O Nome da Rosa:

A personagem Guilherme Baskerville*

 

João Carlos Antunes

Sandra Matos Soares

Vitor Augusto Santos

 

 

1.Nota Prévia

Qualquer romance é susceptível de possuir as mais diversas interpretações para além daquela que as palavras escritas pelo autor efectivamente querem significar.

Como sabemos, as palavras podem ser unívocas, análogas e até equívocas, podendo dar azo ás mais variadas explicações.

No entanto, esta diversidade de significação possível, não quer dizer que todas as obras pretendam propositadamente esconder o seu sentido real e verdadeiro. Porém, embora nem todos os livros tenham como objectivo principal enganar os seus leitores, outros existem que possuem na sua construção verdadeiros labirintos, onde a sua mensagem real é muitas vezes de difícil interpretação.

Para nós não existe a menor dúvida de que "O Nome da Rosa" é uma obra labiríntica, cujo conteúdo é muitas vezes insondável, como a verdade que guarda e quiçá enganador como a mentira, não chegando, no entanto esta, a efectuar a sua aparição.

O autor chega a afirmar que "até mesmo o leitor mais ingénuo terá pressentido que se encontra perante uma história de labirintos, e não de labirintos espaciais1". Esta frase revela a verdadeira estrutura deste romance: uma história de labirintos, pois ela "ramifica-se em muitas outras histórias, todas elas histórias de outras conjecturas, todas girando em torno da estrutura da conjectura, enquanto tal. Um modelo abstracto de conjectura é o labirinto"2.

Agora se tivermos em conta que o conteúdo de uma "obra labiríntica" serviu de base a um filme, facilmente se concluí o quão é árdua a nossa tarefa de interpretação. Tarefa essa que está direccionada para o percurso palmilhado pela personagem principal deste romance, Guilherme de Baskerville, que a determinada altura da obra, pronuncia as seguintes palavras: "...A vida da ciência é difícil, e é difícil distinguir aí o bem do mal. E frequentemente os sábios dos tempos novos são só anões aos ombros de anões.3"

O desafio para a elaboração deste trabalho, onde, paralelamente teremos de "vestir a pele" de críticos quer no campo literário, quer no campo cinematográfico, tornou-se complicado, não deixando no entanto, de ser aliciante. Não tendo a veleidade de nos considerarmos sábios, mas possuindo a convicção que podemos efectuar um trabalho muito acima da estatura normalmente atingida pelos anões, de seguida se apresentam as pesquisas efectuadas para a caracterização de Guilherme de Baskerville quer, enquanto personagem literária , quer na condição de personagem fílmica.

 

2. A Personagem Guilherme de Baskerville na obra Literária

Antes de efectuarmos qualquer exercício de análise da personagem principal deste romance, julgamos que será oportuno abordar uma série de elementos caracterizadores da mesma, nomeadamente, o espaço e a época em que ela se movimenta e até os princípios que defende. Julgamos que só depois de percorridos todos estes passos, estarão reunidas as condições para uma caracterização desta personagem ao longo de toda a obra.

2.1 A importância do narrador.

A figura do narrador é desempenhada na primeira pessoa por Adso, companheiro de viagem de Guilherme. "... Adso conta aos oitenta anos aquilo que viu com dezoito..."4

Estamos convictos que o que o autor se debateu com alguns dilemas, quanto á melhor forma de relatar os acontecimentos. Este facto está bem patente através da utilização do jogo enunciativo da duplicação da idade do narrador, ou seja, a quem dar o predomínio do relato dos acontecimentos. Ao Adso jovem e sedento do saber, ou ao Adso idoso, maduro e logo mais favorável à reflexão dos acontecimentos ? Umberto Eco dá-nos a resposta, afirmando que são "... os dois, como é óbvio e desejável. O jogo consistia em colocar permanentemente em acção o Adso idoso, que reflecte sobre aquilo que se lembra de ter visto e sentido como Adso jovem.(...) Ao duplicar Adso duplicava uma vez mais toda a série de espaços vazios e de defesas existentes entre mim, enquanto personagem biográfica e as personagens narradas, incluindo o narrador..."5.

O narrador funciona assim como uma máscara do próprio autor da obra."...Adso foi muito importante para mim. Desde o inicio que eu quis contar toda a história (com os seus mistérios, os seus acontecimentos políticos e teológicos e as suas ambiguidades) pela boca de alguém que passasse por entre os acontecimentos, que os registasse a todos com a fidelidade fotográfica de um adolescente, mas que não os compreendesse(...).Fazer compreender tudo através das palavras de alguém que não compreendesse nada"6.

O narrador remete-nos para os acontecimentos da Idade Média, fazendo chegar até nós os episódios importantes desse período da história, utilizando um estilo narrativo baseado numa figura de estilo chamada preterição. "Diz-se que não se quer falar de algo que todos conhecem perfeitamente e, ao dizê-lo, já se está a falar desse assunto. É esse um pouco o modo como Adso se refere a pessoas e factos como sendo bem conhecidos, mas acabando por falar deles. Quanto às pessoas e aos factos que o leitor de Adso, um alemão dos finais do século, não podia conhecer, por se terem passado em Itália no principio desse século, Adso não mostra quaisquer reticências em falar deles, e em tom didascálico, pois era esse o estilo do cronista medieval, desejoso de introduzir noções enciclopédicas sempre que mencionasse qualquer coisa."7

 

2.2 O contexto histórico do romance

Frei Guilherme de Baskerville, franciscano, discípulo de Roger Bacon8 e amigo de Guilherme de Occam9, acompanhado do jovem noviço da ordem de São Bento, Adso de Melk, chega, no ano de 1327, a uma abadia beneditina dos Alpes marítimos italianos, na qualidade de mensageiro da embaixada que o Imperador Luís da Baviera se preparava para enviar com o intuito de conferenciarem, naquele mesmo local, com os representantes do Papa João XXII10, que se encontrava instalado não em Roma11, mas sim em Avinhão.

O autor remete-nos para o confronto entre o Papa João XXII e o Imperador Luís II da Baviera, como paradigma da luta entre Igreja e Estado pelo controlo da sociedade daquela época. Os protagonistas afectas ao Papado e ao Império utilizavam as riquezas, as disputas teológicas, e até os pequenos acontecimentos do dia-a-dia para se confrontarem visando a superintendência e o controlo do poder na sociedade medieval. Nesse combate, utilizava-se igualmente a táctica da infiltração no campo do adversário. Daí este confronto político conduzir a outro, mais profundo, que seria o do controlo do poder dentro da própria Igreja.

E é neste ponto que se concentram as questões mais complexas abordadas pelo O Nome da Rosa. No tempo em que decorre o romance - início do século XIV - registavam-se grandes controvérsias filosóficas.

A questão dos universais12, agitava as universidades. Tanto os realistas platónicos, nominalistas13 seguidores de Guilherme Ockham, e realistas moderados, como os aristotélicos, esgrimiam-se nas cátedras das universidades. O triunfo de uma dessas correntes provocava forçosamente transformações profundas na Igreja, no Estado, na Sociedade, na Cultura e na Ciência. Era o futuro da civilização e da humanidade que estava em jogo.

