LITERATURA E CINEMA:

CONVERGÊNCIA E DIVERGÊNCIA EM CÂNTICO FINAL DE VERGÍLIO FERREIRA

 

(Resumo da comunicação apresentada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, no dia 10 de Agosto, no âmbito do 6º Congresso Internacional de Lusitanistas)

 

 

LUÍS MIGUEL OLIVEIRA DE BARROS CARDOSO

Escola Superior de Educação

ISPV

 

Le roman est un récit qui s'organise en monde, le film un monde qui s'organise en récit.

Jean Mitry, Esthétique et psychologie du cinéma

 

Assim do livro ao filme não sinto que alguma coisa de fundamental se perdesse para a intenção com que o realizei - como sinto que alguma coisa de novo se criou para lá da arte da imagem em que se transfigura.

Vergílio Ferreira, Do livro ao filme

 

Ingmar Bergman, num texto cortical para a compreensão das relações de dissídio e de aproximação entre a Literatura e o Cinema, afirmou, de forma radical, que « o cinema não tem nada que ver com a literatura » (1). Esta posição maniqueísta é manifestamente um paradoxo, principalmente para o próprio cineasta que soube colher na literatura, com interessante sistematicidade, um veio profícuo com conexões inequívocas com o filme, nomeadamente no campo da narrativa.

A história das relações entre a Literatura e o Cinema é pautada ora pela intersecção, ora pelo dissídio. Os cineastas, desde cedo, viram na Literatura um universo de temas e de estruturas narrativas que poderiam constituir uma verdadeira fonte de inspiração e de trabalho. Na aurora da sétima arte, Griffith não hesitou em reconhecer que colhera em Charles Dickens modelos narrativos, técnicas, uma concepção de ritmo e de suspense, articulando duas acções simultâneas e paralelas(2). Já em 1867, Méliès adaptava da literatura, Fausto e Margarida, em 1868, A Gata Borralheira, para, em 1902, iniciar o seu percurso de versões de obras de Júlio Verne com Viagem à Lua.

O Cinema, pela sua complexidade artística, tem vindo a suscitar inúmeros estudos. Quer abordemos o domínio semiótico, na linha de Metz, Lotman, Garroni ou Chatman, quer o abordemos em termos estéticos ou históricos, na linha de Eisenstein, Bazin ou Mitry, o Cinema não deixa nunca de estabelecer relações com a Literatura. Uma delas é destacada por Carlos Reis quando afirma: «É, pois, teoreticamente ajustado postular o cinema como linguagem que no fílmico se articula e falar em linguagem cinematográfica em termos homólogos àqueles em que se fala em linguagem literária»(3).

Assim, a proximidade narratológica entre a Literatura e o Cinema é, deste modo, um tema que merece a devida atenção, sempre que recordamos a contiguidade entre estes dois sistemas semióticos. Como bem evidencia Aguiar e Silva: «O texto fílmico narra frequentemente uma história, uma sequência de eventos ocorridos a determinadas personagens num determinado espaço e num determinado tempo, e por isso mesmo é tão frequente e congenial a sua relação intersemiótica com textos literários nos quais também se narra ou se representa uma história»(4).

Um caso relevante para o estudo das relações entre a Literatura e o Cinema é o do escritor Vergílio Ferreira.

Como bem notou o cineasta Lauro António(5), que realizou o filme Manhã Submersa, inspirado no romance homónimo de Vergílio Ferreira, são multímodas as ligações do escritor ao Cinema.

Em primeiro lugar, recordemos que Vergílio Ferreira, no seu itinerário estético, literário e ideológico, atravessa o Neo-Realismo e desemboca no Existencialismo. O Neo-Realismo conheceu intensas relações com o cinema (muito mais no caso italiano do que no português), os existencialistas, como Malraux, tiveram estreitas relações com o cinema, e o nouveau roman conseguiu mesmo esbater a fronteira entre o escritor e o cineasta. Neste contexto, podemos desde já concluir que o nosso escritor se encontra enleado nesta teia entre dois mundos que se tocaram mais do que uma vez.

Em segundo lugar, devemos ter em mente que Vergílio Ferreira viu textos seus adaptados para o cinema (Manhã Submersa, Cântico Final e Mãe Genoveva), escreveu na sua Conta-Corrente inúmeros comentários sobre filmes e realizadores e desempenhou ele próprio um papel no filme Manhã Submersa, no qual, por inversão perversa proposta por Lauro António, representou a figura opressora do Reitor, ele, que conhecera o sacrifício enquanto seminarista, no Fundão.

Cântico Final, romance de Vergílio Ferreira, concebido em 1956, foi transposto para o cinema, por Manuel Guimarães, em 1974, data da sua rodagem e estreado a 16 de Junho de 1976.

