Retórica, comunicação e teoria do texto:

análise a um Thesaurus do Séc. XVIII - tessitura retórica e discurso apologético

Luís Miguel Oliveira de Barros Cardoso

Escola Superior de Educação de Viseu

O século do rei D. João V, o Magnânimo, inspirou, numa confluência de vectores genesíacos, as mais variadas obras de carácter literário e/ou histórico, como o Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum, relicário dos poetas portugueses que escreveram em Latim.

Não pretendemos fazer uma análise profunda aos textos iniciais do Corpus, mas uma leitura célere afigura-se profícua para uma compreensão dos objectivos dos compiladores oratorianos.

Assim, os prolegómenos do C.I.P.L. encerram uma verdadeira filosofia estrutural da obra que nos faz percorrer os meandros da arquitectura deste «templo da latinidade».

O primeiro volume do Corpus - pois é apenas sobre ele que nos detemos, desde as páginas prefaciais até ao humanista Pedro Sanches, términus ad quem - oferece-nos um frontispício que indica ab initio o «pórtico do templo». As indicações que obtemos referem-se desde logo à tipologia da obra: trata-se de uma compilação, um Thesaurus, à semelhança de muitos que surgiram no mesmo século sob a influência do barroco, como o Postilhão de Apolo e a Fénix Renascida ou sob a influência do mecenato régio e do espírito da Academia Real de História.

 

O nosso século XVIII apresenta-nos mais sumas de carácter historiográfico indiciadas pela obra do Pe. Francisco de Santa Maria (1653-1713), Ano histórico, diário português, notícia abreviada, etc. (três volumes, 1714-1744), nas Notícias cronológicas da Universidade de Coimbra (1729) de Francisco Leitão Ferreira (1667-1735), nas edições de D. José Barbosa, nos estudos do Cardeal Saraiva, na História genealógica da casa real portuguesa de Caetano de Sousa, na História universal e cronológica da Igreja de Portugal de Santa Rosa de Viterbo, entre outras. A alma que perpassa estas obras é o «espírito nacional», a História de Portugal, quer o mote seja a genealogia, as instituições e suas nomenclaturas, a cronologia ou a História, sempre ao serviço de uma mensagem áulica de enaltecimento nacional e do monarca, que as patrocinava, dando seguimento ao desiderato de Mariz ou do próprio Fernão Lopes que recebera a tarefa de poer em carónica as estorias dos reis.

Neste contexto, o Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum, publicado de 1745 a 1748, ilustra o espírito da suma de cariz histórico, que era apanágio de outras obras coevas e o desejo de engrandecer a alma nacional. A singularidade deste «relicário» reside no facto de se tratar de uma obra de feição literária. De facto, este objectivo está claro no próprio título: trata-se de uma compilação «dos ilustres poetas lusitanos que escreveram em latim».

Apesar do vector histórico estar presente, ou não fossem as composições acompanhadas por escorços biográficos e os seus autores membros da Academia Real de História, o Corpus tem a chancela das Musas. As composições dos Illustrium Poetarum Lusitanorum ou não fosse a obra de louvor nacional - incluem textos variados que o próprio índice sugere: epístolas, éclogas, silvas, epigramas, editadas em Bolonha (obras de Henrique Caiado), Salamanca (Manuel da Costa) e Roma (Diogo Mendes de Vasconcelos, Miguel de Cabedo e António de Cabedo) bem como a Petri Sancii epistola Hucusque non edita.

O denominador comum dos textos poéticos é a língua que lhes dá vida: o latim, a língua universal que os Humanistas elegeram, que a nossa tradição quinhentista cultivou, a palavra perene do Lácio que torna rediviva a mundividência clássica, atravessa o barroquismo peninsular (recordemos os poemas de Miguel de Cabedo e António de Cabedo «In puellam cuius labia punxit apis»; Elisabetha Triumphans, de 1732, de Jerónimo Baía; os Elogia, epigrammata et emblemata, de 1641; a Cardiographia, de 1624, de André Baião) e é usada desde os séculos XVI a XVIII na redacção de tratados científicos (os Colóquios dos Simples e Drogas... da Índia de Garcia d' Orta, datados de Goa, 1563, só obtiveram destaque europeu após a versão latina Aromatum et Simplicium aliquot medicamentorum apud Indios nascentium historia, Antuérpia, 1567 de Charles de L' Escluse).

No século XVIII, o estro latino é ameaçado por um Iluminismo que dá preferência à língua nacional apesar do médico, pedagogo e enciclopedista António Ribeiro Sanches, por exemplo, ainda publicar na língua do Lácio algumas memórias e comunicações, e Luís António Verney publicar em Roma a De recuperata sanitate Ioannis V... oratio, em 1745 e De coniugenda Philosophia cum Theologia Oratio, em 1747. Todavia, apesar do latim se circunscrever a âmbitos restritos, a chama da poesia neolatina setecentista é ainda perene, ao contrário da prosa, limitada à hagiografia e ao recato conventual. Língua dos círculos religiosos e de academias, o latim sobrevive à ameaça do nacionalismo romântico...

O Corpus é, assim, um «relicário da latinidade», dedicado a salvaguardar os cultores lusitanos das Camenas.

Os compiladores do Corpus são o Pe. António dos Reis, Congregationis Oratorii S. Philippi Nerii Lisbonensis Presbytero, Regio Historico-Latino Portugalliae, et Regiae Academiae Censore e o Pe. Manuel Monteiro, Eiusdem Congregationis Presbytero, Regiaeque Academiae Socio, que substitui o primeiro devido à sua morte e que enriqueceu o Corpus nonnullisque poetarum uitis.

A obra, dedicada a D. João V, mecenas por excelência da Academia Real de História e da cultura nacional setecentista, foi impressa em Lisboa, na produtiva tipografia «Real Silviana» que deu à luz inúmeras obras da Regia Academia e, em 1745, o primeiro volume, Cum facultate Superiorum.

O Corpus apresenta ab initio uma filosofia organizativa cuja directriz primordial radica num esforço para salvaguardar ad aeternum um conjunto de textos e autores que, se não fosse o diligente desiderato dos compiladores, decerto se perderiam irremediavelmente no nimbo do esquecimento de cofres longínquos e empoeirados, sofreriam as injúrias da negligência humana ou soçobrariam às investidas inexoráveis do fluir dos tempos.

Assim, o principal objectivo que presidiu à organização do Corpus foi o de reunir e editar o maior número possível de textos que os autores conseguiram congregar suprindo elementos estruturais subsequentemente secundários à luz desta ideia básica, como o é uma ordenação alfabética ou cronológica, com a promessa de uma futura compensação mas, sobretudo, com o motivo norteador de proporcionar ao leitor um espólio copioso e magnificente de textos latinos feitos por lusitanos.

Esta preocupação inicial com a construção do Corpus está desde logo patente na Admonitio.