Nessa época, a luta entre estes dois poderes era alimentado por duas concepções opostas da sociedade. De um lado tínhamos a posição do catolicismo, consubstanciada na bula Unam Sanctam de Bonifácio VIII. De outro, a concepção imperial, laica e estadista, representada pelas teorias de Marsílio de Pádua14. Os partidos dos Guelfos15 e dos Gibelinos16 eram os que, de certa forma, sustentavam esta divisão contribuindo de forma determinante para as desavenças políticas das cidades italianas da época medieval. De acordo com a referida bula, Cristo deu a Pedro duas espadas: a espiritual e a temporal. A primeira para ser usada por Pedro, isto é, pela Igreja, enquanto a segunda devia ser utilizada pelo Estado, para bem da própria Igreja. O poder do Estado é ordenado e subordinado ao poder eclesiástico, uma vez que as actividades naturais do homem são subordinadas a um único fim, que é Deus e à salvação eterna. Da mesma forma que no homem, a alma deve estar unida ao corpo e é superior a ele, pois é ela que o conduz, também, na sociedade, a Igreja e o Estado deviam estar unidos, mas de maneira a que a Igreja estivesse sempre em situação de superioridade. Do mesmo modo que a supremacia da alma sobre o corpo não significa que ela tenha de exercer funções próprias do corpo, também, na sociedade, embora a Igreja desempenhe o papel de liderança, isto não lhe dá o direito de exercer funções temporais próprias do Estado, pois, apesar da alma dar vida ao corpo, não cabe a ela digerir nem respirar, logo, embora a Igreja dê vida à sociedade e ao Estado, não lhe compete organizar a vida material nem a administração dos assuntos terrenos e temporais.

Em consonância com estes princípios, Bonifácio VIII, através da dita bula, definia que todo o género humano devia ser submisso ao Romano Pontífice, condição essencial para a salvação de qualquer simples mortal. Com esta postura, todos, incluindo os soberanos, estavam subordinados ao Papa e à disciplina religiosa.

Do outro lado da barricada estavam as teses defendidas por Marsílio de Pádua. Ele apoiava a luta de Luís da Baviera e a dos Espirituais franciscanos contra o Papa João XXII. As principais teses de Marsílio de Pádua, que ainda hoje se mantêm bastante actuais, podem-se resumir da seguinte forma :

- Supremacia do Estado sobre a Igreja. Ao Estado caberia até mesmo a jurisdição espiritual, podendo condenar hereges e infiéis.

- Ao Papa competia pagar tributo ao Imperador.

- A Igreja deveria ser pobre e sem propriedades (Esta tese era acarinhada pelos Gibelinos e Fraticelli) e todos os seus bens deviam reverter a favor do Estado.

- Todo o poder, seja ele civil ou eclesiástico provém do povo.

- Cristo não deu maior poder a Pedro do que aos outros Apóstolos. Ele não fez de Pedro o seu Vigário, nem o chefe da Igreja, ideia que Lutero e toda a Reforma vão repetir com grande ódio.

- Na Igreja não deve haver hierarquias. O Papa, Bispos, Padres têm todos o mesmo poder, porque Cristo não deu mais poder a uns do que a outros. Todo poder na Igreja é concessão do Imperador, que pode depor e julgar qualquer autoridade eclesiástica, inclusive o Papa.

Pelo que atrás foi escrito, dificilmente haveria maior oposição entre as duas doutrinas. A primeira pretendia colocar Deus e o Céu como objectivo principal; a outra colocava como objectivo final, o homem e o seu reino na terra. Uma queria uma Igreja monárquica, hierárquica e de poder divino; outra queria uma igreja democrática, igualitária, pobre e popular. Uma preconizava a união entre Igreja e Estado; outra defendia a separação entre o poder eclesiástico e o civil e até a subordinação da Igreja ao Estado.

Nesta obra, Frei Guilherme de Baskerville é o porta-voz diplomático das teses de Marsílio de Pádua, na conferência dos embaixadores das cortes imperial e papal. À semelhança de Marsílio, ele defende uma nítida separação entre a Igreja e o Estado: "...a legislação sobre as coisas desta terra e, portanto, sobre as coisas das cidades e dos reinos, nada tem a ver com a guarda e a administração da palavra divina, privilégio inalienável da hierarquia eclesiástica"17. "O domínio temporal e a jurisdição secular nada têm a ver com a Igreja e com a lei de Jesus Cristo, e foram ordenados por Deus fora de qualquer confirmação eclesiástica e até mesmo que surgisse a nossa santa religião."18. Por isso, o Papa não deveria possuir nenhum poder coercivo. "Ele (Cristo) não quis que os apóstolos tivessem mando e domínio, e por isso parecia coisa sábia que os sucessores dos apóstolos devessem ser aliviados de qualquer poder mundano e coactivo"19. Não podendo contestar o texto do Evangelho, no qual Cristo instituiu Pedro como pedra fundamental da Igreja, e, por isso, lhe dá o poder das chaves, Frei Guilherme explica que Cristo "brincava com as palavras" ao dizer "Tu es Petrus20.

Guilherme faz a sua investigação apoiado na tese gibelina. Este facto é notório, quando afirma que "a Igreja de Avinhão fazia injuria à humanidade inteira afirmando que lhe competia aprovar ou suspender aquele que tinha sido eleito imperador dos romanos. O papa não tem sobre o império maiores direitos que sobre os outros reinos"21.

Pelo contrário, o Imperador é que deveria ter poder não só sobre o Papa, como também sobre todos os clérigos: "Se o Pontífice, os bispos e os padres não estivessem submetidos ao poder mundano e coactivo do príncipe, a autoridade do príncipe ver-se-ia invalidada, e invalidar-se-ia com isto uma ordem que, como se tinha demonstrado antes, fora disposta por Deus"22.

Até mesmo o poder de julgar assuntos religiosos acabava por ser negado por Frei Guilherme "A Igreja pode e deve avisar o herege que ele está saindo da comunidade dos fiéis, mas não pode julgá-lo na terra e obrigá-lo contra a sua vontade"23.

Se a Igreja não pode julgar o homem por motivos religiosos, muito menos é permitida tal missão ao Estado, pois o Príncipe não é guardião da verdade divina. No máximo, poderá condenar o herege, caso "prejudique a convivência de todos"24.

Frei Guilherme defende então, a tese segundo a qual o poder vem do povo e atribui essa ideia liberal ao próprio Jesus Cristo, pois "era de suspeitar que ao próprio Senhor não era estranha a ideia de que nas coisas terrenas o povo seja legislador e primeira causa e efectiva da lei"25. E, "pelo povo... bem entender a universalidade dos cidadãos ou (...) a parte melhor dos cidadãos"26. "A maneira como o povo poderia exprimir a sua vontade podia coincidir com uma assembleia geral electiva. Disse que lhe parecia sensato que uma tal assembleia pudesse interpretar, mudar ou suspender a lei"27. O que retirava da lei toda a essência natural, sujeitando-a ao relativismo da opinião da maioria. Era já o Direito positivista a triunfar sobre o Direito natural...

Não há dúvida que as teses de Frei Guilherme mantêm-se, também elas, extremamente actuais. Na luta entre o Estado e a Igreja intervinham também os hereges gnósticos28. Eles rejeitavam a matéria e, portanto repudiavam a Igreja estruturada, hierárquica e rica, logo, condenavam de forma incondicional o mundo criado pelo demiurgo29, recusando-se eles a aceitar uma Igreja como aquela que era concebida e definida por Bonifácio VIII, que tinha como principal objectivo, submeter o mundo, o Estado e a sociedade à vontade de Deus. Os místicos gnósticos defendiam então que a Igreja verdadeira deveria ser puramente espiritual. Estes pontos ligam-nos mais uma vez, às teses gibelinas e laicas de Marsílio de Pádua.

