LENI RIEFENSTAHL, o génio maldito

 

 

Conceição Pereira

Assistente Administrativa Principal do Instituto Superior Politécnico de Viseu

 

Quem luta com monstros, deve ter cuidado para não se transformar num monstro.

Nietzsche, Para além do bem e do mal

 

Não me é fácil virar as costas ao presente e mergulhar no passado, tentando compreender a minha vida em toda a sua estranheza. Sinto-me como se tivesse vivido muitas vidas, experimentado os altos e baixos de cada uma delas, como as vagas do oceano, sem nunca ter descanso. Através dos anos, procurei sempre o invulgar, o maravilhoso, os mistérios no coração da vida.

Leni Riefenstahl, Memoiren

Estas palavras podem ler-se na autobiografia de um dos maiores génios do mundo das artes, particularmente da sétima, vulgo cinema. Bailarina, actriz, produtora, montadora e realizadora, foi e ainda é, goste-se ou não da sua obra, uma das maiores perfeccionistas e inovadoras de todos os tempos. Lamentável e ironicamente, o talento marcou-lhe o destino. Segundo Ray Müller, autor do documentário Die Macht der Bilder Leni Riefenstahl – The Wonderful, Horrible Life of Leni Riefensthal na versão anglófona - que estreou nos Estados Unidos no Festival de Cinema de Nova York de 1993, o seu talento foi a sua tragédia! Passou à história como Leni Riefenstahl, mais conhecida como a realizadora do Hitler, estigma que nunca mais a largou, qual ferrete cravado a fogo nas carnes.

Primogénita de Alfred Theodor Paul Riefenstahl e Bertha Ida Sherlach, Helene Amalia Bertha Riefenstahl de seu nome verdadeiro, veio ao mundo no dealbar do século XX, a 22 de Agosto de 1902, em Berlim, no apartamento que a família possuía na Prinz-Eugen-Strab e. Por lá se manteve até aos 21 anos e, contra a vontade do pai, estudou dança. Desde cedo, cidades com Berlim, Munique e Praga conheceram os seus dotes de bailarina. Até ao dia em que, por um acaso do destino, a sua vida mudou. Radicalmente. Quando se aprestava a apanhar o metro na estação berlinense de Nollendorfplatz U-Bah, deparou com um monumental cartaz que publicitava um filme do realizador alemão Arnold Fanck.

Dezoito meses volvidos, em 1926, já debutava num filme de Fanck, de título genérico Der Heilige Berg – Ein Heldenlied Aus RAGENDER HÖHENWELT (A MONTANHA SAGRADA – UMA CANÇÃO HERÓICA DE UM ELEVADO MUNDO DAS ALTURAS). História dramática de um triângulo amoroso, passado nos Alpes. Vive a personagem da bailarina Diotima. Mudo e a preto e branco, tem a duração de 118 minutos. Foi apenas o começo de uma profícua e magistral - mas também maldita - carreira cinematográfica. Voltou a protagonizar mais cinco películas deste realizador, especialista em filmes de montanha, género bastante popular na época e onde colossais avalanches e monumentais penhascos compõem sempre, ou quase sempre, o cenário.

DER GROSSE SPRUNG – EINE UNWAHRSCHEINLICHE, ABER LUSTIGE GESSCHICHTE (O GRANDE SALTO – UMA HISTÓRIA IMPROVÁVEL, MAS DIVERTIDA), em 1927. Conta a história de Gita, uma pastora de cabras, que vive com a família e a sua cabra predilecta, Pippa, numa pequena aldeia dos Alpes.

Para fazer este filme, aprendeu a fazer montanhismo e a escalar descalça. Mudo, a preto e branco, tem a duração de 112 minutos.

DIE WEISSE HÖLLE VOM PIZ PALÜ (O INFERNO BRANCO DE PITZ PALU) ,em 1929. Retrata a vida de um homem atormentado pela morte da mulher, após uma queda em Pitz Palu. A sua personagem tem o nome de Maria Majoni.

Filma durante semanas, com temperaturas na ordem dos 28 graus negativos. Mudo, a preto e branco, tem a duração de 127 minutos.