A Advertência do cálamo oratoriano visa um primeiro contacto com o público potencial que pode ser vislumbrado na expressão inicial Quoniam nonnullus forsitan erit.

Os autores têm consciência de que existirá um conjunto virtual de vozes que encontrem neste trabalho o lapso organizativo da não existência de uma ordem e por isso, encetam um diálogo in absentia visando uma antecipação que se traduz na justificação prévia. Quiçá tendo em mente que «o receptor tanto pode ser um leitor coevo como um indeterminado leitor do tempo futuro...»i os compiladores marcam o início da Advertência com a chancela da probabilidade e ao mesmo tempo da indeterminação quando a sua selecção lexical do eixo paradigmático resultou, na ordenação sintagmática de uma conjunção subordinativa causal, um pronome indefinido, um advérbio de dúvida e uma forma verbal no futuro imperfeito.

Admitindo que se venha a procurar uma ordem alfabética ou cronológica, ou autores propõem-se esclarecer qual a razão (ratio) para a sua inexistência, ainda que esta não se encontre tão oculta que não se vislumbre desde o início. De facto, a justificação para a aparente «desordem» do presente repositório é liminarmente simples: se fosse necessário esperar até que obras variadas publicadas há muito tempo, em locais de difícil acesso, estivessem disponíveis para uma publicação completa, com disposição criteriosa, presidida pelas letras ou pelas datas - caso esta empresa fosse coroada com os louros do sucesso - nunca se poderia concluir sem uma pesada remuneração ao deus Cronos.

Por este motivo, furtando-se os autores a apreciações do seu trabalho que poderiam desembocar na hipótese de estarem a ser coagidos e não remetendo o fruto do labor para as calendas gregas e, desta forma, frustrando a sede de um público sequiosoii, compraram todos os autógrafos e cópias disponíveis relegando para uma posterior publicação outros exemplares que, entretanto, as encruzilhadas do destino poderiam trazer à porta dos oratorianos. Mais ainda, emitindo um explícito juízo de valor acerca do Corpus, que reputam de suficiente mérito para não necessitar de adjuvantes enobrecedores, que não a própria existência do mesmo, consideraram que o comércio entre a ordem e a demora seria nitidamente nefasto, porquanto a primeira apenas se poderia atingir com a «penhora» da segunda. Sacrificando a ordem no altar da vontade dos sitibundos de delícias do Lácio e da Ática honraram, no fundo, a vontade divina (leia-se a vontade do augusto monarca que encomendara a obra), o próprio Corpus (monumento auto-suficiente pela excelsa e intrínseca qualidade) e saciaram um auditório com um coro latino favorecido com as benesses das Musas.

A Advertência, em tom de prólogo (como a etimologia grega sugere - pro: «antes»; logos: «discurso»), é um texto pouco extenso, anteposto ao corpo textual, que alerta o leitor para o critério principal da compilação: a recolha e a edição possível do maior número de textos disponíveis sem o complemento de um índice, que só existiria quando a tarefa estivesse completa. Como esse ornamento pouco proveito traria ao Corpus e só seria possível depois da recolha terminada - quando terminada - ficou a promessa para o «ómega» da obra.

Se a Advertência foi tecida vislumbrando no horizonte de leitura do Corpus um leitor, algo indefinido, no segundo texto que nos surge no C.I.P.L., o destinatário é não só definido como nomeado, descrito e elogiado.

Dentro da estética renascentista que nomeia e quase sempre louva o destinatário a quem uma obra pode ser dedicada, a atitude dos oratorianos e de tantos outros autores foi analisada por Vitor Manuel de Aguiar e Silva que traçou um quadro ideológico e de época, que justifica a referida acção e que passamos a citar:

«O destinatário de um texto literário pode ser um destinatário extratextual: o emissor/autor pode endereçar o seu texto a destinatários de diversa natureza - Jesus Cristo, a Virgem Maria, santos, instituições, reis e príncipes, personalidades importantes da vida política, eclesiástica, social, etc. -, cuja existência real é afirmada pela lógica do próprio endereçamento. Embora se trate de um destinatário extratextual, a sua escolha pode, algumas vezes, condicionar e influenciar a escrita do próprio texto, comprometendo por conseguinte tanto o autor empírico como o autor textual: o mecenatismo e os seus avatares, com efeito, funcionam eventualmente como uma espécie de programa oculto, ou subterrâneo, em relação à produção textual. A referência ao nome do destinatário e aos seus títulos honoríficos e cargos aparece, em muitos livros editados até ao século XVIII, logo no frontispício, mas o lugar canónico, digamos assim, da sua aparição é a dedicatória, peça proemial escrita não raro sob a forma de epístola e na qual se mesclam muitas vezes os elogios ao destinatário com informações genealógicas e histórico-biográficas a respeito do mesmo, com considerações e juízos sobre o texto subsequente, etc. O relevo concedido ao destinatário em tão grande número de obras literárias publicadas até ao século XVIII manifesta não só a necessidade que muitos dos seus autores, enquanto autores empíricos, tinham de solicitar dádivas e auxílios materiais - só a partir da segunda metade daquele século os direitos autorais passaram a constituir, de iure e de facto, uma fonte de rendimento pecuniário -, mas também a conveniência de alguns deles em concitarem assim a boa vontade de alguém capaz de lhes garantir protecção contra eventuais ameaças e perigos de tipo censório ou persecutório»iii.

No caso presente, encontramos no texto do Corpus algumas das linhas que o autor da Teoria da Literatura entrecruzou neste extracto, a saber: referência ao nome do destinatário e seus títulos honoríficos, elogios ao destinatário, considerações sobre o texto e referência a apoios materiais.

O C.I.P.L. tem em D. João V o seu destinatário principal. É a este monarca, «poderosíssimo rei dos Lusitanos, do Algarve, de África, do Oceano, da Etiópia, da Pérsia, da Arábia, do Índico, etc.», como diz o seu título honorífico, que os compiladores entregam a sua obra de uma forma peculiar.

A dedicatória a D. João V começa com a sugestão de uma cerimónia da tradição latina: o puluinar é um leito com almofadas e com uma magnífica cobertura para os deuses e pessoas que recebam honras divinas ou um leito para os deuses colocado diante dos seus altares e estátuas no lectisternium.

Conotar a entrega do Corpus com esta cerimónia apresenta dois sentidos: o de elevar o rei português à categoria do divino e o de oferecer o C.I.P.L. como um elemento em tudo dependente do monarca resultando assim num mero objecto cuja finalidade não pode ser mais do que tentar agradar ao seu espírito criador.

