A Laranja Mecânica

A odisseia de um Estranhoamor nascido para matar

 

A. Jorge Montezinho, André Amaral,

Carlos Figueiredo

4 º Ano do Curso de Comunicação Social

 

 

Prefácio

Klockwork Kubrick

(How I Learned to Stop Worrying and Love the Maze)

 

Negar. Denegar.

Kubrick é sinónimo de aporia. Viajamos de incerteza em incerteza, em círculo fechado, labirinto sem Ariadne, perseguidos pelos Minotauros do olhar.

A Clockwork Orange, "Aventuras de um jovem cujas principais inclinações são a violência, a violação e Beethoven" (as palavras da campanha publicitária) é mais um (e ainda) círculo fechado.

Encerrados no labirinto mental de Alex, os espectadores vão progressivamente passando de vítimas imoladas a elementos de um Coro da Tragédia Grega que clama vingança, observa, horroriza-se e revê-se.

Alex, novo Teseu, novo Ulisses, novo Dante, entra no labirinto, viaja (buscando-se a si mesmo) e passa do Céu ao Inferno, num êxtase soturno e satírico, num olhar rasgado e réprobo, até passar a 655321.

A viagem, o Topos da viagem, que nega e denega, cria e recria o castigo, destrói e constrói o crime, faz-nos entrar no labirinto do social.

Metáfora de si mesma, a viagem/percurso pela iconoclastia surge acompanhada por Guilherme Tell, ou Beethoven, entre a repulsa e o fascínio.

Cinema libertário, liberto ou livre?

O nosso olhar não está, de todo, livre.

Kubrick encerrou-nos numa catarata visual, visionária e de experiência, da palavra violenta à violência ela própria. E surge o dilema: qual a violência mais reprovável? A do Estado ou a dos jovens?

Que olhar nos oferece Alex? Ambos. Tal como diferente é a visão que temos de cada um dos seus olhos. E este não é um pormenor meramente estético. Trata-se de uma chave ideológica que nos abre as portas para os níveis da consciência.

Num estilo compósito, de olhares estilhaçados, a cena explode simultaneamente em cada plano, em cada palavra (em cada língua – "nadsat"), em lobotomias estilizadas, de leituras assimétricas, com um Alex/ Satanás / Lúcifer / Anjo Caído / Anjo Maldito, acusado e acusador, devorador e devorado.

E de novo o olhar. O olhar da máscara de Carnaval, o olhar/ilusão, de um voyeur polifacetado que nos encerrou num labirinto. Ou que nos disse que o labirinto somos nós.

 

Dr. Luís Miguel Cardoso

Curso de Comunicação Social - ESEV

 

Introdução

 

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) é uma escolha que pode levantar dúvidas e levar a questões da mais diversa índole. O seu realizador, Stanley Kubrick, é apontado por muitos como um símbolo da desconstrução da realidade. Por outros é tido como a consciência mor de uma sociedade que caminha, apressadamente, para a extinção de valores e da própria humanidade.

Perseguido por críticas hostis, Kubrick viria a afirmar que: "Ainda que exista uma grande hipocrisia a respeito da violência, todas as pessoas estão fascinadas por ela. Afinal, o homem é o assassino mais cruel que jamais pisou o planeta". E é esta violência, filmada de maneira condenatória e nunca apologética, que Kubrick nos mostra de maneira crua.

Laranja Mecânica é um filme de antecipação, centrado nas "aventuras de um jovem cujas principais inclinações são a violência, a violação e Beethoven". Sendo um regresso ao triângulo sexo/violência/morte que o realizador já abordara em filmes anteriores (com Lolita e Dr. Estranho Amor como referências incontornáveis).

O filme actualiza e encerra de maneira definitiva a questão da violência e dos laços que a ligam ao cinema e a todas as suas formas de quase teatro em que o filme se desenrola. Foi com esmero que Kubrick trabalhou a vertente visual, com o uso perfeito da câmara lenta e das grandes angulares.

Proibido em vários países, devido à suposta apologia da brutalidade que veiculava (Burgess, o autor do livro que deu origem ao argumento, defendia que: "mais vale optar pela violência do que não optar por nada")), o filme tornou-se polémico por descrever um futuro, não muito longínquo, onde os procedimentos violentos se exercem desde as mais altas esferas do Governo sobre os cidadãos.

A acção acompanha o percurso expiatório de Alex, que vai da imaginativa prática do mal (com todas as suas nuances, e liderando um gang) à prisão. Depois de encarcerado, e já conhecido como 655321, Alex transforma-se numa espécie de angelical alter-ego e deixa-se submeter a um tratamento (o Processo Ludovico), que o limpa de todos os seus instintos agressivos (mesmo os de autodefesa), em troca da redução da pena.

Segue-se uma segunda fase em que Alex paga, com o corpo, todo o mal que fizera (a vingança das suas vítimas segue-se, em desfile) e a sua recuperação institucional ao mais alto nível, após uma reviravolta política. "Crime, castigo e recompensa" parece ser o espírito norteador desta metáfora sarcástica e iconoclasta, mas terrivelmente verdadeira, sobre a ironia inerente à relatividade e transitoriedade dos factos e às prerrogativas do poder.

Revisto nos nossos dias, Laranja Mecânica revela-se como uma obra premonitória, imbuída, passados trinta anos (recorde-se que o filme é de 1970), do culto niilista e radical da violência e da destruição que hoje vem ao de cima, e demasiado frequentemente, durante as manifestações anti-globalização, só para dar um exemplo.

Ao mesmo tempo, Laranja Mecânica está para lá desta análise linear do argumento e do filme. Não nos podemos abstrair da obra total de Kubrick nem podemos considerar cada filme como um pedaço isolado, desligado da criação global. Não podemos esquecer que a mais complexa e completa obra cinematográfica dos últimos cinquenta anos é do mesmo autor: 2001 Uma Odisseia no Espaço. Seria redutor interpretar Laranja Mecânica como uma mera crítica da violência.

Toda a filmografia de Kubrick aponta para o "herói" solitário que deambula, perdido, por labirintos que são tecidos à sua volta. Geralmente não consegue controlar o destino que o aguarda, e de dédalo em dédalo vai tentando procurar uma saída. Saída esta que pode apenas significar seguir a sua vida. Um labirinto é a analogia perfeita de quem se encontra perdido, de quem não vislumbra as entradas e as saídas.

Ao mesmo tempo, e para lá de toda a iconoclastia e crítica da humanidade que Kubrick nos legou, os seus filmes labirínticos, fechados, sem que se vislumbre o princípio ou o fim, propõem o universo como algo circular, a esfera perfeita, um infinito que se prolonga no reflexo especular dos espelhos que o ladeiam.

