A Rádio e a Imprensa

Marisa Batista

4º Ano de Comunicação Social

 

A comparação entre estes dois media torna-se pertinente na medida em que partilham um elemento de grande cumplicidade, ou seja, a informação. Como a Imprensa foi a primeira forma de mediatizar os conteúdos bastava-lhe o seu nome para a distinguir. Todavia, actualmente é mais vulgar designá-la de Imprensa escrita, porque o termo Imprensa começou a caracterizar os media que tratam a informação, o que acontece tanto em Rádio, como em Televisão e nos próprios Jornais. Certo é que o jornalista que na antiguidade era pertença da Imprensa escrita, actualmente, é comum a todos os meios de comunicação, apenas tem que moldar o seu discurso às características do medium que integra.

No entanto, esta evolução não foi assim tão linear. É necessário ter em conta que o advento de Gutemberg viveu a sua idade de ouro até que um novo meio de comunicação surgiu, a Rádio. «Na maior parte dos países ocidentais, a imprensa recebe o choque desta concorrência inédita num momento em que está enfraquecida.» (JEANNENEY, 1996:133). Surge, então, a Rádio como um medium caracterizado pela imediatez, pela proximidade da voz, pela sua sonoridade simbólica, capaz de distrair e informar, num momento em que a informação tinha perdido parte da sua credibilidade. Segundo LAMIZET (1999), depois da II Guerra Mundial, a Rádio veio superar a Imprensa, quando esta tinha perdido parte do seu prestígio, devido às numerosas marcas de censura e de desinformação. Foi, efectivamente, neste cenário que a Rádio se afirmou e começou a fidelizar o seu público.

Como em relação a tudo, as preferências do público divergem, por isso, podem optar por tirar partido da escrita informativa ou então podem fidelizar-se à informação falada da Rádio. Actualmente, a nível nacional já conseguimos ter Rádios e Jornais para todos os gostos, desde os mais sensacionalistas àqueles que tentam ser relativamente isentos. De qualquer forma a Rádio tem a vantagem de não exigir a deslocação ao quiosque como acontece com quem quer ler o Jornal, já que as publicações on line, ainda não atingiram as regalias do público, pelo que não parece ser muito cómodo ler um Jornal no ecrã ou ter que clicar nos títulos para aceder à notícia completa. Por isso, a Rádio evidencia-se como um medium à medida das necessidades do público. Segundo MCLUHAN (1996) as notícias à hora certa, as informações sobre o tráfego e sobre o tempo, agora servem para enfatizar o poder do rádio de envolver as pessoas umas com as outras. A Rádio, através da sua linguagem, afecta as pessoas, agita as consciências, chama a atenção para as necessidade de reter as linhas principais da quantidade de informação que circula.

 

«O rádio possui o seu manto de invisibilidade, como qualquer outro meio. Manifesta-se a nós ostensivamente numa franqueza íntima e particular de pessoa a pessoa, embora seja, real e primeiramente, uma câmara de eco subliminar cujo poder mágico fere cordas remotas e esquecidas.» (MCLHUAN, 1996:339).

Assim, a Rádio como meio evidente que é, transparece o seu poder mágico através das ondas sonoras, que abrangem uma vasta área, por isso, mais do que tudo, a Rádio é uma câmara de eco que não atinge o nível máximo das consciências, pela efemeridade com que circula e também pelo desconhecimento que os ouvintes vulgares têm do processo de fabricação da informação sujeita, portanto, à minutagem dos noticiários. Logo, a transparência e evidência da radiodifusão regista-se ao nível daquilo que é divulgado, depois de filtrada a informação ao longo do percurso de triagem natural do processo informativo, referimo-nos à recolha, selecção, redacção e tratamento final.1 «Recolher a informação, verificá-la, seleccioná-la, aprofundá-la, interpretá-la, pô-la em perspectiva constituem um conjunto de mecanismos que supõe uma formação cada vez mais específica e exigente.» (NOBRE – CORREIA,1996:192). Deste modo, a informação deve ser de tal modo trabalhada, para que a sua transparência seja notória, quando é recebida pelo ouvinte, que apenas recebe palavras, sem ter acesso a imagens.