Assim, a obra é colocada perante os joelhos de João V como uma almofada (a ideia de «almofada» sugerida pela expressão Ad genua tua pareceu-nos mais fidedigna e mais lógica neste contexto específico do que a ideia de «leito») sendo tal acto regido não pelo livre arbítrio mas pela necessidade absoluta, pois não fora o monarca e o Corpus à semelhança de um ser, não teria sido concebido, crescido e trazido à luz. Esta dádiva da vida é sentida pelo próprio C.I.P.L. que pede para ser agraciado com a consagração ao rei pois este merece a glória da obra para si.

Dentro do espírito laudatório do Renascimento, os autores, pela pena de Manuel Monteiro que assina esta dedicatória, enunciam um conjunto insigne e excelso de predicados do destinatário.

D. João V destacou-se na sua protecção às letras ou, como diz Manuel Monteiro, bonarum litterarum protectori maximo, fautori magnifico tendo conseguido um regresso ao século de ouro. A utilização do conceito de século que «... não significa apenas um segmento cronológico de cem anos, pois significa também longa duração indeterminada ou uma duração relativamente longa, mas determinada, como quando Charles Perrault, em 1687, muitos anos antes da publicação de Le siècle de Louis XIV de Voltaire, comparou Le siècle de Louis au beau siècle d' Auguste. Ou como quando Vasari, muito antes de Perrault, escreveu que os tempos de Lorenzo de Medici foram verdadeiramente un secol d' Oro»iv implica por parte do autor da dedicatória uma directriz no panegírico.

Quando se escreve que o rei lusitano «fez voltar o século de ouro» o autor tem em mente Augusto, o expoente do mecenatismo na Antiguidade Romana, mas quando afirma que o superou, o elogio ultrapassa as barreiras da semelhança e eleva D. João V a uma plêiade superior. Parece certo que a atitude da pena do compilador tem ecos da posição de todos aqueles que apreciam as Musas como mensageiras imorredouras das suas pessoasv e feitos e que Cícero descreveu da seguinte forma:

Neque enim quisquam est tam aversus a Musis, qui non mandari uersibus aeternum suorum laborum facile praeconium patiatur. Themistoclem illum, summum Athenis uirum, dixisse aiunt, cum ex eo quaereretur, quod acroama aut cuius uocem libentissime audirit: «eius, a quo sua uirtus optime praedicaretur».

Tradução de Carlos Alberto Louro Fonseca:

«Ninguém é, na verdade, tão avesso às Musas que se não resigne a confiar à poesia o pregão eterno dos seus feitos. O grande Temístocles, insigne varão de Atenas, ao ser-lhe perguntado qual o concerto ou qual a voz que ouviria de melhor vontade, respondeu, segundo se diz, que era a de quem melhor apregoasse o seu valor»vi.

Se da Antiguidade Clássica vinham ressonâncias do comércio mais ou menos explícito entre os mecenas, governantes e os seus protegidos em que o apoio material ou o patrocínio superior era cambiado pela imortalização através das penas dos seus favoritos, como aconteceu com Augusto e Virgílio, Horácio, Suetónio, Propércio, M. Valério Messala Corvino e Tibulo, Sulpícia, Aemilius Macer, Valgius Rufus, Cornelius Severus; Mecenas e Horácio, Propércio, Virgílio, Varo; Asínio Polião e Virgílio; o Primeiro Africano e Énio; Alexandre Magno e Nearco, Calístenes, Aristobulo, Anaxímenes, Onesícrito, Quérilo; só para citar alguns exemplos. No Renascimento, este intercâmbio foi não só efectivo como estimulado constituindo um binómio indissociável.

O carácter marcadamente laudatório do discurso utilizou uma conjunção do cosmos mitológico clássico com o universo cristão numa simbiose feliz, catapultando o elogiado através de sucessivos panegíricos. Depois de uma referência às Musas do Lácio, o autor da Dedicatória compara a acção do monarca à do próprio Deus quando, ao utilizar a imagem bíblica do corpo humano que ganhou a vida através do sopro divino, qualifica o rei com o dom supremo, condição sem a qual o Corpus não poderia existir.

De acordo com as palavras do oratoriano, a acção de D. João V, nas suas várias vertentes (mandar compilar e editar textos ainda não impressos) foi duplamente digna de glória dado que, insuflando a vida a esta obra, protegeu-a dos homens que descurando-a, a levavam ao abismo da perdição e dos tempos, cuja marcha inexorável levaria as páginas do C.I.P.L. a um processo de desagregação.

A ingente tarefa de compilação já há muito estaria completa se a morte do padre António dos Reis não fosse o principal impedimento à sua realização. Manuel Monteiro afirma que o primeiro oratoriano teria recebido, por empréstimo, o facho da luz real para levar a cabo a sua missão mas o destino agrilhoou este novo Prometeu ao rochedo da morte deixando o P u r j o r o s sem a possibilidade de concluir a sua empresa.

Os textos, que se oferecem são, deste modo, o resultado dos esforços de António dos Reis, que Manuel Monteiro continuará, dado que existiria um conjunto de poemas, como as belas estátuas de Fídias, merecedores de verem a luz sob o nome de D. João V, pois não só tinham a aprovação dos estrangeiros como o louvor dos eruditos, possuindo um só infortúnio: o de não terem vivido sob o céu joanino, propiciador celeste de magníficas obras.

O patrocínio do rei também é pedido para as vidas dos autores, juntamente com a clemência que terá recebido outra obra de Manuel Monteiro (Barbosa Machado refere a obra Ioannes Portugaliae Reges ad uiuum expressi que «Consta de sinco Elogios de obra Lapidaria muito extensos, relatando em cada hum as principais accçoens dos sinco Reys de Portugal, que tiverão o nome de João, com os seus retratos» que pode identificar-se com esta referência).

O oratoriano aponta ainda em tom hiperbólico que inúmeras obras de várias regiões do globo «voam» até D. João V com a aspiração de receberem a superna honra que é o patrocínio real

A Dedicatória termina com um anseio: que o monarca conjugue a protecção das belas letras com a atenção às letras sagradas, qualidade máxima para um Augusto não só redivivo mas superado, na cultura e também na religiãovii.

O elogio do destinatário e sobretudo do mecenas supremo é construído habitualmente com um conjunto de artifícios e temas variados mas com fios condutores semelhantes.

No caso presente, assistimos ao panegírico do monarca sempre com uma imagem omnipresente: a supremacia do rei português sobre o ilustríssimo Augusto.

O elogio de um contemporâneo através da comparação com um antigo é um preceito bastante corrente desde a Antiguidade Clássica e de acordo com a posição de Ernst Robert Curtius em Europäische Literatur und Lateinisches Mittelalterviii comum na Grécia desde Isócrates e em Roma desde os Flávios. Este fenómeno de elevação espiritual, um processo de amplificatio era comum no Renascimento.

Salvador Fernandes, por exemplo, n' A saudação de Vila Real de 1509, elogia o Marquês de Vila Real que possui a justiça de Aristides e Trajano, a clemência de Júlio César, o ânimo de Alexandre, a prudência de Temístocles, a constância de Fábio e a continência de Cipiãoix.