STRÜME ÜBER DEM MONTBANC (TEMPESTADO SOBRE O MONTE BRANCO), em 1930. História de amor intensamente vivida nas montanhas. Encarna a astrónoma Hella Armstrong. Mudo, a preto e branco, tem a duração de 110 minutos.

DER WEISSE RAUSCH – NEUE WUNDER DES SCHNEESCHUHS (A CHAMA BRANCA – NOVOS MILAGRES DO SAPATO DE NEVE), em 1931. Comédia burlesca, passada nos Alpes. Veste a pele de Leni, uma jovem berlinense que aprende a esquiar nas férias de Inverno. Mudo, a preto e branco, tem a duração de 94 minutos.

SOS EISBERG (SOS ICEBERG), em 1933. Conta a história dramática da tentativa de salvamento de um grupo de participantes numa expedição. Interpreta a piloto Ellen Lawrence, que procura o marido desaparecido na Gronelândia. Filme já sonoro, a preto e branco, tem a duração de 103 minutos.

Pelo meio, em 1928, ainda protagoniza a baronesa Mary Vetsera, num filme de Rolf Raffé – DAS SCHICKSAL DERER VON HABSBURG – DIE TRAGÖDIE EINES KAISERRREICHES (O DESTINO DOS HABSBURGOS – A TRAGÉDIA DE UM IMPÉRIO). Este filme, mudo e a preto e branco, dá-nos a conhecer uma trama que gira à volta dos dois herdeiros da Imperatriz Sissi e do imperador Francisco José I da Áustria.

Em 1932, escreve, dirige, produz, monta e protagoniza o seu próprio filme de montanha, ainda mudo - Das Blaue Licht – EINE BERGLEGENDE AUS DEN DOLOMITEN (A LUZ AZUL – UMA LENDA DA MONTANHA DAS DOLOMITAS). É uma arrebatadora história de montanhismo, amor e misticismo.

Nela encarna uma misteriosa mulher, Junta, que vive sozinha na montanha . No entendimento dos pouco letrados habitantes do lugarejo, não passa de uma feiticeira que exerce sobre os homens uma fatal atracção.

Escala sem cordas e a película utilizada, especialmente concebida para estas filmagens, faz com que cenas gravadas em pleno dia pareçam, na realidade, ter sido filmadas à noite.

Este filme, sonoro, a preto e branco e com a duração de 86 minutos, viria a cair no goto do senhor da Alemanha que, por ela, sempre teve um fraquinho!... Instada a pronunciar-se sobre o seu relacionamento com o Hitler e quando lhe perguntavam se alguma vez foi sua namorada, Leni simplesmente respondia que, para ele, apenas fazia documentários!

Uma das suas coroas de glória - se assim lhe podemos chamar - foram os exímios documentários patrocinados pelo caudilho e pelo nacional socialismo alemão. Foram também o seu maior pecado, do qual nunca viria a ser absolvida. Triumph des Willens (TRIUNFO DA VONTADE), de 1935, ao que tudo indica assim baptizado pelo próprio Hitler, documentário ardilosamente filmado por Leni, é, sem sombra de dúvida, a exaltação e a glorificação do regime e do seu líder. Como pano de fundo, o 6Ί Congresso do Partido Nacional-Socialista, que decorreu em Nuremberga entre os dias 4 e 10 de Setembro de 1934 sob o lema Congresso da Unidade. Não tem comentários. Apenas combina as imagens com a banda sonora, uma mescla de som ambiente com música original, composta propositadamente e complementada com hinos nacional-socialistas. Este filme, sonoro, a preto e branco e com a duração de 114 minutos, aliado às encenações de Speer, veiculou de forma magistral, diga-se, não só a execrável ideologia nazi como, também, o hediondo mito da supremacia ariana. Consequentemente, levou ao rubro milhões de fanáticos seguidores. De forma soberba filmado, é um facto, contudo, não esqueçamos que ajudou a consolidar um sistema totalitário, assente na hegemonia de uma raça de mefistofélicas mentes. Desgraçadamente é, sem dúvida, um dos melhores, senão mesmo o melhor filme de propaganda jamais feito. Para a sua concretização, foram utilizados inéditos truques e artifícios, até então nunca vistos ou, sequer, imaginados.

