Jornalismo de Guerra

A Missão

 

Pedro Cardoso

2 Ano do Curso de Jornalismo e Ciências da Comunicação

Universidade do Porto

 

Os conflitos armados que ocorrem por todo o mundo são, nos dias de hoje, exaustivamente relatados e analiticamente dissecados pelos meios de comunicação social. Quer ocorram na "civilizada Europa" ou no mais esquecido país do terceiro mundo, inúmeros repórteres são prontamente enviados para os cenários de guerra, numa procura incessante de informação. Inicia-se, assim, uma nova guerra, a guerra dos media, aparentemente sem regras, que conta apenas com o profissionalismo e a capacidade de discernimento dos jornalistas que nela se vêem envolvidos.

 

Em tempo de guerra, a pressão exercida sobre os jornalistas no terreno é constante. A fome de notícias torna-se voraz, obrigando os repórteres a encontrar, com a maior rapidez possível e nos recantos mais inimagináveis, acontecimentos passíveis de suscitarem interesse. Esta necessidade de consumo imediato de factos (ou pseudo-factos) é, muitas vezes, causadora de atropelos à ética jornalística.

A grande velocidade imprimida ao fluxo informativo limita o tempo de ponderação sobre o que é ou não notícia ou até que ponto as reportagens ferem a individualidade e a segurança das pessoas nelas expostas. Fica também relegada para planos secundários a total confirmação da veracidade dos dados recolhidos, que em tempo de guerra não passam muitas vezes de simples boatos. Com estes procedimentos, os meios de comunicação arriscam-se a pôr em perigo a integridade física e moral de várias pessoas, desde as testemunhas até ao próprio repórter. Em casos extremos, devido ao fomento de rumores infundados, estas notícias podem mesmo prejudicar ou agravar a situação no terreno, criando tensões entre as forças beligerantes.

As grandes beneficiárias desta forma de actuação dos media são as audiências, que disparam, atingindo sucessivos recordes. Porém, para além das pessoas envolvidas no conflito, a opinião pública é claramente lesada. Ao ser abalroada por "meias-verdades" que toma como inteiramente credíveis, cria equívocos de grande dimensão que só após o fim da guerra são devidamente esclarecidos ou desvendados.

Contudo, alguns órgãos de informação fogem a esta tendência generalizada. Tome-se como exemplo a BBC (British Broadcasting Corporation), que ao longo da sua existência serviu sempre os interesses do bom e puro jornalismo, mesmo em situações em que o seu país de origem, a Inglaterra, era parte activa na guerra. Essa postura significou várias vezes a confrontação com o governo britânico, como aconteceu no período de intervenção da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no Kosovo.

Num comunicado, membros do governo britânico acusaram a BBC de servir os interesses sérvios, ao que John Simpson, director daquela instituição jornalística, respondeu: "O que os lideres da OTAN dizem, é que nós transformamos em virtudes os defeitos do sistema de Slobodan Milosevic, porque uma sociedade que confia na coerção e silencia o discurso e pensamento independentes é moralmente superior." Esta resposta ambígua e ao mesmo tempo irónica acabou com as críticas do Governo e preservou a integridade da BBC.

Propaganda e controlo dos media, as armas silenciosas

A propaganda é frequentemente utilizada como uma arma essencial pelas diversas facções em conflito. Através de campanhas subtis são promovidas determinadas ideias, com o intuito de controlar e direccionar a opinião pública contra o inimigo. Os media, como divulgadores de informação às grandes massas são assim alvo de controlo rígido e apertado, o que adultera em muitos casos a verdade dos factos.

Desde a Primeira Guerra Mundial, altura em que a propaganda emergiu como meio de manipulação das multidões, até às actuais guerras, a forma como se efectua o controlo da informação e da actividade jornalística foi sendo minuciosamente apurada. A Segunda Guerra Mundial, Vietname e a Guerra das Malvinas tornaram-se meios propícios à aprendizagem de novas técnicas e ao aperfeiçoamento das já existentes.

Com a Guerra do Vietname, por exemplo, tornou-se claro que, ao permitir os media a aceder a todos os cenários de guerra e a relatar o que quisessem e como quisessem, poderiam gerar-se situações muito "perigosas" para as partes envolvidas no conflito. A total exposição desta guerra pela comunicação social mobilizou grande parte da opinião pública norte-americana contra o conflito e contra os seus responsáveis, originando uma grave vaga de instabilidade social nos Estados Unidos. Tornaram-se famosas as grandes manifestações dos anos sessenta contra o envio dos jovens para o Vietname e o clima de indignação generalizada que se instalou entre os norte-americanos, perante a carnificina levada a cabo naquele país asiático.