Demiurgo, excêntrico, génio, muitas são as palavras usadas para descrever Kubrick ou para adjectivar a sua obra. Os seus filmes e os seus argumentos proporcionam análises detalhadas e complicadas, muitas vezes sem que se vislumbrem soluções. São obras perfeitas de fruição e interpretação individual. Tentaremos não deslustrar a obra do mestre.

 

Pergunta de partida

Será "A Laranja Mecânica" um elogio à violência ou um manifesto contra a mesma e contra a estrutura social contemporânea?

 

Sinopse

Numa Inglaterra vagamente futurista e atingida por uma importante crise social, um jovem, Alex DeLarge, chefe de um bando, vive de diversas rapinas apesar da vigilância policial de que é objecto. Com os seus companheiros, os Droogs, prossegue as suas escapadas criminosas: moer de pancada um mendigo; guerra entre gangs; assalta uma casa isolada onde vive um escritor de esquerda, violação da esposa e sova violenta no homem. Todas as suas acções são conduzidas num tom trocista não desprovido de uma certa consciência estética.

De regresso a casa, Alex recebe a visita de um delegado da assistência social, ser abjecto, que o avisa que se acautele com a sua violência. Depois deste sair, Alex entrega-se à sua distracção favorita: a música de Beethoven que escuta religiosamente. Por fim, arranja duas jovens "apanhadas" num Drugstore com quem organiza uma mini orgia.

No dia seguinte, quando os membros do seu bando começam a estar fatigados da sua tirania, ele condu-los a casa de uma mulher só, a mulher dos gatos, que assassina, em virtude da forte resistência que esta lhe opôs. Quando está para fugir é traído pelos Droogs e a polícia prende-o.

Condenado a uma pesada pena, a sua hipocrisia atrai as boas graças do capelão, quando ele apenas sonha com violência e fornicação. Astuciosamente aceita prestar-se ao tratamento Ludovico. Esta terapia de choque foi aperfeiçoada por médicos para libertar o país dos delinquentes. É um método de lavagem ao cérebro que anula todo o livre-arbítrio na vítima. Este tratamento, destinado a fazer abominar a violência e o espectáculo da violência àquele que a praticava tem perfeito êxito. Mas um erro de programação torna igualmente insuportável a Alex a música de Beethoven.

Liberto, Alex volta para casa onde os seus pais já o substituíram por um valentão presunçoso. Excluído, rejeitado, perdido, vagueia por Londres e sofre em contrapartida a violência que usara no passado. Vítima da vingança dos mendigos, depois da dos seus antigos camaradas de novo colaboradores da polícia, amachucado, ferido, refugia-se por acaso na casa do escritor de esquerda. A mulher tinha morrido em consequência da violação e o escritor está paralítico em virtude das pancadas recebidas. Este reconhece o agressor e entrevê ao mesmo tempo a possibilidade de se vingar e de criar problemas ao governo empurrando Alex para o suicídio.

A Nona Sinfonia de Beethoven que Alex preferia vai ser o instrumento desse plano: de facto, ao escutá-la, Alex atira-se pela janela.

Mas sobrevive e por sua vez é o governo conservador que conta utilizar o jovem contra a oposição. No hospital tratam-no, prestam-lhe todos os cuidados e fazem-no entrever um futuro promissor. Alex concorda hipocritamente, bem decidido a utilizar a sua nova posição para satisfazer o seu gosto de violência e sexo.

 

Premissa

E se existisse um método cientifico que permitisse metamorfosear as personalidades violentas de modo a reintegrar estes indivíduos na sociedade?

 

Pitch

Alex, um jovem como tantos outros que adora sexo, violência e Beethoven.

 

Story-line

Alex e o seu gang de malfeitores percorrem as ruas de Londres roubando e violentando pessoas.

Quando é capturado pela polícia enfrenta a dureza e crueldade do sistema prisional.

O inovador tratamento Ludovico é para ele uma hipótese de reconquistar a liberdade.

Ao regressar às ruas, Alex enfrenta as consequências dos actos violentos do seu passado.

No final, a sua astúcia impera sobre as contradições políticas da sociedade.

 

Análise do argumento

Estudo das personagens

As personagens fulcrais do filme e a sua respectiva caracterização, estudo das mudanças ao longo da acção e papel desempenhado é, de seguida, esquematizado no seguinte quadro:

 

Personagem

Caracterização da personagem

Mudança

Papéis desempenhados

Alex

Cerca de 18 anos; estudante; violento; marginal; dandy; líder; inteligente; arrogante; hipócrita; melómano; predador sexual; anti-clerical; sociopata; inadaptado; sarcástico; cruel; narcisista; iconoclasta: exibicionista; manipulador; galanteador; amoral; imoral.

Devido a uma influência externa (Tratamento Ludovico), Alex perde os seus instintos agressivos. Passa de agressor a vítima, é usado e violentado física e psicologicamente. Perde o amor próprio. No final, recupera a sua agressividade inata.

Protagonista.

Georgie

Cerca de 18 anos;

subserviente; cérebro da traição; esperto; violento; cobarde; ambicioso; calculista; vingativo; invejoso.

Ao trair Alex assume a liderança do grupo e mais tarde agente da autoridade.

Antagonista.

Dim

Cerca de 18 anos; bruto; subserviente; corpo da traição; violento; cobarde; pouco inteligente; animalesco; imitador; verborreico.

Deixa de estar sob a alçada de Alex para passar para a alçada de Georgie, transformando-se, mais tarde, igualmente em agente da autoridade.

Comic relief/ oponente.

Pais de Alex (Em e Pee)

Cerca de 50 anos; classe média baixa; despreocupados; desleixados; imbecis; ignorantes; passivos; crédulos; traidores; instáveis.

Inicialmente não têm consciência do comportamento do filho; renegam-no quando Alex sai da cadeia, para o aceitarem de volta no final.

Oponentes.

Mr. Deltoid

Cerca de 50 anos; assistente social; ambicioso; cruel; ridículo; falso moralista; libidinoso; vingativo; cobarde.

Perde a esperança na recuperação de Alex e regozija-se com isso.

Oponente.

M. Alexander

Cerca de 60 anos; escritor; marxista (opõe-se ao governo); manipulador; traumatizado; cruel; vingativo; sarcástico; inteligente.

Depois de ser violentamente atacado por Alex, serve-se deste como um instrumento de luta contra o poder e procura vingança pessoal contra ele.

Oponente.

Ministro

Cerca de 60 anos; símbolo da incongruência de um governo conservador; manipulador; diplomático; inconsciente; hipócrita.

Sempre por interesse político passa de defensor a acusador do "Tratamento Ludovico".

Adjuvante.

Chefe da Guarda

Cerca de 50 anos; disciplinado; homem do sistema; subserviente; descrente no "Tratamento Ludovico"; conservador; histriónico.

Não apresenta mudanças, permanecendo incrédulo na recuperação de Alex.

Oponente.

