CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL PARTICIPOU NO COLÓQUIO "PEDRO NUNES – Novos Saberes na Rota do Futuro"

 

 

Luís Miguel Oliveira de Barros Cardoso

Docente do Curso de Comunicação Social

 

O Capitão de Fragata Rodrigues Pereira, moderador da sessão, e a delegação do Curso de Comunicação Social.

 

 

À semelhança dos dois colóquios anteriores, realizados em 1998 e 2000, o Curso de Comunicação Social participou no colóquio promovido pela Escola Naval, em Almada, entre os dias 25 e 29 de Novembro de 2002.

Nesta edição, subordinada ao tema "Pedro Nunes – Novos Saberes na Rota do Futuro", uma delegação do Curso apresentou uma comunicação intitulada "Pedro Nunes e a consubstanciação do ideal renascentista em Portugal", que focou a problemática do Renascimento em Portugal, os ideais do Humanismo e a figura do matemático e pensador Pedro Nunes.

Recordamos aqui uma síntese da comunicação apresentada.

 

 

PEDRO NUNES E A CONSUBSTANCIAÇÃO DO IDEAL RENASCENTISTA EM PORTUGAL

 

Autores

Carlos Santos, Paulo Varela, Raquel Rodrigues,

Vanda Cerqueira

 

Orientação do docente

Luís Miguel Oliveira de Barros Cardoso

 

Os portugueses, ao alargarem o conhecimento do mundo, resultante dos Descobrimentos e consequentes viagens de exploração, concorrem de forma decisiva para o Renascimento científico, combinando a observação e a experiência às demonstrações matemáticas. Neste âmbito, foi notório o valioso e original contributo de Portugal para o incremento do Experimentalismo, tanto a nível teórico como prático, materializado em cartas de marear, mapas-mundi, globos, planisférios, tratados sobre a arte de marear, roteiros, obras de Cosmografia, de Medicina, de Farmacologia, consequência da actividade de pilotos, astrólogos, matemáticos, cartógrafos e médicos.

A nova mentalidade científica, resultante da Expansão portuguesa, levou à desagregação de algumas noções herdadas da Antiguidade, até então consideradas como imutáveis verdades. Por este motivo, os homens mais directamente ligados à empresa dos Descobrimentos (navegadores, cosmógrafos e médicos) completaram e corrigiram erros da ciência antiga, que durante tantos séculos se julgaram infalíveis. Refira-se, a título de exemplo, a refutação e a revolta de Diogo Gomes em relação à autoridade de Ptolomeu, e a defesa, por parte de D. João de Castro, da prática e experiência directa em prejuízo da ciência livresca dos antigos. Também Camões, quer pela voz do Gama, quer nas exortações a D. Sebastião, assumiu o elogio da experiência, considerando-a como enquadrada na mentalidade renascentista e resultante de novos métodos de conhecimento.

Deste modo, a exactidão dos conhecimentos introduzidos nas representações cartográficas provocou uma completa revolução no saber, opondo à autoridade dos antigos a experiência dos modernos portugueses. Outros importantes vultos, como João de Barros e Damião de Góis, optaram por adoptar uma postura mais equilibrada em relação ao conflito mental que se verificava entre os antigos e os modernos. Em suma, a Ciência Moderna, regulada por postulados como a observação e a experiência, parece ser a consequência directa dos Descobrimentos e da Expansão.

Esta atmosfera de renovação encontra-se intimamente ligada a condicionalismos epocais que caracterizaram a passagem da Idade Média para o Renascimento.

O Renascimento é a designação atribuída aos séculos XV e XVI porque nesta época as artes e as letras readquiriram o seu antigo esplendor, renasceram. Foi um período em que se verificou um espírito de mudança, quer ao nível da mentalidade e do pensamento do próprio homem, como ao nível das produções artísticas.

Por oposição à Idade Média, tempo considerado de ignorância e de trevas, surge o Renascimento no qual predomina um individualismo criador e um novo espírito crítico assentes numa nova perspectiva de encarar o Homem.

Passamos a acreditar nas capacidades e aptidões do homem enquanto indivíduo, enquanto sujeito da história e do progresso, nas suas potencialidades enquanto ser produtivo e criativo. Começa, então, a possuir um papel activo, de mudança, confrontando-se com a realidade através de uma postura inquiridora, crítica, julgando insuficientes os conhecimentos até então adquiridos (escolásticos e livrescos), desprezando-os e substituindo-os pela observação directa dos factos e pela experiência.