Independentemente do impacto que cada um dos meios de comunicação social em destaque neste capítulo, possa ter no público, a escrita é um elemento imprescindível para a transmissão dos diversos conteúdos informativos. Desta forma o próximo ponto de análise destina-se a evidenciar as estratégias da Rádio e da Imprensa, enquanto meios que veiculam informação, sendo que a escrita é aproveitada de diferente forma e com o mérito equivalente às características de cada meio.

 

Conteúdo e linguagem: semelhanças e diferenças

O conteúdo dos meios de comunicação em geral pode coincidir, porque as realidades por eles retratadas são, normalmente, as mesmas, todavia a linguagem de cada medium depende, em tudo, das suas características. Neste caso, a Imprensa e a Rádio são dois casos completamente distintos pela forma linguística com que atingem o público, ou seja, a sua forma de expressão é característica de cada meio, mesmo que o conteúdo possa ser exactamente o mesmo.

Como já foi referido, anteriormente, apenas, irá ser destacada a informação como elemento comum aos dois media.

O facto de cada indivíduo preferir ouvir as notícias da Rádio ou ler num Jornal tem que ver com as tendências culturais do público. De qualquer forma, é tarefa dos media lutar pela fidelização do seu público. No entanto, existe sempre uma identificação entre os receptores das mensagens mediatizadas por determinado meio de comunicação. Este processo acontece, porque os media fazem transparecer as suas particularidades através dos conteúdos transmitidos e da forma como esses mesmos conteúdos chegam até ao público.

RODRIGUES (1990) defende que os media são técnicas de linguagem, são tecnologias que se adaptam ao público pelo seu discurso, tendo em conta os diferentes quadros culturais que pretendem atingir. De certa forma, acaba por se gerar um ciclo vicioso, na medida em que os media produzem mensagens para captar a atenção do público e este último procura o ou os meios de comunicação com que melhor se identifica e que melhor satisfazem as suas necessidades informativas.

Todavia, independentemente, das características técnicas de cada medium, referimo-nos, por isso, à Rádio e à Imprensa, a escrita é, sem dúvida, uma ferramenta de trabalho incontornável. Que os Jornais chegam até nós, porque contêm palavras, ou seja, são escritos, toda a gente sabe. Mas, apesar de não ser visível o trabalho de redacção de uma Rádio, ele existe e jamais um jornalista ao serviço de uma estação radiofónica edita a informação sem ter escrito o seu texto previamente. «Código escrito y oral son inseparables en la radio.» (HUERTAS BAILÉN & PERONA PAÉZ, 1999:23). No entanto, escrever para um Jornal e para uma Rádio é totalmente diferente. Em Rádio não há tempo para pormenores nem para descrições, à excepção de acontecimentos inesperados. A informação radiofónica visa, em poucas palavras e em pouco tempo, atingir o ouvinte, ao dizer quem faz o quê, quando e onde e, só caso se justifique irá explicar como e porquê. Em quatro questões a notícia está dada e o público conhece o essencial2. Esta é a fórmula mágica para contar a informação ao ouvinte, por forma a que ele não mude de frequência. Por sua vez, a Imprensa escrita necessita de activar um maior número de estratégias. Todos nós sabemos como é que um Jornal pode captar a nossa atenção, a começar pelas «gordas», pelos títulos impactantes, pelo primeiro parágrafo atractivo com uma boa imagem, bem legendada. São estes os elementos que nos fazem entrar no corpo da notícia, se isto não acontecer, ou o assunto não nos interessa ou as estratégias de redacção e gráficas não foram suficientemente chamativas. Bastam, apenas, estes elementos para notar a diferença entre a escrita impressa e a escrita para a radiodifusão. Segundo CÁDIMA (1996) a escrita é materializada pelas diferentes modalidades dos actos de comunicação, isto é, o que na realidade está em jogo é a tecnologia referida anteriormente, que deve ser activada, no sentido de representar o real e transmitir um saber de forma inteligível para o público.

