PAULO CAMACHO (SIC) EM ENTREVISTA À FORUM MEDIA:

 

"Os jornalistas querem sempre fazer mais..."

Carla Loureiro, Marisa Rodrigues, Raquel Rodrigues e Vanda Cerqueira

 

2º ano do Curso de Comunicação Social

 

F. M. - Como foi efectuada a selecção de notícias para o dia de hoje?

 

A selecção de notícias é um processo em que participa muita gente. A coordenação do PRIMEIRO JORNAL, nestes casos, é feita pelo Carlos Rico e pelo Paulo Nogueira. Portanto, eles é que decidem o que é incluído ou não, e eu quanto muito, posso dar uma opinião sobre isso, mas a decisão não é minha. Infelizmente, na minha opinião, um jornal televisivo assim como um Jornal de papel é um produto comercial, é um produto para ser vendido e para ser comprado e, assim, o critério de selecção de notícias tem a ver com a ideia certa ou errada que nós temos do perfil do nosso público ou dos nossos leitores, da nossa audiência e portanto com a percepção que nós temos das notícias que lhes interessam e que eles querem.

 

F. M. - É frequente acontecerem imprevistos?

 

Existem sempre imprevistos, porque há sempre situações que acontecem à última da hora, porque há elementos que estavam projectados para ficar prontos e não ficaram ou ficaram prontos mais tarde e não vão entrar em cena.

Nós temos um pré-alinhamento com o qual trabalhamos durante a manhã, e a partir das 12h30 passa a ser alinhamento e aí ocorrem pequenas alterações que têm a ver com factos que não estão prontos, e portanto, não passam do pré-alinhamento para o alinhamento. Depois há sempre alterações porque nós temos que cumprir tempo e é preciso retirar elementos que não têm qualquer relevância e, então, há sempre alterações porque olhamos para aquilo e afinal há uma peça que só pode entrar ao pé da outra, e se uma não está pronta a que está tem que descer.

 

F. M. - Acontece frequentemente?

 

Sim, acontece todos os dias, senão era uma chatice. Há países em que os pré-alinhamentos ou os alinhamentos são monumentos, não se mexem, e as peças têm que estar prontas 30 min antes e as que não estão, paciência. Há países que funcionam assim...

 

F. M. - É muito complicado para o pivot, por exemplo, estar a fazer um alinhamento e, depois, durante o telejornal acontece algum imprevisto para aquela notícia. Como reage o jornalista?

 

Geralmente não se reescreve, improvisa-se. Regra geral não há tempo, mas por vezes há pequenas "cambalhotas" que é preciso dar nos pivots, variando também de pessoa para pessoa mas frequentemente são improvisadas, porque não há tempo. Se calhar, há um minutinho ou dois entre as peças. Há muitas reportagens que nós não temos tempo de ver antes.

 

F. M. - Lembra-se de alguma situação mais complicada?

A situação mais complicada em termos de apresentação foi o 11 de Setembro, por uma razão muito simples: eu não percebo nada de aviões, sei que voam (risos), e o meu conhecimento sobre Nova Iorque é limitado. Há outras cidades onde eu já vivi e que por isso sei o nome das ruas e outros elementos de extrema importância para casos como este. Portanto, eu não sabendo nada de aviões, sabendo muito pouco de Nova Iorque e não havendo informação sobre o que estava a ocorrer, tornou- se muito complicado. Estive cerca de 20 minutos no ar com um nível de informação muito reduzido. No entanto, fui uma das primeiras pessoas, mesmo antes das cadeias internacionais, a dizer que não podia ser acidente e isto enquanto ainda havia a Sky News e a CNN, que talvez pela responsabilidade que lhes é conferida, a não quererem revelar aquilo que naquela altura me parecia óbvio.

Foram momentos difíceis aqueles que delimitaram o período do atentado às Torres. O nosso dever é informar, mas não possuíamos informações que dessem algo de novo para o conhecimento do público em geral, apenas uma frase de agência: "embateu um avião numa torre". No entanto, existia por outro lado um chefe que "exigia" a nossa permanência no estúdio de modo a saciar a curiosidade dos milhões de espectadores que assistiam a todo o alvoroço criado pelas imagens dos aviões a embaterem nas Torres.

F. M. - Aconteceu hoje deixarem peças por colocar para serem substituídas pelas notícias imprevistas?

Por exemplo, posso dizer-vos que hoje a última peça foi feita pelo José António Salvador que esteve na região de Viseu há uns quinze dias e fez uma série de peças de modo a que possamos passar uma por dia. É verdade que estamos a fazer Jornais Nacionais, neste caso em Viseu e também queremos dar a conhecer um bocadinho mais a zona. Com a peça do Bispo de Viseu ocorreu a mesma situação. Foi uma peça que esteve para entrar ontem, mas o Jornal ficou muito grande e, portanto, só entrou hoje.

F. M. - Por vezes acontece que as notícias que aparecem no rodapé não são passadas durante o jornal…

Sim, porque aquilo é feito mais ou menos uma hora antes do Jornal e a pessoa que o está a fazer, fá-lo consoante o alinhamento e retira informações das agências. Essa pessoa quando está a fazer o rodapé não sabe se a peça vai ou não sair, e aquilo depois de estar feito não é muito fácil estar a tirar e a pôr frases e o coordenador do Jornal quando tira as notícias, não avisa que o fez.

F. M.- Não custa ao jornalista ceder o tempo da notícia para este ser ocupado pela publicidade?

Também era uma chatice o jornalista chegar ao fim do mês e não ter dinheiro para comer... É claro que às vezes era preciso mais tempo, mas não vale a pena estarmos a fazer jornalismo se as pessoas não o consomem. Eu acho que os jornais não deveriam ter tanto tempo de duração, 30min eram suficientes. É claro que os jornalistas querem sempre fazer mais, mas para quê? Para as pessoas não verem? Não vale a pena.

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