Esta nova mentalidade opõe-se ao teocentrismo existente na época medieval, caracterizada pela presença de Deus e da Igreja, que eram o centro do Universo, e denomina-se por antropocentrismo, comandado pela nova dimensão do Homem, que passa a ser o centro das atenções. Apesar de se considerar o Renascimento como um movimento intelectual de regresso ao passado, ele terá provocado, em muitos casos, um enorme salto para diante, dado que, por exemplo, o regresso aos antigos permitiu, paradoxalmente, a ultrapassagem da ciência deles herdada.

Em relação às produções artísticas, verifica-se uma reacção contra o barroquismo gótico e um retorno ao Classicismo helenístico recém-descoberto. A Itália, berço deste estilo, foi o foco inicial, a partir do qual se traçaram e irradiaram as correntes e normas do mesmo, cujas principais características se materializam na arquitectura (começam a projectar-se novas formas), na escultura (adquire autonomia e aproxima-se de uma visão mais realista da vida) e na pintura (deixam de ser apresentadas unicamente cenas religiosas).

No que concerne à literatura, assiste-se a uma veemente reacção contra as bases morais e estéticas que, até então, davam forma à literatura medieval, dado que, se pretendia, acima de tudo, restituir os textos à sua pureza original, tomando como base a Antiguidade greco-latina. Apesar de os clássicos serem estudados durante a Idade Média, eles não constituíam uma inspiração relativamente ao conjunto de valores que poderiam representar. O movimento da renascença afirmou o culto da beleza e exaltou as faculdades humanas da vida terrena e da natureza. O entusiasmo pela Antiguidade levou à adopção de novos géneros e forma poéticas, motivados por um ideal e perfeição formais, à semelhança do que os clássicos da Antiguidade conseguiram - o Classicismo.

A mitologia e o bucolismo pastoral foram reabilitados, relegando para segundo plano os propósitos didácticos típicos da época anterior e deu-se ênfase ao psicológico, ao biográfico e à individualidade. Os escritores italianos foram o modelo preferido por toda a Europa e Petrarca (figura a que daremos o justo relevo mais adiante) foi a ponte obrigatória de todos os poetas.

O Renascimento pode considerar-se uma época de algum contraste, dado que coexistem o culto do individualismo e da criatividade em paralelo com a aceitação de modelos e técnicas, talvez por o escritor quinhentista não ser defensor apenas da "arte pela arte" mas pretender simultaneamente transmitir uma mensagem.

O Renascimento português caracteriza-se por um acentuado cosmopolitismo, que o faz encaminhar-se não só no sentido da Europa, mas igualmente no do Oriente, sendo essa, muito provavelmente, a sua maior originalidade.

Nesta mudança de mentalidades, podemos destacar uma trilogia: o Renascimento enquanto época que inclui as suas diferentes realizações, ou seja, na cultura, na técnica, na sociedade, etc; o Humanismo, a expressão cultural e filosófica do Renascimento; e o Classicismo, a manifestação artística e, principalmente, literária do Renascimento. As diversas áreas do conhecimento adquiriram neste período uma revolução marcante traduzida nos mais variados aspectos:

 

- Regresso à natureza - Substituição da concepção teocêntrica pela antropocêntrica. O homem deixa de pensar o universo em função de Deus, tornando-se senhor do seu destino, enquanto a natureza por ele contemplada surge como um ente divinizado.

 

- Imitação Clássica - Retorno à cultura e civilização clássicas, o que favorece o estudo do grego e do latim, a recuperação do Direito Romano na jurisprudência, o triunfo do "dolce stil nuovo" na literatura, a preferência pelas formas arquitectónicas e decorativas greco-romanas na arte, etc. Este movimento recuperou a Antiguidade Clássica levando à construção de uma nova mentalidade. Na Idade Média, os clássicos eram utilizados, unicamente, com propósitos didácticos, não constituindo, assim, qualquer tipo de inspiração para o Homem Medieval.

- Individualismo - Colocado no centro do mundo, o Homem sente-se orgulhoso de todas as suas capacidades e tende a valorizar o espírito de iniciativa de cada indivíduo.

