Conferência:

"O Balanço do Milénio"

Professor Doutor José Hermano Saraiva

Escola Superior de Educação de Viseu

29 de Março de 2000

 

Professor Doutor José Hermano Saraiva - Senhor Presidente do Instituto Politécnico, meus queridos colegas e queridos alunos: agradeço muito as palavras supremamente elogiosas com que o Sr. Doutor Antas de Barros me apresentou e que são realmente exageradas. Eu gosto muito de vir a Viseu, considero-me aqui sempre extremamente bem recebido.

Eu vou tentar falar-lhes deste milénio que está a terminar e a minha dificuldade é esta: vou falar-lhes do milénio que eu próprio tenho muita dificuldade em compreender.

O segundo milénio depois de Cristo, este que agora acaba, é um milénio cheio de contradições, de movimentos de avanço e de recuo e é difícil entendê-lo. Portanto, eu não vou ensinar-lhes nada. Vou falar em voz alta e dirijo-me especialmente aos estudantes.

Também não queria esconder o meu prazer de estar a falar aqui, num instituto politécnico, porque os institutos politécnicos a mim dizem-me muito. Fui eu quem criou em Portugal os institutos politécnicos, em 1969. Foi extremamente difícil convencer o Dr. Marcelo Caetano a aceitar a palavra politécnico. Para ele, politécnico pertencia exclusivamente à universidade. Enfim, foi uma luta em que, se a palavra ganhou, também não se deve a mim. Deve-se a um grande aliado que eu tive, e que ainda é vivo. Foi o engenheiro Rei de Pinto que convenceu numa cena, o projecto do Ministério que as palavras dizem o que dizem e não o que a história nos quer que elas tenham dito. O Politécnico francês, aliás o Eng. Rei de Pinto é doutor pela Escola Politécnica de Paris, portanto está muito à vontade. Politécnico quer dizer todas as técnicas e é um nome que fica bem a este ensino, que tinha um objectivo e que está um bocadinho esquecido. A criação, a instituição do ensino politécnico como grau novo, como grau diferente no ensino, primeiro é um protesto contra o snobismo. Quando me falavam em ensino superior, eu perguntava sempre: "Mas superior a quê? Mas superior a quê?". Depois, uma tentativa de articulação entre a planificação do ensino em Portugal e as necessidades do desenvolvimento português. Como sabem, não há relação nenhuma entre as projecções que nós podemos fazer das necessidades do nosso desenvolvimento e o número de alunos que estamos a admitir nas respectivas especialidades. Nós podemos precisar amanhã de ter dez mil médicos. As vagas e o numerus clausus das universidades não têm isso na mínima consideração. Em compensação, podemos não precisar de mais que cem psicólogos e temos sete ou oito de Psicologia a funcionar. Nesta altura temos a frequentar a universidade mais de um terço de milhão de jovens, mais de 350 mil estudantes. Cada um faça os vaticínios que quiser para o futuro. O que ninguém pode prever é que nos próximos anos, o mercado de trabalho português tenha postos de trabalho exigentes de licenciatura em número de 350 mil. Infelizmente, nem a quinta parte será verdade. Foi exactamente para colmatar esse problema que nasceu o politécnico. Daí, quando venho aos politécnicos, eu sinto-me, enfim, de certo modo realizado. É como quem deitou uma semente que não morreu de todo.

E vamos lá falar do milénio. Para terem uma ideia, os estudantes, do que aconteceu nestes mil anos... Vocês reparem, se eu quisesse dar-vos um facto por ano, tinha mil factos. Mesmo que eu conseguisse o prodígio de contar um facto num minuto, eu tinha que falar mil minutos. Era completamente impossível. Portanto, em vez de contar um facto por ano, vou-lhes falar de um facto de cem em cem anos. Concretamente, vou-lhes falar de um facto importante que tenha acontecido no ano 1000, outro do ano 1100, outro do ano 1200, 300, 400, 500 e, os alunos tentarão fixar uma palavra por ano.