Levar para a tela um romance não é, de todo, um trabalho simples. Manuel Guimarães enfrentava, acima de tudo, a especificidade do romance vergiliano.

Cântico Final, segundo Nelly Novaes Coelho (6), integra a segunda fase do itinerário do escritor, juntamente com Mudança, Apelo da Noite, A Face Sangrenta e Manhã Submersa , compreendida entre 1949 e 1956, conglobando influências de Marx, Hegel e Heidegger. Neste romance, estabelece-se em definitivo uma ruptura com a fé cristã. O núcleo dos esforços humanos é agora ocupado pela arte: a pintura e a dança.

Não é inverosímil identificar uma linha de reminiscências autobiográficas. O protagonista é um pintor, Mário, que cresceu numa aldeia, foi professor de Desenho na cidade e regressa à sua terra natal, acossado por uma enfermidade fatal. A narrativa constrói-se em dois planos temporais distintos que se vão intercalar no romance: no primeiro, encontramos o pintor, nos seus últimos meses de vida, restaurando uma velha capela, desprovida de função religiosa, na sua terra de origem; no segundo, o pintor leva-nos até à grande cidade, ao seu círculo de amigos, principalmente até à misteriosa bailarina Elsa.

O homem, sem fé em Deus, encontra na Arte o seu último refúgio. Mário, o pintor, constata: "...escalado o Olimpo (...) os homens descobriram que ele estava vazio. E ficaram desapontados"(7). O protagonista enceta uma peregrinação em busca de um valor que possa substituir a figura divina, não deixando de questionar a existência e a arte nos diálogos com os seus amigos. Nesta peregrinação, o seu único encontro com a esquiva bailarina Elsa, dilui-se no momento presente tal como a dança, pelo que só a pintura e a literatura fazem a ponte para o futuro. Com a definitiva certeza da morte, o artista realiza-se na sua própria arte, acto criador sem glória póstuma.

Como transpor para o cinema uma mundividência de recorte reflexivo, metafísico e existencial ? O próprio autor do romance responde a esta questão ao recordar: "Quando um dia Manuel Guimarães me propôs transpor a um filme o Cântico Final, pus como única condição o manter-se o «espírito» do livro. Nada mais."(8) A aparente redução a uma ideia de toda a problemática da adaptação ao cinema de um romance com as características de Cântico Final, não afasta, todavia, na mente do escritor, a necessidade de "ramificar" esse espírito "pelas várias situações, personagens, desde as falas até mesmo, se possível, ao seu aspecto físico, à entoação de uma frase, ao modo de estarem"(9).

Mário Jorge Torres, a propósito do texto "Do livro ao filme", caracteriza o pensamento de Vergílio Ferreira relativamente à adaptação fílmica através da expressão «desejo da imagem»(10). Ao contrário de uma primeira posição do romancista, denominada por Mário Jorge Torres por «resistência à imagem», na qual podemos entrever uma concepção da imagem como reprodução técnica limitativa, a transposição de Cântico Final para o cinema torna-se uma experiência atractiva para Vergílio Ferreira, talvez por trabalhar um objecto literário seu, por permitir um controlo da adaptação, ressaltando uma nova ideia. O filme, para Vergílio Ferreira, já não é uma redução empobrecedora à imagem, mas antes uma continuação da problemática ancestral, que provém da Antiguidade, da conexão entre a obra plástica e a obra literária.

O filme é visto pelo romancista como um "outro" Cântico Final que vive em paralelo com o livro, animados ambos pelo mesmo "espírito." Em "Do livro ao filme", Vergílio Ferreira não vai colocar o filme numa posição ancilar em relação ao romance, pelo contrário: "...do livro ao filme não sinto que alguma coisa de fundamental se perdesse para a intenção com que o realizei - como sinto que alguma coisa de novo se criou para lá da arte da imagem em que se transfigura."(11).

Esta noção libertadora do fenómeno criativo não afastava, contudo, a apreensão do escritor. Como afirmou, na sua Conta-Corrente:

O Manuel Guimarães vai pôr em filme o meu Cântico Final, Li a sinopse. Interferi nos diálogos, aliás extraídos do livro. (...) Filme difícil, extremamente arriscado. Ou sai bom ou péssimo. Deste livro não se pode extrair um filme simplesmente 'razoável'. Só um Ingmar Bergman estaria à altura de. Bom. Oh, tréguas à megalomania. (...) Estou bem excitado com o projecto. Pensar uma história em 'imagens' é uma estranha experiência para quem sempre a pensou em 'palavras'.(12)

