Sentarmo-nos à secretária para escrever. Que é que se sabe do que vai haver na escrita? Mas a aventura é isso – criar nela própria o verdadeiro ponto de chegada. Porque de seguro tem-se apenas o ponto de partida. Escrever. Criar na palavra a configuração do seu destino. Cada palavra abre o apelo da seguinte ou a sua probabilidade, até se saber que era essa. O rio nasce na fonte e tacteia o seu percurso até se abrir no mar. As ideias têm o seu nexo invisível nos intervalos das palavras, até se criarem na sua obscura coerência. E até cessarem por fim. Alguma coisa acontece de novo e se revela a quem escreve como uma aparição.
Vergílio Ferreira, Pensar