Alex – frases como "one thing I could never stand is to see a filthy, dirty, old drunky…" (pág.1) e "… the old surprise visit, that was a real kick, and good for laughs and lashing of the ultra-violent" (pág. 3) representam bem o espírito violento, cruel, sociopata, imoral e amoral de Alex. A sua inteligência e sarcasmo estão bem patentes na seguinte expressão : "Naughty, naughty, naughty, you filthy old soomaka" (pág. 17). Capturado pelas autoridades e já na prisão, Alex mantém a sua personalidade inalterada, como mostra o diálogo com o capelão (págs. 28, 29 e 30).

Ele é então o alvo experimental do "Tratamento Ludovico", um processo turtuoso e emocionalmente destrutivo, como comprovado pela seguinte expressão de Alex: "Let me be sick…I want to get up. Get me something to be sick in. Stop the film…please stop it…I can’t stand it anymore. Stop it please…please".

Depois de submetido ao "Tratamento Ludovico", Alex é devolvido à sociedade e é segregado até pela sua família (págs 45, 46, 47, 48 e 49).

A sua infelicidade leva-o a um suicídio frustrado mas, já no hospital, Alex parece ter recuperado os seus instintos violentos e de predação sexual: "Oh, it was gorgeousity and yummy, yum, yum. I was cured.(…) I was cured alright" (pág. 69).

Georgie – Esta personagem, membro do gang liderado por Alex, é o cérebro da traição que o conduzirá à cadeia e à perdição. Num diálogo com Alex à porta do seu prédio, Georgie expressa o seu descontentamento pelo comportamento agressivo e pouco ambicioso do líder do grupo: "Brother, you think and talk sometimes like a little child" (pág. 14).

Mais tarde entrega Alex à polícia, depois do assalto à "Health Farm" da "Catlady", e torna-se ele próprio num agente da autoridade. Já nesse papel encontra Alex a ser espancado por um conjunto de velhos vagabundos e, juntamente com Dim, levam-no para um arrabalde e ameaçam-no (pág. 52).

Dim – É o comic-relief do filme pelo seu comportamento idiótico e infantil: "Hello Lucy. Had a busy night?" (pág. 6), falando com a máquina do leite no bar Korova. Ajuda Georgie a trair Alex e, tal como ele, torna-se agente da autoridade.

Pais de Alex – São duas personagens inconscientes e desinteressadas em relação ao comportamento do seu filho: "Well, like he says, it’s mostly odd things he does, helping like… here and there, as it might be" (pág. 9).

Depois de Alex ter sido preso, os pais alugaram o seu quarto a Joe. Conscientes do erro que fizeram, visitam Alex no hospital e tentam retractar-se e juntar de novo a família (págs. 62 e 63).

Mr. Deltoid – È uma personagem ambiciosa, que não quer ver o nome de Alex na sua lista de falhanços (págs. 9 a 11). A sua ridicularidade é demonstrada nessa mesma cena, onde bebe água de um copo onde está guardada uma dentadura postiça.

Depois de Alex ter sido capturado pela polícia, Deltoid visita-o na prisão onde demonstra estar satisfeito com o modo brutal como ele foi tratado pelos inspectores e detectives (págs. 19 a 21).

M. Alexander – É um escritor marxista que é atacado pelo gang de Alex, que o deixam paralítico e acabam por provocar a morte da sua esposa (págs. 3 a 5).

Mais adiante, Alex vem ter a sua casa por engano e é identificado por ele como sendo o violador da sua mulher. Alexander tenta então aproveitar-se dele para atingir os seus objectivos políticos (págs. 52 a 62).

Ministro – Encontra-se com Alex pela primeira vez na cadeia, onde este tenta convencê-lo a ser o primeiro a experimentar o revolucionário "Tratamento Ludovico" (págs. 30 a 33).

No final, visita Alex no hospital e oferece-lhe um bom emprego em troca do apoio dele ao seu governo: "As I was saying, Alex, you can be instrumental in changing the public verdict. Do you understand, Alex? Have I made myself clear?" (pág. 68).

Chefe da guarda – É o conservador chefe da guarda da cadeia onde Alex está encarcerado. Nunca acredita na sua possibilidade de recuperação, como está demonstrado na seguinte afirmação: " A right brutal bastard he has been, and will be again. In spite all his sucking up to the prision chapelain and reading the Bible" (pág. 35).

 

Estrutura do filme

O filme possui uma estrutura clássica, podendo ser dividido em três actos separados por dois plot-points, como se demonstra no quadro seguinte:

Actos/ Plot-Points

Acções

Acto I

Alex toma "leite" com os seus Droogs no bar Korova; o grupo ataca um vagabundo debaixo dum viaduto; o grupo confronta-se com um gang rival liderado por Billy Boy; roubam um carro e assaltam a casa de M. Alexander, violando a sua mulher e agredindo-o violentamente; Alex volta a casa e ouve a Nona Sinfonia de Beethoven, sendo visitado por Mr. Deltoid no dia seguinte; dirige-se a uma "drugstore" onde engata duas jovens que participam com ele numa mini-orgia; o grupo entra em conflito com Alex; Alex agride Dim e Georgie pela sua insurreição; decidem assaltar a casa da "catlady" e Alex acaba por assassiná-la.

Plot-point 1

Alex é traído pelos seus companheiros e é capturado pela polícia.

Acto II

Alex é condenado a 14 anos de prisão; na cadeia enfrenta a arrogância do Chefe dos Guardas; conquista as boas graças do capelão pela sua hipocrisia; durante uma visita do Ministro do Interior à cadeia consegue convencê-lo a deixá-lo ser submetido ao "Tratamento Ludovico"; Alex é entregue aos cuidados do Dr. Brodsky, apesar da relutância do Chefe dos Guardas da cadeia.

Plot-point 2

Alex é submetido ao "Tratamento Ludovico"

Acto III

 

 

 

Acto III (cont.)

Inadvertidamente, o "Tratamento Ludovico" cria em Alex um horror à Nona Sinfonia de Beethoven; Alex é apresentado em público como uma vitória do sistema político contra a violência; é libertado e, ao chegar a sua casa, vê que os seus pais o substituíram por Joe, um presunçoso locatário; triste, vagueia pelas ruas e é reconhecido pelo vagabundo que anteriormente tinha atacado e é espancado por este e, mais tarde, pelos seus antigos companheiros, agora membros da polícia; perdido, acaba por se refugia em casa de M. Alexander, que o reconhece e resolve pôr em prática a sua vingança contra ele e contra o governo; impelido pelo horror à Nona Sinfonia de Beethoven, Alex tenta-se suicidar; acaba por sobreviver e acorda num hospital onde está a ser alvo dos melhores cuidados por parte do governo; reconcilia-se com os seus pais e o Ministro do Interior oferece-lhe um cargo com um futuro risonho; Alex diz-se "curado", pronto para voltar a perpetrar os desvarios do passado.

