Lauro António em Entrevista

Texto:

Elisabete Gonçalves

4Ί ano do Curso de Comunicação Social

Susana Marinho

2Ί ano Curso de Comunicação Social

Fotos:

Luís Miguel Cardoso

 

 

A Forum Media "deixou-se levar em conversas" pelo cineasta português, Lauro António. Na sua juventude, a imagem cativou o seu coração e Manhã Submersa a sua alma.

 

 

Forum Media – Como surgiu o seu interesse e o seu fascínio pela 7ͺ arte?

Lauro António – Não sei bem. Acho que são coisas que não se podem explicar. Mas, eu tenho algumas explicações, pois o meu pai era pintor, interessava-se muito por cinema, por outros tipos de arte plástica e tudo o que tinha a ver com a imagem. É possível que eu, desde pequeno, esteja habituado à imagem, à visão, ao enquadramento. Mas, por outro lado, há uma apetência minha para ir aos espectáculos, ao teatro, ao cinema, que gosto muito de frequentar. Em contrapartida, tenho uma irmã que se ligou mais à pintura e que não está tão ligada ao cinema, gosta de cinema, mas como espectadora. Portanto, agora que tanto se fala no genoma, acho que há qualquer coisa nos genes que levam as pessoas a irem para um lado ou a irem para outro.

Forum Media – Encontrou algumas dificuldades para que o seu trabalho fosse realizado?

Lauro António – Muitas. Sentem-se sempre e, hoje as dificuldades são um bom estímulo para as pessoas fazerem ou não fazerem certas coisas quando gostam de as fazer. As dificuldades são uma forma de comprovar as vocações, isto é, uma pessoa que não tem uma grande vocação, se calhar as dificuldades fazem-na ficar pelo meio do caminho. E quem gosta mesmo das coisas e sente paixão por elas, as dificuldades talvez sejam uma forma de incentivar, a ir mais além.

Forum Media – Que tipo de dificuldades é que encontrou?

Lauro António – Eu acho que qualquer pessoa, em qualquer carreira tem sempre dificuldades de se afirmar, de criar um lugar, de fazer aquilo que gosta, de tentar de alguma maneira ser autêntico consigo próprio. Um dos aspectos mais importantes em tudo que tenha a ver com a arte é a sinceridade consigo próprio. É sempre difícil uma pessoa ter uma posição que não seja acomodada, que procure ser independente, que procure falar de acordo com aquilo que pensa e não daquilo que seria não só politicamente correcto, como aquilo que faz subir na vida. É sempre um bocado difícil e há sempre dificuldades, ainda por cima num campo como o do cinema. Por exemplo, para se concretizar um filme não basta ter um papel e um lápis, como acontece com um escritor. Mesmo que não se publique o romance, o poema, o ensaio ou outra coisa pode ficar arquivada e mais tarde pode ser recuperado. Um filme ou se faz ou não se faz. É preciso jogar com verbas, com capitais avultados e é difícil.

Forum Media – O facto de ser crítico de cinema influenciou de alguma forma a concepção dos seus filmes?

Lauro António – Influenciou na medida em que, sendo crítico de cinema e gostando muito de cinema, vi muitos filmes. E digamos que eu não tenho um curso de cinema, tenho um curso de história e foi vendo filmes que aprendi a fazer cinema. Portanto, os filmes tiveram essa importância e a actividade de crítico também, porque me obrigou a reflectir sobre os filmes. De resto, eu não acredito que seja necessário ser-se realizador para se ser crítico, pode-se ser crítico de muita coisa que não se fez e que se sente sensibilizado para discutir. Assim como também se pode ser realizador e não ser crítico, gostar de fazer as coisas e não estar interessado em discutir aquilo que os outros fizeram, ou então estar interessado em discutir consigo próprio ou com os amigos e não fazê-lo publicamente, como crítico. No meu caso aconteceu, têm acontecido em paralelo as duas actividades, mas eu acho que de certa forma é enriquecedor, quer para um campo quer para outro.

Forum Media – Num artigo publicado na Forum Media, disse que Vergílio Ferreira era um irredutível adversário do cinema. Porquê?