O Renascimento caracteriza- se por muitas e profundas transformações na vida e na visão de mundo do homem europeu. A classe social burguesa floresce, as cidades enriquecem e a economia europeia deixa de girar nas limitações feudais. Os horizontes geográficos alargam-se muito por obra da Expansão Ultramarina, consequência da centralização política e do.Mercantilismo.

O Renascimento em Portugal acentua-se, fundamentalmente, após a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Nesta altura o poder político e económico encontrava-se centrado na figura do rei. Apesar das conquistas em termos de progresso por parte da burguesia, não foi o suficiente para evitar que a maior parte dos ganhos económicos fossem absorvidas pelas rendas feudais impostas.

Portugal é o grande desbravador dos mares e teve o seu apogeu nos séculos XV/XVI com descobertas de vários caminhos marítimos, para a Índia, o Brasil e a América. Com a descoberta de novos mundos, este país trouxe para o povo europeu muitos costumes que até então eram desconhecidos. A língua portuguesa torna-se um factor basilar de cultura e é uma das mais difundidas pelo mundo, consequência da colonização e da extensão das possessões coloniais.

Em Portugal, a assimilação das formas renascentistas deve-se em primeiro lugar a Sá de Miranda. Mas a grande personalidade do Renascimento português é Camões.

Em Os Lusíadas, é evidente o poder do Homem sobre os Deuses, na conquista territorial e nos Descobrimentos. O Homem, mais concretamente, o povo português, conseguiu dominar o mar, ou seja, as forças de Neptuno, Deus do Mar.

O teocentrismo da Idade Média deu lugar ao antropocentrismo em que se conhece o Homem como Sujeito e Objecto de saber.

No Renascimento há ainda uma busca de novas regras. Aparece um súbito gosto pela novidade e pela descoberta do Mundo pelo Homem, conceito mais uma vez associado aos Descobrimentos.

O próprio Homem ganha um novo desejo de se conhecer melhor a si próprio e sem esquecer Deus, centra as suas atenções em si mesmo, o que é evidente n’ Os Lusíadas.

Poderíamos, assim, relembrar que «Passar o cabo das tormentas é desmistificar as partes desconhecidas do mundo», frase célebre da autora Yara Frateschi, autora que considera a existência de dois Adamastores: o primeiro - guardião dos mares e profeta de desgraças,e o segundo - é uma vitima de um amor infeliz. O Adamastor é o fantasma petrificado dos terrores colectivos e individuais que é preciso ultrapassar, não só para chegar à Índia, mas também à Ilha dos Amores.

Neste episódio há drama e lirismo. O Adamastor não é um Deus, mas um gigante da Terra, é a representação do medo dos navegadores, uma alucinação subjectiva. O Adamastor apenas fala, é uma voz trazida pelo medo. Não age como fazem os Deuses do Olimpo, tem apenas uma existência fantástica e ilusória. O Gama representa a vontade de conhecer, que Adamastor nega (profecias que são feitas por alguém que também já foi castigado). Ao relatar a história dos Sepúlvedas, sublinha-se que a ousadia se paga com a privação e a penalização afectiva.

Este episódio funciona com uma espécie de abóboda arquitectónica do poema, em que vêm concentrar-se as grandes linhas da epopéia - real/maravilhoso: dificuldades de passar o Cabo; existência de profecias: História de Portugal; Lirismo: história de amor; e é, também, um episódio trágico, de amor e de morte. Mas é, acima de tudo, um episódio épico, em que se consolida a vitória do Homem sobre os elementos.

Contudo, a epopeia de Camões é também uma reflexão sobre a Expansão.

O Velho do Restelo simboliza todos os que se opõem aos Descobrimentos. Camões introduz a fala do Velho aquando da partida das naus de Lisboa, na despedida.

O Velho do Restelo dirige- se ao Rei e aos marinheiros, aos que procuram honra e aos cobiçosos. O texto deste episódio é significativamente portador de características épicas, pois enaltece os valores universais.

O Velho do Restelo, personagem central neste episódio, possui diversos argumentos para defender a sua posição que se revela totalmente contra este grande feito do povo português que foram os Descobrimentos. Utiliza argumentos como o facto de, com a partida dos homens para o mar, as famílias ficarem em Terra desoladas e destruídas. Chega mesmo a salientar por diversas vezes a ganância que augura poder levar à morte e atitudes, na boca do Velho menos correctas, como a prática do adultério.