Outra faceta deste texto está relacionada com a própria estrutura discursiva e a organização lógico-semântica. Se recordarmos alguns conceitos da retórica e se lermos a dedicatória a D. João V e mesmo o Lectori desembocamos numa conclusão: a pena oratoriana teve em mente uma certa estrutura retórica, talvez não de uma forma totalmente intencional, dado que a estrutura desta tessitura textual não revela um molde retórico típico, observador de todos os seus cânones, mas não completamente alheado desta realidade pois descortinamos algumas referências básicas.

Desde a Antiguidade Clássica que a retórica apresenta um carácter pragmático enquanto orientação para o sentido do efeito distinguindo-se três tipos de intencionalidade: a intencionalidade intelectual, a emocional moderada e a passionalx que perpassam os textos presentes ora em maior, ora em menor grau. Por outro lado, a defesa constante do C.I.P.L. quase que recorda a situação de discurso mais típica da retórica clássica, de foro jurídico, não podendo nós esquecer que este dado é essencial numa teoria pragmática do texto, pois parece apresentar algumas semelhanças com certas características do género judicial (genus iudiciale), género deliberativo (genus deliberatiuum) e género epidíctico (genus demonstratiuum) o que vem dar consubstanciação à afirmação de Heinrich F. Plett:

«É raro que estes três géneros apareçam na sua forma pura; em geral, trata-se de uma combinação dos domínios temáticos, das funções textuais, das emoções, das referências temporais. Assim, uma acusação pode comportar momentos deliberativos (por exemplo, difamação do acusado)»xi.

O discurso está sempre numa certa tensão dialéctica principalmente devido aos pólos opostos, quer quanto à temática, quer quanto ao seu funcionamento. Quanto à disposição, arte da organização eficaz dos materiais (argumentos)xii foram estabelecidas regras de estruturação para os diversos tipos de discurso. Assim, o discurso clássico (oratio) compreende os seguintes elementos: a exórdio, introdução que visa captar e cativar a atenção do leitor/ouvinte; a narração (narratio), narrativa ou exposição da sucessão dos acontecimentos, expondo-os ao leitor/ouvinte de uma forma clara e recta; a argumentação (argumentatio) que pode ser dividida numa justificação positiva (confirmatio) e numa justificação negativa (refutatio) e pode apresentar traços de objectividade ou afectividade, de acordo com os objectivos do orador; a peroração (peroratio), apresentando habitualmente um resumo conciso (recapitulatio) da demonstração e um apelo às paixões.

O esquema que apresentámos não é consensual nem rígido pois pode sofrer alterações e substituições dos seus elementos.

Se nos for permitida uma leitura da Dedicatória, salvaguardadas as devidas fronteiras entre este texto e os modelos clássicos, que tenha em mente algumas características da retórica clássica, encontramos certas passagens textuais que parecem fazer transparecer pontos de contacto.

Um primeiro ponto de contacto é a salutatio que na Dedicatória compreende as palavras iniciais (Rex Augustissime) logo após Ioanni V. potentissimo lusitanorum regi, Algarbico, Africo, Oceanico, Aethiopico Persico, Arabico, Indico, & c. seguindo-se uma captatio benevolentiae iniciada com uma imagem que já tivemos oportunidade de referir, o Corpus como puluinar, e que é reforçada com uma argumentaçãolaudatória que tem um carácter «obrigatório» (debitum) pois a própria nascença (concipi), o seu desenvolvimento (adolescere) e a sua publicação (in lucem prodire), tudo se deve ao monarca e daí a quase personificação que o oratoriano apresenta em que o próprio livro pede para ser consagrado a D. João V (tibi... iure quodam peculiari postulat adscribi).

O próprio facto desta origem ter permanecido em segredo é interpretado com um pendor finalístico e laudatório: não foi o destino (fato), força eminentemente inexorável e de desígnios pouco ou nada perceptíveis (contágio temático da omnipotente moira grega, por vezes, com uma força superior às próprias vontades dos habitantes do Olimpo) mas um mistério (mysterio), nuvem, inicialmente conotada com o insondável mas que, no fim, pode revelar o que oculta, como acontece no caso presente. O mistério revela-se e os contornos ocultos são, afinal, um elogio. O objectivo é de enaltecer o rei, sucessivamente elogiado e progressivamente enaltecido. O louvor vai subindo de tom: primeiro, é o «protector máximo das Boas Letras» (bonarum litterarum prolectori maximo), depois «fautor magnífico» (fautori magnifico), o intérprete do regresso ao século de ouro (saeculum aureum redire cogenti), facto que o equipara ao excelso Augusto, e, por último, o que superou essa época magnífica e o seu cultor máximo (imo superanti), o que o eleva acima da estrela máxima do universo dos mecenas.

Segue-se um argumento com feições semelhantes à intencionalidade intelectual, um exemplo do probare, quando se apresenta uma espécie de recompensa do investimento do monarca no C.I.P.L. que é o apreço geral e a glória das Musas, à qual nenhum rei ou príncipe se furtaria. Depois de uma sucessão de elogios terrenos e mitológicos, um elogio de feição cristã: a acção do rei é comparada à acção do próprio Deus com a imagem do sopro da vida (Tui Regii oris spiraculo uitam debere hoc primum Corpus Poeticum, haud omnino absimiliter ac primum corpus humanum illam habuit a Diuini oris afflatu), exemplo do ornamento (ornatus) do discurso natural.

Note-se que o oratoriano segue uma linha de raciocínio bem delineada e apoiada numa construção bem urdida que nos faz recordar as palavras de Heinrich F. Plett sobre a retórica: «O que é a retórica? A retórica é uma arte. Arte significa aqui técnica O produto desta técnica é um artefacto, ou seja, algo que não está ligado à natureza e ao seu acaso, mas que é produzido pela racionalidade metódica do homem. Por outras palavras: a retórica é um método que toca uma característica eminente do homem: a palavra. Enquanto método, caracteriza-se por um corpus de regras. Estas regras não se encontram arbitrariamente dispostas, são co-relacionadas segundo os pontos de vista de uma fundamentação lógica. Na sua totalidade, constituem uma construção complexa de que a tessitura é formada de dependências, de analogias e de definições»xiii.

Uma possível equiparação da narratio clássica a este texto resultaria num hipotético início da narração da história do Corpus com uma nova atribuição ao monarca da coroa de louros por ter sido o mentor da ideia (Iussisti augusta pariter, ac mangnifica pietate ductus.