Lauro António – Não sei se disse isso. Eu acho que o Vergílio Ferreira não era um irredutível adversário do cinema, tanto que aceitou que algumas obras dele passassem para o cinema. Ele tinha alguma dificuldade em expressar-se através do cinema, ou seja, o cinema e a literatura são formas de expressão completamente diferentes. E eu acho que quem se expressa por uma, tem alguma dificuldade em expressar-se por outra. São campos de narrativa completamente diferentes, ou seja, o cinema vive muito da imagem, a literatura vive das palavras, vive de uma montagem de palavras e de signos fonéticos, enquanto que o cinema vive de uma montagem de imagens e de sons. Uma coisa é mais concreta do que a outra. Ambas pedem ao espectador/leitor algo que tenha a ver com a imaginação, com a reformulação do real que é mostrado através do prisma de um escritor ou de um realizador. Mas, é o leitor que tem de o reformular, mas de forma diferente. Esse apelo que faz à imaginação, da parte do leitor é de uma forma, da parte do espectador será de outra. Efectivamente, por vezes, o Vergílio Ferreira utilizou nos seus próprios romances muita estrutura narrativa que foi buscar ao cinema, sobretudo na parte final da sua obra. Porque começou a pensar o cinema e a ver todo o tipo de referências que o cinema poderia trazer para a sua própria obra, para a sua própria criação literária.

Forum Media – Qual a razão da escolha da obra Manhã Submersa para a elaboração do filme?

Lauro António – Eu li a Manhã Submersa quando tinha 14 ou 15 anos e foi um romance que me marcou muito. Precisamente porque é uma obra que pega num caso concreto: um seminarista que está no seminário, que não tem vocação e que se sente preso. Partindo desse contexto, de certa forma individual passa para um caso geral, passa para uma descrição do país, para uma análise de uma sociedade concentracionária, uma sociedade que vive dominada por determinados poderes civis, militares e religiosos e que têm a ver um pouco com Portugal do Estado Novo. É esse clima que o romance define e isso interessou-me bastante naquela altura. Foi seis anos depois da revolução, numa altura em que já se estava a passar o tempo daquela euforia revolucionária, em que se estava a tentar já a pensar outra vez na identidade nacional, o que é que éramos como país, o que é que atravessámos e digamos que um filme daqueles parecia-me importante naquela época.

Forum Media – Como funciona a criatividade do espectador no cinema em comparação com a literatura?

Lauro António – Um leitor quando lê num romance "uma mesa castanha", pode imaginar várias mesas castanhas e imaginar as mesas em função da sua própria experiência pessoal. Quando um romance fala de uma mesa castanha, se calhar o leitor A lembra-se da mesa castanha que tem lá em casa, o leitor B da mesa que viu na escola, o leitor C de uma mesa que viu na sacristia e cada um faz apelo à sua própria experiência. No cinema, vê a mesa. O tipo de imaginação é outro, o tipo de formulação é diferente. O cinema é mais concreto, ou seja, há uma presença física, não há uma substituição por símbolos, vê-se objectivamente o objecto que se refere. Há, no entanto, outro tipo de imaginação que tem a ver com a montagem, com a ligação entre planos, que remete para aquilo que nas figuras de estilo pode ser considerado, por exemplo, uma elipse ou outro tipo de figuras de estilo e que são utilizadas no cinema com alguma frequência, como a distância no tempo, mas a elipse é a base do cinema. Nessas elipses, o espectador é obrigado a preencher esse tempo, que não vê. Faz-se um percurso, esse percurso tem que ser imaginado pelo espectador. A ligação entre os dois planos põe a funcionar esse tipo de imaginação, de jogo criativo por parte do espectador. O espectador de cinema quando vê um tipo que acorda às 8h da manhã e no plano seguinte está na escola cheio de sono, imagina que ele levantou-se, tomou o pequeno-almoço, com leite, café, croquete, croissant. Outro pensa, levantou-se, foi a correr tomar banho, não tomou o pequeno-almoço e chegou à escola. Tudo tem a ver com a experiência do espectador, não há duas leituras idênticas.

Forum Media – Porque é que afirma que Prefácio a Vergílio Ferreira é também como um prefácio para a sua estreia em longa metragem de ficção?

