A Chechénia já não vende jornais

Paulo Bruno Alves

 

Durante muito tempo preencheu largas páginas de jornais, horas de noticiários televisivos e radiofónicos. De uma forma ou de outra, os media ocidentais votavam à Chechénia uma primordial importância, sempre que um novo ataque dos beligerantes terroristas chechenos abalava o poder do Kremlin.

Num determinado momento, o time setting mundial - que determina que notícias serão transmitidas - desligou-se das notícias que vinham do Cáusaso do Norte e deixou de se ocupar deste assunto, como se esse mesmo problema já tivesse sido resolvido pelas duas partes envolvidas no conflito. Nada mais errado.

Numa altura em que o general Inverno russo ameaça, diariamente, com as suas gélidas temperaturas, o assunto parece despertar de novo interesse junto dos meios de comunicação mundiais. Decerto, não podemos afirmar que os media ficaram repentinamente sem notícias e que agora têm que ir às prateleiras ver o que ainda sobra. No entanto, esta questão não pode, a nosso ver, ser «ressuscitada» sempre que o frio bate à porta da Rússia. Se a memória não nos atraiçoa, a Chechénia foi, no último inverno, tema de conversa mundial, pois as investidas russas e chechenas (constantes nas outras três estações) alimentavam até o mais alienado órgão de comunicação social.

De facto, o último inverno funcionou como «desculpa» por parte dos media mundiais, para acordar um conflito que não tenderá, num futuro próximo, a adormecer.

No entanto, a opinião pública parece despertar para o problema, apenas quando algumas cadeias mundias de televisão transmitem uns segundos do Cáucaso, exibindo imagens de civis ou militares brutalmente assassinados. Repentinamente, como se de um balde de água fria se tratasse, as pessoas acordam, mais uma vez, para o complicado conflito que dura, efectivamente, «apenas há umas dezenas de meses».

De facto, o problema existe, mas temos consciência que só interessa aos media quando, por exempo, os habitantes de uma aldeia perdida nas montanhas chechenas são encontrados degolados, aparentemente por militares russos. Neste caso, dezenas de jornalistas são rapidamente enviados para Grozny (capital da Chechénia), com o intuito de descobrir o que se passou. Uma vez lá chegados, e depois de testemunharem mais um ataque dos terroristas (apenas mais um este mês) passam a descrever um cenário negro, como que esclarecendo o mundo que «após um longo período de tréguas, os rebeldes lançaram um ardiloso ataque às tropas russas estacionadas na zona do conflito». Nada mais falso. Acontece praticamente todos os dias.

Assim, a realidade é outra, naturalmente. De acordo com François Bonnet, um correspondente do jornal francês "Le Monde", e em conformidade com organizações humanitárias (sempre presentes e aquelas que podem, verdadeiramente, dar uma correcta imagem do que se passa) informou recentemente que "após treze meses de guerra concreta e quando um novo inverno surge no ar, as condições de vida de centenas de milhares de refugiados chechenos não param de se deteriorar".

Enquanto a opinião pública observa aquilo que o time setting lhe impõe, o conflito checheno permanece. Porque a região não interessa a um exíguo conjunto de países, pois não existem petróleo ou diamantes para discutir, a situação no Cáucaso do Norte continua a piorar de dia para dia.

Se, por um lado, o Kremlin não abdica do território, reclamado pelos rebeldes chechenos, estes também não querem deixá-lo à mercê dos soldados russos, sem antes lutar por essa parcela de terreno que tantas vidas tem custado.

Sobre a situação do conflito, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou, recentemente, em Paris que "terá que ser encontrada uma solução política, no respeito pela soberania e pela integridade territorial da Federação Russa". Isto, quando é sabido que mesmo que a guerra continue, a Rússia não fará novas acções militares, com vista a "recuperar" o território.

Numa pequena análise do conflito, comenta-se que perto de 350 mil pessoas (chechenas) fugiram para a vizinha Ingúchia, para além de muitas outras que morrem, constantemente, vítimas de hipotermia e fome em Grozny, cidade que tem sido arrasada pelo exército russo que a deixou sem água potável, gás e electricidade.

Ao mesmo tempo que surgem estas ‘descobertas’, junta-se mais uma, no mínimo terrível. Num relatório publicado em Outubro, pela "Human Rigts Watch" foram denunciadas "torturas, violações e pilhagens cometidas pelas tropas russas". Para além destas acusações, foram também noticiados muitos desaparecimentos de pessoas a quem lhes foram confiscados todos os documentos de identidade, impedindo-as, desse modo, de se deslocarem para as regiões vizinhas.

No entanto, não poderemos afirmar que só os chechenos têm sofrido investidas russas. Do outro lado da barricada surgem relatos de soldados russos mortos pelos rebeldes. François Bonnet refere que "são mortos, todas as semanas (por guerrilheiros chechenos), entre 20 e 40 soldados, e os administradores chechenos nomeados por Moscovo têm sido alvo de numerosos atentados".

De facto, não se pode falar de uma pacificação no território, mas sobretudo num esquecimento propositado por parte dos meios de comunicação social.

Quando convém aos meios de comunicação, abrem noticiários e preenchem capas de jornais com as mais recentes notícias do Cáucaso. Por outro lado, se não interessa os media ficam, milagrosamente, mudos.

Nesse sentido, cabe à opinião pública esperar por um de dois resultados possíveis: que a comunidade internacional resolva acudir ao território em conflito, com vista a terminar com as constantes violações dos Direitos Humanos ou, por outro lado, esperar que uma inclemente tragédia se abata sobre Grozny e um batalhão de jornalistas seja, rapidamente, enviado para o terreno.

Veremos qual será a posição a adoptar.

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