Ana Lourenço,

Rita Agostinho e Teresa Teixeira

3ş ano do Curso de Comunicação Social

 

 

 

É um dos jornalistas portugueses mais premiados. Esteve na Bósnia, debaixo de fogo, em Timor, cuja experiência lhe valeu a escrita de um livro, e mais recentemente, esteve no Afeganistão. Arriscou várias vezes a vida, chegando por vezes a sítios onde mais nenhum jornalista conseguia chegar. Por vezes crítico, por vezes defensor, Hernâni Carvalho não poupa palavras para caracterizar o panorama do jornalismo em Portugal.

F. M. - Como é que começou a sua carreira?

Comecei a fazer rádio e, há 12 anos, entrei para a redacção da RTP.

F. M. - Que balanço faz da sua experiência como repórter de guerra em Timor?

Tem de ser um balanço positivo. Acho que o investimento foi grande. Foi um grande risco ficar lá. Hoje podia ter uma estátua, mas estar debaixo de terra. Graças a Deus não tenho a estátua mas...

 

 

F. M. – Considera esse investimento gratificante?

É, é gratificante...

 

 

F. M. - Neste contexto, é possível falar com isenção e objectividade?

É. Eu acho que o jornalismo português deu uma grande lição, precisamente em Timor. Ao contrário do que as pessoas dizem, os jornalistas portugueses, em Timor, ouviram as partes. Normalmente, não é muito fácil principalmente numa zona de guerra, mas eu acho que o jornalismo português deu uma grande lição de jornalismo ao mundo porque em Timor ouviram as milícias, ouviram os indonésios, ouviram o governo indonésio, ouviram as Nações Unidas, ouviram o governo português, portanto foram bastante imparciais. Eu reconheço que havia uma emoção nacional com Timor, mas no terreno os jornalistas deram voz a toda a gente, portanto eu acho que foram extremamente isentos. Acho que foi uma grande lição de jornalismo.

 

F. M. - Ou seja, o jornalismo português está a evoluir?

Eu não sei se está a evoluir. Sei que há grandes valores no jornalismo aos quais muitas vezes as pessoas não deram o devido valor. As escolas de jornalismo que existem em Portugal são muito recentes, têm 10 anos, se tanto. O jornalismo em Portugal já se fazia com muito empenho antes do 25 de Abril, quando havia uma censura quase férrea e havia trabalhos fabulosos que os estudantes de Comunicação Social deviam ler, nomeadamente nas entrelinhas da "Bola". Eu acho que o jornalismo português é rico, obviamente que deve evoluir e que está a crescer, mas em relação a dizer que o jornalismo português está melhor eu tenho muitas dúvidas. Há que aprender essa escola que ele pode dar origem. De certa forma em alguns sítios ele está pior. O Big Brother, na TVI, não é prova da evolução do jornalismo.

F. M. - Acha sinceramente que o jornalismo português ainda vai demorar muitos anos até chegar ao jornalismo, por exemplo, do tipo da Sky News, CNN?

Eu rezo todos os dias a Nossa Senhora, e não acredito em Nossa Senhora, mas rezo-lhe todos os dias para que o jornalismo português nunca chegue à CNN, porque a maior mentira da história é rigorosamente o jornalismo da CNN.

F. M. - Acha então que as grandes cadeias televisivas são em parte uma farsa?

Acho que a CNN é uma farsa. Os jornalistas da CNN, quando chegam ao local, já decidiram o que é que vão dizer. É só o cenário.

F. M. - Então é premeditado?

É e é muito condicionado. A CNN trabalha muito com os interesses, quer económicos da CNN, quer estratégicos dos EUA.

F. M. - No jornalismo que desenvolveu em Timor qual foi a situação que o marcou mais em termos emocionais?

 

Foi ver crianças e mulheres, algumas delas grávidas, serem atiradas para cima de arame farpado para salvarem a vida. As pessoas mandavam os filhos para cima do arame com quem manda papeis.

F. M. - Nessa altura o papel de jornalista foi posto um pouco de parte e ficou o homem, a nível de emoção?

Não sei, sei que fiz essas imagens, sei que as mandei de uma forma quase caricata para Lisboa. Sei que elas correram o mundo e portanto por muito que me tenha doído, tive essa sorte, de conseguir não perder a noção de que retratar aquilo era uma forma de denunciar. Se calhar filmei aquilo e depois fui para um canto de lágrima no olho, mas filmei aquilo.

 

F. M. – Quanto aos outros jornalistas, a nível mundial, acha que houve essa sensação por parte deles ou houve mesmo uma passividade, uma imparcialidade, uma frieza?

