Um olhar sobre a Personagem Feminina "Bess" do filme:

"Breaking the Waves"

Filomena Antunes Sobral

Escola Superior de Educação de Viseu

 

RESUMO

A representação da mulher no cinema tem sido alvo de inúmeros estudos e analisada sob o ponto de vista de inúmeras perspectivas, sobretudo a partir dos anos 70, altura em que se começou a falar de uma "Teoria Feminista do Cinema". Esta teoria, através de uma crítica ideológica, debruçou-se mais intensamente sobre a construção de personagens femininas nos filmes e procurou demonstrar que a imagem da mulher ao longo da história do cinema sempre foi produto de um olhar masculino.

O objectivo deste estudo é analisar a política de representação feminina através da personagem Bess McNeill, no filme "Breaking the Waves", do realizador dinamarquês Lars Von Trier, seguindo de perto as teorias feministas.

1. Problemática:

A análise da política de representação de personagens femininas nos filmes tem sido uma preocupação central de muitas críticas feministas. De facto, foi graças a estas críticas que o papel da mulher na história do cinema começou a ser abordado. Foi detectada a ausência de papeis femininos fortes que saíssem da visão patriarcal tradicional, a necessidade de cortar com a narrativa Edipal e a ausência de uma crítica fílmica feminista.

Trabalhos de mulheres como Helen Taylor, Jacqueline Bobo, Ângela Partington, Janet Thumim, Annette Kuhn, entre outras, começaram a preencher a lacuna e a abrir espaço para analisar a forma como a figura feminina tem sido representada ao longo dos tempos nos filmes.

Inserida num background cultural e político de movimentos de libertação da mulher, a crítica de cinema só na década de 70 começou a desenvolver a hipótese de uma teoria feminista do cinema e a elaborar uma análise das imagens da mulher no cinema. Deste modo, começou-se por analisar, de acordo com perspectivas diferentes, a construção da mulher no cinema dominante ou "mainstream", para depois se passar a outros campos.

Na verdade, se o discurso típico de Hollywood é, em grande parte, a história da repressão da mulher no cinema, considera-se que Lars Von Trier, com a personagem feminina Bess do filme "Breaking the Waves", não pretende dar continuidade a este discurso que faz da mulher um estereotipo social, muito pelo contrário, ele pretende dar a sua visão crítica da forma como a mulher é tratada no seio da sociedade patriarcal. E isto prende-se com questões culturais, pois na Dinamarca, o desenvolvimento da produção cinematográfica foi acompanhado pela luta feminina pela igualdade, daí que nunca houve uma tradição muito forte para utilizar o cinema como um veículo reprodutor da ideologia capitalista patriarcal.

Sendo assim, perante a hipótese do papel da mulher continuar a manter-se na "ordem natural das coisas", seguiu-se por um caminho em que a representação da mulher permite explorar e exprimir a totalidade do seu ser, as suas ambições e capacidades intelectuais, os seus deveres sociais e culturais, revolucionado, desta forma, as condições que a constrangiam.

Seguindo esta linha de pensamento, optámos por analisar a personagem feminina Bess do filme "Breaking the Waves" de Lars Von Trier. E a questão que gostaríamos de explorar é o binómio: Mulher versus repressão patriarcal, pois Bess McNeill personifica uma série de contrastes relativamente à comunidade dominada pela autoridade masculina na qual ela vive.

Bess McNeill, representa uma mulher que inicialmente parece muito linear e simples, contudo cedo percebemos que dela emergem questões problemáticas, profundas e até mesmo dolorosas: uma história de vontade própria versus vontade colectiva.

Annette Kuhn, na sua análise do "The big sleep" considera que "The trouble, the disturbance, at the heart of The big sleep is its symptomatic articulation of the threat posed to the law of patriarchy by the feminine".1 Em relação a Bess de "Breaking the waves" também podemos colocar esta mesma questão: - será que ela representa uma ameaça à ideologia patriarcal?

Surgem, então uma série de questões pertinentes que se procuram analisar; e a leitura proposta ao longo deste estudo da personagem feminina Bess deve ser feita à luz de contrastes e oposições.