Desde a captação de inovadores ângulos de câmara a ousadas técnicas de montagem. Por exemplo, no discurso de Hitler à Juventude Hitleriana, os operadores filmam com câmaras que se movimentam sobre calhas curvas e usam patins.

Num mastro de 38 metros de altura, especialmente concebido por Albert Speer em Luitpold Grove, foi instalado um elevador que possibilitou a Leni colher imagens das paradas como um todo.

Ardilosa, pronta e decididamente transpôs todos os obstáculos que se depararam no seu caminho. À data, as câmaras eram manuseadas pelo operador. Assim sendo e porque cada um deles imprimia uma velocidade diferente às cenas que captava, havia rápidas mudanças de imagens. Por via destas variações, não era fácil ao maestro fazer sincronizar a música que a orquestra tocava. Como Leni conhecia todas as cenas ao pormenor, ela própria dirigiu a orquestra. Deste modo, conseguiu uma harmonia perfeita entre imagens e som. Também nesta data filma TAG DER FREIHEIT! – UNSERE WEHRMACHT! (DIA DA LIBERDADE! – AS NOSSAS FORÇAS ARMADAS!), documentário cinematográfico sobre os exercícios militares levados a cabo pelo exército alemão durante o 7Ί Congresso do Partido Nacional-Socialista, que teve lugar em Nuremberga entre os dias 10 e 16 de Setembro de 1935. Não possui comentários, apenas combina o som original com a música composta para o filme.

Ainda hoje, tantos anos volvidos - mas nunca esquecidos - é difícil saber, com exactidão, qual o seu grau de ignorância em relação ao Holocausto e à barbárie Nazi. Sempre clamou inocência e total desconhecimento sobre o que verdadeiramente se passava à sua volta. Dificilmente foi levada a sério, principalmente quando o reafirmou no Julgamento de Nuremberga. Mas o que é certo é que foi ilibada. Do seu mentor e apaniguado, ouvimo-la dizer que estava extremamente grata por me proteger contra inimigos como Goebbles1 e outros, e por me respeitar como artista2; mas sentia-me indignada e envergonhada, quando regressei dos montes Dolomitas3 e, pela primeira vez, vi judeus forçados a usar uma estrela amarela. Só depois soube, pelos Aliados, que os tinham levado para campos de concentração e exterminado. Será possível dar crédito a estas afirmações? Como podia esta criatura - que até circulava com o maior à vontade junto dos grandes e poderosos do regime - não saber o que se passava? Mas sempre disse estar demasiado embrenhada(?!) no seu trabalho para se aperceber(?!) das atrocidades cometidas à sua volta. Mas só alguém engajado na ideologia e comungando dos mesmos ideais, ou, no mínimo, com eles simpatizando, poderia ter levado a cabo uma obra tão conseguida. É esta a minha convicção! Também sempre negou, acalorada e categoricamente, ter usado ciganos de um campo de concentração dos arredores de Salzburgo como figurantes no seu filme Tiefland, que conta a história de Martha, uma bailarina cigana por si interpretada. Os ciganos envolvidos no filme eram meus amigos(?), disse! Defendendo-se das acusações que lhe eram dirigidas, alegou que, para Hitler, em toda a sua vida, apenas tinha trabalhado durante 7 meses e apenas fazia documentários!...

Quando em Julho de 1933 regressa a Berlim, após as filmagens de SOS EISBERG (SOS ICEBERG), toma conhecimento da emigração de muitos amigos judeus. Ao que dizem, fica chocada e desesperada com esta situação. Dias depois, quando recebe um convite da Chancelaria do Reich, consegue chegar à fala com Hitler sobre o assunto. Nas suas memórias, pode ler-se: Hitler levantou a sua mão, como que a evaporar o meu fluido de palavras. Não zangado, disse: Fräulein Riefenstahl, sei como se sente; já me disse o suficiente em Horumersiel. Respeito-a. Mas peço-lhe que não me fale de um tópico que considero desagradável. Tenho grande estima por si como artista, tem um talento especial, e não desejo influenciá-la. Mas não posso discutir o problema judaico consigo.