Em Timor não houve frieza nenhuma. Toda a gente tinha jornais de todo o mundo, dos sítios mais recônditos do planeta e as pessoas indignavam-se porque não havia uma guerra em Timor. No Paquistão há uma guerra, no Afeganistão há uma guerra, x pessoas de um lado e x pessoas de outro lado. Em Timor havia um exército, ou melhor, havia umas milícias que eram ajudadas por um exército que agrediam um povo. As FALINTIL estavam fechadas á chave nas montanhas e não conseguiam sair de lá, obedeciam ao Xanana e deixaram que as populações fossem dizimadas nas cidades.

F. M. - Então teve um papel socializante em Timor ?

Sem dúvida. O jornalista teve um papel denunciador.

F. M. - Moderador?

 

Denunciador, não creio que tenha sido moderador. Foi extremamente denunciador

"Faz-se todo o tipo

de jornalismo em Portugal..."

F. M. - Acha que os jornalistas portugueses sentiram, de forma diferente dos jornalistas estrangeiros, que Portugal podia fazer mais do que estava a fazer?

Eu tenho dúvidas que Portugal pudesse fazer mais e não creio que os jornalistas portugueses tivessem essa sensação, não naquele momento. De facto o que os jornalistas portugueses sabiam é que havia uma relação emocional. Mas o que os jornalistas portugueses tinham de mais valia é que conheciam a realidade, conheciam de facto a realidade. A Maria Rezas, penso que é assim que ela se chama, da CNN, e isto revela um bocado o espírito da CNN, chegou a Timor e fez um vídeo no dia em que chegou e que dizia assim: "Aqui em Timor o problema é muito simples: de um lado existem as milícias, do outro lado as FALINTIL e no meio o exército indonésio a evitar que eles se guerreiem.". Ora isto é a maior mentira da história. Isto revela por um lado o know how que a CNN muitas das vezes tem sobre os assuntos, isto é, ela quando foi tinha já a certeza de tudo o que se passava e não se preocupou em investigar nada. Nessa perspectiva os jornalistas portugueses tinham uma mais valia: individualmente cada um deles estaria ou não emocionalmente envolvido com aquilo. Os jornalistas em Timor estudaram, pesquisaram, ouviram as partes.

 

F. M. - Sente-se privilegiado por ter estado em Timor?

A nível profissional talvez seja uma experiência bastante diferente. Sendo um jornalista de guerra, não acho que a experiência de Timor seja uma experiência muito enriquecedora.

 

F. M. - Foi a sua melhor experiência jornalística?

De todo.

 

F. M. - Voltaria a fazer o mesmo?

Claro. E eu vim agora do Afeganistão. Eu fui o primeiro jornalista a entrar no Afeganistão, na zona dos Talibã.

 

F. M. - E que experiências retirou dessa reportagem? Foram semelhantes a Timor?

Nunca é a mesma experiência. Eu estive na Bósnia-Herzegóvina debaixo de fogo e a experiência não é a mesma. Estive em Timor debaixo de fogo e a experiência não é a mesma. Estive em Islamabad, quando ninguém lá conseguia entrar, e a experiência não é a mesma. Cada terra, cada realidade dá-nos uma experiência diferente. Cada história é uma experiência e cada grande história é uma experiência.

 

F. M. - Depois de todo o trabalho jornalístico que realizou em Timor o que ficou para contar para sentir a necessidade de escrever um livro?

Escrever um livro sobre Timor foi, essencialmente, poder desabafar sem o espartilho do colete de repórter. Aí sim eu disse rigorosamente aquilo que pensava sem ter que estar preocupado com a forma jornalística. Mas não na perspectiva de forma do texto mas, essencialmente, nas questões deontológicas e de imparcialidade. Aí disse rigorosamente o que pensava.

"Acho que o jornalismo em Portugal começa a estar dependente em excesso da orientação das empresas que o tutelam e isso é perigoso."

F. M. - Golfo, Timor, Afeganistão, três conflitos armados. Houve diferença no tratamento jornalístico?

Houve. No Golfo, o mundo foi condicionado pelos americanos. Em Timor, a realidade foi superior às condicionantes, isto é, o mundo tinha uma opinião quase de desprezo sobre aquilo. "Aquilo" eram 800 mil pessoas. No mundo que nós conhecemos 800 mil pessoas não significa nada, mas depois, de repente, 1/3 da população foi liquidada. Aqui a emoção do mundo foi condicionada pela atitude dos muçulmanos, ou pelo menos daqueles muçulmanos. São realidades completamente diferentes. Mas o mundo é, obviamente, condicionado pelas grandes cadeias. Não há dúvida.

 

F. M. - Qual é a sua opinião relativamente à formação ministrada nos estabelecimentos do ensino superior em Portugal, relativamente à área de Comunicação Social?