Como tem vindo a ser referido, a escrita é tão imprescindível para a Imprensa como o é para a Rádio, embora de diferentes formas, ou seja, à maneira de cada medium. Os textos que figuram nos Jornais podem ser irónicos ou meramente informativos, mas cada um lê à sua maneira, porém, em Rádio alguém lê para os ouvintes com a entoação pretendida.

 

«Não há muitas maneiras de se escrever "noite", mas Stanislavsky costumava pedir aos seus jovens atôres que a pronunciassem em cinqüenta modos e variantes diferentes, enquanto a audiência ia registando os diferentes matizes de sentimentos e significados expressos por êles.» (MCLUHAN, 1996:97).

Desta forma, os condicionalismos da informação existem, tanto num caso como no outro, no entanto, em Rádio é mais evidente, pelo que a voz proporciona uma maior proximidade em relação ao público para o qual trabalha. O senso comum permite-nos testemunhar esta situação. À primeira vista, a Imprensa escrita parece mais distante do público do que a Rádio, porque a leitura implica um maior nível de atenção e a própria configuração do Jornal faz com que o leitor tenha que se concentrar em diversos elementos para os assimilar. A Rádio é como uma voz que nos conta uma história acessível, que se presume aprazível. De qualquer forma, há tantos amantes do «tambor tribal»3 como da Imprensa escrita, os media é que têm que captar, através de diversas estratégias, a atenção do público.

Enquanto que a Imprensa tem ao seu dispor o espaço necessário para dar a notícia e contar os pormenores, o mesmo não acontece com a Rádio. Ainda que este facto tenha que ver com as características de cada meio, trata-se de uma actividade que está sujeita ao fluir do tempo e, muitas vezes, está na hora do fecho da edição, o Jornal tem que entrar nas rotativas e houve notícias que não foram publicadas naquele número, por falta de dados. Da mesma forma, em Rádio, a falta de tempo faz com que a informação que seria de última hora seja dada de forma superficial num determinado bloco informativo, para ser completada mais tarde. CÁDIMA (1996) defende que existe uma complexidade que o jornalista nem sempre tem tempo de ter. Todavia, esta situação acaba por ser mais facilmente ultrapassada em Rádio, ou porque os blocos informativos são repetidos várias vezes ao longo do dia ou porque é sempre possível abrir uma informação especial, para actualizar, a qualquer momento, o ouvinte. Já em relação à Imprensa não é assim tão simples fazer chegar ao público uma informação complementar ou de última hora, sem esperar pelo próximo número do Jornal, quando muito, poderá actualizar essa informação na publicação on line, se for o caso, o que não significa que atinja o mesmo número de leitores do Jornal impresso. Ainda segundo o autor anteriormente citado (1996), estes desequilíbrios acabam por fazer parte do processo de produção dos media, ainda que devam ser solucionados, todavia, não é num só dia que isso acontece. Ou seja, o profissionalismo há-de ser enriquecido, ao longo dos anos, para que a máxima se traduza no maior número de informações confirmadas, veiculadas de forma correcta no mais curto espaço de tempo.

É por todas estas razões que RODRIGUES (1990) considera que a actualidade pertence à Rádio e não à Imprensa:

 

«A palavra radiofónica (a dos postos periféricos) colou ao acontecimento, à medida que se ia produzindo, de maneira ofegante, dramática, impondo a ideia que o conhecimento da actualidade deixou de ser próprio do impresso, para passar a ser próprio da palavra. A história "quente" no acto de se fazer, é uma história auditiva [...]» (RODRIGUES, 1990:129/130)

 

Basta estarmos atentos à realidade mediática para constatar que as primeiras informações do dia, principalmente, nos centros urbanos, são captadas através da Rádio, depois compete ao público aprofundar essa informação ou através da imagem televisiva ou com os pormenores dos Jornais. «No olvidemos, pues, que la televisión muestra cómo es la noticia, la radio la dice y el periódico la explica.» (MANUEL LÓPEZ, 1994:27). Desta forma, é possível notar como o tratamento dos mesmos conteúdos pode diferir de acordo com o próprio medium.