Na narratio/expositio encontramos, dentro de uma intencionalidade intelectual, um objectivo instrutivo (docere) que visa informar o receptor sobre o estado de coisas, neste caso, sobre o estado do património textual do Corpus que se encontrava numa situação extremamente difícil dado que o material não publicado estava «meio enterrado» (mondum editae iacerent semisepultae) e o publicado e disperso estava à beira do abismo da perdição (peneque in interitum uergerent euulgatae, ac dispersae). Depois de exposta a situação, volta-se ao elogio do rei, pois a ele se deve a salvação deste conjunto de textos, facto objectivo, prova lógica, que dá força à mensagem laudatória central, e que recorda o objectivo argumentativo (probare), pois sem a acção do rei, os textos perder-se--iam mercê do depauperamento provocado pela passagem dos tempos (iniuria temporum) e do depauperamento provocado pelos homens (incuria hominum).

A transição para o momento da argumentatio não é muito visível com a excepção da alteração temática. Fala-se da morte do compilador inicial, o Padre António dos Reis como o motivo principal do atraso nos trabalhos de elaboração do C.I.P.L. Este argumento é reforçado pelo elogio do oratoriano, comparado a um novo Prometeu, ornato mitológico com uma alteração: o primitivo Prometeu roubara o fogo aos deuses e animara o corpo inerte do primeiro homem, enquanto que este novo Prometeu recebeu o fogo do deus (D. João V) por empréstimo e por isso, de uma forma pacífica (ueluti nouum Prometheum, face a te mutuata).

Em seguida, o oratoriano continua o elogio do material textual na linha do probare, justificando a acção da recolha das produções poéticas adicionando um novos «argumentos». Os exemplos de valorização tripla constituído pela comparação dos textos às obras do célebre escultor grego Fídias (quasi quaedam Phydiae signa) e pelas palavras de louvor dos estrangeiros (ab exteris probata) e dos aplausos dos eruditos (eruditorum plausibus), é um seguimento do probare (são três as provas materiais, os testemunhos).

Ao valor dos textos só se opõe uma mácula, a dos seus autores não terem nascido e vivido sob o governo de D. João V (novo panegírico) pois mais ilustres seriam os produtos literários inspirados por tal Febo Apolo.

No entanto, o que a priori se vislumbrava como falha é contornado e superado por um outro elogio: o rei dar-lhes-á nova vida, ressuscitá-los-á, nova imagem de feições cristãs (hos rediuiuos facies).

A dedicatória ao novo Augusto termina com um momento que faz a aproximação à peroratio. Esta parte final do texto, inicia-se com Quamobrem, ponto de recapitulação e de resumo. Segue-se o «pedido»: a protecção real ao Corpus, dupla honra devido à insigne entidade que o patrocina, que enriquece o C.I.P.L. (cum tuo patrocinio id Corpus dignari, tibi, Rex Augustissime, placuerit) e que também enriquece as vidas dos autores escritas pelo oratoriano (eodem quoque authorum uitas, quae pro eo absoluendo a me scriptae sunt, Maiestatis Tuae clementia mihi pollicetur) que já anteriormente conhecera quando o rei protegeu uma obra sua, dedicada a D. João V, que versava os retratos dos cinco reis de Portugal com o mesmo nome (illa scilicet clementia, qua maxima quinque Ioannes Portugalliae Reges a me tibi sacratos dignatus es amplecti), protecção essa que, de uma forma geral, era apanágio da imensa auréola mecenática do monarca. Esta virtude é apresentada de uma forma hiperbólica, como já dissemos, quando se afirma que os próprios escritos dos autores «voam» até D. João V (ad te conuolantia) das mais remotas plagas do orbe (a remotioribus Orbis plagis) acrescentando-se, no tom de personificação, que desejam ser consagrados ao augustíssimo monarca (tuoque Augustissimo momini sacrari). A estratégia do «pedido» assenta assim num efeito cumulativo e sucessivo de elogios no intuito de suscitar o apoio e a clemência do rei.

O emissor trabalhou a mensagem, esculpindo-a com o cinzel da argumentação, com o objectivo pré-determinado de mobilizar o receptor.

O oratoriano Manuel Monteiro termina a sua dedicatória com um tom exortativo, função textual ligada ao género deliberativo (genus deliberatiuum) e que encontramos, por exemplo, nos discursos públicos, poesias didácticas e sermões.

Assim, Manuel Monteiro exprime um triplo desejo: que D. João V se torne um monarca douto e clemente, para os autores (te ubique authoribus benignum exhibentem), um mecenas régio, na tradição clássica rediviva e superada, um protector das Boas Letras, da cultura (bonarum litterarum protectorem). Condição suprema para o máximo reconhecimento e valor será de se tornar protector das Boas Letras sem negligenciar as letras sagradas (quod sublius est, facturum bonas, cum non dedignaberis sacratas). No fundo, o oratoriano traça um perfil ideal do monarca imbuído dos típicos valores do humanismo renascentista: mecenatismo régio quanto às Belas Letras, desde sempre inspirado no exemplo italiano, berço e constelação de grandes centros humanísticos (só possível devido ao espírito iluminado de grandes príncipes e grandes famílias que detinham o poder político como os Médicis, em Florença; os Sforza, que tomam o lugar dos Visconti, em Milão; a Casa de Aragão, em Nápoles; a classe dos patrícios da República em Veneza; o Papado em Roma), qualidade sempre concatenada com o espírito cristão principalmente desde que no auge do Renascimento se sana «a velha querela entre Humanismo e Catolicismo, sob a égide do Papa Júlio II, inaugurando-se então a grande era do humanismo romano» como refere Luís de Sousa Rebeloxiv, e virtude apreciada pelo autor da dedicatória, ele próprio um homem de Deus, que tentou construir um panegírico do reixv, ressaltando valores exemplares, atitude de contornos e objectivos didácticos visando não só um receptor explícito, o monarca, mas também difundindo um retrato ideal para a classe política, destinatária indirecta.

Em todo o caso, o oratoriano construiu a sua tessitura discursiva urdindo-a com uma teia retórica, mais ou menos explícita, burilando o texto com um cinzel ora mitológico ora cristão, numa síntese grata ao espírito do humanismo renascentista.

A dedicatória é um texto «historicamente motivado pelas circunstâncias económico-sociais e ideológico-culturais»xvi.

O Corpus mereceu o patrocínio régio e, por isso, é-lhe devedor. A protecção económica régia torna-se essencial para as artes e para os autores, principalmente até ao fim do séc. XVIII. Cervantes, quando dedica o D. Quixote ao Duque de Béjar, recorda-nos as palavras que ecoam de uma forma intemporal:

«en fe del buen acogimiento y honra que hace Vuestra Excelencia a toda suerte de libros, como príncipe tan inclinado a favorecer las buenas artes...».

Depois do Corpus ter sido consagrada a D. João V ueluti... puluinar, surge-nos um outro texto de teor proemial dedicado ao leitor.

Num latim de veia «ciceroniana», ora raiando a virulência das Catilinárias, ora o discurso argumentativo solidamente entretecido das defesas judiciais, a pena oratoriana presente em Lectori tem um cariz singular pela forma como alterna a defesa com o vitupério da palavra.