Eu acho que há muito boas escolas de Comunicação Social em Portugal. Não há é boas escolas de jornalismo mas isso é uma questão de tempo, temos que esperar.

 

F. M. - Não haverá, por parte das instituições, entidades e das próprias autoridades, uma falta de intervenção?

Eu não tenho essa opinião. A maioria das pessoas quando não há solução para as coisas diz que o governo é que tem de resolver e eu acho que é rigorosamente o contrário. A sociedade é que tem que saber o que quer. A questão é esta e isto é tão ridículo quanto isto: não deixam entrar os estudantes portugueses na universidade para o curso de medicina com menos de 18 valores, mas deixa-se que os médicos espanhóis entrem sem se saber com que média é que eles entraram.

 

F. M. - Mas muitos dos jornalistas que estão a exercer a profissão não são pessoas formadas em jornalismo e há muitos jornalistas formados em jornalismo que estão no desemprego. Talvez por isso os mais novos não têm lugar...

Hoje em dia há um problema de formação. Ninguém enriquece no jornalismo. Os juristas, os homens com formação na área das ciências, também têm lugar no jornalismo porque há áreas que precisam de especialidades.

 

F. M. - Defende então que no jornalismo é necessário dar lugar a um vasto conjunto de pessoas de diferentes profissões para lhe dar uma visão mais completa?

Eu defendo que uma licenciatura em Comunicação Social não é condição sine qua non para ser jornalista. Há excelentes jornalistas que nunca foram formados em Comunicação Social. Não há antigos jornalistas com licenciatura em Comunicação Social porque isso existe apenas há dez anos.

"Quanto mais autónoma é uma entidade jornalística, mais jornalística ela é. Quanto mais depender do poder económico ou político, menos objectiva é."

F. M. - Qual é a sua formação?

Eu sou licenciado em Psicologia e doutorado em Sociologia.

 

F. M. - Que tipo de jornalismo se faz hoje em Portugal e qual a sua opinião sobre esse tipo de jornalismo?

Faz-se todo o tipo de jornalismo em Portugal e muito bom jornalismo, mesmo muito bom. Há jovens a sair da universidade com uma capacidade muito forte de trabalhar, com uma vontade muito grande, com uma ambição muito grande. Há condições muito boas para que as pessoas progridam e depois há jovens que se estão a sujeitar ás condições que o mercado impõe. Portanto eu acho que há mesmo muito bom jornalismo em Portugal mas também muito mau. Não me parece que o jornalismo em Portugal esteja mal ou que a próxima geração seja má. O que está em causa aqui e o que pode ser perigoso são as condições de mercado. Um jovem que chega ao mercado de trabalho e que tem todas as condições para ser um bom jornalista, mas que por via de excesso de oferta para o que o mercado precisa, começa por ganhar menos do que devia, é, se calhar, facilmente manipulado pelo poder económico, e isso, é que é complicado.

 

F. M. - Considera, por exemplo, que se faz na TVI é um jornalismo sensacionalista? Acha que tem qualidade?

O jornalismo que se faz na TVI é muito tablóide. Mas é uma opção da direcção.

 

F. M. - A introdução do Big Brother no espaço diário da informação é jornalismo?

Não, não é jornalismo e tanto que já foi retirado. Já não há Big Brother no Telejornal, mas isso são opções editoriais. Houve jornalistas que se recusaram a fazer esse tipo de trabalho e há outros que se sujeitaram sob pena de não fazerem mais nenhum.

 

F. M. - A RTP sempre se manteve à parte desses sensacionalismos e por causa disso os níveis de audiência baixaram e, como consequência, a TVI conseguiu aumentar a sua audiência.

O povo português não é uma entidade muito culta, muito preparada. O sensacionalismo não é propriamente jornalismo. É uma exploração mediática de um determinado facto. Não havia jornal nenhum que fosse capaz de tirar audiências ao "Correio da Manhã" mas o "24 Horas" tirou.

 

F. M. - Acha que o jornalismo em Portugal está muito dependente dos directores de informação e também de um certo gosto do mercado?

Acho que o jornalismo em Portugal começa a estar dependente em excesso da orientação das empresas que o tutelaram e isso é perigoso.

 

F. M. - Então o jornalismo não vive para a qualidade mas sim para a quantidade?

Algum, nem todo. Na SIC, na RTP, no Público, no Diário de Notícias, há excelentes redacções.

 

F. M. - O que é que tem que mudar tendo em linha de conta o processo de globalização em curso?

Quanto mais autónoma é uma entidade jornalística mais jornalística ela é, quanto mais depender do poder económico ou político menos objectiva é.

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