Por exemplo, um dos elementos que não é comum à Rádio e à Imprensa, contrariamente à escrita, é o directo. Se por um lado, um Jornal pode evidenciar uma imagem parada, mas cujo ângulo foi de tal forma escolhido que consegue monopolizar a atenção do leitor, a Rádio possui uma mais valia, se assim lhe pudermos chamar, ou seja, a proximidade da voz, mais concretamente dos directos com testemunhas nos locais de reportagem e com os protagonistas da história relatada na informação. MINC (1994) sustenta que o directo anestesia o público, subjuga-o e proíbe-lhe, pela sua força, qualquer espécie de recuo relativamente ao que já ouviu.

Por sua vez, se o directo pertence à Rádio e à Televisão, os títulos, a priori, são pertença da Imprensa, ainda que os outros media também possam construir os seus próprios títulos. No entanto, é necessário ter em conta que um título que figura escrito, a negrito ou com cor, normalmente associado a uma imagem, muitas vezes antecedido pelo ante-título e precedido pelo lead, não terá, certamente a mesma repercussão no público como acontece com a voz radiodifundida. RODRIGUES (1990) realça a diferença entre a plasticidade verbal e a plasticidade gráfica. Esta última caracteriza a Imprensa, sendo que, muitas vezes, o leitor não está preparado, nem, tão pouco, sensibilizado para descodificar tal articulação estética e linguística. Por muito que nos custe aceitar a tradição oral é muito anterior à escrita e esta pode ser uma das causas da maior facilidade de percepção das mensagens oralizadas. Outra das raízes que nos parece óbvia, relativamente ao público menos numeroso da Imprensa escrita tem que ver com as práticas culturais das sociedades. De qualquer forma, esta é uma problemática que se prende com questões do foro cultural e sociológico, que não cabem na pertinência deste trabalho de investigação.

A Imprensa e a Rádio voltam a convergir para mais um ponto de semelhança se tivermos em conta a ausência de um orador físico, ou seja, de uma imagem do locutor que transmite a mensagem. Porém, tanto o conteúdo como a linguagem são conciliados no sentido de veicular a informação. Obviamente, que a imagem de quem diz ou quem escreve iria condicionar a recepção dos conteúdos, como tal não acontece, estes dois media funcionam como um todo de equipa. Contudo, em certos casos, a voz pode ser tão impactante como a imagem, o que dificilmente acontece com a Imprensa.

 

«Ce que la radio arrive à réaliser mieux que les médias écrits, c'est la représentation d'un contact direct entre les acteurs politiques et ceux qui les écoutent: elle met en scène une forme de communication intersubjective et privée [...]» (LAMIZET, 1999:34).

 

De certa forma, a Rádio consegue uma proximidade em relação ao público que não é acessível à Imprensa. Independentemente de nenhum dos dois meios de comunicação mostrar a imagem de quem produz a informação, a Rádio, pela força da voz, alcança uma relação que, no fundo, é de pessoa a pessoa, de ouvido a ouvido. A Rádio usufrui de uma menor distância em relação ao Jornal impresso. Segundo o autor anteriormente citado (1999) a informação impressa caracteriza-se por uma distância patente no processo de leitura, a Rádio consegue abolir essa distância, pela forma de comunicação fundada na oralidade e na audição.

Contrariamente ao que possamos pensar, também em Rádio existe um departamento redactorial e também é necessário elaborar a informação de acordo com as diferentes fases de redacção. Em relação à Imprensa já ficou referido no capítulo anterior que a recolha, selecção, redacção e tratamento final são as fases pelas quais passa a informação de forma a constituir notícia.