Mais recentes, as guerras do Golfo e do Kosovo ficaram marcadas pelas inovações tecnológicas, que tornaram mais fáceis as comunicações entre repórteres e estúdios de televisão. No entanto, as imagens e os sons em directo não bastavam para reproduzir fielmente a realidade. Aprendida a lição do Vietname, os militares passaram a limitar e a controlar os movimentos dos jornalistas, barrando-lhes o acesso a determinado tipo de informações e proibindo a sua movimentação em determinados locais. O direito à informação ficou, assim, profundamente comprometido.

Como consequência natural da impossibilidade de confirmação de algumas informações, várias notícias que chegaram a público revelaram-se, após o final destas guerras, puras mentiras cujo objectivo era denegrir a imagem do adversário. Entre elas destaca-se uma descrição pormenorizada de atrocidades cometidas pelos iraquianos a crianças. Soube-se depois que esta notícia fora inventada por companhias de relações públicas americanas, ao serviço do governo do Kuwait.

Segundo um estudo do jornalista e historiador Phillip Knightley, os relatos jornalísticos efectuados durante as guerras em pouco ou nada correspondem aos acontecimentos ocorridos no terreno. Dos casos por ele estudados apenas alguns se revelaram excepção, como as reportagens de James Cameron na Coreia ou as de Herbert Matthews na Guerra Civil Espanhola.

Este estudo conclui ainda que a tendência de distanciamento da notícia relativamente à realidade acentua-se ainda mais quando os jornalistas são oriundos de um dos países activos na guerra, tornando-se evidente a permeabilidade à propaganda instituída por esse país, a acção da censura política e militar, a pressão exercida pelos editores e o peso das raízes culturais.

Repórteres de Guerra

A imagem do repórter de guerra, autêntico herói que em nome da verdade suprema se aventura em lugares inóspitos, isolados pela guerra, trespassados pelos tiros, pela morte e devastação é, assim, quase uma miragem. Como ficou já retratado, as pressões sobre os jornalistas são inúmeras, estando muitas vezes a manutenção do posto de trabalho dependente da aceitação ou não dessas imposições.

No entanto, ainda há aqueles que se recusam a ceder a interesses que prejudiquem a verdade dos factos e que, através do seu trabalho, tentam promover a consciencialização da opinião pública e apelar à intervenção da comunidade internacional.

Numa luta permanente entre o ser Homem e o ser Jornalista, equilíbrio tão difícil de alcançar num cenário de guerra onde a morte e as injustiças se passeiam constantemente perante os seus olhos, transformam-se em autênticos guerrilheiros da verdade. Ao não ceder às emoções, tornam as notícias claras, incisivas e imparciais, cumprindo assim a sua verdadeira missão, de "simples" relatores de factos. Em nome das sua convicções jornalísticas, e assumindo uma postura inteiramente profissional, lutam até às últimas consequências, dando muitas vezes a vida em nome da vontade de dar voz àqueles que sofrem as consequências da guerra.

Segundo dados da International Federation of Journalists (IFJ), o ano passado morreram, em todo o mundo, 62 jornalistas no cumprimento da sua profissão. As investigações sobre corrupção, a expressão de ideias políticas contrárias ao regime vigente e os tiroteios, emboscadas e bombardeamentos em países em guerra foram as causas das suas mortes. Ainda segundo a IFJ, até o dia 7 de Agosto deste ano foram mortos 50 jornalistas na Colômbia, Macedónia, Indonésia, China, entre outros países.

Tendo em conta a falta de protecção dos profissionais da comunicação nos países em guerra, e os perigos que daí advêm, foi declarada a intenção, por parte de organismos como a BBC, CNN, Associated Press e Reuters de adoptar um "Código de Conduta para a Segurança", que crie condições mínimas de trabalho para os seus representantes nos países em conflito.

As vozes que não se calaram

 

Ryszard Kapuscinki: a luz de África

Ryszard Kapuscinski nasceu em 1932 em Pinsk, cidade então pertencente à Polónia e que integra hoje o território da Bielorrússia.

Efectuou grande parte da sua carreira jornalística como correspondente no estrangeiro da Agência Noticiosa Polaca, viajando durante décadas de lugar para lugar, de revolução para revolução, entrando em contacto directo, e em tempo real, com os tumultos que ocorriam um pouco por todo o mundo.

Foi no entanto a África que dedicou grande parte da sua atenção e do seu trabalho como jornalista, e mais tarde como escritor. O primeiro contacto com o "continente negro" deu-se aos 25 anos, em 1957. No livro A Sombra do Sol descreve "a forte luz" que o atingiu, ao pisar o solo africano, como sendo a referência mais forte daquela primeira viagem. Essa luz estaria presente em todo o seu percurso pelos países africanos que, sonhando com a independência, lutavam então contra o colonialismo.