Aquando da chegada ao poder do führer, Leni tinha já uma promissora carreira em marcha e até era alvo da admiração do ditador, que a havia visto em Das Blaue Licht. Assim, não é de estranhar que, já em 1933, tivesse sido instada a colher imagens do 5Ί Congresso do partido que decorreu em Nuremberga, entre os dias 30 de Agosto e 3 de Setembro de 1933.

Daqui nasceu um filme de 64 minutos, sonoro e a preto e branco, a que foi dado o título de Sieg des Glaubens – der film vom reichsparteitag der nsdaP (Vitória da Fé - o filme do congresso do partido nacional-socialista). Foi o primeiro congresso do partido, após a subia ao poder dos Nazis. Foi filmado em jeito de documentário e não possui comentários ou títulos. Apenas o som original, os discursos e os hinos Nazis, combinados com a música composta para o filme. Contudo, não foi fácil a sua concepção e rodagem. É que, para além de mulher, Leni não militava nas fileiras do partido. Mesmo recomendada por Hitler, foi alvo de desconfianças e não se livrou facilmente destes óbices! No final, tanto a máquina do partido como a imprensa, renderam-se à evidência e ao engenho de Leni. Foram unânimes nas excelentes críticas e teceram os mais rasgados elogios ao seu trabalho.

 

entronizada realizadora do regime, coube-lhe a ciclópica tarefa de registar, para a posteridade, os jogos da 11ͺ Olimpíada da era moderna, que de correreu em Berlim entre os dias 1 e 16 de Agosto de 1936. Talentosa como poucos, levou a cabo um notável trabalho de concepção e montagem que, ainda hoje, é considerado uma obra-prima, no que concerne à estética das imagens desportivas. Está cotado como um do melhores documentários cinematográficos sobre desporto.

Trata-se de Olympia Teil 1 - Fest der Volker (ÍDOLOS DO ESTÁDIO - PRIMEIRA PARTE – OLIMPÍADA) e Olympia Teil 2 – Fest des Schönheit (ÍDOLOS DO ESTÁDIO- SEGUNDA PARTE - VENCEDORES OLÍMPICOS) um excelente documentário em duas partes, produzido em 4 línguas diferentes: Alemão, Inglês, Francês e Italiano.

Na primeira parte, com a duração de 126 minutos, sonoro e a preto e branco, pode apreciar-se, por exemplo, o acender da chama olímpica. Esta cena foi refilmada no Báltico, porque, na Grécia, o local das filmagens estava cheio de carros. Para o efeito, foi construída a cópia fiel de uma coluna grega.

 

Ou a estátua do discóbolo que ganha vida. Para esta cena, Leni faz coincidir, quase ao milímetro, a imagem do clássico Discóbolo de Myron com o escultural corpo do atleta do decatlo, Erwin Huber. Simboliza a transição das antiguidade para o presente. Ainda o hino olímpico e a maratona.

Ou os espantosos desempenhos de Jesse Owens, vencedor de 4 medalhas de ouro e um belíssimo pôr do sol que se desvanece nos anéis olímpicos. A segunda parte, com 99 minutos, também sonoro e a preto e branco, mostra-nos belíssimas imagens dos atletas em competição, desde o hóquei em campo ao ciclismo. Também a vida dos atletas na aldeia olímpica e os saltos para a água em voo alto. Sem esquecer a apoteótica cerimónia de encerramento.

Ou, ainda, a magnífica Catedral da Luz, idealizada por Albert Speer. Nada mais nada menos do que 130 feixes de luz antiaérea ao redor do estádio, rumo ao infinito.

Ao todo, durante as 129 provas dos jogos, foram filmados, escolhidos e montados 400 quilómetros de película. Para o conseguir, Leni viu-se envolvida numa acesa querela com o Comité Olímpico, por via das arrojadas e inovadoras tecnologias de imagem que pretendia por em prática. Como, por exemplo, a colocação de câmaras em pontos estratégicos do estádio, as imagens colhidas em câmara lenta e a utilização de lentes de longo alcance, nomeadamente a inovadora lente de 60 mm. Ainda uma câmara catapulta, para os sprints.

Ou uma mini câmara, de fácil transporte e enquadramento.

 

Ainda uma câmara para captação de imagens subaquáticas.

 

Também a captação de ousadas imagens, nomeadamente a despudorada - para a época - invasão da privacidade física dos atletas. Os corpos, principalmente os masculinos, à semelhança das estátuas gregas, foram usados e abusados.