De acordo com HUERTAS BAILÉN & PERONA PAÉZ (1999) a redacção das notícias radiodifundidas é composta também ela por quatro fases: planificação ou esquema, redacção, revisão e re-elaboração. Assim, a primeira fase diz respeito à selecção das ideias que hão-de fazer o produto final, depois de se traçar esta linha redactorial prossegue-se à redacção. Quando o texto está escrito deve ser lido para ser feita a revisão e se o locutor e o redactor não forem a mesma pessoa, o texto deve ser refeito por quem, efectivamente, vai ler, isto é, deve-se fazer a re-elaboração para que não haja qualquer tipo de interferências na divulgação da mensagem. Podemos considerar que se trata de uma forma mais telegráfica de produzir informação, mas talvez, mais eficaz, pelo facto de se adaptar às rotinas agitadas da sociedade como irá ser referido adiante. A Imprensa escrita exige outros requisitos como o número de páginas e caracteres que são necessários e o jornalista pode ter que acrescentar informação depois de confirmadas e contactadas as fontes, depois de seleccionados todos os elementos que hão-de figurar na notícia, sujeitando-se ainda à configuração gráfica que há-de estar a cargo de outro responsável. Esta forma de funcionamento acaba por estar condensada nos minutos de noticiários radiofónicos, porque pertence a cada medium a sua forma de produção.

Independentemente do meio de comunicação em causa, interessa comunicar, não de qualquer forma, mas em sintonia com o público que lê, vê ou ouve. «El buen comunicador sabe que cualquier hecho, cualquier historia, cualquier vida son interesantes, siempre y cuando se expliquen de una forma que motive y estimule la atención del oyente. » (HUERTAS BAILÉN & PERONA PAÉZ, 1999:43). Na realidade interessa, tanto num caso como noutro, ser bom comunicador e transmitir a informação de forma clara e coerente de modo a não ferir susceptibilidades, para que o público continue a considerar cada órgão de comunicação social com a credibilidade que lhe é digna.

 

Algumas considerações finais

Cada media tem um nível de aceitação de acordo com a forma que cativa o público. Pelo facto de a Televisão usufruir da imagem não significa que o público só seja adepto daquilo que é visivelmente perceptível, porque muitas pessoas identificam-se mais ou menos com o Jornal impresso ou com a Rádio. Mais uma vez, é necessário ter em conta que se trata do background cultural do público. No entanto a palavra verbalizada acaba por ter um maior impacto no público. Como tem vindo a ser referido, a Rádio poupa-nos tempo, conta-nos o que acontece à nossa volta e, assim, temos conhecimento do essencial. RODRIGUES (1990) defende que é na Rádio que os outros media encontram o seu modelo mais perfeito pela forma como chega ao público, com grande facilidade. Como todos sabemos, a sociedade habitua-se a um certo comodismo e a Rádio serve bem estas regalias. Desta forma, o Jornal encontra maiores dificuldades para chegar até aos leitores, enquanto que a Rádio está praticamente em todo o lado, basta premir um botão.

No entanto, devemos considerar que a escrita é imprescindível a todos os media. Apesar da Rádio ser um meio de comunicação caracterizada pela oralidade, o recurso à escrita é inevitável. Segundo CÁDIMA (1996) é, extremamente, difícil proferir um discurso claro, coeso e conciso sem uma base, isto é, sem ter uma espécie de guião escrito que permita exprimir as ideias de forma fluida. Se, por exemplo, em Televisão uma branca pode ser ocupada pela presença da imagem, em Rádio, se existir uma falha quando se está a editar a informação são poucas as formas de resolver a questão, a não ser assumir o erro. Por isso, para que esta situação não se repita vezes sem conta, se os discursos forem produzidos previamente no papel o resultado final será mais positivo. Assim, o tempo que o locutor iria gastar a pensar no que estava a dizer utiliza-o para se preocupar a ler, de forma perceptível, para o público a informação por si redigida anteriormente.

Na realidade os discursos orais têm uma maior receptividade do que as centenas de caracteres da Imprensa escrita, porque a própria natureza humana é fundada nas práticas linguísticas faladas, de onde provêm os hábitos comunicacionais do homem. Assim «... la logique des informations de la presse écrite ne saurait correspondre à celle de la radio, en raison des profondes différences d'usage entre ces deux médias ...» (LAMIZET, 1999:22). O tom coloquial e a proximidade da Rádio fazem dela um medium mais à altura das necessidades do público.