Neste episódio, ressaltam os valores da crítica que revelam um Camões de profundo recorte humanista.

Recorde-se que, com o aparecimento dos ideais renascentistas e humanistas a Idade Média ficou conhecida como um período obscurantista e decadente, situado entre a Antiguidade e o Renascimento. Só em meados do século XIX a Idade Média passou a ser reconhecida como etapa necessária da história da civilização ocidental. O Humanismo do Renascimento não só foi a origem de todo o pensamento moderno, como constituiu um ponto de viragem nas preocupações com as falsas imoralidades e colocou ênfase na importância de se viver a vida com prazer. Foi também um período em que as artes e o conhecimento floresceram e que a Europa progrediu em termos civilizacionais, recuperando o seu atraso relativamente a outras partes do mundo.

É usual atribuir-se a designação de Humanismo ao conjunto de doutrinas e tendências que consideram o Homem como instância superior e têm como meta o seu bem-estar e felicidade terrenos. O Humanismo apresenta um novo ideal - o antropocentrismo -, atestado na máxima do sofista grego Protágoras: «O Homem é a medida de todas as coisas».

O conceito de Humanismo deriva não apenas de humanus, mas também de humanitas, vocábulos que recuperam o ideal clássico que define o homem enquanto ser cultural. Para além do cariz profundamente filantrópico, este ideal defende a construção do Homem através dos actos e das letras.

A principal preocupação do humanista é construir um protótipo de cultura que ultrapasse o saber livresco do conceito de auctoritas, ou seja, autoridade, que caracteriza a cultura medieval baseada na leitura e no comentário de artigos de índole religiosa.

O Homem, pelos estudos dos autores clássicos, torna-se mais humano, desenvolve as suas capacidades morais, sociais e intelectuais, à semelhança dos modelos greco-latinos. Esta atitude de recuperação dos clássicos visa procurar um novo sentido de harmonia, de equilíbrio, de racionalidade de modo a construir uma nova visão do mundo. Os clássicos inspiram não só admiração mas também reverência atribuindo a este homem novo uma visão antagónica à da Idade Média, associada à instabilidade, ao desequilíbrio, ao conflito e à desarmonia.

O Humanismo é um ideal de valor filosófico que pretende construir um novo modelo de Homem. É um movimento plural, porque deriva de diferentes humanistas, por isso devemos falar de «humanismos». Na medida em que cada humanista tem uma corrente de pensamento específico, é útil considerar que o Humanismo é um movimento que, genericamente, congrega múltiplas tendências, apesar de, todas elas, serem dominadas por um objectivo comum: um novo ideal de homem. O movimento Humanista é particularmente atento à conturbação e amoralidade de vários elementos do Clero, que contrastam, nos seus actos, com o conteúdo teórico dos evangelhos. Os humanistas defendem também um estudo filológico da língua, conceito afastado pelo saber escolástico.

O Humanismo português, substancialmente influenciado por autores italianos, muito contribuiu para a recuperação das línguas clássicas entre nós e para uma nova concepção do homem e da história, da cultura e das ciências.

O nosso Humanismo tem como pilar de formação, a vinda para Portugal de conceituados humanistas estrangeiros, a convite de monarcas e universidades. É legitimo estabelecer como momento chave, a vinda de Cataldo Parisio Sículo, uma vez que, é com a chegada deste teórico que verdadeiramente se assiste à introdução do Humanismo integral no nosso país.

Este vulto introduz em Portugal o interesse pelas traduções dos clássicos, a defesa das bibliotecas públicas, o estudo do latim, Grego e Hebraico e a aplicação dos ideais humanistas na construção de um homem novo e de uma nova sociedade.

Sofrendo as influências dos autores gregos e latinos, cada vez mais lidos e apreciados, a literatura tende a refinar-se. A própria língua escrita passa por um aturado processo de latinização, sofisticando-se no decorrer dos séculos XV e XVI. A vasta e rica produção de obras durante o século XVI, testemunha a força extraordinária que aquele movimento imprimiu ao desenvolvimento do espírito nos seus diversificados sectores, transformando, consequentemente, a sociedade portuguesa de uma forma decisiva.

A primeira concepção de Humanismo é norteada por um conjunto de postulados, dos quais se destacam a busca da beleza e da perfeição, ao mesmo tempo que se afasta de uma realidade pouco inspiradora, preocupando-se o humanista com uma revolução cultural e não tanto social.