 

2.3 Os sete dias que abalaram a fé

Na Abadia - palco do romance- ocorrem vários crimes seguidos, aparentemente causados por razões passionais. Monges dominados por vícios contrários à natureza aparecem assassinados de forma misteriosa.

Pouco a pouco, acabamos por compreender que os "vícios carnais" dos monges não estão na origem directa dos diversos crimes. Alguém, aproveitando-se da paixão "proibida", tenta obter um misterioso livro guardado secretamente no local mais esconso da biblioteca da Abadia, onde apenas o abade, o bibliotecário e o seu ajudante, tinham acesso. A existência desse livro - o II livro da Poética de Aristóteles, que supostamente trataria do riso - era desconhecido da maioria dos monges. Apenas alguns deles sabiam da sua existência, e mesmo esses, estavam proibidos quer de o ler, quer mesmo de se aproximar dele.

O ritmo a que as mortes vão surgindo, obedece, aparentemente a uma sequência apocalíptica. Em cada um dos crimes, algumas circunstâncias coincidem com as palavras pelas quais as sete trombetas do Apocalipse anunciam as catástrofes do final dos tempos.

O primeiro monge a ser encontrado morto é o iluminador Adelmo de Otranto. O seu corpo aparece despedaçado na base da muralha, no meio do granizo e da neve, como se tivesse sido lançado do alto da torre da biblioteca. Curiosamente, a primeira trombeta do Apocalipse anuncia que o primeiro anjo tocava uma trombeta e formava-se uma chuva de granizo e fogo misturado com sangue que seria atirada sobre a terra. O monge morto era um jovem de aparência um pouco feminina, cujo espírito se deliciava a traçar iluminuras grotescas, onde a ordem natural, era invertida, através de um mundo monstruoso e igualmente invertido. Nas margens dos saltérios, ele pintava estranhas figuras híbridas, verdadeiros monstros. "Tratava-se de um saltério em cujas margens se delineava um mundo invertido em relação àquele a que nos habituaram os nossos sentidos. Como se no limiar de um discurso que por definição é o discurso da verdade se desenrolasse, profundamente ligado àquele por admiráveis alusões in aenigmate, um discurso mentiroso sobre um universo virado de cabeça para baixo"30. O iluminador Adelmo não poupava mesmo o próprio Deus nas suas iluminuras blasfemas. Num Livro de Horas, as iniciais das palavras com que os anjos cantam a Santíssima Trindade -Sanctus, Sanctus, Sanctus- formavam três macacos a beijarem-se. "Três figuras beluínas de cabeças humanas, duas das quais se dobravam, uma para baixo e outra para cima, para se unirem num beijo que não se teria hesitado em definir impudico"31.

Os diálogos seguintes levam-nos a pensar que o suspeito da morte de Adelmo seja o monge Berengário, ele também de aspecto efeminado: " os seus olhos - como os de Adelmo - pareciam os de uma mulher lasciva"32. Berengário era o ajudante do bibliotecário, e, como tal, tinha livre acesso à misteriosa biblioteca da Abadia e aos seus livros proibidos.

Nos dias seguintes, as mortes misteriosas sucedem-se. O monge Venâncio de Salvamec é encontrado morto dentro de um tonel, utilizado para guardar o sangue dos porcos. Ora, a segunda trombeta do Apocalipse diz que a terça parte do mar se converterá em sangue.

De seguida, surge a morte de Berengário de Arundel: ele é descoberto nu, dentro de uma banheira cheia de água, aparentemente morto por afogamento, mas com os dedos e a língua enegrecidos por um veneno forte. E a terceira trombeta do Apocalipse fala das fontes das águas transformadas em absinto.

A quarta trombeta do Apocalipse anunciava que seriam feridas a terça parte do sol, da lua e das estrelas. E a quarta vítima - o monge ervanário Severino - é encontrado com o crânio esfacelado por ter sido agredido com uma esfera armilar, tendo esta, em consequência disso, ficado com os aros de bronze danificados.

No dia seguinte, Malaquias de Hidelsheim, que na qualidade de bibliotecário tinha as chaves da biblioteca, cabendo-lhe a ela a tarefa de fechá-la ao cair da noite, cai morto por envenenamento, em pleno coro da igreja, durante a recitação dos salmos. A quinta trombeta apocalíptica profetizava que cairia uma estrela do céu, que receberia a chave do poço do abismo, este seria aberto e dele sairiam gafanhotos com o poder dos escorpiões.

A sexta vítima acaba por morrer já no decorrer do desenlace do romance, durante o incêndio da biblioteca. É o próprio abade. A sexta trombeta do Apocalipse falava do fogo.

Finalmente, a sétima trombeta. O anjo da última trombeta ordenava ao apóstolo que tomasse o livro e o devorasse. A sétima vítima, o monge cego, Jorge de Burgos que envenenara o livro proibido, para que Frei Guilherme de Baskerville, não se apoderasse dele, come o livro e morre envenenado.

Como podemos verificar, o autor faz com que a série de delitos siga o ritmo das sete trombetas do Apocalipse, para que os leitores incautos e imaginativos - tanto quanto o racional Frei Guilherme - acabem por se enganar. "Fabriquei um esquema falso para interpretar as manobras do culpado, e o culpado adequou-se a ele. E foi precisamente este esquema falso que me pôs na tua pista"33, diz Frei Guilherme. E o autor chega a afirmar que a sua obra é "um romance policial onde se descobre muito pouco, e o detective acaba derrotado."34.

No entanto, os crimes ocorridos não explicam o verdadeiro mistério da Abadia, mas são explicados por ele. Assim como não são os acontecimentos do dia a dia que nos fornecem a solução da História. Pelo contrário, é a História que neles se reflecte e que acaba por os explicar, logo, não é o esquema apocalíptico que permite explicar os acontecimentos criminosos da Abadia, nem seria o Apocalipse (livro profético que revela a História futura da Igreja e do Mundo), que permitiria compreender a própria História.

2.4 A biblioteca como reservatório do saber

Numa biblioteca, há livros que dizem a verdade e outros - tantas vezes numerosos ! - que a adulteram, a combatem, ou até a escondem. Uma biblioteca oferece diversas sugestões enganadoras, enquanto "oculta" (pela dificuldade da pesquisa, pelo menos) a única verdade. Antes de entrarmos em qualquer biblioteca, é preciso sabermos aquilo que realmente nela queremos procurar. A obra agora em análise tem como cenário principal e centro de todo o enredo, a biblioteca de uma grande abadia medieval. Essa biblioteca aparece-nos instalada num edifício em forma de labirinto, onde das salas partiam caminhos enganadores, para além de, no local mais inacessível, alguém colocara o livro da Poética de Aristóteles, que supostamente tratava da comédia e do riso e que era considerado um atentado à fé.