Kapuscinski foi o único jornalista estrangeiro a permanecer em Angola, em 1975, testemunhando o catapultar de acontecimentos que culminaria na independência daquela antiga colónia portuguesa. Esteve também presente em países como a Etiópia, Gana, Ruanda e Uganda, territórios em turbilhão, cujos movimentos nacionalistas foram retratados através da sua visão crítica e simultaneamente imparcial.

A vontade de denunciar e de revelar toda a complexidade africana levou o jornalista polaco a enveredar também pela narrativa, como extensão da sua profissão. Os livros Xá de Shahs, sobre o último Xá do Irão, Império, descrição do últimos dias da União Soviética, e a trilogia de crónicas e reflexões, Lapidarium constituíram importantes marcos na obra de jornalista-escritor. Porém, foi através da "reportagem romanceada" O Imperador, relato sobre a queda do ditador etíope Haile Selassie, que Kapuscinski se tornou definitivamente reconhecido como escritor, numa altura em que a qualidade do seu trabalho jornalístico era já incontestável.

A Sombra do Sol foi o seu último livro. Nele descreve todo o processo vivido pelas nações africanas, desde as lutas independentistas até ao caos actual, onde a corrupção, o genocídio, a SIDA, a pobreza e a fome dizimam todo o continente.

Vários factores tornaram Ryszard Kapuscinski num jornalista de excepção, chegando a ser considerado pelos mais aficcionados "o melhor jornalista do mundo". Ao testemunhar e viver, durante a ocupação da Polónia pelos nazis, as pilhagens, a tortura e o extermínio, adquiriu a sensibilidade para as questões humanas, que lhe permitiu compreender o sofrimento que atingia os povos africanos, provocado por situações idênticas às que tinha vivido no passado, na sua terra natal.

O seu método de trabalho e a forma como encarava os novos desafios profissionais que o levavam para terras desconhecidas e exóticas tornaram-se igualmente fundamentais na afirmação da sua identidade jornalística. Antes de partir para um país estrangeiro, informava-se exaustivamente sobre os costumes e hábitos do seu povo, sobre a sua história e filosofia de vida. Este "trabalho de casa" tornava-se imprescindível na aproximação e comunicação com as populações locais.

Chegado ao terreno, procurava residir nos bairros pobres e degradados, com vista a compreender verdadeiramente a dinâmica e as dificuldades do povo com o qual queria contactar. Sendo um participante da realidade africana, inteirava-se totalmente de toda a sua dimensão, ocupando um lugar privilegiado que lhe permitia fazer uma melhor contextualização e enquadramento dos factos que iam ocorrendo, na história e na mentalidade do país.

Com esta metodologia, Kapuscinski adquiria de forma natural uma percepção eficaz que lhe permitia ver mais além do que se apresentava diante dos seus olhos, e que o fazia adivinhar, através de pequenos acontecimentos, grandes transformações sociais.

No seu deambular constante por África, foi roubado, preso, e esteve algumas vezes à beira da morte. Matou cobras que se aconchegaram na sua cama, contraiu malária e tuberculose, de que se curou numa clínica para as populações pobres, e foi torturado pelo sol tórrido do deserto. A tudo isto resistiu. Readquiriu forças e partiu em frente para uma nova luta que não sendo sua, abraçou sempre, com o olhar distante de jornalista e apaixonado, de homem. "Viajei extensivamente, evitando rotas oficiais, palácios, personalidades importantes e grandiosos políticos. Em vez disso optei por apanhar boleia de camiões que passavam na estrada, vaguear com os nómadas pelo deserto, ser convidado do povo da savana tropical".

Ryszard Kapuscinsky tornou-se, assim, uma das mais importantes referências no jornalismo de guerra, pondo-o ao serviço da defesa da gente simples, a que não habita em "palácios" e que não se cruza com o mundo nas cómodas e aclamadas "rotas oficiais".

Os "quatro escrevedores de factos"

Em Setembro de 1999 vivia-se em Portugal uma intensa onda de consternação e preocupação pela situação em Timor Leste. Lá longe, num recanto do mundo, um povo desejoso de liberdade pagava com a sua vida e com o seu sangue esse desejo, expresso no referendo de 30 de Agosto.

O clima de insegurança e terror instalado em Timor pelas milícias, organizações armadas que pretendiam a permanência do território como parte integrante da Indonésia, traduziu-se, além de acções contra a população civil, em campanhas de intimidação aos jornalistas presentes em Timor, que na altura já só se limitavam à capital, Dili.

O Hotel Mahkota, que servia ao mesmo tempo de alojamento e de "centro jornalístico" dos vários profissionais da comunicação social, foi por várias vezes atacado pelas mílicias, perante a passividade das tropas indonésias, numa tentativa de afastar os jornalistas de Timor. Pretendia-se, com isto, impedir que o mundo tivesse conhecimento do plano de extermínio e deportação do povo timorense, que começou em 4 de Setembro, após a divulgação dos resultados do referendo, de onde sairam derrotados os grupos pró-Jacarta.