O Humanismo de carácter antropocêntrico vai gradualmente ligar-se a questões de índole social, dado que este Homem Novo possui uma cosmovisão distinta da medieval. A relevância social do Humanismo encontra-se atestada nas transformações políticas e ideológicas que acarretou. É legitimo considerar que o Humanismo nasce exemplificado na figura do italiano Francesco Petrarca. Este autor percorreu os vestígios da antiga civilização latina, construindo progressivamente um desejo de redescoberta dos valores clássicos. Este vulto é um exemplo do primeiro humanismo dominado por preocupações artísticas, que dará lugar a um segundo tipo de humanismo que interliga as artes e as acções.

Este novo ideal deveria reflectir-se numa nova visão do mundo, o que implica uma intervenção social. Depois de Petrarca, diferentes vultos defenderam esta posição mais interventiva, dos quais destacamos Leonardo Bruni, Coluccio Salutati e Eneias Sílvio Picolomini. Estes autores revelar-se-iam fundamentais para a passagem do primeiro ao segundo tipo de humanismo, advogando a criação de escolas e universidades, escrevendo a príncipes e monarcas, aconselhando-os, advertindo-os e solicitando benesses.

Este segundo humanismo conhecerá diferentes ramificações, nomeadamente no campo literário, religioso e filosófico, onde destacamos Lorenzo Valla e Poggio Bracciollini. Sem abandonar as suas motivações de carácter filosófico e ideológico, esta nova dimensão do humanismo adquire um pendor substancialmente mais interventivo. Neste âmbito, destacamos o contributo de Poliziano e os seus estudos de inspiração filosófica, consolidando autores gregos e latinos, defendendo um espírito irénico, isto é, pacifista. Por outro lado, a concepção do amor patenteia a recuperação dos ideais platónicos, principalmente através do contributo de Marsílio Ficcino e Pico della Mirandola. Estes teóricos revelaram-se particularmente decisivos na edição e comentários de textos de Platão e na defesa da dignidade das letras.

As correntes do Humanismo Europeu têm como principal objectivo colocar a arte ao serviço da sociedade. Estas correntes encontram-se centradas em três núcleos relevantes: um núcleo do norte da Europa, que inclui Erasmo, Meláncton e Clenardo; um segundo núcleo do centro da Europa que inclui Thomas Moore, Buchanon, Lefévre d’Étaples e Rabelais; e um terceiro núcleo centrado na Península, nomeadamente em Espanha, que inclui Cisneros, Nebrija, Luís Vives, Boscan e Garcilaso de la Vega.

Definido o objectivo, iniciam um processo profundo de defesa da pedagogia e de aconselhamento de figuras proeminentes das cortes europeias. Este lento processo de aproximação às esferas do poder é atestado em obras como "O príncipe" de Nicolau Maquiavel.

Os humanistas têm como preocupações a formação dos espíritos, a renovação das mentalidades, o incremento da cultura e a formação dos clérigos. A concepção de pedagogia por eles defendida assenta no estudo do texto, na preocupação com os valores do Cristianismo e na imitação dos antigos enquanto modelo e fonte de valores. Estes princípios podem ser encontrados, por exemplo, em Petrarca que tenta sintetizar os tempos modernos e a antiguidade clássica. Surge um contexto cultural específico, visando a reconstrução dos padrões culturais das cidades italianas que começam lentamente a assimilar as ideias dos diferentes círculos humanistas que se vão espalhando pela Europa.

Com o Humanismo, o Homem deixa de ser perspectivado como uma alma em peregrinação, para se tornar numa entidade de corpo e espírito que deve procurar constantemente a sua valorização pessoal através do estudo, do trabalho e da utilização de dois dons supremos que lhe forma concedidos por Deus - o livre arbítrio e a razão.