Como se pode verificar através da análise do quadro acima apresentado, os Plot-points apresentam-se como pontos fulcrais de viragem na acção do filme. No caso do Plot-point 1, quando Alex é apanhado pela polícia passa a estar privado da liberdade de movimentos e de acção que lhe permitiam actuar de forma violenta. Apesar disso, a sua personalidade mantém-se intacta até ao momento em que é escolhido para ser submetido ao "Tratamento Ludovico" (Plot-point 2), momento em que o seu temperamento é profundamente afectado. A partir daí, Alex passa de violentador a vítima, sendo alvo de uma vingança "maquinada" por parte da sociedade ferida (o espancamento por parte dos vagabundos e dos seus companheiros Georgie e Dim).

O filme toma então contornos de uma fábula de crime e castigo pouco convencional, mas o clímax do filme, que corresponde ao momento em que se tenta suicidar, cria um aparente (e falso) final. A partir daí, tudo o que nos foi mostrado antes acaba por ser profundamente alterado: a personalidade violenta de Alex volta a manifestar-se e, numa irónica conjugação de factores, a personagem reconcilia-se com a sua família e com a sociedade hipócrita, personificada na pessoa do Ministro do Interior.

Em suma, o filme fecha-se em círculo – característica própria da obra de Stanley Kubrick – , visto que a personalidade e o temperamento de Alex se mantêm inalterados, contando este agora com a conivência do Governo e da sociedade que o tentou mudar. Afinal o crime compensa...

 

Opiniões pessoais

Por Carlos Leandro de Figueiredo

É sempre difícil falar sobre um filme do qual se gosta tanto. Se, por um lado, existem razões objectivas para o afirmar tais como o virtuosismo da realização, a excelência das actuações e a grande admirador pelo seu realizador, Stanley Kubrick, existem outras razões, menos palpáveis, para explicar esse gosto.

"A laranja mecânica" é, tal como o seu antecessor na filmografia de Kubrick, "2001: odisseia no espaço", uma experiência cinematográfica sem paralelo. È puro cinema, numa simbiose perfeita entre imagem e som – a montagem está perfeitamente ritmada de acordo com as tonalidades da banda-sonora. A mise-en-scéne é extraordinária, todos os movimentos dos actores no espaço são totalmente controlados para se conseguir o melhor enquadramento. A sucessão de momentos fulgurantes de cinema é inclassificável: a cena da luta entre os gangs no teatro abandonado, o êxtase de Alex ao ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven, a tortura e o horror do "Tratamento Ludovico"...

É uma obra única porque nos faz sentir, paradoxalmente, repúdio e carinho por Alex, um verdadeiro anti-herói que incarna os males da sociedade. Ele é a materialização dos nossos instintos e pulsões mais reprimidos, é um ser para além da moral, pois nunca tem consciência de bem e de mal. Um demónio À solta nas ruas que se diverte com o sofrimento alheio e que agarra o espectador ao ecrã.

O filme é uma história de crime e castigo, de ascensão, queda e redenção, percorrido por uma iconoclastia e humor negro únicos. Kubrick transforma uma sátira aos desequilíbrios da sociedade moderna numa narrativa picaresca acerca do lado negro da existência e comportamento humanos. A violência e o móbil de todas as acções de Alex e, para ele, violência é sinónimo de prazer - a própria Nona sinfonia transporta-o para ilusões orgiásticas e imorais.

Todos os elementos da obra de Stanley Kubrick estão aqui presentes: a circularidade das formas visíveis (o círculo dos prisioneiros na cadeia, o olho de Alex) e invisíveis (o círculo como elemento de organização do espaço e a circularidade da própria narrativa); o fascínio pelas formas labiríticas (o círculo é também uma forma labiríntica, a Londres labiríntica que conduz Alex sempre de encontro às mesmas personagens e locais); o cérebro humano vs a máquina ( a luta de Alex contra a máquina e contra as maquinações do governo e o maquinal "Tratamento Ludovico"); o fetichismo pelo olho humano (os grandes planos do olho de Alex e o próprio filme inicia-se com um zoom out a partir dos olhos dele); e a paixão pelas personagens que perpetram ou convivem com a violência (Alex é violento tal como Dave Bowman que lobotomiza HAL 9000 em "2001: odisseia no espaço", como Redmond Barry amante dos duelos de pistola em "Barry Lyndon", como Jack Torrance acometido por uma loucura assassina em "Shining" ou como o Private Joker transformado em assassino em "Nascido para matar").

"A laranja mecânica" é, por tudo isto, uma obra de extremos, bela e repugnante, cómica e trágica em partes iguais, um filme único, inesquecível e essencial para a compreensão do cinema e da sociedade moderna

 

Por André Costa Amaral

"A laranja mecânica" é uma visão desapiedada da sociedade num futuro próximo, em que gangs de adolescentes aterrorizam as ruas de Londres. Interessados apenas no roubo e na violação.

Alex, a personagem principal do filme, ao ser capturado pela polícia, sujeita-se ao Tratamento Ludovico numa forma de alcançar a liberdade através de um processo que tem como objectivo transformar um indivíduo violento (os seus interesses são sexo, violência e Beethoven) num cidadão modelo totalmente indefeso.

Kubrick realizou assim uma obra que pode ter interpretações políticas, sociológicas, filosóficas e acima de tudo interpretações psicológicas devido ao seu grande símbolismo.

Conforme afirmou Stanley Kubrick "Alex é daqueles personagens que pela lógica seria incapaz de atrair qualquer tipo de simpatia entre o público que assiste ao filme, no entanto ao longo do filme, ele consegue-nos atrair para «o seu lado» e toda a desconfiança e antipatia que pudessemos sentir por ele desaparece" o quase nos força a aceitar e a compreender o seu modo de vida, tanto antes como depois de se submeter ao "Tratamento Ludovico" e até quando no final Alex se torna de novo no indivíduo violento que sempre foi.

 

Por A. Jorge Montezinho

 

Ao iniciar uma análise pessoal ao filme Laranja Mecânica de Stanley Kubrick, não é possível abstrair-me da totalidade da obra do realizador. Kubrick é um autor global, cuja obra não se restringe a um único filme. Há uma panóplia de temas que atravessam a sua filmografia, sendo o tempo e o universo circular duas das premissas inultrapassáveis.

Ao mesmo tempo, Kubrick é um iconoclasta, é sarcástico, irónico, com um sentido de humor perfeitamente estranho e que nos prende desde o início. A sua crítica mordaz não poupa instituições tão díspares como a Igreja, o Estado, o Exército ou a Polícia.