Todavia, o filme de Manuel Guimarães, como afirma Mário Jorge Torres, "...não resultou bom, nem péssimo, nem razoável; para entrar no campo dos juízos de valor, eu arriscaria apenas uma formulação cuidadosa: um interessante fracasso"(13). Jorge Leitão Ramos não o chega a considerar um filme mas uma montagem - Guimarães havia falecido e a montagem final fora feita pelo seu filho Dórdio -, cataloga-o como trabalho deficiente, "falhado, inapto, incapaz de agarrar as profundezas do romance de Vergílio Ferreira"(14). Já Luís de Pina destaca a excelente fotografia de Abel Escoto, considerando-o "um filme pessoal, generoso, dorido, visão de um homem em luta com a morte, numa estranha simbiose entre a arte a vida."(15). Mais ainda, defende que "O humanismo existencial de Vergílio Ferreira está inteiro nas imagens, porventura um pouco manchado pela convenção da palavra e por uma direcção de actores nem sempre feliz"(16).

Estas opiniões revelam que o filme não conseguiu instituir-se como uma obra maior.

De uma forma sinóptica, podemos relevar um conjunto de factores que confluíram para este veredicto: as alterações do guião ao romance, a elisão da faceta de professor de Mário e a acentuação da sua vertente como pintor, a simplificação exagerada de uma figura central no romance como é a bailarina Elsa e a centralização da acção nas montanhas. Mais relevante é não se ter conseguido retratar o dilema do protagonista, que no romance é visto numa perspectiva mais abstracta e que no filme é associada ao panorama histórico e político que Portugal vivia, cristalizada na sequência final do fuzilamento.

A morte marcou definitivamente todo este processo que envolveu o romance e o filme. No texto de Vergílio Ferreira, a morte é uma meta da consciência do Homem para a sua demanda - tema aliás, que se transformará em isotopia recorrente e obsessiva no romance vergiliano -, no filme, ela é levada à hipérbole da imagem; na vida real, ela colherá o realizador Manuel Guimarães.

As relações de Vergílio Ferreira com o cinema são um cosmos ainda pouco explorado. Para além da evidência das adaptações de romances seus a filmes, há que estudar a própria tessitura vergiliana enquanto espelho do cinema. Romances como O Caminho Fica Longe, Apelo da Noite ou Em Nome da Terra parecem revelar um contacto entre a Literatura e o Cinema (respectivamente, pela similitude do texto com um guião, pela dupla temporalidade e sua analogia com a montagem cinematográfica e pela instrumentalização metafórica(17)) e Signo Sinal, por exemplo, patenteia uma visão cinematográfica que leva Marie-Thérèse Elshoff a declarar que "l'agencement des éléments audiovisuels de Signo Sinal se rapproche considérablement d'une mise en scène cinématographique et qu'il traduit avec une grande plasticité la subjectivité du narrateur"(18).

Literatura e Cinema conhecem, assim, em Vergílio Ferreira, e, no caso ilustrado de Cântico Final, momentos de convergência e de divergência. Esta relação, que revela o difícil problema da adaptação que é, segundo André Delveux "...une transformation de l'écriture même du film..."(19) , não oblitera o estudo do romance e do filme, pois como afirma Keith Cohen: "What makes possible, then, a study of the relation between these two separate sign systems, like novel and film, is the fact that the same codes may reappear in more than one system"(20).

Tal como André Bazin vê o cinema como arte sinérgica que assimila elementos de outras artes, como a literatura, assim podemos invocar Vergílio Ferreira, quando, pela palavra, numa celebração concomitante, revela o valor epifânico e redentor de toda a arte: « A intemporalidade da arte é a da nossa vivência, mestra e ordenadora e senhora da razão.(...) Voz intérmina, é a voz do homem, da eternidade que é sua nos instantes suspensos da sua miserável corrupção...(21)».

 

BIBLIOGRAFIA

 

António, Lauro, "Vergílio Ferreira e o Cinema»", Vergílio Ferreira-Cinquenta anos de vida literária, Actas do Colóquio Interdisciplinar, Porto, Fundação Eng. António de Almeida,1993

Bazin, André, O que é o cinema ?, Horizonte, Lisboa, 1992 Bello, Maria do Rosário Lupi , "Quarto com vista sobre a cidade: ponto de vista sobre um filme «literário»", Discursos, 11-12 (Coimbra, 1996/1997)

Clerc, Jeanne-Marie, Littérature et cinéma, Nathan, Paris, 1993

Coelho, Nelly Novaes Coelho, Escritores Portugueses, S. Paulo, Ed. Quíron, 1973

Cohen, Keith, Fiction and film: the dynamics of exchange, Yale University Press, , New Haven

Chatman, Seymour, Narration and point of view in fiction and the cinema, Poetica, 1974

_ , Story and discourse: narrative structure in fiction and film, Cornell University Press, Ithaca, 1978

Eco, Umberto, Cine y literatura: la estructura de la trama, Martinez Roca, Barcelona, 1970