Como se isso não fosse suficiente, o labirinto da biblioteca da Abadia tinha sido construído à imagem do mundo conhecido pelos medievais. Cada sala era designada por uma letra, e as letras de um conjunto de salas formavam o patronímico de um país ou de uma região. Por exemplo, as salas designadas com as letras A, N, G, L, I, reuniam os autores ingleses. Tal como o mundo, a biblioteca era um enleio, cheio de segredos e caminhos falsos, onde era quase impossível encontrar o único caminho verdadeiro, aquele que conduzia ao labirinto final, onde se guardava o referido livro que não deveria ser lido. O autor chega mesmo a firmar que a biblioteca fora feita com os mesmos números com que Deus fizera o mundo. Ela era uma imagem do mundo.

Através de uma construção labiríntica, "a biblioteca defende-se por si, insondável como a verdade que acolhe, enganosa como a mentira que encerra. Labirinto espiritual, é também labirinto terreno. Poderíeis entrar e poderíeis não sair."35 Ela é testemunha da verdade e do erro.

Desse modo, através da imagem da biblioteca, o autor insinua que o labirinto espiritual (o mundo dos livros) e o labirinto terreno (o mundo criado do qual os livros falam), exprimem, no fundo e de forma velada, a mesma verdade e oferecem as mesmas enganadoras mentiras.

Para reforçar a relação da biblioteca com o Mundo, o autor lembra, citando a personagem de Adam de Lille, que, na Idade Média, o próprio mundo era visto como um livro: "Meu bom Adso, disse o mestre (Frei Guilherme de Baskerville), em toda a viagem te tenho ensinado a reconhecer os traços com que o mundo nos fala como um grande livro. Alano das Ilhas dizia que "Omnis mundi creatura quasi liber et pictura nobis est in speculum"36 (Toda criatura do mundo, como se fosse um livro ou pintura, é para nós como um espelho)

Essa era uma ideia defendida pelos pensadores medievais. Talvez seja por essa razão que Adso exclama, ao sair do labirinto da biblioteca; "Como é belo o mundo, e como são feios os labirintos!" Ao que lhe responde Frei Guilherme: "Como seria belo o mundo, se houvesse uma regra para andar nos labirintos"37. Porque, para o racional Frei Guilherme de Baskerville, representante típico da decadência medieval, o mundo já não era um livro legível. E isto acaba por ser repetido pelo seu discípulo Adso, já no final da vida: "Videmus nunc per speculum et in aenigmate e a verdade, antes de face a face, manifesta-se por traços (ai, quão ilegíveis) no errar do mundo(...)"38.

A Idade Média em fase de decadência, e aqui representada por Frei Guilherme, já não era capaz de contemplar, nem de ler o livro do mundo. A Idade Média já não tinha então o "occhio chiaro" da Fé, nem o "afetto puro"da caridade.

Historicamente, aquela biblioteca já existia antes mesmo da construção da própria Abadia, o que acaba por nos transmitir a ideia de que a Igreja Católica aproveitara-se do saber humano acumulado antes de sua fundação e expansão, e teria alterado os fins a que tal saber se destinavam. É este, certamente, o sentido das seguintes palavras de Adso: "(...) Não tinha a experiência dum mestre-pedreiro, mas apercebi-me que ele (o edifício da biblioteca) era muito mais antigo que as construções que o rodeavam, nascido talvez para outros fins, e que o conjunto abacial se dispusera à sua volta em tempos posteriores, mas de modo que a orientação da grande construção se adequasse à da Igreja, ou esta àquela"39.

Enquanto a Antiguidade pretendia crescer no saber, a biblioteca da Abadia "não era como as outras"40. Num mundo considerado em decadência e em marcha acentuada para a morte, a missão da Abadia, isto é, a da Igreja, era a de "se opor a esta corrida para o abismo, conservando, repetindo e defendendo o tesouro de sabedoria que os nossos pais nos confiaram", como afirma o abade a Frei Guilherme41. De notar que o abade não usa o termo investigação. A Igreja, na Idade Média, teria tido apenas a preocupação de conservar, de repetir e defender o que a humanidade tinha aprendido, não dando valor nem permitindo a investigação e o desenvolvimento intelectual.

Esta postura está bem patente no abade Abbone ao afirmar que nem todos os livros da biblioteca podiam ser lidos pelos monges. Do catálogo de livros, o monge podia requisitar qualquer um, mas esse pedido devia ser submetido à aprovação do Abade que autorizaria ou não a sua leitura. Abbone apresenta três razões para tal atitude. Em primeiro lugar, porque "nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por um espírito piedoso, e os monges, enfim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler certos volumes e não outros, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que os colhe, quer por debilidade da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica"42. A segunda razão dada por Abbone explica o motivo porque eram guardados os livros proibidos: "Os monstros existem porque fazem parte dos desígnios divinos, e até nas horríveis façanhas dos monstros se revela a potência do Criador. Assim, por desígnio divino, existem também os livros dos magos, as cabalas dos judeus, as fábulas dos poetas pagãos, as mentiras dos infiéis. Foi firme e santa convicção daqueles que quiseram e sustentaram esta abadia através dos séculos que até nos livros mentirosos pode transparecer, aos olhos do leitor sagaz uma pálida luz da sapiência divina. E por isso também desses a biblioteca é escrínio. Mas precisamente por isso, compreendeis, não pode penetrar nela qualquer um"43.

Finalmente, uma terceira razão, de ordem prática, ainda hoje utilizada por qualquer biblioteca que possua manuscritos preciosos e raros: o valor e a fragilidade desses documentos desaconselham que eles sejam manuseados por qualquer um. Por essas três razões, na biblioteca da Abadia só podiam entrar o abade, o bibliotecário e seu auxiliar.

Entretanto, a biblioteca tinha um segredo desconhecido até pelo próprio abade Abbone, que nunca chegou a entender exactamente quais eram os tesouros e os fins da biblioteca, uma vez que encerrava num túmulo um saber que queria manter secreto a todo o custo. A biblioteca de O Nome da Rosa apresenta-se-nos como símbolo de uma Igreja conservadora, mestra desconfiada e receosa que obstrui o conhecimento de determinadas doutrinas, e que pretende impedir qualquer progresso intelectual e material, com o objectivo de manter o seu domínio sobre o mundo. Talvez por essa razão até o próprio autor a condena: "Esta biblioteca nasceu talvez para salvar os livros que contém, mas agora vive para os sepultar. Por isso tornou-se fonte de impiedade"44.

Daqui podemos concluir que nem o próprio autor tem a certeza de que a Igreja primitiva pretendesse realmente salvar e conservar o saber da Antiguidade. Mais tarde, seguramente, a corrupção da Igreja teria transformado a biblioteca, fonte de saber e de virtude, em fonte de impiedade.

Frei Guilherme de Baskerville condena igualmente a Biblioteca da Igreja, na Idade Média: "E assim, uma biblioteca não é um instrumento para distribuir a verdade, mas para retardar a sua aparição? (pergunta aflito Adso de Melk). Ao que Frei Guilherme responde: "Nem sempre e não necessariamente. Neste caso é "45. Da leitura desta obra, concluiu-se que a Igreja conservava o saber antigo, mas impedia que ele estivesse ao alcance de todos. O saber, tornava-se assim, o apanágio de um grupo que, através do seu controle, dominava a sociedade ignorante. O resultado tornava o saber reservado, e, em situações extremas, secreto, esotérico. "A biblioteca é reserva de saber, mas só pode manter esse saber intacto se impedir que chegue a qualquer um, até aos próprios monges46. A biblioteca feita como um labirinto, "não devia abrir-se ao risco do conhecimento47. "A ciência usada para ocultar em vez de iluminar. Uma mente perversa preside à santa defesa da biblioteca"48. Essa mente perversa que regia a biblioteca-labirinto da Abadia, transforma-a num "lugar onde os segredos permanecem encobertos"49 e não um meio para revelar os segredos da natureza e da História, tendo em vista o bem estar material ou natural da humanidade.