Numa curta análise, Laranja Mecânica é a história de um Jovem, Alex De Large, cujas principais inclinações são a violência, o sexo e Beethoven. Depois de vários actos de "ultra-violence" perpetrados por Alex e pelos seus companheiros, o primeiro acaba por ser traído por eles, o que fará com que seja encarcerado. Começa aí a segunda parte do filme. Depois de cumprir dois anos da pena a que havia sido condenado, Alex oferece-se como voluntário para um processo inovador do governo, o Tratamento Ludovico, após o qual Alex fica incapacitado de exercer qualquer tipo de violência sobre os outros. Para além de não poder ver actos de violência, sofre, igualmente, de incapacidade sexual e, acidentalmente, deixa de poder ouvir Beethoven, o seu compositor preferido. Depois de libertado Alex é vítima da vingança das suas anteriores vítimas, até que, depois de ter sobrevivido a uma tentativa de suicídio, Alex é aproveitado pelo governo para a campanha eleitoral que se adivinha. Em mais um final misterioso, algo em que Kubrick é pródigo, Alex aceita servir o ministro, ao mesmo tempo que lhe deita um olhar pleno de malícia.

O olho e o olhar, o sexo e a violência, o papel do Estado e a maneira pouco democrática como este actua sobre os cidadãos, o gozo com a polícia, todas estas premissas atravessam Laranja Mecânica e obrigam-nos a pensar e a meditar. Todos estes tópicos seriam merecedores de teses autênticas, e Kubrick consegue fazer passar a sua mensagem graças à encenação perfeita, aos planos fabulosos, ao uso único que dá à câmara lenta, a uma direcção de actores incrível e à utilização da música, muitas vezes para dar um toque de humor ao filme (como a composição Guilherme Tell, usada para a cena da orgia em plano acelerado; ou a marcha Pompa e Circunstância que irrompe quando o ministro faz a sua aparição).

Na minha análise pessoal, Kubrick é um dos poucos realizadores marxistas, ainda mais do que os cineastas neo-realistas. Nunca precisou de assinar manifestos ou de marchar em protestos para assumir a sua ideologia que aparece de forma sub-reptícia na sua filmografia. Marx, que sempre assumiu a luta do proletariado contra a máquina capitalista, vê esta mensagem impressa nos filmes de Kubrick, uma vez que os seus heróis lutam, igualmente, contra as várias máquinas que a sociedade coloca nos seus caminhos, sejam elas a máquina política, a máquina militar, a máquina religiosa, ou mesmo a máquina capitalista. Ao mesmo tempo, a sexualidade, a libertação máxima do ser humano, e por isso mesmo tão reprimida pela Igreja e pelo Estado, surge nos filmes de Kubrick como catarse libertadora de preconceitos e maquinações, do que Eyes Wide Shut é o exemplo perfeito.

Sobre Kubrick disse Claude Michel Cluny (Dictionnaire du Cinéma) : « o que é evidente, quando se revê o conjunto da obra, é que não apenas ela nunca aparece como ilustração de uma tese, mas, pelo contrário, na sua complexidade e na sua diversidade, como uma criação visionária e pessimista de uma rara intensidade poética. Nada do que é inquietante na natureza humana lhe é estranho".

A este nível, e embora não seja propriamente um poeta do macabro, Kubrick e o seu universo poderiam, com relativa facilidade, integrar um círculo composto por autores como Polanski, Lynch, Cronenberg ou mesmo os irmãos Coen.

Habitualmente Kubrick faz-nos acompanhar o percurso errante e expiatório de homens solitários que arriscam tudo nas mãos da sorte, em circunstâncias que lhes são adversas. A lista de exemplos é interminável. Tanto pode ser o gladiador revolucionário que dá o título a Spartacus, como o professor de meia-idade que a tudo se sujeita para poder estar junto da adolescente por quem se sente obcecado em Lolita. Ou a personagem sinistra e megalómana que é o Dr. Estranho Amor, ou o astronauta dominado pelo computador em 2001, ou Alex, diabólico marginal com um toque de classe, qual bola de futebol de um jogo político, ou o igualmente oportunista e arrivista Barry Lyndon, movendo-se entre um casamento de conveniência, alguns jogos de salão e muitos duelos. Ou em Shinning, o escritor em início de carreira, disposto a passar seis meses com a mulher e o filho isolados do mundo pela neve, num gigantesco hotel assombrado, que o vai transformar num ser demoníaco, mas que o atrai irresistivelmente desde o primeiro momento. Ou a aventura de um jovem durante a recruta, e logo a seguir na selva do Vietname em Nascido para Matar, ou ainda o Dr. William, um ser desfeito pelas dúvidas que o atormentam em relação à sua mulher e à sua própria sexualidade em Eyes Wide Shut... Nem heróis exultantes nem perdedores desencantados, antes um misto dos dois, um ser híbrido, reflexo dos arquétipos platónicos ou dos Minotauros que volteiam nos labirintos.

Conclusão

Para começar, podemos tentar responder à pergunta de partida, tendo em conta tudo o que foi referido anteriormente. Não era intenção de Stanley Kubrick, segundo as suas próprias palavras, criar um filme pró-violência. Muito pelo contrário, tal como já tinha feito em "Horizontes de glória" e mais adiante em "Nascido para matar", Kubrick desejava condenar a violência, afirmando-se como um anti-belicista convicto. Contudo, o humor negro do filme foi interpretado de forma errada, pensamos, como sendo elogio da violência.

A refinada crítica política e social feita ao sistema e ao status quo por ele imposto, foi mal entendida pela generalidade do público, talvez pela própria conclusão do filme, na qual o protagonista acaba por se transformar num protegido do governo e, consequentemente, do sistema.

Quanto à premissa que apontámos, a existência de um sistema capaz de alterar o comportamento e instinto humanos é, depois da leitura do argumento, posta de parte visto que Kubrick nos mostra que a artificialidade do "Tratamento Ludovico" não se consegue sobrepor à força dos instintos humanos. Tudo isto porque a sociedade, umas vezes condenadora, outras conivente, acaba por permitir que comportamentos aberrantes como os de Alex existam. O "Tratamento Ludovico", versão tecnológica e científica do exorcismo clássico (o objectivo é "tirar o mal do corpo"), acaba por ser tão ineficaz e tão ilusório como as palavras ocas do seu predecessor. A metamorfose da personalidade deve ser acompanhada de uma metamorfose profunda da sociedade.

Depois de realizarmos a leitura do argumento, e servindo-nos de elementos plasmados mais tarde na sua versão cinematográfica, podemos afirmar que "A laranja mecânica", apesar da importância fulcral do elemento imagético, dá um grande enfoque aos diálogos. Desde a voz-off do protagonista, que nos vai relatando e orientando através da história, até aos hilariantes comentários de Mr. Deltoid, Dim e do Chefe da Guarda, os diálogos constituem um suporte essencial para o desenrolar deste filme. São também um elemento essencial na caracterização das personagens: Alex, por exemplo, é dono de um sarcasmo inteligente, enquanto que Dim é tudo menos dotado pela palavra, limitando-se a repetir incessantemente o que ouve dizer aos seus companheiros. Pelo seu humor e inteligência, os diálogos são providos de inúmeros significados – Kubrick aproveita na totalidade a língua "nadsat" criada por Anthony Burgess, autor do livro. Cada frase tem múltiplas significações, tudo deve ser lido nas entrelinhas e descodificado em busca do real sentido.