Perante este cenário de intimidação, cerca de noventa por cento dos jornalistas abandonaram o território, permanecendo apenas pouco mais de cinquenta, entre os quais, quatro portugueses - Hernâni Carvalho, jornalista da RTP, Jorge Araújo, do "Independente", José Vegar, do "Expresso" e Luciano Alvarez, do "Público".

Após a evacuação do Hotel Mahkota, estes jornalistas refugiaram-se na sede da UNAMET (Missão da ONU para Timor Leste, chefiada por Ian Martin). Durante o tempo que lá permaneceram ouviam, impotentes, o troar das armas de guerra por toda a cidade, viam as enormes colunas de fogo no céu de Dili. Presenciaram a súbita invasão da sede da UNAMET pelos cerca de dois mil timorenses que, fugindo às milícias, avançaram os muros e portões daquele que era o último reduto de segurança em todo Timor, e assistiram até ao nascimento de uma criança, o conhecido Pedro Unamet Rodrigues.

Através de artigos da imprensa escrita, de directos para televisões e rádios, mantiveram Portugal e o mundo informados do que acontecia em Dili. Alertados para a realidade do povo timorense, cidadãos anónimos e várias organizações não governamentais de defesa dos direitos humanos e de ajuda humanitária originaram grandes vagas de solidariedade e de ajuda a Timor. Estas acções foram decisivas na intensificação da pressão exercida sobre a comunidade internacional para que pusesse termo à barbárie.

Constantemente divididos entre a imparcialidade jornalística e o apelo dos sentimentos, como se pode depreender do livro Timor, o insuportável ruído das lágrimas, os quatro jornalistas portugueses viram-se confrontados com a falta de informação, e com a cada vez maior dificuldade na confirmação dos rumores que a eles chegavam.

Nos dias em que permaneceram na UNAMET ocorreram algumas situações que se revelaram contraditórias, respeitantes à acção de vários organismos com responsabilidades na resolução da situação em Timor. Conforme refere Hernâni Carvalho no livro já citado, ao desejo de Koffi Anan de não ser importunado no seu descanso, perante um telefonema urgente de Ian Martin, numa das noites de tiroteio mais intenso, seguiu-se a vez de uma dos membros máximos do Vaticano desejar permanecer, igualmente, no seu leito nocturno, indiferente ao apelo desesperado de uma freira timorense, Esmeralda Araújo, que pedia a todo o custo ajuda para o seu povo.

Entretanto, o cerco à sede da UNAMET intensificava-se, e a possibilidade da missão abandonar Timor por razões de segurança tornou-se uma realidade, apressada pelos ataques armados a camiões daquele organização. Perante o desespero dos timorenses que se viam mais uma vez entregues às mãos das milícias e dos indonésios, a UNAMET preparou-se para sair de Dili, em direcção a Darwin, na Austrália, deixando ficar na cidade apenas uma pequena representação composta por quarenta membros. Antes da partida houve vários jornalistas que pediram autorização para ficarem com esta equipa. No entanto, sob a justificação de terem sido dadas ordens a "nível superior" no sentido de não ser mais facultada protecção aos jornalistas, também eles partiram para a Austrália, confrontados com o risco de ficarem nas ruas de Dili, indefesos perante a mira dos soldados indonésios e das milícias.

Timor ficava assim, sem os olhos, os ouvidos e as bocas que tinham denunciado o seu sofrimento. No entanto, a permanência daquela meia centena de jornalistas nos dias que antecederam a partida, foi fundamental para a mobilização da opinião pública por todo o mundo. Os repetidos e incessantes apelos "aos que podiam fazer alguma coisa" surtiram efeito. Timor é agora uma nação independente, procurando o rumo a dar ao seu presente que se quer futuro.

Vozes críticas acusaram os repórteres portugueses de terem sido "apaixonados e parciais" nos seus trabalhos sobre Timor. Outras, por sua vez, enalteceram essa mesma paixão e parcialidade imprimida, segundo elas, no jornalismo português durante este período. O jornalista Adelino Gomes, ao intervir na sessão de apresentação da obra, Timor, o insuportável ruído das lágrimas, propôs a esses críticos que apresentassem "exemplos de coberturas da história recente em que os jornalistas oriundos de um país que era parte da história tenham feito um esforço maior para ouvirem e darem voz à outra parte". Hernâni Carvalho, um desses jornalistas, refere nesse livro: "Apenas falamos de factos! Trata-se, no nosso caso, apenas de quatro escrevedores de factos...". Cabe a cada um de nós fazer o juízo final.

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