A COOPERAÇÃO INTERNACIONAL NO INSTITUTO SUPERIOR POLITÉCNICO DE VISEU

 

O CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

SÓNIA SILVA

Técnica Superior de Relações Internacionais

Instituto Superior Politécnico de Viseu

"Modern Science was born in Europe but its home is the whole world" (Whitehead, 1926:3)

 

Vivemos hoje num mundo caracterizado por céleres e constantes mudanças políticas, económicas, tecnológicas, sociais e culturais. A interdependência internacional é uma realidade evidente, que levanta inúmeras questões relativamente à gestão dos novos desafios que dela resultam. O surgimento de problemas enraizados nestes conjuntos de interdependências exige a definição de estratégias e a aplicação de soluções multilaterais, já que as respostas à escala nacional estão a revelar-se, em muitos casos, inadequadas. Por outro lado, a multilateralidade subjacente a soluções globais, e globalmente aplicáveis, pode implicar a ineficácia das respostas, já que é necessário chegar a um conjunto de compromissos complexos e, muitas vezes, geradores de ambiguidade.

A globalização, nas palavras de Robertson (1992:8), a " ...compressão do mundo e a intensificação da consciência do mundo como um todo.", contém, em essência, fenómenos de localização, particularização. Como diria Santos, a globalização não é mais do que o processo pelo qual determinada condição ou entidade local estende a sua influência a todo o globo e, ao fazê-lo, desenvolve a capacidade de designar como local outra condição social ou entidade rival. Santos (1997:4)

 

O slogan "Think globally, act locally", associado ao Movimento Verde, poderá traduzir uma estratégia viável, dada a simultaneidade das pressões de integração e desintegração, e das tensões entre o global e o local. A solução poderá estar num jogo de sobreposições de lealdades e jurisdições, podendo o indivíduo identificar-se e desempenhar funções a diversos níveis: local, nacional, regional e internacional, de acordo com os fins em causa.

Em resposta a esta situação, a União Europeia procurou, através de instrumentos legais, definir uma identidade oficial europeia que exalta a unidade na diversidade, aos níveis da educação e cultura.

A cooperação e a mobilidade académicas ocorrem no contexto da globalização, podendo ser, simultaneamente, seus objectos e seus sujeitos. O conhecimento sistemático reclama a sua aplicação universal no que diz respeito a métodos, a teorias e, em determinada medida, a objectos. O conhecimento, e a sua procura, têm um horizonte global, sendo frequente encontrar entre os académicos uma postura marcada por valores cosmopolitas. Por outro lado, existem fortes condicionalismos locais, regionais e nacionais que continuam a marcar a produção científica. Para além disso, são cada vez mais numerosos os fenómenos que revelam um «regresso às origens», em parte como resultado dos processos globais que avivam o perigo da homogeneização e da perda de referências identitárias.

Educar significa, em Latim, «ir para fora de». O conceito de educação, assim considerado, conduz-nos, no actual contexto da globalização/localização, e de todos os fenómenos de fragmentação e reformulação das identidades culturais daqui decorrentes, a um sentido mais flexível e mais dinâmico daquilo que entendemos ser a função do ensino superior no mundo contemporâneo. No que diz respeito à gestão da diversidade cultural e às problemáticas da construção identitária (que é, aliás, uma questão transversal, abarcando todos os aspectos da vida), o ensino superior poderá desempenhar um papel fundamental através da promoção do interculturalismo, desenvolvendo nos indivíduos uma postura estrutural ao nível do relacionamento com o «outro», e tornando a sociedade pluralista num ponto de encontro e nunca num «no man’s land». A internacionalização das instituições de ensino superior, que parece ser hoje uma tendência irreversível, pode servir estes fins.

A internacionalização deve ser vista como um processo, uma resposta à globalização, não devendo ser confundida com esta última. Internacionalização do ensino superior é, segundo Wit (1997:8), "...the process of integrating an international/intercultural dimension into teaching, research and service functions of the institutions". Ela inclui, simultaneamente, elementos globais e locais, não significando, de forma alguma, uma capitulação às pressões globais e, muito menos, a procura da homogeneização. Neste sentido, as estratégias de internacionalização poderão contribuir para a construção de uma identidade cultural baseada na pertença e identificação múltiplas, num jogo de articulação de lealdades, que serve com realismo a presente conjugação de forças globais e locais.

O Instituto Superior Politécnico de Viseu (ISPV) definiu e desenvolveu uma política de relações internacionais assente neste conjunto de princípios e acredita que qualquer instituição de ensino superior que se paute por critérios de qualidade, no ensino, investigação e serviços, não pode, de forma alguma, ignorar aquele jogo de forças. É necessário que as posturas críticas, neste nível de ensino, sejam aprofundadas e aplicadas a diversos domínios, incluindo não só o conhecimento, mas também o eu, e o mundo, fomentando, assim, a razão, a auto-reflexão e a acção críticas, e contribuindo para a formação de indivíduos críticos e criativos, capazes de se relacionarem e intervirem no mundo de uma forma eficaz (Barnett, 1997).