2. Análise da personagem:

Bess é oriunda de uma comunidade patriarcal fechada e constrangedora que lhe impõe um determinado tipo de comportamento, nomeadamente a pureza e a submissão. O único desejo desta mulher é ser boa, mas ao transgredir os valores culturalmente instituídos o conceito de bondade de Bess entra em conflito com o conceito de bondade da comunidade religiosa. O preço que Bess paga por ter escolhido acreditar no seu próprio conceito de bondade é o preço que muitas mulheres pagaram por desafiarem o patriarcado e se, numa primeira abordagem, Bess parece uma personagem fraca e frágil, ela ganha força ao lutar pela bondade na qual ela acredita. Para ela, todos os seus actos são para o bem de Jan, seu marido, enquanto que a comunidade, pelo contrário, vê-os como satânicos.

Embora seja tentador analisar a personagem Bess como uma Maria Madalena ou uma Joana D´Arco, como muitos críticos fizeram, isso só iria garantir que a ordem natural das coisas não seria perturbada. Ela seria uma mártir porque as convenções religiosas assim o estipularam e ponto final. Também seria fácil considera-la como uma mulher doente e alienada que se comporta irracionalmente e se recusa a aceitar a realidade. Mas, a personagem feminina de "Breaking the Waves" leva-nos a colocar questões mais profundas. Questões relativas ao patriarcado e, sobretudo à vontade e perseverança do desejo feminino.

Longe de ser uma doente mentalmente perturbada ou uma mártir, Bess é uma mulher forte.

No inicio do filme Bess está reprimida e totalmente submissa à família e à comunidade religiosa. Sendo membro de uma família infeliz e incompleta (sem figura paterna) Bess é vista como uma coitadinha, aproximando-se do mentalmente perturbada, uma mulher que nenhum homem quereria desposar.

A mãe, coagida pelo sofrimento de ter perdido o filho numa plataforma de petróleo, procura manter a aparência familiar seguindo rigidamente as regras religiosas e impondo-as a Bess.

Se pensarmos em termos da teoria de Freud, verificamos que a repressão do desejo leva à neurose obsessiva e a figura materna dominante leva à dependência. Numa conversa que tem com Bess, a mãe diz-lhe que ela tem de viver a vida sem queixas ou emoções, tal como muitas outras mulheres o fizeram antes dela. "By accepting the fixed essence of woman as a predetermined, «given order of things», implicitly what was also being accepted was the «naturalness» of the patriarchal order".2

Daqui pode-se depreender que a mãe procura prolongar em Bess a visão tradicionalista e repressora que a sociedade patriarcal tem da mulher.

Seguindo de perto as ideias de Freud acerca do complexo de Édipo, é Jan, o marido de Bess, a figura masculina paternal, que intervém entre Bess e a figura repressora para permitir a sua "libertação". É, então que Bess toma consciência dos seus desejos e da sua própria sexualidade.

Muita crítica foi feita pelas feministas a Bess de "Breaking the Waves". A maioria delas incidia sobre o tópico da figura feminina mostrada como sacrificada e vítima da sociedade patriarcal. Contudo, consideramos que a leitura que se faz da personagem Bess pode ser outra. Na verdade acreditamos que a intenção de Lars Von Trier não era criar outra história acerca da violência contra a mulher, mas reportar-se a conceitos culturais e ideológicos mais profundos. E porque não mostrar uma mulher que, vivendo numa sociedade que a condena a "some stereotype of normal femininity"3, em vez de vítima, ser ela própria o motor de um processo de libertação, coagida pelo seu próprio desejo de felicidade? Está o autor a incentivar a repressão contra a mulher, ou pelo contrário a trazer à "praça pública" um assunto, que para muitos, ainda é tabu? O facto de Bess morrer fazendo aquilo que acha que está certo (mesmo indo contra os valores estabelecidos) é uma crítica clara aos efeitos destrutivos que este tipo de mentalidade patriarcal pode ter.

A primeira imagem do filme é um grande plano do rosto de Bess olhando directamente para a audiência e, desde logo se estabelece o contraste entre a sua honestidade e pureza e a austeridade e frieza dos rostos dos anciãos que a interrogam. Ela tem a certeza de que o seu amor por Jan é certo e que é uma dádiva de Deus.

Consideramos que estas duas imagens estabelecem, desde o início, o ambiente moral no qual duas noções de "bem" vão competir. Para além disso, durante o interrogatório no interior da igreja, a imagem de Bess aparece sempre num enquadramento separado dos religiosos mais velhos. Este facto testemunha e atenua o grande fosso que os separa. É como se uma competição se iniciasse em que o patriarcado tem a necessidade de, mais uma vez, mostrar a sua força e provar a sua ascendência sobre a mulher. Mas, apesar da aparência frágil, esta mulher acaba por marcar a diferença perante o patriarcado repressor.