 

 

Para filmar os mergulhos para a piscina, colocou operadores em vários locais, cada um deles com a sua câmara a uma velocidade diferente, que fez os atletas parecerem pássaros a voar nos céus. Após a montagem, o resultado foi supremo.

Para o atletismo, colocou-se ela própria num pequeno carro e, dirigindo as cenas, foi arrastada ao compasso dos corredores.

 

 

Concebe fossos de onde filma os atletas a correr e a saltar, enquadrados de encontro ao céu. As corridas de remo são filmadas de uma ponte a centenas de metros de distância e, todos os dias, é lançado um balão no estádio para filmar o espectáculo desportivo. Manda construir duas torres, para a captação de imagens no interior do estádio. Duas no meio e uma outra por trás do local de partida dos 100 metros barreiras. Câmaras com velocidades entre os 24 e os 120 fotogramas por segundo, colhem fabulosas imagens. No entanto, nem sempre foi bem sucedida nas suas pretensões. Nunca conseguiu que a deixassem catapultar-se pelos ares, com uma câmara nas mãos, para colher imagens, por exemplo, do lançamento do dardo.

A montagem de Olympia durou 18 meses, mas saiu obra apurada e inteligentíssima. Leni utilizou, inclusive, veladas imagens em auto-reverse. Com tudo isto, não é de estranhar que o filme apenas tenha estreado em 1938, dois anos após o início das rodagens. Ficou para sempre nas nossas mentes o registo da retumbante vitória de Jesse Owens, contrastando o seu rosto de júbilo com a carranca de crispação de Hitler, ao ver um negro ganhar aos supremos(?!) arianos. Ainda hoje, Olympia é citado nas escolas de cinema como um excelso exemplo da arte do documentário. Este, à semelhança de Triumph des Willens, integram a curta lista de filmes que nenhum estudante de cinema deve perder. No entanto, depois da II Guerra Mundial, foi considerado "filme restrito". Só podia ser mostrado, com uma introdução, em clubes cinematográficos ou com fins didácticos.

Presa sob acusação de simpatizante da causa nazi e pela deificação de Hitler junto dos Alemães, precisamente graças às fortíssimas imagens deste filme, por três vezes logrou escapar aos seus captores. Fê-lo na tentativa desesperada para se juntar ao marido que a aguardava na Áustria. Uma vez conseguido este objectivo, volta ser encarcerada, não uma, mas mais duas vezes. Foi fazer companhia a Göring, por exemplo, enquanto hóspedes das tropas americanas. É, finalmente, libertada a 3 de Junho de 1945.

 

De volta à Áustria, no Tirol, dá continuidade ao entretanto interrompido trabalho de montagem de Tiefland (título homónimo em português), iniciado no distante ano de 1940. Mas o seu infortúnio não se queda por aqui. Com o abandono da zona por parte dos militares americanos, são os franceses que agora acolhem Leni. Obstinada, recusou mudar-se para zonas sob influência americana, que já a haviam ilibada da acusação que sob ela pendia. Mas, para o fazer, ver-se-ia obrigada a levar o seu vasto espólio cinematográfico, nomeadamente os negativos de Olympia. Ingénua(?), julgou estar a salvo após a purga a que já havia sido submetida. Cedo concluiu o quão redondamente enganada estava, quando se viu de novo aprisionada. Foi, inclusive, colocada num asilo de loucos durante três meses, de onde saiu em Agosto de 1947. Mas só em Julho de 1949 foi oficialmente libertada por um tribunal francês. Esta alforria, no entanto, não lhe propiciou o retomar do seu trabalho ou, sequer, de uma vida normal. Aquele que viria a ser o seu último filme, Tiefland, levou 14 anos a concluir. Só viu a luz do dia a 14 de Fevereiro de 1954, numa sala de Stuttgart. Ao fim de inúmeros e variadíssimos contratempos. Projectado em 1934, é posto de parte após doença de Leni, para, em 1939, voltar a ser retomado. Uma vez mais, face à guerra que se avizinha, é adiado sine dia. Só em 1944 é completado. Mas ainda não é tudo. Após a guerra, a película original é confiscada pelos franceses e só foi devolvida em 1953. Estreado em 1954, acaba por não incluir todas as cenas planeadas e, entretanto, filmadas. Por extravio ou ruína de algum material original.