Resumidamente, o Humanismo irá estruturar-se nas seguintes correntes:

- A primeira corrente, designada de Fabro-erasmismo, integra as ideias de Erasmo de Roterdão, bem como Lefévre d’Etaples, apresentando uma preocupação marcadamente religiosa. Devemos, ainda, incluir nesta corrente as seguintes sub-correntes:

- Corrente de espírito crítico - cujo principal objectivo é a selecção técnica dos textos e a aplicação dos princípios filológicos e do exercício da racionalidade;

- Corrente do Humanismo reformador - que defende o regresso às fontes e o respeito pelo texto original: a reforma da Igreja e dos seus ritos;

- Corrente evangélica - que interioriza a mensagem dos evangelhos, defendendo o regresso aos primeiros tempos do Cristianismo, ou seja, respeitar o exemplo das vidas dos santos e servir a pureza de Cristo;

- Corrente irénica - que privilegia a defesa de ideais como o pacifismo e a conciliação das doutrinas, evitando cisões na Igreja;

- A segunda corrente, o Humanismo formal ou ciceroniano, inspira-se na influência do escritor latino Marco Túlio Cícero e dos seus preceitos teoréticos e práticos de análise textual. O texto é um exemplo em si mesmo e não tem apenas função didáctica. Reflecte o saber dos antigos mas não é analisado como veículo de ideias. Profundamente filosófico, o humanismo ciceroniano identifica a qualidade de uma obra com a imitação de Cícero.

- A terceira corrente do Humanismo, denominada de Naturalista, defende o primado da observação, não apenas do Homem, mas também da natureza. Constitui uma aplicação concreta dos valores clássicos, juntamente com o saber experimental.

Todas estas correntes chegaram a Portugal de forma distinta e com resultados também diferentes, após a verificação de algumas condições, das quais destacamos: o aprofundamento das relações com a Itália; a intensificação da actividade comercial e subsequentes contactos culturais; a ida de bolseiros portugueses para universidades estrangeiras; o aumento da relevância do Colégio das Artes e a chegada, em 1485, de Cataldo Parísio Sículo ao nosso país.

Os ideais humanistas em Portugal encontram-se espelhados em distintas tipologias textuais, tanto nas letras como nas ciências. Princípios como a razão e a experiência vão ser adoptados em distintos ramos do conhecimento, bem como o próprio conceito de humanista.

O Humanismo, apesar de não ser uma filosofia, representou um movimento de glorificação do Homem, tornado no centro das atenções. Constituía, em sentido amplo, uma tomada de posição antropocêntrica em reacção ao teocentrismo que vigorou na Idade Média, época de predomínio da Igreja e da nobreza feudal.

A filosofia humanista deu origem a um homem com uma nova mentalidade que possuía como principais virtudes a coragem, a eficiência, a inteligência e o talento para acumular riquezas, elementos esses inteiramente de acordo com a ordem económica introduzida pela burguesia.

Esse Novo Homem, liberto das mais rigorosas tradições feudais, tinha uma grande capacidade de autonomia para expandir livremente a sua energia criadora e de procurar explicações racionais sobre o universo que o cercava. Os nobres e burgueses enriquecidos adquiriram condições de dar à cultura um apoio antes exclusivo da igreja e dos grandes soberanos.

A necessidade de conhecimentos que habilitassem os burgueses a gerir e multiplicar suas fortunas também os impelia na direcção da cultura. Juntaram-se portanto duas linhas com um mesmo fim: maior valorização da cultura e necessidade de uma educação mais prática do que a teologia medieval podia oferecer. Retornou-se assim à fonte do saber, a antiguidade Greco-Romana, despojada dos acréscimos teológicos medievais, e adaptaram-se os seus ensinamentos à nova época.

No Renascimento, o Humanismo representou também uma ideologia que, sem deixar de aceitar a existência de Deus, partilhava muitas das atitudes intelectuais e existenciais do mundo antigo, integradas com as contínuas descobertas sobre a natureza e as novas condições de vida geradas pelo auge do comércio e da burguesia mercantil.

O Humanismo combateu a ordem e a hierarquia do mundo medieval, no qual, o papel do homem era sempre determinado pelo nascimento e pela Igreja. A sua perspectiva antropocêntrica trouxe o interesse pela investigação da natureza e o culto à razão e à beleza característicos da cultura greco-romana, criando as bases do Renascimento artístico e científico dos séculos XV e XVI.

Pedro Nunes surge, neste contexto, como uma verdadeira consubstanciação de ideais. Uma das personalidades mais marcantes da geração posterior à de Duarte Pacheco, Pedro Nunes foi matemático, cosmógrafo e professor da Universidade de Coimbra.

Pedro Nunes nasceu em Alcácer do Sal, no ano de 1502, como o próprio declara na sua obra Opera quais complectuntur, quando afirma "... anno Domini 1502 quo ego natus sum...".