Esta é uma característica Kubrickiana. A intriga, o mistério do que é dito e visto, do que não é dito e do que não é visto. A necessidade quase obsessiva do perfeccionismo posto na fase de preparação e na rodagem dos seus filmes. Há uma tentativa de apresentar, com cada filme, uma nova proposta que deseja baptizar (ou levar a níveis inalcançados) cada género carismático ou tipificado do cinema (Kubrick só não abordou o género Western). Kubrick cria modelos e formas recriando os géneros e o próprio cinema como um todo, gerando obras que, mais do que meros filmes, são marcos perenes na história do cinema. É o prazer e a necessidade da descoberta e da génese de novos limites para o cinema, imbuído na demiurgia que o define como um dos maiores cineastas da história.

No espaço de um plano, dentro do seu enquadramento cauteloso e calculado, Kubrick procurava filmar o Universo, capturá-lo, cristalizá-lo nos fotogramas das suas obras, como que, talvez inconscientemente, escrevendo um gigantesco testamento artístico para toda a Humanidade e para toda a Eternidade.

Como diria um dos seus discípulos, admirador confesso, Steven Spielberg exorta as qualidades artísticas de Kubrick afirmando: "Stanley era o grande mestre do cinema. Ele nunca copiou ninguém, ao passo que todos nós lutávamos por imitá-lo".

Ficha técnica

 

A laranja mecânica (A clockwork orange) (Grã Bretanha, 1971)

 

Produção: Stanley Kubrick, Warner Bros. Oak Films, Polaris Productions

Co-Produção: Bernard Williams

Produtor executivo: Max L. Raab, Si Litvinoff

Produtor assistente: Andros Epaminondas e Jan Harlan

Realizador assistente: Derek Cracknell e Dusty Simonds

Argumento: Stanley Kubrick segundo o romance de Anthony Burgess, "A clockwork orange"

Director de fotografia: John Alcott (Warner Color)

Design: John Barry

Director de cenografia: Russel Hagg e Peter Shields

Pintura e Escultura: Herman Makkink, Corneilius Makkink, Liz Moore e Christiane Kubrick.

Música original: Walter Carlos

Música: Beethoven "9ª sinfonia", Edward Elgar "Pompa e circunstância marchas 1 e 4", Rossini "La gazza ladra" e "Guilherme Tell", Terry Tucker "Overture to the Sun", Purcell "Música para o funeral da rainha Mary", Jam Yorkston "Molly Malone", Arthur Fried e Nacio Herb Brown "Singing in the rain" por Gene Kelly, Rimsky-Korsakov "Sheherazade", Erika Heigen "I want to marry a lighthouse keeper".

Som: Brian Blamey

Montagem: Bill Butler

Guarda-roupa: Milena Canonero

Conselheiro técnico: Jon Marshall

Ditos: Roy Scammel

Distribuição: Warner Brothers

Duração: 137 minutos.

Intérpretes: Malcolm McDowell (Alex DeLarge), Patrick McGee (M. Alexander), Michael Bates (chefe dos guardas), Warren Clarke (Dim), John Clive (o actor), Adrienne Corrii (Mme. Alexander), Carl Duering (Dr. Brodsky), Paul Farrell (o vagabundo), Clive Francis (Joe, o locatário), Michael Gover (o director da prisão), Miriam Karlin ("catwoman"), James Marcus (Georgie), Aubrey Morris (Mr. Deltoïd), Godfrey Quigley (o capelão da prisão), Sheila Raynor (mãe de Alex), Madge Ryan (Dr. Branon), John Savidant (amigo de M. Alexander), Anthony Sharp (o ministro), Philip Stone (pai de Alex), Pauline Taylor (psiquiatra), Margaret Tyzack (amiga de M. Alexander), Steven Berkoff (o comissário), Lindsay Campbell (um inspector), Michael Tarn (Pete), David Prowse (Julian), Jan Adair, Vivian Chandler e Prudence Drage (criadas), John J. Carney (um inspector), Richard Connaught (Billy Boy), Carol Drinkwater (Mme. Feeley, enfermeira), Cheryl Grunwald (rapariga violada), Gillian Hills (Sonietta), Barbara Scott (Marty), Virginia Wetherell (a actriz), Katya Wyeth (uma rapariga), Barry Cookson, Gaye Brown, Peter Burton, Lee Fox, Craig Hunter, Shirley Jaffe e Neil Wilson.

 

Biografia de Stanley Kubrick

 

Stanley Kubrick nasceu a 26 de Julho de 1928 no Bronx, em Nova Iorque. Os seus pais eram judeus da Europa central, sendo que o seu pai, um médico prestigiado, cedo o iniciou no jogo do xadrez e, aos 13 anos, ofereceu-lhe a sua primeira máquina fotográfica - uma Graflex - no seu aniversário. Estes seriam dois dos seus principais interesses ao longo da vida, estando presentes também ao longo da sua obra. Outra das suas paixões era o jazz e o seu sonho de se tornar em baterista profissional. Aos dezassete anos abandona o ensino liceal, com uma média deveras medíocre (67%) - as únicas boas notas que tinha eram nas disciplinas ligadas às ciências. Devido à chegada de muitos jovens vindos da frente de combate em 1945, Kubrick não conseguiu entrar para a universidade.

Ainda durante a sua época de estudante tornou-se no fotógrafo oficial da escola. Em Abril de 1945, Kubrick fotografou um vendedor de jornais em cuja capa se anunciava a morte de F.D. Roosevelt, tendo vendido este instantâneo por 25 dólares à revista "Look". O seu professor de inglês, Aaron Traister, desenvolveu o seu gosto pelas peças de Shakespeare e, especialmente, pelo desempenho de múltiplos papéis, característica que se reflectirá, mais tarde, nos seus filmes. Uma amiga sua, Helen 'Brien, ajudou-o a entrar na revista "Look" como fotógrafo, onde trabalhou durante quatro anos. Numa reportagem chegou mesmo a vir a Portugal, acompanhando um casal famoso mas, contudo, Kubrick decidiu orientar a sua máquina para as belezas e o pitoresco da vila da Nazaré, do que para os rostos dos famosos.

Analisando a sua obra, podemos encontrar as lições que retirou dos seus três gostos principais: o xadrez (apurou-lhe o sentido do abstracto, o seu raciocínio meticuloso e a consciência de que um movimento errado pode ser fatal), a fotografia (permitiu-lhe desenvolver o sentido da colocação da câmara, do enquadramento, da manipulação da luz, das cores e tonalidades e a paixão pelos efeitos visuais) e o jazz (desenvolveu-lhe o sentido do ritmo, influenciando a sua visão da relação entre o som e a imagem e sobre o modo como esses vectores afectam o processo de montagem).