Muitas vezes, podemos pensar que a Imprensa é que «tem selo de garantia» pela sua existência anterior à Rádio. Todavia, a sociedade evolui a um ritmo tal que, a qualquer momento o que agora é actual e moderno amanhã deixa de o ser. Por isso, os meios de comunicação tiveram também que se adaptar ao processo evolutivo das sociedades e a Rádio é talvez o medium que melhor se adapta ao mundo actual. No entanto, conforme refere Sandra Marinho4 os conteúdos radiodifundidos só passaram a ser fiáveis depois dos processos de legislação, que surgiram após a vaga de Rádios piratas, ou seja, depois de 1990. Porém, actualmente a Rádio é tão acreditada como todos os outros media. Este nível de igualdade prende-se com o ajustamento a que todos os meios de comunicação devem ceder para não ficarem na retaguarda da modernidade mediática.

De qualquer forma, não é também pelo facto da Imprensa relatar os grandes momentos da história da humanidade que é portadora da informação mais clara e isenta possível. «Nem tudo o que é posto à venda sob a forma de papel impresso tem a ver necessariamente com a Imprensa...» (NOBRE - CORREIA, 1996:207). Quantas vezes nos passam pela mão Jornais nacionais ou regionais sem qualquer qualidade nem estatuto, mal redigidos, sensacionalistas, enfim, um atentado à nossa língua e ao nosso país. Efectivamente, faz falta um órgão capaz de controlar todas as publicações impressas que circulam com o nome de Jornal. Já que tal não acontece deveria existir uma auto-regulação por parte de cada profissional. Como sustenta MINC (1994), a autocrítica faz falta num sistema, já que não existe nenhuma lei específica que controle a liberdade que caracteriza a Imprensa e, como tal, está sempre segura dos seus direitos e excessos.

Desta forma, os meios de comunicação dão-nos uma imagem do mundo, mas que, muitas vezes, é a imagem que eles têm do mundo condicionada pelos seus interesses económicos, políticos e sociais. Certo é que, apesar do conteúdo que transmitem, os media diferenciam-se da forma como nos transmitem essa informação, ainda que o modo de a obter possa ser semelhante ou em sistema de complementaridade, mediante o que a concorrência produz.

 

Bibliografia

 

CÁDIMA, Francisco Rui – História e crítica da comunicação. Lisboa: Século XXI, 1996.

HUERTAS BAILÉN, A; PERONA PAÉZ, J.J. – Redacción y locución en medio audiovisuales: la radio. Barcelona: Editorial Bosch, 1999.

JEANNENEY, Jean-Noel - Uma História da Comunicação Social. Trad. Catarina Gândara e Ana Isabel Silva. 1ª ed. Lisboa: Terramar, 1996.

LAMIZET, Bernard - Histoire des médias audiovisuels. Paris: Ellipses, 1999.

MANUEL LÓPEZ - Cómo se fabrican las noticias: fuentes, selección y planification. 1ª ed. Barcelona: Ediciones Paidos, 1995.

MCLUHAN, Marshall - Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem. Trad. Décio Pignatari. São Paulo: Editora Cultrix, 1996.

MINC, Alain – O choque dos media. Trad de Carla Fonseca da Costa. Lisboa: Quetzal Editores, 1994.

NOBRE-CORREIA, J.-M. - A cidade dos media. 1.ª ed. Porto: Campo das letras - Editores, 1996.

RODRIGUES, Adriano Duarte - Estratégias da comunicação: questão comunicacional e formas de sociabilidade. 1.ª ed. Lisboa: Editorial Presença, 1990.

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1 Para mais informações consultar CRATO, Nuno - Comunicação Social - A Imprensa. Lisboa: Editorial Presença. 1991. (Caps. 6,7,8,9)

2 Para mais informações consultar o paradigma de Lasswell in SANTOS, José Rodrigues - O que é comunicação. Lisboa: Difusão Cultural, 1992.(pp.22)

3 Termo originário de MCLUHAN, Marshall - Os meios de comunicação como extensões do homem. Trad. Décio Pignatari. São Paulo: Editora Cultrix, 1996.

4 Sandra Marinho in A comunicação e os media em Portugal (1995/1996/1997/1998/1999): cronologia e leituras de tendências. Coordenação de Manuel Pinto [et al]. Braga: Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, Departamento de ciências da comunicação, 2000.

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