Elshoff, Marie-Thérèse, "La vision photographique et cinématographique de Vergílio Ferreira dans Signo Sinal", Anthropos, Barcelona, Ed. Anthropos, Outubro de 1989

Ferreira, Vergílio, "Do livro ao filme" in Cântico Final, Lisboa, Arcádia, 1975, 4ª Edição

_, Arte Tempo, Lisboa, Rolim, 1988,

_,Cântico Final, Lisboa, Arcádia, 1975, 4ª Edição

_, Conta-Corrente I, Lisboa, Bertrand, 1980

Jost, François e Delveux, André, «Du roman à l'adaptation. Au début était Zénon...», L'avant Scène du Cinéma, 1988

MacCann, Richard Dyer, Film: a Montage of Theories, New York, Dutton, 1966

Pina, Luís de, História do Cinema Português, Mem Martins, Publicações Europa- América, 1986

Metz, Christian, Essais sur la signification au cinéma, Klincksieck, Paris, 1968

Ramos, Jorge Leitão, Dicionário do Cinema Português, Lisboa, Caminho, 1989

Reis, Carlos, Dicionário de Narratologia, Coimbra, Almedina, 1987

Silva, Vítor M. Aguiar e, Teoria e Metodologia Literárias, Lisboa, Universidade Aberta, 1990

Silva, Vítor M. Aguiar e , Teoria da Literatura, Almedina, Coimbra, 1982

Torres, Mário Jorge, "A tentação da imagem - a propósito das ficções cinematográficas sobre Vergílio Ferreira", Vergílio Ferreira-Cinquenta anos de vida literária, Actas do Colóquio Interdisciplinar, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 1993

 

NOTAS:

 

1 Leia-se o estudo de Richard Dyer MacCann, Film: a Montage of Theories, New York, Dutton, 1966, no qual podemos encontrar «Film has nothing to do with Literature», estudo do cineasta sueco.

2 Vd. Maria do Rosário Lupi Bello, "Quarto com vista sobre a cidade: ponto de vista sobre um filme «literário»", Discursos, 11-12 (Coimbra, 1996/1997) , 106.

3 Vd.. Reis, Carlos, Dicionário de Narratologia, Coimbra, Almedina, 1987, p.56.

4 Vd. Silva, Vítor M. Aguiar e, Teoria e Metodologia Literárias, Lisboa, Universidade Aberta, 1990, p. 178.

5 Vd. António, Lauro, "Vergílio Ferreira e o Cinema", Vergílio Ferreira-Cinquenta anos de vida literária, Actas do Colóquio Interdisciplinar, Porto, Fundação Eng. Ant. Almeida, 1993, p. 69 a 80.

6 Cf. Coelho, Nelly Novaes Coelho, Escritores Portugueses, S. Paulo, Ed. Quíron, 1973

7 Vd. Ferreira, Vergílio, Cântico Final, Lisboa, Arcádia, 1975, 4ª Edição, p.35

8 Vd. Ferreira, Vergílio, "Do livro ao filme" in Cântico Final, Lisboa, Arcádia, 1975, 4ª Edição, p.243

9 Idem, ibidem.

10 Torres, Mário Jorge, "A tentação da imagem - a propósito das ficções cinematográficas sobre Vergílio Ferreira", Vergílio Ferreira-Cinquenta anos de vida literária, Actas do Colóquio Interdisciplinar, Porto, Fund. António de Almeida, 1993, p. 505.

11Ferreira, Vergílio, "Do livro ao filme" in Cântico Final, Lisboa, Arcádia, 1975, 4ª Edição, p.256

12 Vd. Ferreira, Vergílio, Conta-Corrente I, Lisboa, Bertrand, 1980, p. 175

13 Torres, Mário Jorge, "A tentação da imagem - a propósito das ficções cinematográficas sobre Vergílio Ferreira", op. cit., 1993, p. 506

14 Vd. Ramos, Jorge Leitão, Dicionário do Cinema Português, Lisboa, Caminho, 1989, p. 75

15 Vd. Pina, Luís de, História do Cinema Português, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1986, p. 187.

16 Idem, ibidem.

17 Vd. Torres, Mário Jorge, op. cit., p. 507 - 509

18 Elshoff, Marie-Thérèse, "La vision photographique et cinématographique de Vergílio Ferreira dans Signo Sinal", Anthropos, Barcelona, Ed. Anthropos, Outubro de 1989, p. XI - XVI.

19 Vd. Jost, François e Delveux, André, «Du roman à l' adaptation. Au début était Zénon...», L'avant Scène du Cinéma, 1988, p. 9

20 Idem, ibidem, p. 127

21 Ferreira, Vergílio, Arte Tempo, Lisboa, Rolim, 1988, p. 44 - 45

PÁGINA PRINCIPAL ½ ESPECIAL cinema