Numa primeira instância de abordagem, devemos ter em mente que «Os prefácios e os posfácios, as explicações e as advertências proemiais, com frequência moldadas em cativante epistolar, os exórdios e os epílogos, certos títulos de capítulos bem como certas notas de esclarecimento, são outros tantos elementos estruturais e para-estruturais do texto em que circula amiúde esse diálogo in absentia do autor textual com o leitor. O «eu» que vai urdindo a tessitura do texto inscreve muitas vezes nessa mesma tessitura o nome genérico e os pronomes desse interlocutor disjunto e diferido - leitor, tu, vós... -, em actos de fala variada força ilocutiva e, mediatamente, perlocutiva: promessas, pedidos, queixas, conselhos e sugestões de subtil propósito conativo, confidências cúmplices, críticas, remoques e diatribes...»xvii o que, de facto, é convergente com o conteúdo deste texto inicial, no qual o leitor, num diálogo in absentia, recebe do emissor explicações, confidências e é alertado para críticas e queixas. A advertência ao leitor pretende uma captatio beneuolentiae de modo a que o Corpus seja bem acolhido e, mais ainda, que ganhe no leitor um paladino, um seu acérrimo defensor.

O destinatário principal da mensagem em questão identifica-se com «... o leitor pretendido ou o leitor visado («der intendierte Leser», «the intended reader»), isto é, com o leitor que o emissor tem em mente, ao escrever um texto ou um fragmento de texto. A existência do leitor... constitui um dos parâmetros do condicionalimo semiótico global a que o emissor/autor não pode substrair-se no seu processo de produção literária. Todavia, o público leitor a quem o autor endereça o seu texto como uma "estrutura apelativa (Appellstruktur), com o qual dialoga implícita e/ou explicitamente, nunca é, nem pode ser, um auditório intemporal e universal, já que escrever para os leitores de todos os tempos e de todos os lugares, histórica e socialmente desencarnados, representa uma impossibilidade da prática semiótica.

Bem pelo contrário, a estratégia textual de um autor é em geral estabelecida e executada tomando em consideração, de modo idealizado, um peculiar tipo de leitor...»xviii. Neste caso, é o humanissime Lector, o leitor imbuído na mundividência das Belas Letras. Outros escritores declararam o tipo de leitor que seria o destinatário basilar das suas palavras.

Numa primeira instância de recolecção visita o nosso espírito a lembrança do romântico Almeida Garrett que nas suas Viagens na minha terra entabula um diálogo com o leitor, o seu leitor, «leitor benévolo», «leitor amigo e benévolo», «cândido e sincero», «caro leitor meu indulgente».

Gracián endereça El Criticón ao «letor juicioso, no malicioso»; Flaubert reconhece que L' éducation sentimentale foi escrita para Sainte-Beuve, o paradigma do leitor inteligente; Mallarmé coloca de lado a hipótese da sua poesia ter em vista um público de massas; Valéry dá como conselho escrever exclusivamente para o leitor «inteligente e susceptível de ser dominado por qualquer modalidade de manipulação»; Fernando Pessoa/Alberto Caeiro tem em mente um leitor que saiba ler pacientemente e com espírito prontoxix. O leitor do Corpus deverá ter um conjunto de predicados que vamos recolhendo numa leitura de Lectori.

Manuel Monteiro inicia as suas considerações ao humanisime lector, revisitando o eco retórico do docere (informar o receptor) referindo a trágica perda para o C.I.P.L. que foi a morte do padre António dos Reis, que recebera de D. João o encargo da compilação e edição, e que acarretou uma demora na organização da obra.

Manuel Monteiro inicia depois, em tom de narratio/expositio, a história dos trabalhos empreendidos pelo seu confrade oratoriano, não sem antes o elogiar como cultor das Musas. De facto, Manuel Monteiro refere-se às poesias de António dos Reis que o fazem de republica litteraria optime meritus, acrescentando nós o seu Enthusiasmus Poeticus, longa composição «irmã de alma» da Epistola a Inácio de Morais de Pedro Sanches na qual o oratoriano demonstra a sua aptidão como cultor de Apolo.

António dos Reis havia já recolhido e editado inúmeros textos em sete volumes ou, de acordo com a imagem de ressonância virgiliana hunc uberem fundum excoluerat, abeoque bonae frugis copiam acceperat, completando também as vidas de Pedro Sanches, Henrique Caiado, Fr. Francisco de Barcelos e António Figueira Durão. Todavia, a sua tarefa ficou incompleta com a sua morte.

Tal como na antiga Grécia ninguém se atrevia a completar o quadro de Vénus que o pintor Apeles deixara inacabado com a sua morte, Manuel Monteiro sente a pesada herança e com uma humildade própria destas ocasiões, refere que a tarefa é desigual aos seus méritos. Para além deste handicap, o oratoriano encontrava-se repartido por outros cuidados, aliis etiam curis distracto, alusão decerto às suas actividades religiosas bem como à sua prolixa pena.

Como que revisitado o topos do indizível, afirmação de incapacidade (imperitus sermone), um dos «lugares» do exórdio que Curtius e Arbusow (1948) reuniram nas literaturas da Antiguidade e Idade Médiaxx, Manuel Monteiro aceita a herança, retoma o «tópico da modéstia afectada»xxi e aponta as suas metas: opera recognoscerem, authorum uitas conscriberem caeteraque desiderantia supplerem; postea uero, quae supersunt colligam, collecta typis recudam; donec eadem diligentia pensum accurabo, ou seja, «examinar as obras, a escrever as vidas dos autores e a suprir o resto que faltava. Depois, reunirei o que restar, farei imprimir o que foi coligido até ao momento em que cumpra a minha tarefa com a mesma diligência».

Terminada a primeira parte lógica deste texto e, com ela, a narração relativa à génese e evolução do Corpus, o oratoriano Manuel Monteiro procede ao segundo momento: a apresentação do C.I.P.L. ao leitor e sua defesa o que nos faz pensar na dispositio externa que a obra apresenta de acordo com o modelo retórico. Recordando Heinrich Lausberg «A dispositio externa à obra e, por conseguinte, o consilium do orador, que, na elaboração da matéria, visa a persuasão do árbitro da situação, apresenta os fenómenos da parcialidade e do estranhamento»xxii.

Manuel Monteiro constrói um discurso pautado pela «parcialidade» (utilitas causae) procurando influenciar o árbitro, neste caso, o leitor, para que este se vincule à ideia mestra que defende o «orador». O oratoriano entra então na fase de persuadere, para ganhar o leitor para a sua causa e no âmbito do docere pretende influenciá-lo intelectualmente. Utiliza argumentos que mobilizam os afectos ora através do delectare, de modo a suscitar afectos suaves, ora do pathos, ligado ao mouere, que pretende impulsos «violentos» na resposta.