Em 1949 Kubrick, juntamente com a sua primeira esposa, Toba Metz, mudam-se para Greenwich Village. Aí, desenvolve-se a sua paixão pelo cinema ao frequentar assiduamente as sessões do Museu de Arte Moderna, despertando-o para os problemas e dilemas formais desta arte. Nessa altura, afirmou que "Eisenstein é só forma sem conteúdo, enquanto que Chaplin é só conteúdo sem forma". Kubrick achava que o cinema deveria combinar um grande trabalho ao nível técnico com um cuidado especial ao nível narrativo. Em 1950 estava determinado a tornar-se realizador de cinema, enquanto que passava os seus tempos livres a jogar xadrez em clubes de Manhattan e na Washington Square, revelando-se um dos melhores jogadores da cidade. Através de um seu antigo colega, Alexander Singer - companheiro inseparável nas suas (muitas) idas ao cinema - Kubrick teve a sua primeira oportunidade para realizar um filme, corria o ano de 1951, produzido pela "March of Time", produtora que apostava na realização de curtas-metragens documentais. O sujeito do seu primeiro documentário foi o boxeador Walter Cartier, que Kubrick já havia fotografado para a "Look", num artigo intitulado "Prize fighter". O resultado foi um filme de 35 mm, "Day of the fight", cuja banda sonora foi composta por Gerald ried, amigo do realizador. O filme foi então vendido por 4 mil dólares à RKO que, depois da desintegração da "March of Time", lhe ofereceu mais mil e quinhentos dólares para realizar um outro documentário, "The flying padre" (1951). Depois da violência do boxe e dos dilemas de um lutador antes e depois de um combate, Kubrick enveredava por um registo mais suave, mostrando a vida de um padre nova-iorquino que se deslocava de avião entre as paróquias (aqui está presente a aviação, outra das paixões do realizador).

Dois anos depois, em 1953, realiza o seu último documentário: "The seafarers", centrando-se no quotidiano de um sindicato de marinheiros. No mesmo ano despede-se da "Look" e envereda na realização da sua primeira longa-metragem, "Fear and Desire". Tendo recolhido 9 mil dólares junto da família e amigos, com um argumento escrito por Howard Sackler, um amigo de Greenwich Village, Stanley Kubrick partiu para as montanhas de San Gabriel, perto de Los Angeles, para iniciar a rodagem com a sua mulher e com um grupo de amigos. Os custos elevados de montagem levaram a que o filme se tornasse mais caro e que o dinheiro nunca viesse a ser recuperado. O filme teve uma recepção boa entre os críticos, facto que o encorajou a realizar um segundo filme, para o qual recolheu 40 mil dólares, de novo junto da família e amigos, especialmente graças a Morris Bousel, um farmacêutico. "Killer's kiss" foi rodado em 1954 nas ruas de Nova Iorque, montado e misturado durante um período de dez meses e tendo no elenco a sua segunda esposa, Ruth Sobotka. Mais uma vez a crítica reconheceu os méritos do seu realizador, mas a recepção junto do público foi muito fraca e Kubrick não conseguiu recuperar o dinheiro investido.

Um encontro com James B. Harris deu novo ânimo à sua carreira, tendo ambos fundado a Harris-Kubrick Pictures. Juntos produziram "Um roubo no hipódromo", em 1956, um investimento de 200 mil dólares da United Artists, concedido graças à participação de um actor bem conhecido do público - neste caso, Sterling Hayden, que tinha confiança no jovem realizador. Esta obra, recuperando o estilo do film noir, relata a história de um roubo realizado por um grupo de bandidos pouco convencional, com uma montagem rápida e eficiente que chamou a atenção de Dore Schary, produtor da MGM. Este convidou Harris e Kubrick a escolherem um dos romances sobre os quais o estúdio tinha direitos para adaptação a filme. Acabaram por pegar no romance de Humphrey Cobb para produzirem "Horizontes de glória" (1957), um filme ambientado na I Guerra Mundial, com Kirk Douglas a liderar o elenco. Por razões orçamentais, o filme é rodado no estrangeiro, não em França devido à sensibilidade do assunto, mas na Alemanha, nos excelente estúdios de Munique. Este estudo brutal da insanidade na frente de combate, um manifesto anti-belicista que é considerado como um dos melhores filmes sobre a guerra e um dos melhores exemplares do talento de Kubrick.

Depois desta obra, Kubrick trabalha durante meio ano com Marlon Brando em "Cinco anos depois" (1961), um western que, devido às más relações entre o actor principal e o realizador, acabou por ser dirigido por Brando (o seu único filme como realizador, até à data). Com o final da década de 50 assiste-se à ascensão de um novo tipo de cinema-espectáculo, épicos de dimensões estrondosas e de orçamentos inimagináveis, numa tentativa de lutar contra a fama crescente da televisão. Em 1960, Kirk Douglas pede a Stanley Kubrick que substitua Anthony Mann por detrás das câmaras em "Spartacus", uma superprodução de 12 milhões de dólares onde o realizador aprendeu como funciona o cinema de Hollywood, longe das liberdades autorais dos seus filmes anteriores. Apesar de não ter podido modificar o argumento e dos atritos constantes com algumas das estrelas (os desaguisados entre Laurence Olivier e Charles Laughton são já míticos), o filme foi um grande sucesso de bilheteira e de crítica, dando a Kubrick a liberdade financeira e, por consequência, criativa, que tanto desejava.

Harris e Kubrick voltam a juntar-se para a adaptação de "Lolita", o polémico romance de Vladimir Nabokov que relata a paixão adúltera de um professor por uma rapariga menor de idade. Ao autor da obra foi pedido que escrevesse o argumento do filme, o qual, depois de alguma renitência inicial, acaba por escrever um guião de 400 páginas, depois reduzido para metade a pedido de Kubrick. O projecto era polémico e, para evitar o controlo doentio dos estúdios norte-americanos, "Lolita" é rodado em Inglaterra, nos estúdios de Shapperton, país onde Kubrick se irá instalar definitivamente. Já em 1966 dirige "Dr. Estranhoamor", poderosa metáfora do controlo do mundo pelas duas potências nucleares, com Peter Sellers a representar três papéis e com George C. Scott, também ele um fã do xadrez que, nos intervalos da rodagem, jogava com Kubrick. Esta obra confirma o seu realizador como um dos principais valores do cinema americano e mundial, graças à sua vião metódica e mordaz da realidade, do seu meticuloso trabalho de câmara e de iluminação, do seu gosto pelas situações limite e pelos temas mais polémicos, tratando-os sempre com um refinado sarcasmo.