Já vimos que a biblioteca da Abadia - isto é, o saber da Igreja na Idade Média - é dominada pelo perverso e místico Jorge de Burgos, um inimigo do pensamento racional de Aristóteles e São Tomás. A ele se opunham os que desejavam a liberdade do saber e da investigação intelectual, teses típicas do nominalismo medieval e do racionalismo moderno, representados no livro por Frei Guilherme de Baskerville. Essa luta é a chave que explica todos os mistérios da Abadia e da sua biblioteca, desde os primeiros homicídios até o assassinato do abade que adere ao racionalismo, passando pelas lutas entre hereges e a Inquisição, entre o Papa e o Imperador, para culminar no incêndio da biblioteca e da Abadia, isto é, do mundo e da Igreja.

Esta Abadia foi imaginada pelo autor como um símbolo da época medieval e do próprio mundo, assim como da História, ele mesmo o diz: "Esta abadia é um verdadeiro microcosmo, quando tivermos cá os legados do Papa João e de Frei Miguel o quadro estará realmente completo"50, comenta Frei Guilherme, ao aperceber-se que na Abadia se reuniriam representantes de todo o mundo medieval, então em confronto. Por outro lado, todas as instituições e estados sociais da época estavam representadas na planta da Abadia. Em primeiro lugar, convém analisar o modo como é apresentada a igreja da abadia, pois esse edifício simboliza a própria Igreja Católica, na Idade Média. O autor distingue na construção do edifício religioso duas igrejas, feitas em dois diferentes estilos. A primeira, mais antiga, é de construção românica, sóbria, solidamente plantada no chão da montanha, mais larga do que alta, para ter mais estabilidade, e encimada por ameias quadradas.51

Essa igreja antiga construída sobre a pedra (sobre Pedro), quase sem adornos, representa evidentemente a igreja primitiva que os sectários - Espirituais, Fraticelli, com o aplauso de Frei Guilherme, consideravam a verdadeira igreja de Cristo, igreja pobre, sem riquezas materiais, sem estruturas, uma pura igreja espiritual, que depois se corrompera ao ter aceite a doação de Constantino, no século IV.

Essa nova igreja subornada pelos donativos do Estado Romano, rica, cheia de enfeites, materializada nas suas estruturas, fossilizada nos seus dogmas, é simbolizada pelo segundo edifício, construído sobre a igreja românica. O autor descreve-a como "enriquecida", "com um excesso de ornamentos" e com "uma agulha ousadamente apontada para a abóboda celeste"52.

Na entrada da igreja da abadia, Adso e Frei Guilherme detêm-se a contemplar o tímpano esculpido em estilo românico. Nele está representada a visão do trono de Deus de Ezequiel e o juízo final em que Cristo julgará os vivos e os mortos, levando os bons para o céu e condenando os maus ao fogo eterno53. Nesse tímpano estavam representados ainda os sete pecados capitais, utilizando-se os mesmos números cheios de significados místicos que aparecem no Apocalipse, e procurando-se obedecer às leis da estética medieval que mandava harmonizar o uno e o múltiplo, o unívoco e o equívoco.

Enquanto contemplava esse tímpano apocalíptico, o jovem Adso tem um êxtase místico e conclui: "Foi então que compreendi que de outra coisa não falava a visão, senão de quanto estava a acontecer na Abadia (...) e compreendi que tínhamos subido até ali para sermos testemunhas de uma grande e celeste carnificina"54. Não nos podemos esquecer que o Apocalipse narra a História da Igreja neste mundo, e Adso compreende que nele se retractam também os acontecimentos da Abadia, logo, o que se passa na Abadia é uma parábola do que ocorria naquele tempo na História e do que ia ocorrer no futuro, visto que a Abadia representava a Igreja. O próprio autor dá crédito a essa interpretação pela boca de Jorge de Burgos: "(...) tudo quanto acontece entre estas muralhas, mais não reflecte do que as próprias vicissitudes do século em que vivemos. (...) ele é a besta imunda, o Anticristo !(...) que temos diante dos olhos, a cada dia, no grande anfiteatro do mundo.

Pode-se então afirmar, que os acontecimentos narrados nesta obra pretendem ser uma parábola da História do mundo. O poder na Abadia tinha sede na igreja, mas ele se exercia através do controle do saber, isto é, do controle da biblioteca. Assim também a Igreja Católica dominaria o mundo medieval por meio do controle do saber e do estudo.

Simbolicamente, o autor situa o cemitério da Abadia entre a igreja e a biblioteca. Entre a religião e o saber, estava a morte. Existiam dois caminhos que efectuavam a ligação entre a igreja e a biblioteca, entre a religião e o saber. O primeiro, que era visível, passava por entre os túmulos. O segundo, um caminho subterrâneo, secreto, passava por entre os mortos. O enigma da morte permitia entrar no labirinto, fornecia a chave de acesso, mas não a do seu segredo tão bem guardado. E os monges eram dominados pela biblioteca, pelas suas promessas (o céu) e por suas proibições (os mandamentos). (R.216).

Paralelamente, através do medo da morte e do que havia no Além, a Igreja Católica dominava o mundo medieval, ao controlar o estudo e o saber, controlando os segredos e os labirintos da biblioteca do saber humano. Em resumo, O Nome da Rosa representa o mundo na Abadia e na sua biblioteca, e pretende descrever, com a ajuda de parábolas, a História, através dos acontecimentos que nela se desenrolam. Nesse mundo sinuoso, desenvolve-se uma história labiríntica, cujo significado as diversas Filosofias da História procuram esclarecer.

 

2.5 A sagacidade de Guilherme

Já vimos que todas estas lutas teológicas constituem o pano de fundo deste romance. Nesse quadro, enquanto algumas personagens aparecem misteriosamente num semicerrado nevoeiro, como é o caso de Fra Dolcino, outras destacam-se, conduzindo o leitor através de falsos caminhos, pretendendo solucionar o mistério da abadia.

Esta última constatação, torna-se por demais evidente, quando Guilherme entra na igreja da abadia. Na porta, ele contempla o tímpano esculpido, onde está representado o juízo final e, nele, a História da própria Abadia. Nessa altura, o jovem Adso, que o acompanha, entra em êxtase sendo acordado pelo grito característico dos dolcinitas ou Pseudo-Apóstolos: "Penitenziagite" (palavra com que os Dolcinitas anunciavam o fim próximo deste mundo e a chegada dos tempos apocalípticos com a instauração do Reino messiânico).

Quem assim grita é a figura monstruosa, grotesca e rude de Salvatore. Figura monstruosa no rosto e na alma, onde a rudeza da linguagem, pois faz uso de uma mistura de várias línguas daquela época (língua d'Oc, latim antigo, italiano, francês, catalão, português, espanhol), reflecte bem a sua mente desarticulada.