Num primeiro momento, acredita que o Corpus será bem recebido pelos cultores das Belas Letras devido à profusão de prazer e elegância que a obra dimana, o que também nos recorda o epíteto com que brindou o leitor «humaníssimo», resultando assim numa chamada de atenção para benevolência com que o leitor deve receber o C.I.P.L., ou não fosse um «entre os cultores das Letras Humanas». Espera também que o deleite inspire a ira, o que nos faz lembrar as emoções despertas pelo género epidíctico (genus demonstratiuum), pois é esse o prémio dos que desprezaram os ilustres versos latinos dos Vates portugueses, relegando-os para pasto das baratas, inimigas mavórticas dos livros.

Por outro lado, apesar destes poemas serem elegantíssimos, não exclui que sejam mal recebidos pelos detractores, os infiéis das Belas Letras nacionais que, na sua cruzada herética contra a beleza dos textos do Corpus, recebem antecipadamente terríficos epítetos. Numa diatribe violenta, o oratoriano equipara-os às nauseabundas Harpias, chama-lhes «caluniadores gratuitos» dos cantos lusos.

Depois do ataque aos opositores, a defesa do Corpus com vários argumentos: a qualidade intrínseca da obra eleva-a de tal forma que canes lunae, quam mordere nequeunt, minime adlatraturos, aut saltem hirrituros, ou seja, «os cães não hão-de ladrar nem mesmo rosnar a uma lua que não podem morder» e não será necessário afastá-los com o «chicote» e, se as críticas subsistirem, os portugueses devem consolar-se com os exemplos da Antiguidade Clássica pois também Homero, Píndaro, Teócrito, Plauto, Terêncio e Virgílio sofreram vilipêndios.

Quem merece as críticas do oratoriano são todos os que «pensam que a sua honra pode nascer não do mérito mas dos erros alheios» e não os que «não receiam que a sua glória seja apagada pela glória alheia, pelo contrário, têm a suficiente consciência de que ela pode brilhar na sombra dela». Estes últimos receberão com agrado o Corpus.

Terminado este momento epidíctico de louvor e ataque, Manuel Monteiro regressa ao foro da selecção e bosquejo textual apontando três causas para que a presente edição não estivesse mais enriquecida relativamente a outras composições: as incúrias dos antigos, que entregaram a custódia destes templos literários aos seus maiores profanadores, as traças e as baratas, e não os imortalizaram no cedro e no cipreste; o pó e os cofres remotos que encerram e encobrem textos impressos em inúmeros lugares e a impossibilidade de visitar as grande bibliotecas.

Promete publicá-las assim que chegarem à sua posse e edita as que possui dado que esta pequena amostra reflecte todas as qualidades dos poetas lusitanos sicut enim quodlibet speculi fragmentum rei obiectae integram speciem repraesentat.

Terminadas as considerações quanto à recolha textual, o continuador de António dos Reis alerta para uma situação já habitual, a de que as nações se degladiam pela honra de reivindicarem para si o local de nascimento dos varões ilustres. Adverte que este facto não se aplica ao Corpus por dois motivos: todos os autores presentes na compilação são portugueses porque assim o atestam testemunhos recolhidos e porque exterorum penu haud indigemus. Esta problemática tem ecos clássicos principalmente se pensarmos no seu exemplo máximo, Homero. Cícero, no Pro Archia, VIII, 19 já abordara a disputa entre as cidades de Colofon, Quios, Salamina e Esmirna para além de outras cidades (Rodes, Argos, Atenas, Ítaca, Micenas...) quanto ao berço de Homero e Camões faz eco desta disputa n' Os Lusíadas, V, 87:

«Esse que bebeu tanto da água Aónia,

Sobre quem tem contenda peregrina

Entre si Rhodes, Smyrna e Colophonia,

Atenas, Ios, Argos e Salamina;».

O caso de Pedro Sanches vem, no entanto, provar o contrário, pelo menos em parte. O humanista, como sabemos, é castelhano de origem e, quanto a ser português, só pode ser assim considerado se recordarmos que esse estatuto foi adquirido aquando do seu estabelecimento em Portugal.

De facto, os elementos da comitiva da rainha D. Catarina usufruiram de nacionalidade portuguesa e, deste modo, Pedro Sanches é português. Por outro lado, Pedro Sanches, abraçou o nosso país de alma e coração, confessando publicamente que é «lusitano» o que, no contexto humanista recebe outro argumento adjuvante se pensarmos que Alcântara, onde nasceu, faz parte da antiga província da Lusitânia.

O texto proemial dedicado ao leitor termina com um elogio ao monarca que foi o principal promotor da obra e é justo, por isso, que a glória da publicação destes textos reverta em favor de quem os protegeu e publicou «com grandiosos encargos», na linha da dedicatória que antecede este Lectori.

Em conclusão, os textos proemiais do primeiro volume do C.I.P.L. apresentam-nos pontos importantes para a compreensão estrutural da obra, linhas mestras dos compiladores, reflexos da época, critérios adoptados, agradecimentos à munificência régia e uma captatio beneuolentiae do leitor, sempre com laivos de uma argumentação retórica que não nos mereceu uma maior atenção dado que a figura de Pedro Sanches desperta e merece outros cuidados. Todavia, gostaríamos apenas de reiterar um reflexo dos autores e da época na construção destes textos iniciais.

Ao perpassarmos as linhas dedicadas a D. João V e todos os proémios do Corpus que considerámos, antecedentes da «Vida de Pedro Sanches», notámos que a pena oratoriana evidencia uma mentalidade discursiva imbuída pela retórica.

A retórica, «um sistema mais ou menos bem elaborado de formas de pensamento e de linguagem, as quais podem servir à finalidade de quem discursa para obter, em determinada situação, o efeito que pretende»xxiii recebe, no século da publicação do C.I.P.L., um incremento considerável.

Quer através de estudos profanos ou eclesiásticos quer através de textos marcadamente didácticos ou mais vocacionados para a àrea literária e estilística, a retoma retórica vai, à boa maneira humanista, procurar as águas primeiras, as fontes originais. Revisitam-se Cícero e Quintiliano, traduzem-se a Poética de Aristóteles e o Tratado do Sublime de Pseudo-Longino.

Mas já anteriormente o gérmen retórico dava sinal de vida pela mão de Pomey, Juglaris e Manuel Tesauro e ainda pela iniciação de cursos de carácter retórico leccionados por Francisco Leitão Ferreira e Lourenço Botelho Soto-Maior, na Academia dos Anónimos.

Na linha da recuperação dos clássicos, urge destacar Luís António Verney que atenta interligar Cícero e Quintiliano com as correntes retóricas francesas plasmadas na obra de Lamy, que Verney segue. Oratoriano, Verney demarca-se do ensino da retórica tradicional de cariz jesuíta, atacando-o e desenhando no horizonte da pedagogia perspectivas inovadoras. Respirando a atmosfera dos cânones retóricos europeus encontramos também José Nunes Ribeiro Sanches, Vilalobos de Vasconcelos e Martinho de Mendonça.