Num primeiro momento, o ISPV desenvolveu projectos de cooperação internacional ao abrigo de programas comunitários, nomeadamente Erasmus, tendo fomentado a mobilidade de estudantes com apenas três instituições de ensino superior , localizadas no Reino Unido, França e Noruega. Esta actividade limitava-se, então, a apenas uma área científica, a formação de professores. Hoje, o panorama de cooperação internacional encontra-se substancialmente enriquecido, dado o seu alargamento a novas áreas geográficas e científicas. Também o tipo de actividades promovidas se foi diversificando. Actualmente, esta instituição desenvolve não só mobilidade de estudantes e docentes, mas também projectos de desenvolvimento curricular, cursos intensivos, investigação conjunta, formação profissional, entre outras, abarcando as áreas científicas das suas três Escolas Integradas e cobrindo diversas instituições em países como: Espanha, França, Grécia, Reino Unido, Alemanha, República Checa, Hungria, Noruega, Finlândia, Cabo Verde, S.Tomé e Príncipe, etc. O ISPV pertence, ainda, a algumas redes científicas de âmbito europeu, como sejam a Rede Europeia para a Indústria da Madeira, a Rede Europeia das Ciências do Desporto e o Pólo Universitário Transfronteiriço de Castela e Leão e da Região Centro de Portugal, no seio das quais tem acesso a informação cientificamente relevante e desenvolve projectos de cooperação diversos (formação profissional, lançamento de suportes informáticos para a promoção da relação ensino superior/sector produtivo, cursos intensivos, etc.).

A comunicação social, em particular, é talvez um dos domínios onde são mais visíveis as tendências de globalização. Se comunicar é «tornar comum», então as crescentes interdependências internacionais farão, certamente, sentir o seu efeito sobre todos os processos comunicativos (e vice-versa), sob a influência do constante desenvolvimento das novas formas e tecnologias da informação e comunicação. A "compressão do mundo e a intensificação da consciência do mundo como um todo", como se referiu neste texto, é, parcial e simultaneamente, causa e efeito dos processos mediáticos em constante desenvolvimento. Por outro lado, é sobejamente reconhecido o papel da comunicação social na formulação de referências identitárias e na construção de visões, seja qual for o nível a que a que estas se situam, local, regional, nacional e mundial.

Perante estas realidades, não será sustentável uma formação académica no domínio da comunicação social que não seja marcada por um forte espírito de abertura e de cooperação, sem que isso signifique permeabilidade absoluta a influências exteriores. O valor destes processos encontra-se precisamente na capacidade para o diálogo, na reciprocidade e na compreensão e exploração da diferença para o mútuo enriquecimento.

O curso de comunicação social da Escola Superior de Educação do ISPV é de criação recente e, consequentemente, a cooperação internacional desenvolvida neste domínio está ainda a dar os seus primeiros passos. No entanto, as experiências tidas até ao momento fazem-nos crer que uma aposta, num futuro próximo, no reforço e diversificação de actividades de cooperação internacional poderá representar um valor acrescentado, não somente para o curso em particular, mas também para a instituição como um todo. Em primeiro lugar porque o tipo de formação em causa não tem, por natureza, fronteiras. E assim sendo, o seu funcionamento deverá reger-se pelo princípio da abertura. E em segundo lugar, porque é necessário desenvolver nos estudantes e docentes as competências necessárias a um contexto desta natureza, o que passa, necessariamente, pelo reforço das capacidades para lidar com o diverso e do espírito crítico criativo.

As primeiras actividades de cooperação, no âmbito deste curso, foram lançadas, a título experimental, em 1998/99, traduzindo-se na organização de mobilidade de estudantes (Erasmus a título individual) com a Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Salamanca e com a Universidade Ramón Llull de Barcelona. Estas actividades terão continuidade no presente ano lectivo, desta vez já integradas em acordos bilaterais firmados no âmbito do Contrato Institucional do programa comunitário Sócrates. No seguimento dos laços estabelecidos com a instituição catalã referida, deslocou-se a Viseu um docente/investigador espanhol que viria a contactar com os docentes da mesma área da Escola Superior de Educação, com o objectivo de trocarem experiências no domínio do desenvolvimento curricular. Foi, ainda, acordado o intercâmbio regular de publicações. Estas primeiras actividades, ainda que representem o início de uma actividade internacional que se pretende mais alargada, tanto em termos geográficos como no que diz respeito ao tipo de colaboração desenvolvida, despertaram um enorme interesse entre professores e alunos e prevê-se que, a curto prazo, sejam levadas a cabo outras iniciativas neste domínio.

 

Finalmente, fica, aqui, em aberto o convite a todos os estudantes e docentes da área de comunicação social para a apresentação de propostas de cooperação internacional, às quais os Serviços Centrais do ISPV darão certamente todo o apoio, quer no que diz respeito à procura de potenciais parceiros, como à sua implementação propriamente dita.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARNETT, Ronald (1997) – Higher Education: A Critical Business.Buckingham: Open University Press.

BLUMENTHAL, Peggy et al (1996) – Introduction in Peggy Blumenthal et al. (eds.), Academic Mobility in a Changing World: Regional and Global Trends. London: Jessica Kingsley Publishers.

SANTOS, Boaventura (1997) – Por uma Concepção Multicultural dos Direitos Humanos. Revista Crítica das Ciências Sociais., 48. Coimbra: UC.

WHITEHEAD, A.N (1926) – The Origins of Modern Science in Science and the Modern World. Cambridge: Cambridge University Press.

WIT, Hans (1997) – The Internationalisation of Higher Education in Millenium, nº11. Viseu: Instituto Superior Politécnico de Viseu.

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