É, contudo, com "2001: uma odisseia no espaço" que Kubrick se torna, definitivamente, no maior e mais imaginativo criador do cinema contemporâneo, uma obra mítica que, ainda hoje, despoleta inúmeras discussões acerca do(s) seu(s) significado(s). Apaixonado pela ficção científica e pela possibilidade de existência de vida extraterrestre decidiu, em 1964, realizar um filme sobre o assunto, chamando para esse efeito um dos maiores escritores do género, o célebre Arthur Charles Clarke. Escreveram um guião baseado na obra "The sentinel", um conto de Clarke, colaborando de forma permanente com diversas entidades científicas oficiais como a NASA e a Lockheed, tal como com cientistas de renome - Carl Sagan, ainda jovem, propôs-lhes que não mostrassem os seres extraterrestres, criando apenas a sugestão da sua presença. Os conflitos entre os argumentistas são quase constantes, mas as rodagens iniciam-se rapidamente e, em tão somente 4 meses, Kubrick filma as sequências com os actores. O restante ano e meio de filmagem foi dedicado à criação de centenas de planos de efeitos especiais, muitos deles criados pelo próprio realizador com a colaboração de Douglas Trumbull, responsável, mais tarde, pelos efeitos especiais de "Encontros imediatos do terceiro grau" e "Blade Runner - Perigo Iminente". A montagem do filme é terminada durante a viagem de combóio para Los Angeles, local da antestreia. Kubrick acabaria por retirar cerca de 20 minutos à versão original do filme, reduzindo-o para os 141 minutos da versão final. A obra foi um estrondoso sucesso crítico e de bilheteira, um momento raro de cinema, com a magistral sequência final do (re)nascer do Homem e da Humanidade a abrir inúmeras portas, um filme que influenciou e despertou o interesse de milhares de pessoas para a sétima arte, que acordou os talentos latentes de muitos cineastas.

Depois deste colosso cinematográfico, Kubrick sonhava já com a adaptação da tortuosa vida de Napoleão Bonaparte para a tela, projecto que, por razões financeiras, nunca se concretizaria. No Verão de 1969 o realizador lê "A laranja mecânica", romance polémico do escritor britânico Anthony Burgess, inspirando-o para a recriação das aventuras e desventuras de Alex, um jovem membro de um gang, apaixonado pela violência e pelas sinfonias de Beethoven. Trabalhando sozinho na adaptação da obra, Kubrick inicia as rodagens do filme em 1970 em grande excitação, filmando em estúdio e em exteriores na Inglaterra, país onde se fixou permanentemente com a sua mulher Christiane, uma pintora e actriz de pouco relevo que participou, por exemplo, em "Horizontes de Glória". Obra de "notável criação visual", foi proibido em alguns países, entre os quais a Inglaterra, devido à sua violência e conteúdo sexual potencialmente chocantes. Confirmando-se como um dos filmes mais impressionantes alguma vez feitos, "A laranja mecânica" é uma sinfonia de luz e cor de uma beleza incomparável.

Face à impossibilidade de filmar o tão desejado "Napoleão", Kubrick envereda pela adaptação do romance de William Makepeace Thackeray, intitulado "Barry Lyndon", uma odisseia picaresca que percorre grande parte da história do séc. XVIII europeu e mais de quatro países diferentes. Eliminando episódios como as revoluções americana e francesa do seu guião, Kubrick cria uma obra sumptuosa, de uma beleza plástica rara, muito graças à maravilhosa fotografia de John Alcott, baseando-se no trabalho dos pintores da época e utilizando música de compositores coevos: J.S. Bach, Mozart, Händel e Schubert são os eleitos. Esta história de ascensão e queda de um charlatão, amante dos duelos, do jogo e da vida boémia é uma das suas obras mais perfeitas, se bem que uma das menos divulgadas.

Em 1975, ano em que "Barry Lyndon" sai nos cinemas, a Warner Brothers envia-lhe o livro de Stephen King "The shining", obra que lhe desperta o interesse. Minucioso e perfeccionista, Kubrick demora quatro anos a adaptar o romance, contando com a colaboração de Diane Johnson, também ela escritora e professora universitária, especialista em Freud, Bettelheim e Lovecraft. Rodado no ambiente fechado dos estúdios de Elstree, claustrofobia que, aliás, percorre horizontalmente o filme, "The shining" é uma obra-prima do terror, apostando na profundidade psicológica induzida pela lenta metamorfose emocional de Jack Nicholson. Apesar das suas qualidades estéticas e narrativas, o filme foi um insucesso, estando agora a ser alvo de um aprofunda reavaliação crítica, à imagem de quase todas as grandes obras da história do cinema.

Só sete anos depois, em 1987, Kubrick regressa à actividade ao lançar o seu épico sobre o Vietname "Nascido para matar", adaptação do romance "Short-timers" de Gustav Hasford. "Apocalypse now" (1979) poderia ter sido seu, mas Coppola filmou a obsessão da viagem em busca do Coronel Kurtz antes dele. Oliver Stone deu também o seu contributo em 1986 com o aclamado "Platoon: os bravos do pelotão". Kubrick chegou tarde ao Vietname mas, nem por isso, chegou fora de tempo. "Nascido para matar" mostra, como nenhum outro filme, o processo de transformação dos jovens recrutas norte-americanos em máquinas de matar sem escrúpulos, dominadas pela viciosa estrutura dos EUA, aqui denunciada de forma sublime. Filmado numa zona em ruínas nos arredores de Londres - o filme é, aliás, um filme-ruína, feito de edifícios destruídos e de homens psicologicamente despedaçados e fragmentados - servindo-se de aquecedores para evitar que os actores tivesses pele de galinha.

Quando se pensava que Kubrick já se tinha afastado da realização, volta à carga nos anos noventa com "Eyes wide shut" (1999), projecto longuíssimo cuja rodagem durou 18 meses, obrigando o casal de protagonistas, Tom Cruise e Nicole Kidman, a alugar casa em Inglaterra. Para surpresa do mundo cinéfilo e cultural, Stanley Kubrick morre a 7 de Março de 1999, Domingo negro para os seus fãs e para o seu filme. A Warner Bros, produtora da obra, afirmou, e continua a afirmar, que o realizador completou a montagem do filme pouco antes de morrer. Obra incompleta, mas nem por isso imperfeita, "Eyes wide shut" não deixa de ser um filme profundo e envolvente, 100% kubrickiano a todos os níveis. Sabe-se, contudo, que o realizador costumava fazer muitas alterações aos seus filmes, até poucos dias antes da sua estreia. Verdade ou não, o filme saiu no Verão de 1999, constituindo "um digno capítulo final" (Roger Ebert) para uma obra ímpar na história do cinema. Filme de uma perfeição estética extrema, com uma fotografia sumptuosa e uma planificação cuidada, esta é, apesar de tudo o que se possa dizer, uma verdadeira obra de Kubrick.

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