Entrando na igreja da abadia, Frei Guilherme encontra-se com o líder dos Espirituais, Ubertino di Casale, que, tinha fugido da perseguição incetada pelo Papa João XXII contra a sua seita. Ele tinha encontrado refúgio entre os beneditinos, trazendo consigo dois outros frades, também eles envolvidos nas aventuras delituosas dos Dolcinitas, no Piemonte. São eles, os frades Remígio de Voragine, actual provedor da Abadia, e Salvatore. No confronto entre racionais e místicos evocado pelo romance, Ubertino apresenta-se-nos com alguma simpatia, embora também como inimigo confesso das ideias defendidas por Frei Guilherme. Ubertino manifesta-se no romance como contrário à razão, apesar de Ockham ter sido aliado político dos Espirituais na sua luta contra o papa. Relativamente a Occam, diz Ubertino a Frei Guilherme:

- "Não me agrada. Um homem sem fervor, só cabeça, sem coração." - "Mas é uma bela cabeça", contesta Frei Guilherme. - "Pode ser, mas levá-lo-á ao inferno". - "Então voltarei a vê-lo lá em baixo, e discutiremos de lógica"55. Contra o nominalismo racional de Frei Guilherme, Ubertino argumenta: "Certas coisas sentem-se com o coração. Deixa falar o teu coração, interroga os rostos, não escutes as línguas..."56 Ele lamenta que "os mestres de Oxford tenham ensinado Frei Guilherme a idolatrar a razão, "endurecendo as capacidades proféticas do teu coração"57. E aconselha-o: "deita fora os teus livros". Respondendo ironicamente Frei Guilherme: "Ficarei só com o teu"58.

Entretanto, embora de tendências tão opostas, Ubertino tem por Frei Guilherme um particular afecto. Por seu lado, também o frio nominalista inglês manifesta, nas atitudes, uma grande ternura pelo fervoroso místico. Essa atracção mútua entre elementos de tendências opostas repetir-se-á na relação entre o místico cego e assassino Jorge de Burgos e o frio Guilherme de Baskerville, que, durante todo o romance, agem como "dois homens, enfrentando-se numa luta mortal", embora possuam uma admiração mútua, "como se cada um tivesse agido apenas para obter o aplauso do outro" (...) "cada um dos interlocutores dando, por assim dizer, misteriosos encontros ao outro, cada um aspirando secretamente à aprovação do outro, que temia e odiava"59.

Frei Guilherme, ex-inquiridor, estava perfeitamente habilitado a distinguir a ortodoxia da heresia, a verdade da mentira, o bem do mal, a santidade do pecado. Para ilustrar esta ideia, Frei Guilherme socorre-se de uma imagem. "Pensa num rio, denso e majestoso, que corre por milhas e milhas entre robustos duques, e tu sabes onde está o rio, onde o dique, onde a terra firme. A certa altura o rio, de cansaço, porque correu por demasiado tempo e demasiado espaço, porque se aproxima o mar, que anula em si todos os rios, não sabe o que é. Torna-se o seu próprio delta. Permanece talvez um braço maior, mas muitos outros se ramificam, em todas as direcções, e alguns confluem uns nos outros, e já não sabes o que está na origem do que é, e por vezes não sabes o que ainda é rio e o que é já mar...(...).

"O corpo da Igreja, que também foi durante séculos o corpo de toda a sociedade, o povo de Deus, se tornou demasiado rico, e denso, e arrasta consigo as escórias de todos os países que atravessou, e perdeu a sua pureza própria. Os braços do delta são, se quiseres, outras tantas tentativas do rio para correr o mais depressa possível para o mar, ou seja, para o momento da purificação. Mas a minha alegoria era imperfeita, servia apenas para te dizer como os ramos da heresia e dos movimentos de renovação, quando o rio já não se contém, são numerosos e se confundem. Podes ainda acrescentar à minha péssima alegoria a imagem de alguém que tenta à viva força reconstruir os diques do rio, mas não consegue. E alguns braços do delta são enterrados, outros reconduzidos ao rio por canais artificiais, outros ainda deixam-nos correr, porque não se pode conter tudo, e é bom que o rio perca parte da sua água se quer manter-se íntegro no seu curso, se quer ter um curso reconhecível.

"Cada vez compreendo menos", exclama Adso desolado"60.

Pouco antes, Frei Guilherme confessara-se céptico até quanto à sua própria filosofia, através dela, ele afirma que a distinção entre a Igreja Católica e as seitas heréticas que dela se separaram é apenas material. O rio - a Igreja- e os canais dela derivados - as seitas- têm a mesma água e correm todas, ainda que por caminhos diversos, para o mesmo e único fim: o mar - Deus- no qual todas as diferenças são esbatidas.

Para ele, a origem da corrupção da Igreja estava directamente relacionada com o seu enriquecimento, isto é, como diziam os gibelinos e os hereges do fim da Idade Média ou do século XX, a chamada doação de Constantino. A Igreja de Constantino, tornara-se rica, materialista, corrupta, perdendo a sua pureza e seu carácter espiritual. Por isso, muitos que tomavam consciência disso, separavam-se do canal principal para chegarem mais depressa, e mais puros, ao mar. É o que diziam fazer as seitas heréticas. Estes canais - as seitas - cruzam-se e confundem-se, repetindo as ideias uns dos outros, percorrendo os mesmos desfiladeiros e os mesmos pântanos. Outros - os inquisidores - tentam detê-los, reconduzi-los ou enterrá-los, utilizando a força, o braço secular, a tortura e a morte. No entanto, este trabalho seria, feito, em vão, e o êxito apenas parcial.

Como se vê, Frei Guilherme defende na sua alusão:

1- Um ecumenismo alargado, pois, no fundo, todas as religiões seriam iguais;

2- A tese da corrupção da Igreja em dado momento da sua existência;

3- A ideia de que a Igreja deve ser pobre, espiritual, e não dogmática;

4- A ideia de que o trabalho da Inquisição na defesa dos preceitos da Igreja, foi mau e inútil.

O primeiro engano da mentalidade dos inquisidores residia no facto de acreditarem numa verdade objectiva, da qual a Igreja teria o monopólio. Por isso, quando Adso diz que "o Corão, a bíblia dos infiéis, [é] um livro perverso", Frei Guilherme corrige-o dizendo que o Corão é "um livro que contém uma sabedoria diversa da nossa"61.

O segundo erro desta mentalidade estava directamente relacionado com a ideia de que só a Igreja é santa, que os hereges só podem agir mal e que os crimes são os efeitos naturais da heresia. A justificar este ideia, está a guerra feroz e injusta que a Inquisição movia contra os hereges, na inglória tentativa de impedir que o rio se dividisse, ao aproximar-se da foz. Como figura símbolo da mentalidade da inquisição, o autor apresenta Bernardo Gui que, no fundo, seria tão criminoso - ou mais - do que o dolcinita Remígio, por ele julgado impunemente. O famoso autor do Manual do Inquisidor e o herege dolcinita que ele julga, na perspectiva da mentalidade, são gémeos. Inimigos e iguais. "Há pouca diferença entre o ardor dos Serafins e o ardor de Lucifer, porque nascem ambos de uma inflamação extrema da vontade"62.

Aplicando o princípio da dialética de que os contrários são iguais, prova-se aqui qualquer coisa. Até que o fogo é frio.

O dialético Frei Guilherme diz: "Quando falo com Ubertino, tenho a impressão que o inferno seja o paraíso visto do outro lado"63.