Se estes vultos defendiam o estandarte pedagógico de novas abordagens à retórica, outros nomes dedicavam-se à publicação de compêndios sobre esta temática como André Nunes da Silva, Caetano Barbosa, Estevão do Couto, Gregórico de Arez da Mota e Leite, Pedro José da Fonseca, Cândido Lusitano e Jerónimo Soares Barbosa (recordem-se os esforços destes últimos em trazer até nós na língua lusa, a Arte Poética de Horácio e os três primeiros livros de Quintiliano).

De especial valor se reveste para nós a obra dos Oratorianos, como os PP. António Pereira, Manuel Tavares e Manuel Monteiro, um dos compiladores do Corpus e autor das linhas que nos encontramos a comentar desta forma singela.

O interesse de Manuel Monteiro pela retórica, para além de reflectir a atmosfera geral do séc. XVIII (recorde-se que esta época viu traduzidos para português o Tratado do Sublime, por Custódio José de Oliveira e a Poética de Aristóteles, por Ricardo Raimundo Nogueira, obras capitais para o estudo da retórica ao lado de uma abordagem didáctica - pois concatenada com a poética, na maioria dos casos, é leccionada em todos os estabelecimentos de ensino de preparação pré-universitária, para além do relevo dos estudos desta temática desenvolvido no Real Colégio dos Nobres e no Real Colégio de Mafra) espelha-se nos estudos que sobre ela levou a cabo, como Acusationes et excusationes Virgilianae, (ms., cit. por Barbosa Machado, Biblioteca Lusitana), e Preceitos praticos para o exercício da eloquencia, (ms., cit. por Barbosa Machado, op. cit.).

Também António dos Reis tem o seu nome associado à retórica nesta época e Barbosa Machado, por exemplo, cita-o relativamente a um trabalho de António Felix Mendes, Exegesis Rhetorica sacra prophana do sermão das Exequias da Condessa de Atalaya recitado pelo Padre António dos Reys da Congregação do Oratorio, em que se expõe o artifício rhetorico do sermão.

Outros elementos da Congregação do Oratório deram à luz estudos sobre a retórica, como Elementos da invençam e locuçam Retorica ou Principios da Eloquencia escritos, e ilustrados com breves notas, impresso na Off. Patriarcal de Francisco Luiz Ameno em 1759 e Elementos de Rhetorica para uso das Escolas da Congregação do Oratório do P. António Pereira e Breves Rhetorices compendium ou o Teatro literario ou origem crítica das letras. No qual se dá huma ideia clara do principio das Sciencias do P. Manuel Tavares.

Face a esta atmosfera, acreditamos que os proémios do Corpus receberam o cálamo retórico dos oratorianos António dos Reis e Manuel Monteiro resultando em tessituras plenas de coordenação lógica e dialéctica argumentativa numa apresentação apologética da arquitectura da obra.

NOTAS:

i Silva, Vitor Manuel de Aguiar e, op. cit., p. 300.

ii Recuperámos nesta ideia as palavras de Cataldo Sículo quando afirmou que a nova cultura humanista «matou a sede a uma turba imensa»:

Huc Heliconiadas nymphas, artesque politas,

Duxi vix cognita temporibus,

Tum nitidos hausit nostro de fonte liquores

Et pepulit siccam maxima turba sitim.

Vd. Cidade, Hernâni, Lições de Cultura e Literatura Portuguesas, 1º volume, Coimbra Editora, Lda., 7ª Edição, Coimbra, 1984, p. 149.

iii Silva, Vitor Manuel de Aguiar e, op. cit., pp. 304-305.

iv Silva, Vitor Manuel de Aguiar e, op. cit., p. 421.

v No âmbito da visão das letras como mensageiras que não deixam morrer os feitos lembramos Cícero, Pro archia poeta, em especial, IX, X e XI.

vi Vd. Fonseca, Carlos Alberto Louro, Sic Itur in Urbem, Instituto de Estudos Clássicos, Coimbra, 1987, 4ª Edição, pp. 336-337.

vii Nesta linha de valorização das obrigações religiosas do rei recordamos uma passagem do Arcitinge de Cataldo:

Sacrorum illi cura prior: nam mane reusit

Templa Dei, quem fidus amat, quem fidus adorat,

Quem Trinum credit (mirum caeleste!) latentem.

Virgineumque colit numen celebrisque frequentat.

«O seu primeiro cuidado são as obrigações religiosas: de manhã

revisita os templos de Deus a quem ama com fidelidade, a quem adora

fielmente, em cuja Trindade latente (milagre celeste!) ele crê. E presta

culto à divindade da Virgem e reza-lhe assiduamente.»

Latim Renascentista, op. cit., pp. 96-97.

viii Citado pelo Senhor Professor Américo da Costa Ramalho na sua obra Para a história do Humanismo em Portugal, op. cit., p. 30.

ix Vd. Latim Renascentista, op. cit., p. 107.

x Varga, A. Kibédi, Teoria da Literatura, Ed. Presença, Lisboa, 1981, p. 99.

xi Idem, ibidem, p. 102.

xii Idem, ibidem, p. 107.

xiii Idem, ibidem, p. 98.

xiv Vd. Rebelo, Luís de Sousa, A tradição clássica na literatura portuguesa, Livros Horizonte, Lisboa, 1982, p. 74.

xv Recordemos um passo de Luís de Sousa Rebelo, op. cit., pp. 134-135, no qual, falando do texto panegírico de Barros, se evidenciam alguns aspectos semelhantes à dedicatória a D. João V: «Nos Panegíricos de D. João III e da Infanta D. Maria procura acentuar apenas as qualidades do monarca e da Infanta e trata de fazer realºçar nesses retratos a vivência de altos valores éticos que imprimem cunho de nobreza àqueles que são capazes de os aceitar como norma de conduta. O panegírico torna-se, assim, a demonstração de uma doutrina, de um código de princípios morais, e o elogio de uma atitude e de um comportamento que deve despertar em cada um de nós o desejo da emulação. Por outro lado o género impõe ainda uma linguagem retórica, adequada à excelência do tema...».

xvi Dicionário de Narratologia, op. cit., p. 85.

xvii Silva, Vitor Manuel de Aguiar e, Teoria da Literatura, op. cit., p. 300.

xviii Idem, ibidem, pp. 308-309.

xix Idem, ibidem, p. 309.

xx Varga, A. Kibédi, Teoria da Literatura, op. cit., pp. 91-92.

xxi Idem, ibidem, p. 106.

xxii Lausberg, A., Elementos de Retórica Literária, op. cit., p. 103.

xxiii Idem, ibidem, p. 75.

 

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