Pedro Nunes foi uma das figuras mais interessantes e marcantes do Renascimento português. Contestado por alguns e reconhecido por muitos, o professor da Universidade de Coimbra pode ser considerado o grande "navegador" do século XVI, embora jamais tenha ido aos mares.

Reconhecido como o mais importante cartógrafo e matemático do grupo de intelectuais reunidos pelo Infante Dom Henrique no que simbolicamente se chamou a Escola de Sagres, ele deixou uma importante obra científica e também uma considerável obra poética e literária.

Em todas as suas obras ficou bem vincado o seu prodigioso génio. Mesmo as suas traduções eram acompanhadas de notas ou de comentários pessoais aos passos mais obscuros e aos de mais difícil interpretação.

O lugar de destaque que ocupa na cultura renascentista é representado sobretudo pelo facto de ter sido o único lente da Universidade a enfrentar resolutamente as complexas questões da filosofia natural, tal como foram equacionadas pela dinâmica dos Descobrimentos, contribuindo crucialmente para a introdução do rigor da geometria e da matemática no horizonte da cultura portuguesa do século XVI, não deixando de explicitar, ao fazer alusão, no De crepusculis à «maioria dos filósofos do nosso tempo, que consideram de somenos o conhecimento da matemática».

Filho de judeus, o cosmógrafo somente conseguiu escapar às repetidas investidas contra os cristãos novos conduzidas pela Inquisição, graças à protecção do monarca D. João III, protecção que foi angariando ao longo de vários anos e que incidiu de 1531 a 1535 quando foi chamado a Évora com a importante responsabilidade de ser tutor na corte do mesmo monarca, tornando- se assim professor dos membros da família real.

Durante esta permanência em Évora, o autor dedicou-se a estudos humanísticos, tendo composto poemas em Latim e Grego, línguas que revelou dominar muito bem. Após a aposentação, retomou a sua actividade poética. Também se dedicou a reflexões religiosas e deixou notas sobre a Ressurreição, a Anunciação, a multiplicação dos pães e outros temas do Novo Testamento.

Como verdadeiro exemplo das características renascentistas, em Pedro Nunes encontramos a utilização da matemática e da geometria que se irão tornar ciências exactas e objectivas.

Assim, Pedro Nunes ficou registado na História de Portugal como uma das figuras mais representativas da Matemática e como inventor do nónio, um instrumento empregado em Astronomia, Física e Engenharia que se destina a avaliar grandezas lineares ou angulares que escapam à visão directa. Pedro Nunes era um apaixonado tanto pela Astronomia como pela Matemática, que teve de estudar a fundo para poder desenvolver os seus conhecimentos astronómicos.

É devido às suas obras que se considera Pedro Nunes como o mais genial matemático peninsular do séc. XVI, um dos maiores matemáticos mundiais do mesmo século e a maior glória matemática portuguesa de todos os tempos.

Pedro Nunes insere-se claramente na corrente humanista, tendo-se destacado na sua época pela defesa do experimentalismo e por uma nova atitude perante o mundo. Cursou e leccionou os chamados studia humanitatis, incluindo na sua formação o Latim, o Grego, a Matemática, a Astronomia, a Metafísica e a Medicina. Esteve também em contacto com diversos outros humanistas do seu tempo.

Em Dezembro de 1529, no mesmo ano em que assumiu o cargo de cosmógrafo, actividade que obrigou Pedro Nunes a trabalhar de forma muito estreita com os pilotos e navegadores portugueses que na altura sulcavam os mares do mundo, ficou ainda responsável por uma cadeira de Filosofia Moral, da Universidade de Lisboa. Posteriormente, em 1530, mais concretamente no mês de Janeiro, fica ainda encarregue da cadeira de Lógica e, entre os anos de 1531 e 1532, da cadeira de Metafísica.

Obteve a sua licenciatura em Medicina, pela Universidade de Lisboa, a

16 de Fevereiro de 1532.

A 16 de Outubro de 1544, foi passada a Pedro Nunes a provisão para "ler a cadeira" de Matemática na Universidade de Coimbra. Começa, então, uma nova fase na vida de Pedro Nunes que, em Coimbra, estabelece residência fixa, acrescentando aos deveres que mantinha em relação ao cargo de cosmógrafo (e que o ligavam a Lisboa) as obrigações do magistério na cidade banhada pelo Mondego. Foi em Coimbra que conseguiu o ambiente propício ao desenvolvimento e à revisão definitiva da sua obra. Exerceu este cargo na Universidade de Coimbra até ser jubilado em 4 de Fevereiro de 1562.