Mas Leni nunca se deixou abater. Provou que sempre foi de antes quebrar que torcer!... Mas foi sendo, sistemática e sucessivamente, impedida de fazer aquilo que melhor sabia e gostava de fazer - filmar. Só me tornei fotógrafa, pois, depois do final da guerra, boicotaram-me, não podendo eu fazer mais filmes. Ao invés de outros, como Roberto Rossellini, Salvador Dali ou Herbert von Karajan, apoiantes declarados do fascismo europeu.

Já septuagenária, ainda teve ganas de aprender mergulho e dedicar-se à arte das filmagens e fotografias submarinas. Para poder inscrever-se nas aulas de mergulho, viu-se obrigada a recorrer a um pequeno subterfúgio. Alterou a data de nascimento de 1902 para 1922. Surpreendeu tudo e todos quando, na festa comemorativa do fim do curso, revelou a sua verdadeira idade. Apenas a mais velha mergulhadora do mundo.

Debaixo de água fotografa com um reflexo de câmara especial, que lhe torna possível ver tudo com incrível nitidez e captar imagens de rara beleza. A destruição destas exóticas paragens leva-a a inscrever-se no Greenpeace.

 

Já antes, nos anos 70, lançara-se à descoberta de África. Viveu temporadas junto de tribos locais, os Nuba do Sudão, com quem aprendeu a linguagem.

Deu-as a conhecer ao mundo, dito civilizado, através de magníficas imagens cinematográficas e bibliográficas.

Também a faceta de escritora não lhe passou ao lado. Como fotógrafa, foram alguns os livros que deu à estampa, aclamados pela crítica e, até, best sellers. Como os álbuns dedicados aos Nuba – OS NUBA e O POVO DE KAU. Ou os livros de fotografias alusivas à vida submarina – JARDINS DE CORAIS e MARAVILHAS SUBAQUÁTICAS. Ou, ainda, as edições bibliográficas versando os documentários sobre os Congressos do Partido Nacional-Socialista ou os Jogos Olímpicos de 1936.

Eis a lista completa das obras por si editadas. KAMPF IN SCHNEE UND EIS, 1933; HINTER DEN KULISSEN DES REICHSPARTEITAGS-FILMS (POR DETRÁS DAS CENAS DO FILME DO CONGRESSO DO PARTIDO), feito em simultâneo com o filme TRIUMPH DES WILLENS, 1935; SCHÖNHEIT IM OLYMPISCHEN KAMPF, 1937; DIE NUBA – MENSCHEN WIE VON EINEN ANDEREN STERN, 1973; DIE NUBA VON KAU, 1976; KORALLENGÄRTEN, 1978; MEIN AFRIKA, 1982; MEMOIREN, 1987; WUNDER UNTER WASSER, 1990.

Mulher de sete vidas, como os gatos, por mais de uma vez escapou a uma morte anunciada, mas sempre adiada. Quase sucumbiu em África, vitimada por um acidente de viação. Foi em 1950, quando buscava locais para as suas incessantes filmagens. Também em África, quase um continente maldito, volta a escapar, quando, em 29 de Fevereiro de 2000, no Sudão e já com a veneranda idade de 97 anos, sobrevive à queda do helicóptero que a transportava.

Umas quantas costelas partidas, foi o resultado de mais uma contenda com o destino.

Mas não foi tudo! Já em 1977, quando surgiu em público em Hamburgo, para uma exposição alusiva às suas lides africanas e marítimas, foi alvo de ruidosas manifestações de protesto, em relação à sua pessoa e à sua obra. Jovens manifestantes empunhavam cartazes do tipo não a exposições nazis ou não à comercialização da estética fascista.

Outro alvo das críticas dos seus detractores foram os nus que captou dos Nubas, tidos como tendência fascista de Leni para a exaltação dos corpos dos membros das tribos africanas. Que, pasme-se, até eram vistos pelos nazis, como raças inferiores...

Já em Olympia, as imagens dos corpos masculinos, captadas até à exaustão pelas objectivas de Leni, haviam gerado polémica.