Portanto, desde o início do filme que o realizador nos dá pistas para perceber que entre estes dois pontos de vista não haverá reconciliação. Sob um cenário cor de rosa de uma história de amor, está um conflito latente que opõe a mulher a uma tradição cultural repressora.

Através da luta intensa de Bess para ser uma "boa rapariga", é-nos colocada a questão da relatividade de todas os valores e dogmas morais. Haverá verdadeira liberdade de escolha quando quase todas as decisões passam por um contexto cultural mais vasto que reprime nas escolhas?

Segundo a análise de Linda Zerilli, numa cultura patriarcal a mulher é vista de uma forma ambivalente, pois ela significa "both culture and caos", "the radical sexual other", "a cipher, a series of ansences to be filled", "energy to be harnessed", "woman is both the site of sociosymbolic stabilization and destabilization".4 O importante é conseguir perceber como é que esta atitude social face à mulher afecta a forma como Bess é julgada e a forma como ela se julga a ela própria.

A bondade de Bess é elogiada pelo pastor no dia do seu casamento quando ele recorda à comunidade como ela cuida da limpeza da igreja. Mais tarde ela é considerada má e instável. Sendo assim, e indo de encontro às ideias de Linda Zerilli, Bess significa a mulher domesticada e ao mesmo tempo o caos. Se para uns, ser "boa" significa não destabilizar a ordem natural das coisas, não exprimir profundamente as emoções ou não experienciar o prazer, Bess é definitivamente o caos. Ela está radiante com o seu amor incondicional por Jan e a sua total credibilidade para confiar nesse amor é incompreensível aos olhos da comunidade. Pelo facto de ser diferente Bess é rotulada de emocionalmente instável, neurótica e psicótica.

O mundo de Bess, como mulher, está circunscrito a três esferas: à família, à comunidade religiosa e ao casamento. Cada um destes círculos apresenta, em relação a Bess, uma série de atitudes complexas e ambivalentes acerca do que significa ser boa. As visões tradicionais acerca da mulher e do seu papel na comunidade são reforçadas pela família e pela religião. Contudo, o facto de escolher casar com alguém de fora da comunidade, faz com que a terceira esfera seja estabelecida à parte. É esta terceira esfera que permite a Bess ter uma visão diferente daquilo que lhe foi previamente imposto.

Jan não partilha a opinião que os religiosos têm nem acerca do mundo, nem acerca de Bess. Quando a cunhada de Bess, Dodo, lhe tenta dizer que ela é frágil e vulnerável, Jan insiste em dizer que Bess é mais forte do que eles. Ele está fascinado pela bondade, pureza, sensualidade e força da mulher. Para Jan, que representa também uma perspectiva masculina, mas diferente da patriarcal, Bess é um espírito livre, bondoso, generoso e apaixonado, que tem uma fé ilimitada na bondade da vida.

Aquilo que os outros vêem como demência, é no fundo uma mulher que, no seio de uma comunidade rígida e fechada, tem a coragem de seguir o seu próprio entendimento, exprimir sentimentos e lutar, sem limites, por aquilo em que acredita, mesmo que para isso tenha de enfrentar o desprezo, a excomunhão e a morte.

A grande preocupação de Bess é continuar a ser boa, mesmo que isso implique transgredir o conceito de bondade tradicionalmente instituído e com o qual ela foi educada. Desde o inicio está estabelecida a dualidade: Bess versus patriarcado5, pelo simples facto de ela ter a coragem de ir contra a comunidade e escolher casar com um estranho. Aí está o primeiro toque de rebelião e personalidade, isto apesar de todas as ameaças. Recorrendo a Annette Kuhn, podemos dizer, relativamente a Bess, que: "She puts on display the conflicts at the heart of feminine identity between female desire and socially sanctioned femininity".6

A relação de Bess com Deus é tão questionadora e problemática como a sua relação com a comunidade religiosa e com a família. O denominador comum é o patriarcado.

Tal como em muitas outras escolhas, a escolha de Bess em ter conversas privadas com Deus mostra a complexidade da sua personalidade, a amplitude da sua fé e o seu infinito desejo de ser "boa". Estas conversas com Deus reflectem os valores tradicionais que ela absorveu e uma liberdade para desejar mais do que os valores religiosos da sua comunidade lhe permitem.

Bess fala com Deus no interior de uma igreja vazia, local onde ela, como mulher, está proibida de falar7.