Durante todos estes anos de actividade, Pedro Nunes não parou de acumular responsabilidades. Exerceu o cargo de cosmógrafo, o magistério universitário, a actividade administrativa e o trabalho de criação e revisão da obra que até então produzira, fosse em forma de traduções anotadas ou de manuscritos originais.

Um dos legados mais importantes deixado por este conceituado humanista é certamente Tratado da Defensão da Carta de Marear, escrito em 1537. Aqui podemos admirar todo o esplendor do Humanismo patente no autor, já que a exultação das navegações do reino Português é exacerbado ao máximo e o elogio do navegador português é inigualável.

Um nacionalismo extremo e uma descrição de todos os grandes feitos e ousadias praticados pelo povo Português, está presente em todo o documento. Nenhum outro povo se atrevera a desafiar novas terras, mares e povos guiando-se e sendo abençoado pelos céus e estrelas.

O medo fora olvidado de tal forma que nada importunou os Portugueses. Segundo Pedro Nunes, os nossos navegadores pertenciam a uma instância superior podendo apenas ser comparados com Deuses. Apesar das ameaças dos antigos escritores que viam com medo este desenfreado poder de "dominar" os deuses, o humanista descreve com orgulho a derrota do temeroso Cabo de Boa Esperança que importunava a chegada à Índia.

O Homem é visto como um ser tão poderoso que é capaz de habitar seja em que região do planeta for e capaz de assumir diferentes qualidades. Juntamente com suas vigorosas naus não restaria uma pequena ilha por descobrir.

Louva a coragem dos antigos navegadores que mesmo sem o recurso às tecnologias existentes na altura se atiravam ao mar com uma coragem e determinação capaz de suprimir quaisquer dificuldades.

Ptolomeu é alvo de crítica de Pedro Nunes e mais uma vez a exaltação dos feitos Portugueses é levada a níveis quase divinos e não superada por ninguém já que possuíam uma forma de descoberta ímpar e sem qualquer tipo de concorrência.

Assim, podemos constatar, por numerosos motivos, que Pedro Nunes foi uma figura imensamente respeitada em vários sectores da sociedade portuguesa da época.

Manteve a sua residência oficial em Coimbra até falecer, embora se deslocasse várias vezes a Lisboa, a pedido de D. João III. As suas deslocações à capital eram no âmbito do seu cargo de cosmógrafo e aconteciam quase sempre na altura da Primavera, quando as naus se preparavam para as viagens de longo curso, início de novas epopeias, de novas conquistas do conhecimento que Pedro Nunes bem sintetizou através da sua vida e pensamento.

 

Conclusão

No ano em que se comemora o quinto centenário do nascimento de Pedro Nunes é justo dedicar este colóquio não só aos seus feitos mas também a toda a renovação mental que ele impulsionou.

A notabilidade da sua obra ficou para a posteridade, não só pelo nível de conhecimentos atingido, como pelas revoluções que esses mesmos conhecimentos permitiram.

Os horizontes perspectivados pela recuperação de ideais clássicos, nomeadamente ao nível da ciência, reflectem a cultura renascentista da época. É nesta altura que se assiste à perspectivação de abertura de novos horizontes, nomeadamente a expansão ultramarina, tendo Portugal desempenhado um papel inquestionável naquele tempo.

O pensamento pelo qual norteou a sua vida e a sua obra encontra-se densamente ligado aos ideais renascentistas. As profundas mudanças que ocorreram na visão do mundo face ao homem europeu, tiveram um grande contributo do cosmógrafo português. Considerado unanimemente como o melhor matemático do seu século, deixou inúmeras contribuições para a divulgação desta ciência. A história da Matemática em Portugal teve o seu início, de forma decisiva, através da obra de Pedro Nunes.

Importa referir que apesar da sua obra e feitos se associarem ao domínio teórico sobre a actividade náutica, revelar-se-iam mais tarde essenciais face ao carácter prático que lhes estava inerente.

A reunião destes factores leva-nos a considerar Pedro Nunes como um fruto do Renascimento. Uma evidência atestada a nível intelectual e pedagógico.

 

Bibliografia

 

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