3. A Personagem Guilherme de Baskerville no filme

A leitura deste romance , constituiu motivo de enorme satisfação. Ao percorrer as suas páginas, fomos, mentalmente, construindo as cenas que o narrador nos ia transmitindo. Se é verdade que foi a primeira vez que efectuámos o contacto com este romance, o mesmo já não poderemos dizer relativamente ao filme que ele originou. Há alguns anos atrás tinhamos assistido na sala de um cinema, ao desenrolar na tela, dos misteriosos acontecimentos passados na abadia medieval.

E porque essa visão aconteceu há um tempo suficientemente distante para não termos presente as cenas e os planos da obra cinematográfica, revê-la, a propósito da realização deste trabalho, foi sem dúvida tempo bem empregue, pois é sempre um prazer assistir ao desempenho soberbo do actor Sean Connery, no papel da personagem Guilherme de Baskerville.

O palimpsesto do romance "O Nome da Rosa", foi realizado em 1986, pelo françês, Jean- Jacques Annaud. Para além da interpretação do já referido Sean Connery, o filme teve ainda a participação de F. Murray Abraham no papel o terrível inquiridor Bernardo Gui, de Christian Slater no papel de Adso e de Elya Baskin desempenhando o único papel feminino deste filme.

 

3.1 A importância do narrador.

Pese embora a presença do narrador seja substituído, nos filmes, quer através da existências dos vários planos que nos introduzem na trama, quer através da postura e fala das personagens, o que na prática significa que a narração foi substituída pela representação, não posso deixar de assinalar a presença de uma voz off que faz a sua aparição em quatro momentos chave deste filme e que, sendo a voz de Adso, logo o mesmo que desempenha o papel de narrador no romance, personifica, sem objectivamente o ser, a figura de um narrador.

Essa voz aparece mesmo ainda nos pré-genéricos, participa de um código de narração que nada tem de cinematográfico, pois actua de igual modo como naqueles romances em que as personagens começam por ler cartas "deixadas, esquecidas", por alguém.

No entanto, é a referida voz que introduz a acção ao dizer que " tendo chegado ao fim da minha vida de triste pecador, o cabelo já branco, vou deixar neste pergaminho o testemunho dos admiráveis e terríveis acontecimentos que presenciei na minha juventude, no final do ano do Senhor de 1327. Deus me conceda sabedoria e graça para ser o fiel cronista do sucedido numa remota abadia, do soturno norte de Itália. Abadia cujo nome, mesmo agora, se afigura piedoso e prudente omitir".

De referir que existem comportamentos diferentes da narrativa no caso do filme e no do romance. "A diversidade reporta-se, evidentemente, apenas à substância da expressão, dado que a meta para onde correm as duas práticas é idêntica. Reporta-se, em suma, aos diferentes procedimentos "escriturais" que regem a produção de sentido na tela e na página, mantendo-se inalterada a tensão efabuladora comum que faz mover tanto a máquina de filmar como a pena"64.

Deixando de lado o romance e centrando a nossa atenção no filme, as coisas passam-se de forma diferente. Aqui, lidamos já não com as palavras mas com imagens capazes de provocarem uma "impressão de realidade" desconhecida nos signos verbais.

 

3.2 O contexto histórico do filme

Todo o filme respeita o tempo histórico do romance. Ele começa com um grande plano de uma zona montanhosa, onde se destaca, à primeira vista inacessível, a abadia, que se transformará no palco de todos os acontecimentos.

É um facto que ele não se detém em pormenores históricos, como o livro, mas fica bem patente, ao longo de todo o filme, o poder hipócrita que naquela época, a "Santa" Inquisição detinha, pois nas palavras do bibliotecário Malaquias era encarada como a "única entidade capaz de resolver estes assuntos".

A contrastar com uma postura retrógrada, da Igreja de então, temos o desempenho de Guilherme de Baskerville, onde os sentimentos se sobrepõem aos ditames das leis da Igreja.

 

3.3. Os sete dias que abalaram a fé

Através do filme, não sabemos quantos dias é que Guilherme permaneceu na abadia. No romance os 7 dias correspondem a igual número de mortes. No filme, ocorrem 6 mortes, sendo o abade poupado a tão grande "massacre".

Também aqui a intervenção de Guilherme foi providencial, conseguindo através dos seus métodos qual Sherlock Holmes, desmontar a origem dos acontecimentos, atribuídos ao "maligno".

 

3.4. A biblioteca como reservatório do saber.

Se a abadia é o corpo deste enredo, a biblioteca funciona como o seu coração. Instalada numa torre de pose austera, acessível através de um intrincado labirinto de escadas e corredores, ela guarda o verdadeiro tesouro: o conhecimento.

Na Antiguidade pagã, o saber sempre foi privilégio de alguns. No Egipto foi igualmente assim, o mesmo acontecendo na Grécia e no Oriente, onde se cultivava a força e o poder. Todos sabemos que o saber dá poder, logo era perfeitamente natural que aqueles que sabiam, procurassem esconder as suas descobertas, tentando assim controlar o poder.

É no edifício da biblioteca que ocorrem as cenas do desenlace de toda a intriga do filme. O diálogo entre Guilherme e o monge cego Jorge, que representam duas posições face ao saber, é sintomático quanto à importância que a biblioteca e os livros tinham na Idade Média. Enquanto Guilherme defende a filosofia e o espírito modernos, e com eles a completa liberdade em matéria de doutrina, o monge cego, opõe-se à liberdade de pesquisa e de estudo, simbolizando, para o espectador, a posição da Igreja, que se comporta relutante perante a razão e a ciência.

Para Jorge, o riso aniquilava o medo e "sem medo não pode haver fé. Sem o medo do Diabo, não há necessidade de Deus. Que aconteceria se devido a este livro, os eruditos declarassem ser permitido rir de tudo? (...) O mundo regressaria ao caos, por isso selo aqui no túmulo em que me transformo".

 

3.5. A sagacidade de Guilherme

Aquilo que foi descrito para a personagem Guilherme no romance, aplica-se em larga escala para a personagem fílmica.

No entanto, será o abade Abbone que irá introduzir o perfil de Guilherme, ao afirmar: "Eis um homem conhecedor do espírito do Homem e das manhas do Maligno".

Os dotes de sagacidade de Guilherme, estão bem patentes do principio ao fim deste filme. No seu inicio e quando se apercebe que o seu discípulo está aflito para satisfazer uma necessidade fisiológica, afirma " para dominarmos a natureza temos primeiro que obedecer-lhe. Volta à entrada, contorna o edifício à esquerda (...) e encontrarás o local que pretendes atrás do terceiro arco". Adso hesitante obedece, mas sem antes perguntar "Dissestes nunca terdes estado nesta abadia ? O mestre responde " Á chegada vi um monge dirigir-se para lá deveras apressado. Reparei que voltou mais devagar, com ar tranquilizado..."

Enquanto Adso afirma que a abadia não lhe agrada, Guilherme afirma sem rodeios:" Não. Considero-o muito estimulante. Anda. Não nos deixemos levar por rumores irracionais da vinda do Anticristo. Exercitemos antes a nossa mente para deslindarmos este difícil enigma.

Ao longo de todo o filme, prevalece a razão sobre os sentimentos, o estudo "cientifico" das situações sobre a forma mais fácil de resolver as situações, ou seja, sobre a forma como os métodos inquisitoriais resolviam os assuntos do dia a dia da sociedade.