Contudo, Bess não só fala com Deus, como também usa a sua própria voz para falar por Deus. Tendo ambas as vozes, do fiel que suplica e do Deus que responde, é criado um paralelo entre Bess e a figura masculina e patriarcal do pastor que também fala com Deus para interceder pela comunidade e transmite a essa mesma comunidade a palavra de Deus. Podemos então interpretar esta questão de uma forma sub-reptícia e problemática em que uma mulher é igualada a uma posição que é, geralmente, atribuída aos homens. A personagem Bess ousa quebrar as regras impostas do silêncio e da submissão, ameaçando transformar a ordem em caos.

Na recusa de Bess em compactuar com o silêncio imposto, está situado o grande paradoxo feminino: "consign herself forever to the bondage of some stereotype of normal feminity - a perversion, if you will"8 ou "not hold her tongue". Não compactuar é arriscar-se a ser julgada como transgressora, como uma ameaça para a tradição e, inevitavelmente, excluída. É isso que acontece a Bess porque ela sai do "estereotipo de feminilidade normal".

Falemos agora na questão da subjectividade feminina. Ao decidir prostituir-se Bess age de livre e espontânea vontade ou é coagida a faze-lo? Pode Bess continuar a ser considerada como "uma boa rapariga" ?

Regendo-se o patriarcado pelo binómio "bom" versus "mau", Bess, ao transgredir a norma cultural do que significa ser "uma boa rapariga", é desde logo rotulada como "má". Então entramos no outro lado do paradigma que representa aquilo que as mulheres devem temer ser na sociedade. Os valores normativos, rígidos e dualistas da comunidade religiosa não têm em conta a subjectividade de Bess.

Teresa de Lauretis considera que "contemporary work in feminist theory... (tries) to define the female-gendered subject as one that is outside the ideology of gender: the female subject of feminism is one constructed across a multiplicity of discourses, positions, and meanings, which are often in conflict with one another and inherently (historically) contradictory. A feminist theory of gender, in other words, points to a conception of the subject as multiple, rather than divided or unified, and as excessive or heteronomous vis-à-vis the state ideological apparatus and sociocultural technologies of gender".9

A obsessão de Bess em ser "boa" reflecte a multiplicidade e o excesso. Bess é mais do que a simples soma das partes. Ela não é somente a mártir que se sacrifica por amor, nem a perversa que é excomungada pelo seu comportamento sexual. Ela é definida pela cultura que a envolve e ao mesmo tempo procura alienar-se dessa mesma cultura que a define. Bess é qualquer mulher cuja vida é vivida entre as expectativas culturais que dela se exigem (mesmo que a lógica interna das expectativas tenha consequências fatais) e a consciência de que tem poder para mudar as coisas. O valor e o significado da sua vida surgem do compromisso de amor incondicional para com um outro ser humano.

Contudo, ao arriscar-se Bess está também a libertar-se. O acto de bondade que Bess faz por amor (livremente ou coagida, mas nunca obrigada) é também um gesto de liberdade. Bess é a agente de uma "alteração revolucionária".

A personagem feminina de "Breaking the Waves", ao ser colocada perante toda uma série de circunstâncias repressoras, acaba por estar a ilustrar uma situação mais geral, e para a qual as feministas sempre procuraram chamar a atenção, que tem a ver com a limitação das escolhas deixadas às mulheres no seio da sociedade patriarcal. Subtilmente e escondida sob uma capa de simplicidade, a personagem Bess pode ser lida como "a mulher", no sentido de todas as mulheres, porque levanta as questões fundamentais com as quais o movimento feminino se debateu.

Sendo assim, consideramos que Von Trier, mais do que criar uma mártir procura, através da personagem feminina, explorar uma situação inquietante e que é fundamental ser vista, analisada e debatida.

Ao quebrar as regras, (Breaking de Waves), ao ir contra a maré, Bess quebra as ondas da moralidade tradicional, e, inevitavelmente é também quebrada por essa mesma moralidade.

Aqui é importante chamar a atenção para o título do filme "Breaking the Waves" e interpretar a sua intenção. Trata-se de um título que sugere, desde logo, o lutar contra os valores instituídos, o remar contra a maré, o tentar quebrar os preconceitos e um desafio a alterar a ordem natural das coisas. Bess, cujo rosto enche o écran logo nas primeiras cenas, é a principal agente desta luta.

Após a sua morte, Bess é julgada pelos anciãos como uma pecadora e é-lhe negado um funeral digno. Inconformado, Jan rouba o corpo de Bess para a devolver ao mar, local onde ela poderá livremente "break all the waves". Esta pode ser considerada a transgressão final que faz Bess, mesmo depois de morta, escapar à lei castradora do patriarcado. Afinal Bess acaba por ser salva e recompensada pelo seu amor incondicional.

