Forum Media entrevistou Lauro António, o aclamado cineasta de Manhã Submersa, que comentou, entre outros aspectos, os caminhos do cinema contemporâneo, as disputas entre o cinema americano e o cinema europeu, o seu trajecto de cineasta e a própria essência da arte cinematográfica.

 

Texto LUÍS MIGUEL CARDOSO

Foto JOSÉ LUÍS OLIVEIRA

"CITIZEN KANE é a imagem da genialidade"

 

Forum Media - Como podemos caracterizar os caminhos do cinema contemporâneo? Será que o cinema segue, por exemplo na linha de Tarantino?

 

Lauro António - Digamos que é uma das linhas, mas não uma linha hegemónica, ou seja, eu acho que o Tarantino vai funcionar como um fenómeno de moda, aliás, julgo que já se está a esbater um pouco o fenómeno de Tarantino, mas é óbvio que há várias tendências no cinema contemporâneo. Há várias tendências ao nível da própria indústria como os filmes de grande espectáculo destinados a grandes salas. Eu julgo que vai ser esse um dos caminhos para manter o cinema como grande espectáculo. Por outro lado, há um tipo de cinema e de filme que se destinam a abastecer o mercado televisivo e do vídeo e são filmes que têm outras características, mais intimistas, e que podem ser exibidos em salas mais pequenas, mas que são ainda filmes de grande público que se destinam às televisões. De certa forma, eu julgo que vai haver aí uma contaminação entre a linguagem de televisão e a linguagem de cinema e não se descobre onde começam os filmes e acabam os teledramáticos.

Antigamente, havia uma divisão bastante distinta. Hoje em dia, não existe tanto. Os filmes são feitos fundamentalmente, até, se calhar, para serem exibidos nas televisões. Por outro lado, há uma corrente que é muito diversificada entre si: o cinema de autor, mais experimentalista, mais vanguardista, e que é uma corrente que vai continuar a ter o seu público, porque há muitos cinéfilos que não abdicam de ir ao cinema. É evidente que, se calhar, esses filmes estão reservados para pequenos cinemas. São coisas que acontecem já em vários países e várias cidades. Existe um certo circuito que não direi que é paralelo, porque está integrado na indústria, mas um circuito que se torna particularmente conhecido e que é referenciado enquanto tal por um conjunto de cinéfilos que sabe que certas salas têm aqueles filmes que eles ainda gostam de ver e que são filmes que passam pouco nas televisões. Portanto, obrigam a que quem gosta de cinema e quem gosta daquele tipo de filmes, vá ao cinema ver aquelas fitas. De um modo geral, acho que o cinema está a viver um período de saída de uma crise, ou seja, eu acho que nesta altura o cinema está a recuperar o público, e isso é uma consequência da má qualidade da televisão.

Muita gente deixou de estar em casa a ver os programas de televisão e vai ao cinema sobretudo porque há um período chamado "Prime-Time" nas televisões, que vai entre as 8H e as 11H, que é a hora de ir ao cinema, em que, se as pessoas têm maiores exigências ao nível do entretenimento, não ficam em casa a ver aquele tipo de entretenimento, ou então, podem ficar, mas têm alternativas, os canais temáticos, porque estas televisões generalistas estão actualmente um pouco em crise. Por isso, eu julgo que o cinema está em recuperação. E recupera também em função das salas que estão a ser criadas. Portanto, acho que o cinema se está a adaptar a uma nova realidade e desde que as pessoas tenham conforto e boas qualidades técnicas, preferem ir ao cinema, ou melhor, também gostam de ir ao cinema. Não direi que as pessoas preferem ir ao cinema em vez de ficarem em casa a ver o filme, porque a maioria, se calhar, gosta de ficar em casa. Mas entre uma coisa e outra, acredito que hoje em dia há muito mais gente a ir ao cinema do que havia antes.

 

Forum Media - Referiu-se à indústria cinematográfica norte-americana. Será que ela não existe num nível tão avassalador que não deixa grandes espaços a produções independentes e ao cinema europeu? Será que o cinema europeu, o cinema de autor, consegue sobreviver quando o cinema norte americano é sobretudo um cinema de consumo rápido, preocupado com estratégias de marketing? Será que há espaço hoje em dia para um cinema de concorrência ?