 

4. Comentário final

Se outro mérito não tivesse, a elaboração de deste trabalho, contribuiu de sobremaneira para o aperfeiçoamento dos nossos conhecimentos sobre a história da Idade Média. Este romance alimenta-se da História para, através das personagens nele relatadas, nos dar a conhecer os conflitos e as grandes preocupações daquela época.

Enquanto pela leitura do romance, em certas partes, nos sentimos perdidos, tal é a riqueza de descrições, no filme, essa descrição é organizada, funcionando como uma história de efeitos mais ou menos compensadores, mais objectivos e até mais "rápidos".

No entanto, e à guisa de conclusão, somos de opinião de que as diferenças entre a personagem principal no livro e no filme, não são assim tão significativas. Ambas "transpiram" coerência, rectidão, bom senso e sentido de justiça. São no entanto vividas pelo leitor e pelo telespectador de forma diferente. Enquanto no livro podemos circular livremente, voltar atrás, comparar as situações, no filme, estamos submetido ao encadeamento das imagens, ao fluxo sonoros e ao seu ritmo regulado, pois o filme desenrola-se fora de nós, sem intervenção possível da nossa parte.

 

5. Referências Bibliográficas

ANÁLISE SEMIOLÓGICA DO TEXTO FÍLMICO (1979),Colecção Práticas de Leitura, 1 edição, Lisboa: Arcádia

ECO, Umberto, O Nome da Rosa (1984 ), 5 Edição, Lisboa: Difel.

ECO, Umberto, Porquê "O Nome da Rosa" ?(s.d.), Lisboa: Difel

MOSCARIELLO, Angelo (s.d.) Como ver um filme, Lisboa: Editorial Presença.

NOTAS:

* Trabalho de Investigação realizado para a disciplina "Literatura e cinema", do 4 ano do Curso de Comunicação Social, leccionada pelo Dr. Luís Miguel Cardoso.

1 Porquê "O Nome da Rosa", p.47.

2 Idem, p. 46.

3 O Nome da Rosa, p. 89.

4 Porquê "O Nome da Rosa", p.31.

5 Porquê "O Nome da Rosa", p.31.

6 Porquê "O Nome da Rosa", p.32.

7 Idem, p. 35.

8 Filósofo Inglês, conhecido por Doctor Mirabilis (1220?-1292?), leccionou em Paris sobre Aristóteles, voltando a Oxford por volta de 1247, onde se dedicou a estudos linguísticos e científicos. Como filósofo, seguiu sobretudo Aristóteles, usando Avicene como intérprete. É acima de tudo notável pela insistência sobre a importância da matemática e a ciência experimental.

9 (Inglaterra ,1285-Munique, 1350) Filósofo, Teólogo e doutrinador político, cognominado Venerabilis Inceptor , ingressou na Ordem Franciscana e fez os estudos em Oxford. O título de Inceptor significa que ele cumpriu todas as formalidades em ordem à obtenção do magistério em teologia, que só não chegou a exercer em virtude da oposição do Chanceler, João Lutterell, que em 1323 o denunciou ao Papa João XXII, acusando-o de heresia. Convocado pelo Papa ele chega a Avinhão em 1324 com Miguel de Cesena, Ministro Geral dos Frades Menores, igualmente em litígio com o Papa, por divergência na interpretação da pobreza Franciscana.

10 João XXII foi Papa entre 1316 e 1334.

11 Existiu um Anti-Papa em Roma entre 1328 e 1330, Pedro de Corbara , "nomeado" por Luis II da Baviera e que exerceu o seu pontificado sob a designação de Nicolau V.

12 Adeptos da doutrina que considera a realidade como um todo único, onde os indivíduos não podem ser isolados a não ser por abstracção.

13 Adeptos do Nominalismo, que é uma das doutrinas fundamentais da filosofa antiga, negando a existência aos universais. Pode então definir-se o nominalismo como a teoria filosófica de que só têm existência real os seres individuais, e que os chamados universais não passam de nomes que nós damos em comum a objectos realmente diferentes e incomunicáveis.

14 Médico, Teólogo e Político Italiano (Pádua, 1275 - Munique, 1343). Participou activamente nas lutas políticas que então dilaceraram a Itália. Obteve de João XXII dois benefícios, o que não o impediu de se associar aos Gibelinos nas lutas contra aquele Papa. Refugiou-se na Corte de Luís IV da Baviera, como médico, e sobretudo como conselheiro do monarca sobre política italiana.

15 Partidários, na Alemanha, até 1234, do Duque da Baviera, contra os Hoenstaufen, ou gibelinos. Depois desta época, na Itália, deu-se o nome de guelfos aos partidários do Papa, contra as pretensões dos gibelinos, partidários do Imperador. Os guelfos eram adversários da ingerência de qualquer potência estrangeira na Itália. Consideravam o Papa a única autoridade capaz de se opor ao poder do império germânico e às tentativas de expansão e dominação na península italiana. Eram de parecer que ao Papa competia conferir a coroa imperial; mas não admitiam que o Imperador se servisse, contra a Itália, do poder que o Papa lhe conferia.

16 Nome dado aos partidários do imperador na Alemanha na luta contra os apoiantes (guelfos) do Papa. Esta disputa arrastou-se desde meados do séc. XII a meados do séc. XIV.

17 O Nome da Rosa, p. 349.

18 Idem, p.350.

19 O Nome da Rosa, p.350.

20 Idem, p. 130.

21 Idem, P.351.

22 Idem, p.350.

23 Idem, p.351.

24O Nome da Rosa, p.350.

25 Idem, p. 348.

26 Idem, p.349.

27 Idem, p.349.

28 Partidários do gnosticismo. O gnosticismo é um sistema de filosofia religiosa, cujos sectários pretendiam ter o conhecimento completo da natureza e dos atributos de Deus.

29 Nome que os filósofos platónicos davam a deus criador e "ordenador" do mundo, diferente de Deus.

30 O Nome da Rosa, p.78.

31 Idem, pag.79.

32 Idem, pag.83.

33 O Nome da Rosa, p. 465.

34 Porquê "O Nome da Rosa", p. 45.

35 O Nome da Rosa, p.41.

36 Idem, p.27.

37 O Nome da Rosa, p. 173.

38 Idem, p. 15.

39 O Nome da Rosa, p. 30.

40 Idem, p.38.

41 O Nome da Rosa, p. 40.

42 Idem, p.41.

43 O Nome da Rosa, p.41.

44 O Nome da Rosa, p.282.

45 Idem, p. 390.

46 Idem,p.181.

47 O Nome da Rosa, p.181

48 Idem, p. 171.

49 O Nome da Rosa, p. 93.

50 Idem, p. 193

51 O Nome da Rosa, p. 43.

52 O Nome da Rosa, p. 43.

53 Idem, p.43-48.

54 Idem, p.48.

55 O Nome da Rosa, p. 57.

56 O Nome da Rosa, p. 62.

57 Idem, p. 64.

58 O Nome da Rosa, p. 65.

59 O Nome da Rosa, p. 467.

60 O Nome da Rosa, p. 195.

61 O Nome da Rosa, p. 311.

62 O Nome da Rosa, p. 59.

63 Idem, p. 65.

64 Como ver um filme. p. 51

SUMÁRIO