À beira do centenário e na plena posse das suas faculdades, ainda se travou de razões com Jodie Foster, outro monstro sagrado da sétima arte. Esta, admiradora confessa da sua obra, dela disse ser um dos maiores realizadores de todos os tempos. Simultaneamente um dos mais odiados, cujo nome ficará, para sempre, associado ao horror da Alemanha Nazi. A controvérsia centrou-se no facto de Jodie querer levar à tela - à sua maneira, já se vê - a vida e obra de Leni. Tudo parecia bem encaminhado e até se disse que o argumentista seria Ron Nyswaner, já nomeado para um óscar por Philadelphia e que a Egg Pictures, propriedade de Foster, seria a produtora. Ao que parece, o projecto terá falhado porquanto Leni exigiu ter uma palavra a dizer relativamente ao final da película.

Ficamos, pois, à espera! Quem sabe, um dia, esta ideia é retomado e, finalmente, concretizada. Ante ou post mortem de Leni. Quanto mais não seja, aguardam-nos dois cenários possíveis. Ou uma grande obra fílmica em perspectiva - face aos firmados créditos desta duplamente oscarizada actriz e realizadora - ou, então e uma vez mais, na incessante busca da perfeição suprema, a montanha apresta-se a parir um rato...

Actualmente, aos 99 anos de idade, sofre de horríveis dores nas costas que a obrigam a socorrer-se de fortíssimos analgésicos. São suas as palavras que se seguem: Tomo uma infusão de morfina em cada oito horas. É difícil para uma pessoa que já foi cem por cento activa experimentar um abrandamento...

Abstraindo todo o conteúdo político da sua rocambolesca vida, Leni foi, é e será sempre, queiramos ou não, um marco incontornável da história do cinema. Do cinema de qualidade. É e será, sempre, um dos seus mais brilhantes e notáveis protagonistas, ombreando com Sergei Eisenstein, Orson Welles ou outros notáveis. Ainda hoje, grandes realizadores recorrem aos mesmos ângulos de câmara por si implementados. Casos de Paul Verhoeven, em STARSHIP TROOPERS (SOLDADOS DO UNIVERSO) e George Lucas, em STAR WARS – EPISODE 1 (GUERRA DAS ESTRELAS – EPISÓDIO 1).

Talvez o seu futuro tivesse sido diferente se, à semelhança de Marlene Dietrich, tivesse abandonado a Alemanha e rumado a Hollywood, a Meca do Cinema. Talvez!... Então porque o não fez?

Não pretendo, com este trabalho, julgar as suas simpatias ou opções.

Apenas o seu génio.

Maldito, sem dúvida!...

 

 

FONTES

 

http://encarta.msn.com/find/concise

http://jornal.publico.pt

http://uk.news.yahoo.com/0017/9/80/amosz.html

http://ww.ihffilm.com.ihf/r451html

http://www.1worldfilms.com/germany/olympiaset.html

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http://www.auschron.com/film/pages/movies/1550.html

http://www.bfi.org.uk/news/stories/2000-10-05-riefenstahl.thml

http://www.english.upenn.edu/afilreis/holocaust/maslin.html

http://www.german-way.com/cinema/cinebook.html#leni

http://www.german-way.com/cinema/rief.html

http://www.ihffilm.com.ihf/leniriefmem.html

http://www.powernet.net/hflippo/cinema/tiefland.html

http://www.s-t.com/daily/12-10-99/b03ae041.htm

http://www.videoflicks.com./vf2/1055/1055563.ihtml

http://www.videoflicks.com/vf2/1053/1053999.ihtml

httpp://brightlightsfilm.com/26/riefenstahl.html

Lopes, João, Leni e os Homens. In Egoísta, Abril de 2001

Riefenstahl, Leni, Memoiren

Taschen, Angelika, Leni Riefenstahl, 2001, Köln

 

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1 Segundo rezam as crónicas, o ministro da propaganda de Hitler terá tentado, sem sucesso, obter à força os favores sexuais de Leni.

2 Hitler concedeu a Leni total liberdade criativa e, ainda, um orçamento ilimitado para filmar TRIUMPH DES WILLENS (O TRIUNFO DA VONTADE).

3 Local de rodagem de TIEFLAND.

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