«o cinema americano está a tornar-se hegemónico»

Lauro António - Haver há, mas o cinema americano está a tornar-se hegemónico, ou seja, está a atirar para ghetos as cinematografias e não só a nível da exibição como a nível da produção, aliás, uma coisa implica a outra, ou seja, se não há sítios onde os filmes sejam exibidos, é difícil depois haver filmes, porque os produtores começam-se a retrair na sua aposta em certo tipo de cinema. Eu sei, por exemplo, que havia festivais com certo tipo de cinema mais independente. Nós, em Portugal, tínhamos o festival da Figueira da Foz, que era um festival que vivia muito da produção independente e depois começou a atravessar uma crise gravíssima. Antigamente havia uma produção independente muito boa e uma produção quase terceiro mundista com grande interesse, América Latina, África, não falando já da Europa, Oriente. Hoje, não. Os americanos também estão, através do cinema, a impor uma massificação de costumes, usos, maneiras de pensar, maneiras de agir e isso é deliberado, ou seja, os americanos apostam no cinema como uma forma de hegemonizar o mundo através da sua maneira de ser, "The American Way of Life", precisamente através dos filmes. A melhor forma de promover as Coca-Colas, as T-Shirt’s, os Jeans, os McDonald’s é o cinema. Portanto, quando a indústria audiovisual, hoje em dia, é a primeira indústria, e é, é aquela que monopoliza mais dinheiro, melhores transações na América, isto quer dizer que os americanos apostaram deliberadamente porque sabem que essa indústria leva as outras atrás.

 

Forum Media - O cinema também se rege pelas leis do mercado e talvez tenha sido por isso que as televisões agora investem em termos de produções cinematográficas como é o caso da SIC, que tem apoiado vários filmes, o "Adão e Eva", a "Zona J", etc...

Será que, no fundo, o cinema está a ganhar características da televisão, ou será o processo inverso? Será que, de algum modo, o cinema está a integrar-se num meio, de modo a propiciar um conjunto de características novas, dado que o filme de televisão tem um circuito diferente do filme que é exibido numa sala de cinema?

«o cinema continua a ser uma arte que vai englobando aquilo que vai conquistando»

Lauro António - Tem um circuito e tem uma estética diferente, ou seja, o que me parece também que está a acontecer no cinema é efectivamente isso. De certa forma, existe uma produção de cinema que é feita a pensar na televisão. Por exemplo, esses filmes que referiu, o "Adão e Eva", a "Tentação", a "Zona J" , são filmes que efectivamente apostam num mercado de cinema, mas apostam num mercado de cinema, apostando já num mercado também de televisão e obviamente que são feitos a pensar numa conciliação de linguagens. É um tipo de filme que passa bem no cinema, mas depois terá que passar bem na televisão. Evidentemente que isso acaba por criar uma certa linguagem híbrida entre cinema e televisão, mas nós estamos numa época em que esse tipo de linguagem híbrida funciona praticamente a todos os níveis.

Todos os artistas estão em contacto permanente e rápido com outras formas artísticas e isso implica uma contaminação de linguagens, de estruturas narrativas. Acho que isso é um outro reflexo da aldeia global. A rapidez da informação é de tal ordem que obriga a ajustamentos muito rápidos para, ou de uma forma oportunista apanhar o comboio em andamento, mas apanhá-lo, ou então digamos, fazer assimilações íntimas praticamente sem os criadores darem conta disso, mas que têm a ver com outro tipo de linguagem. Por exemplo, o cinema está cada vez mais dependente da música ao nível também dos videoclips. A ligação entre a estrutura dos videoclips e o cinema começa a ser, por vezes, flagrante. O multimédia, a imagem virtual também ao nível do cinema começam a ter grande importância. Essa amálgama de novas tecnologias, de formas de expressão artística que eram diferentes, hoje em dia tendem para uma conciliação.

 

Forum Media - Portanto, no fundo, podemos considerar que o cinema, hoje em dia, é uma intersecção de planos distintos em termos culturais?

 

Lauro António - Eu acho que o cinema sempre foi isso. Porque o cinema sempre foi uma arte que de certa forma quando é entendido como arte, engloba um pouco de quase todas as outras e apesar de ser contra o teatro, de ser contra a estrutura teatral, porque tem de ser um outro tipo de narrativa, o teatro está presente no cinema, a pintura está presente no cinema, a literatura está presente no cinema, a música está presente no cinema e o que se sente é que o cinema continua a ser uma arte que vai englobando aquilo que vai conquistando. O multimedia hoje em dia, faz parte do cinema. Julgo que essa tendência que o cinema tem de assimilar as novas formas de expressão, as novas conquistas tecnológicas, tem a ver com a própria essência do cinema. O cinema é uma arte composita, quer dizer, toca um pouco em tudo.