Lauro António – Até aí tinha feito uma curta metragem. A minha segunda curta metragem foi mais documental, mas um tipo de documentarismo que apontava para a ficção. Era uma abordagem de um universo ficcional do Vergílio Ferreira, ou seja, esse filme é uma espécie de prefácio, uma espécie de congregar temas, sessões, situações da obra de Vergílio Ferreira e que foi uma maneira de eu próprio ter uma experiência no campo da ficção, introduzir-me de certa forma no campo da ficção.

Forum Media – Para além de Vergílio Ferreira, houve outros autores que lhe despertaram o interesse para a adaptação cinematográfica das suas obras?

Lauro António – Muitos. Estou muito ligado à literatura, um dos meus interesses maiores é a literatura, gosto de ler, não gosto tanto de escrever, mas gosto muito de ler. O filme seguinte que fiz foi retirado de um texto literário de José Régio, Vestido Cor de Fogo. Numa série para a televisão, em que também estiveram ligados Maria Judite de Carvalho, Carlos Pires, um conto popular português, que era a Bela e a Rosa e, nesta altura lembro-me que há um outro conto que eu adaptei também, foi novamente o Vergílio Ferreira, Mãe Genoveva. E, entretanto, já tive mais outras tentativas de aproximação, por exemplo, ainda comecei a fazer uma adaptação da Costa dos Murmúrios da Lídia Jorge, estou muito interessado num romance da Teolinda Jarsão, que também tem um romance de que eu gosto e que estou a pensar fazer uma adaptação. Tem havido também de certa forma alguns guiões originais, ideias minhas que até agora ainda não foram para a frente, mas de um momento para o outro podem ir.

Forum Media – No mesmo artigo editado na Forum Media afirma que ser-se fiel a uma obra, é sobretudo ser-se fiel à leitura que dessa obra se fez. Em grande parte é ser-se fiel a si próprio. Poderia aprofundar mais um pouco esta ideia?

Lauro António – Todas as pessoas fazem leituras diferentes das obras. Aliás, quer se queira quer não se queira faz-se sempre, porque todas as pessoas ao lerem um romance têm uma leitura, que é uma leitura pessoal. E essa leitura pessoal acaba por ser um reflexo da personalidade de quem leu.

Acho que isso é que é o mais interessante. Depois o que acaba por ser também interessante é que essa leitura que foi feita pode ser tão rica ou não como a do romance, quer dizer, como quem escreveu o romance. Acho que uma adaptação tem de não ser infiel, mas não trair aquilo que se adapta, nem aquele que adapta. Por isso, só se pode escolher para a adaptação alguma coisa que seja adaptável, ou seja, alguma coisa que tenha a ver connosco. Por exemplo, eu ao adaptar a Manhã Submersa fui escolher um romance que me dizia muito, que era um romance que se eu tivesse o talento para o escrever, eu o teria escrito e, portanto, como não o escrevi, digamos que o fiz, fazendo a realização do filme.

Forum Media – Acha que a literariedade dos livros é deturpada ou diminuída quando a sua narrativa é adaptada ao cinema?

Lauro António – Não, e para não ser deturpada tem de se jogar em registos completamente diferentes. Ou seja, se nós formos fazer uma ilustração de um romance, aí estamos a deturpar o romance, porque não estamos a fazer nem romance, nem o cinema. Falando de cinema, as coisas têm de ser encaradas de um ponto de vista novo, diferente, de uma estrutura narrativa completamente diferente. É um pouco o que se faz em tradução, ou seja, há muitas pessoas que tentam traduzir literalmente uma frase. E quem traduz literalmente uma frase não a consegue traduzir, tem de procurar na outra língua a mesma ideia. É preciso recriar a mesma frase, mas que na outra língua tem uma outra construção completamente diferente. O mesmo acontece em literatura, o romance constrói-se de determinada maneira, em cinema, o filme constrói-se de uma outra maneira. Não se deve transpor de um para o outro tentando ilustrar, mas recriando tudo. Aí, sim, é-se fiel tanto ao autor, como ao segundo autor, neste caso o realizador.

Forum Media – Gostaria de contracenar nalgum filme seu? Qual a personagem que escolheria?

Lauro António – Em filmes meus eu já participei, mas com pequenas rábulas, como figurante mas uma das minhas ambições é fazer até um pequeno papel. Talvez um dia.

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