imagem do «outro» se irá degredando progressivamente, até pela resistência oferecida ao programa de assimilação.»7

Foi, então, este o relato das vivências socioculturais de um país, no dia 1 de Maio de 1500, da Ilha de Vera Cruz, em Porto Seguro ... com grande orgulho celebramos este ano os memoráveis 500 anos!

CONCLUSÃO

A Literatura de Viagens é, sem dúvida, o relato fiel das movimentações portuguesas no mundo. Movimentações estas, cheias de riqueza física e ideológica, para além de toda a coragem, que desde o empreendimento dos Descobrimentos lançou o espírito lusitano por essas águas fora até alcançar novas terras, novas culturas, tradições e riquezas materiais.

Os Portugueses «Em perigos e guerras esforçados/ Mais do que permitia a força humana/ E entre gente remota edificaram/ Nove Reino, que tanto sublimaram»8, conquistaram «memórias gloriosas»9 e «lançaram» as suas vidas ao mar em nome da Pátria. Dentro da Literatura de Expansão é inevitável referir a ilustre obra nacional, que nos foi legada por Luís de Camões, pela autenticidade dos eventos patentes na epopeia vivida pela «Gente de Luso». Todavia, não é menos ilustre o engenho de Pêro Vaz de Caminha, que deu conta a D. Manuel, com todo o pormenor, de todas as vivências passadas desde Portugal até à «terra nova». Distinta foi a sua naturalidade e o seu rigor em descrever cada ponto de contacto entre portugueses e indígenas. Deste modo, A Carta Sobre o Achamento do Brasil é o retrato de ocorrências efectivas e do contacto real entre povos de culturas diferentes e é uma herança inconfundível que permanece, para sempre, na Literatura Portuguesa.

Conforme as palavras de Manuel Simões em «A Literatura de Viagens nos Séculos XVI e XVII», a Carta cumpre o seu objectivo máximo, ou seja, a sua «função ideológica, toda centrada no programa de catequese e da conversão religiosa do outro» e dá-nos a conhecer a «terra nova», que os portugueses tiveram a nobre oportunidade de apadrinhar.

BIBLIOGRAFIA

BARREIROS, António José - História da Literatura Portuguesa. 14ª ed. Braga: Bezerra Editora, vol.II.

CAMÕES, Luís - Os Lusíadas. Edição organizada por Emanuel Paulo Ramos. Porto Editora.

FERREIRA, Mª Ema Tarracha - Literatura dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa. Editora Ulisseia

GARCIA, José Manuel - Viagens dos Descobrimentos. Lisboa: Editorial Presença, 1983.

LEITE, Duarte - História dos Descobrimentos. Lisboa: Edições Cosmos.1958.

MATTOSO, José - História de Portugal. Vol.III (1880-1620).

SERRÃO, Joel - Dicionário de História de Portugal. Lisboa: Iniciativas Editoriais, vol. I/ A-D. 1971.

SIMÕES, Manuel - A Literatura de Viagens nos séculos XVI e XVII, s/d.

Notas

1 FERREIRA, M.ª Ema Tarracha, Literatura dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa, Editora

Ulisseia, p.30.

2 Idem,ibidem.

3 BARREIROS, António José, História da Literatura Portuguesa, 14ª ed. Braga: Bezerra Editora, vol.II.

4 GARCIA, José Manuel, Viagens dos Descobrimentos, Lisboa: Editorial Presença. 1983.

5 SERRÃO, Joel, Dicionário de História de Portugal, Lisboa: Iniciativas Editoriais, vol. I/ A-D. 1971.

6 LEITE, Duarte, História dos Descobrimentos, Lisboa: Edições Cosmos.1958.

7 SIMÕES, Manuel, A Literatura de Viagens nos séculos XVI e XVII., op. cit.

8 CAMÕES, Luís, Os Lusíadas., Edição organizada por Emanuel Paulo Ramos. Porto Editora.

9 Idem, ibidem.

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