 

Forum Media – Podemos afirmar que o cinema foi influenciado por diferentes meios de comunicação?

«há muitos filmes que são feitos milimetricamente só com a preocupação do lucro»

Lauro António - Eu acho que todas as formas de comunicação influenciaram o cinema. Quando o cinema se aproxima de qualquer tipo de comunicação, acaba por assimilar alguma coisa dessa forma de comunicação. O cinema aproximou-se obviamente, ou melhor, falando agora do audiovisual, aproximou-se obviamente do jornalismo e criou a reportagem, criou o documentário, criou os telejornais. Hoje em dia, são jornais de uma imprensa escrita aos quais se deu uma forma audiovisual .

 

Forum Media – Hoje em dia um filme é mais um produto das exigências dum público do que propriamente um produto dum realizador ou dum produtor?

 

Lauro António - Não, isso depende do tipo de produção que é feita e, desde logo, das próprias ambições do filme. Há filmes que são construídos para captar o público e que são feitos quase como uma obra de mercado publicitário, com marketing, com estudos de mercado para que o filme seja lançado e corresponda aos desejos do público e que o público seja condicionado por aquilo que o filme vai oferecer. Mas também acho que há muitos filmes que são feitos pura e simplesmente com livre inspiração de um realizador. Porém há muitos filmes que são feitos milimetricamente só com a preocupação do lucro. O Oliveira é um realizador que não se preocupa com estas questões, mas não falando só do Oliveira, desde o Alain Resnais, o Greenaway, até tantos outros realizadores que fazem uma obra profundamente pessoal e que certamente não estão a pensar no público, no sentido mais limitativo de público, de modo a facilitarem a sua escrita ou a sua forma de entender o cinema para serem, assim, de mais fácil acesso ao público. Esperam que o público vá ter com eles. Creio que todos eles pensam que estão a fazer filmes para o público, e estão, e cada um deles quererá ter o maior número de espectadores possível, mas acho que não fazem nada deliberadamente para isso.

 

Forum Media - Falemos agora um pouco do trajecto do Dr. Lauro António relativamente ao cinema. Cineasta, mas também crítico, conhecemos os seus trabalhos já desde a República, a Plateia, a Rabeca, o Distrito de Portalegre. Será que esta fase influenciou de alguma forma Lauro António cineasta ?

 

Lauro António - Digamos que você está aí a referir a fase de crítico de quase adolescente. Na Rabeca , no Distrito, na Plateia e até na República onde eu comecei a escrever , digamos que foi o meu início de actividade. Eu comecei a escrever para aí com 14 anos, na República, no Distrito de Portalegre, mas isso não são coisas quase para revelar, são histórias. Eu gostava muito de cinema, fazia umas notícias. Mas obviamente que o meu percurso de crítico começa com mais força no Diário de Lisboa, em 1967, e depois tem-se mantido com algumas interrupções. Eu gosto muito de escrever sobre filmes e portanto mantenho esse gosto. E é evidente que me terá influenciado. Eu nunca fiz um curso de cinema. O meu curso de cinema foi ver filmes, que aliás é o melhor curso que se pode ter.

Eu acho que um curso é muito importante, mas eu acho que é a todos os níveis. Não há cursos para escritores, não há cursos para poetas, não há cursos para músicos, para compositores. Existem cursos em que se oferecem conhecimentos técnicos para desenvolver, ou não, as potencialidades que existem dentro das pessoas ao nível da criatividade. Portanto, nalguns casos, até podem existir bons técnicos que não tenham necessidade de ser muito criativos, mas obviamente que nesse aspecto eu acho que a melhor forma de cultivar a sensibilidade, o gosto, é realmente vendo filmes. E depois, a criatividade de escrever sobre eles implica uma certa reflexão, não é só o facto de ver o filme e gostar ou não gostar, mas depois tentar transmitir aos outros porque é que se gostou ou não gostou. E isso acaba por ser um exercício pedagógico para nós próprios. Acho obviamente que a minha fase de crítico teve uma influência muito grande naquilo que eu possa ter feito a nível de cinema.

 

Forum Media - Nós notámos, de facto, essa necessidade de tentar captar o público, no sentido de o doutrinar, no bom sentido, de modo a estimular o seu interesse para o filme, para a realização, para a interpretação. Estou a pensar na T.V.I., nas apresentações que o Dr. Lauro António fez e estou a pensar também naquele momento em que após a apresentação do filme, se pedia a opinião dos telespectadores. Este diálogo entre quem apresenta o filme e quem vê essa apresentação, de algum modo estimulou-o nesta faceta televisiva de modo a manter este espaço de convivência e diálogo com os telespectadores?