Bess acaba por ter uma morte que é no fundo uma libertação, em que ela escolhe viver e morrer segundo os seus próprios termos.

3. Conclusão:

Desde sempre que o cinema consegue transmitir os anseios, necessidades, emoções e contradições do homem e, deste modo, pela relação diferida que estabelece com o público, transforma cada nova obra numa possibilidade de crítica, análise ou simples espectáculo. Muitas das personagens são construídas para transmitirem o ponto de vista do realizador, sendo por vezes de tal forma "reais" que é quase impossível ficar-lhes indiferente. É este o caso da personagem Bess de "Breaking the Waves".

Esta personagem feminina concentra em si quase toda a acção e força-nos a pensar nas questões que Lars Von Trier coloca no écran, através dela. Assistir ao escrutínio de Bess provoca uma reacção imediata, seja ela de atracção ou repulsa, mas o importante é que nos leva a sentir, pensar e tomar uma posição.

Perante a crítica de que o realizador procura, mais uma vez, diminuir a figura da mulher, podemos refutá-la dizendo que Bess é uma personagem forte, com ideias próprias, (apesar de ser vista como uma "fraca" por todos) que ousa transgredir as regras e opor-se àquilo com que as outras mulheres compactuam. E aqui entramos na questão da sanidade versus loucura, quem é o verdadeiro "louco"? aquele que escolhe agir livremente ou aquele que compactua com diversos tipos de fundamentalismo? Neste caso podemos concluir que Bess é mais sã do que todos os outros. Ela tem a coragem de fazer, dizer e perguntar aquilo que os outros não têm e de exprimir totalmente as suas emoções.

Após o acidente do marido Bess mostra-se activa e assume a responsabilidade da sua pequena família, é como se ela se transformasse no "homem da casa", ficando com uma posição equivalente à figura masculina, e isso a ideologia patriarcal não perdoa.

Contudo, apesar de ser condenada como má, prostituta e transgressora, comprova-se no fim do filme que afinal Bess é boa, virginal e leal. Mas, o patriarcado não dá hipótese de rever aquilo que está tradicionalmente instituído.

Toda a história é escrita por homens e mulheres, confirmando-se aquilo que tão sabiamente Teresa de Lauretis escreveu: "women are all but absent from history and cultural processes".10

Por tudo o que foi exposto, considera-se que a representação da mulher na obra de Von Trier "Breaking the Waves" não pretende dar continuidade à visão tradicional, criticada pelas feministas, que mostra a mulher como fetiche e como um ser que existe na sombra do homem, mas exactamente o contrário, ou seja, a mulher é representada como um ser sexual, com desejos e vontades, que luta por aquilo em que acredita, apesar dos vários obstáculos que a sociedade lhe coloca. O objectivo é agitar as mentalidades para o fundamentalismo, seja ele de que tipo for. Não seria de esperar outra coisa de Lars Von Trier.

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1 Kuhn, Annette (1982); The power of the image; London: Routledge, p.77

2 Laspley, R. e Westlake, M. (1992); Film Theory: an introduction; Manchester: Manchester University Press, p.25.

3 Kaplan, Louise (1991); Female Perversions ; New York : Doubleday, p.528

4 Zerilli, Linda (1994), Signifying Woman, London: Cornell University Press, p.1

5 que Julia Kristeva descreve como "law of the father" in Kristeva, Julia (1986), About Chinese Women, New York: Columbia University Press, p.154

6 Kuhn, Annette (1985); The power of the image : Essays on representation and Sexuality; London: Routledge, p.426.

7 Segundo as normas rígidas da comunidade religiosa, as mulheres não podiam fazer-se ouvir dentro da igreja. Numa cena passada no interior da igreja Bess sussurra para o avô: "stupid that only man can talk at the service", horrorizado ele responde: "hold your tongue, woman". Nestas linhas de diálogo podemos perceber que Bess se questiona sobre aspectos que as outras mulheres da comunidade nem sequer se atrevem a pensar e, por outro lado, é perceptível o reforço do desprezo na palavra "woman" utilizado pelo avô como que se referindo a uma criatura inferior que não sabe o que diz.

8 Kaplan, Louise (1991); Female Perversions; New York: Doubleday, p.528

9 Lauretis, Teresa de (1984); Alice Doesn´t; Bloomington: Indiana University Press

10 Lauretis, Teresa de (1984); Alice Doesn´t; Bloomington: Indiana University Press

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