 

Lauro António - Sim, acho que sim, acho que uma das coisas que me deu mais prazer fazer na T.V.I. foi manter esse diálogo com os espectadores, porque criou-se uma espécie de clube, não direi de fãs do Lauro António, mas de fãs do programa, que escreviam com uma certa regularidade, e mais, ia havendo um espaço alargado porque havia alguns, cerca de uma centena de espectadores, que regularmente escreviam, não digo todas as semanas, iam-se revezando, mas eu recebia 30, 40, 50 cartas por semana. Eu às tantas tinha já uma amizade com pessoas que não conhecia, mas que, lendo todas as semanas o que eles iam escrevendo, conhecendo. Cheguei a ter um projecto que era interessante, que era fazer uma revista que tivesse a ver com cinema e que estivesse mais ou menos ligada à T.V.I.. Eu iria aproveitar muitos desses comentários, sobretudo muitas das pessoas que escreviam esses comentários, porque havia muitos com muito interesse e que poderiam ser nitidamente muito bons jornalistas, comentadores e até críticos, inclusive de cinema, que poderiam ser aproveitados para essa tal revista. Depois, foi um projecto que abortou, mas foi uma actividade que me deixou boas recordações.

 

Forum Media - Quando nós falamos em Lauro António é evidentemente necessário recordar Manhã Submersa que em termos de adaptação foi um processo complicado. Exigiu, da parte do realizador, um estudo aturado da obra. No fundo, o filme é também a sua perspectiva, a sua visão relativamente à obra de Vergílio Ferreira?

«os filmes vão variando com a vida»

Lauro António - Sim, digamos que o Vergílio Ferreira retrata uma realidade, estrutura-a dramaticamente e eu sobre essa realidade que ele já tinha estruturado sobre o ponto de vista artístico, reelaborei um discurso, procurando abarcar a mesma realidade, mas reelaborei um discurso artístico de outra forma, com uma outra narrativa, e é evidente que é um trabalho de certa complexidade, não quer dizer que seja difícil ou não, é preciso ter-se sensibilidade para o fazer. Há quem o faça com facilidade, há quem o faça com dificuldade. O problema não está tanto no tempo que demora, na facilidade ou na dificuldade que existe, mas nas possibilidades que uns têm e outros não têm. Não sei se funcionou muito bem ou não, mas a ideia era adaptar uma estrutura narrativa.

Forum Media – Para terminarmos, uma pergunta clássica quando nós falamos de cinema: qual é o filme, ou quais são os filmes preferidos do realizador Lauro António?

 

Lauro António - Sabe que os filmes vão variando com a vida. Quer dizer, vão-se acrescentando. Normalmente, eu não abdico de paixões antigas, o que vou é acrescentando outras. Eu julgo que o filme de que eu gosto mais é o Citizen Kane do Orson Welles, mas ao lado desse, eu posso dizer que tenho uma Serenata à Chuva, tenho tantos filmes como o Casablanca, E Tudo o Vento Levou, que acho fabulosos. Há os irmãos Marx, há o Chaplin, há o Buster Keaton, há tantos... todos filmes que são assim momentos de perfeito prazer, de deleite. É muito difícil dizer assim, qual é o filme. Eu normalmente opto pelo Citizen Kane porque é um momento de genialidade mais ou menos consagrado. Por exemplo, eu dou aulas e é um filme que eu todos os anos passo aí duas ou três vezes aos alunos e que me dá um prazer louco estar a ver sempre. Às vezes, até vejo eu sozinho quando passa pela televisão, ou quando se estreia uma cópia nova. E é um filme que tem sempre coisas novas para a gente descobrir. Eu já o devo ter visto centenas de vezes. O Citizen Kane vi-o quando eu era miúdo, miúdo quer dizer, tinha para aí 20 e poucos anos e já tinha visto o Citizen Kane cerca de 20 vezes. E é evidente que depois disso, já se passaram muitos anos e eu vejo o Citizen Kane quase duas ou três vezes por ano, no mínimo, e a verdade é que há coisas que eu já vi e continuam a fascinar-me, e há coisas que eu ainda não vi. Ou seja, eu acho que é um filme que é inesgotável e é a imagem da genialidade de um tipo com 25 anos que não sabia nada de cinema e faz um filme daqueles... É realmente um homem que é predestinado, é um génio. Acho que talvez seja aquele filme que eu possa citar como exemplo.

 

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