Vamos começar no ano 1000 e a palavra é a palavra "pêndulo". Um pêndulo do relógio. Pêndulo. No ano 1000, um grande Papa, Papa Silvestre II, era francês e era de uma família de camponeses muito humildes. A bem dizer ninguém sabia qual era a família dele, tão humilde ela era. Ele estudou e depois veio estudar para Espanha. Esteve nas escolas de ensino dos mouros, com os árabes. Voltou para França. Foi mestre dos filhos do imperador da Alemanha e, enfim, foi eleito Papa. Atribui-se exactamente ao ano 1000, duas grandes iniciativas e há uma terceira a que ele está ligado.

Uma é inventar a contagem do tempo, por meio dos movimentos do pêndulo. É claro que isto parece muito simples, vocês sabem muito bem. Se este pêndulo, neste movimento demorar um segundo, claro que em 60 movimentos demora 60 segundos e em 60 segundos demora um minuto. Isto agora que a gente o sabe, não custa nada a dizer. A verdade é a que até ao ano 1000 ninguém usou um pêndulo.

A outra iniciativa deste Papa foi introduzir a numeração árabe. Porque até então usava-se a numeração romana. Aparentemente, a numeração romana é mais simples que a árabe. Porquê? Reparem nos números romanos. Só têm três sinais, que se baseiam na palma da mão. Têm esse sinal. Isto quer dizer? Um. E este? Dois. E este? Três. Claro. Portanto, são só dedos, um sinal, ou a mão toda aberta, quer dizer cinco, ou duas mãos, fazem um X, quer dizer dez. Na numeração romana há só estes três sinais: o dez, o cinco e os uns. E é claro que as cifras árabes são mais complicadas, porque o um é diferente do dois, o dois é diferente do três, o três é diferente do quatro, mas na realidade essa maior complicação dos algarismos permite fazer as contas muito mais facilmente.

Bem, foi o Papa Silvestre II, é a ele que se atribui a introdução da numeração árabe. É claro, essas coisas podem ter lenda. Agora, não tem lenda nenhuma que exactamente no ano 1000, este Papa mandou a coroa real da Hungria a um grande difusor do cristianismo na Hungria, ao Duque Estevão, que foi depois o Rei Santo Estevão. Ainda hoje, à coroa húngara se chama a coroa de Santo Estevão. Isto é importante por uma razão. É que no ano 1000, a Europa estava muito magoada. O Papa fazia grandes esforços para outra vez organizar a Europa. Vocês sabem que, estamos no ano 1000, antes disso tinha havido mil anos da Europa. Mas esses mil anos todos os entendem. Nós entendemos o primeiro milénio. No ano 1 nasceu Cristo e reinava Augusto e havia paz em toda a Europa. Uma paz muito bem organizada, uma paz com leis, com códigos, com estradas, com distritos, com minas, com muita moeda de ouro... Parecia que isso ia durar sempre, no ano 1. Bom, mas não durou sempre. 400 anos depois, portanto, no ano 400, já a Europa é um reino desmantelado com hordas de bárbaros a entrar por toda a parte, as legiões a tentarem impedir, mas a ficarem trucidadas, rios de sangue, cidades a arder. Bom, passa a onda dos bárbaros e, no ano 700, parece que vai finalmente acalmar. Antes do ano 700 é quando aparece o Carlos Magno. No ano de 800 é coroado outra vez imperador. Parece que vamos voltar aos tempos do império. Mas não. Porque vem outra onda de invasões, as chamadas invasões do século nono. Vêm os húngaros (os húngaros são asiáticos), vêm os normandos, os vikings (vêm por mar, vêm do norte) e vêm os árabes (vêm do deserto, com exércitos enormes). Portanto, debaixo, vindos da África, os árabes; do norte, os barcos dos vikings; do leste, as hordas dos húngaros escavacaram tudo quanto existia ainda da velha Europa romana e, a Europa cai numa situação de fome, de miséria, de violência, de degradação completa. E, reparem, quando agora este Papa Silvestre manda a coroa ao Rei dos húngaros (os húngaros eram um dos tais povos que tinham escavacado a Europa), ele manda-lhe a coroa e o título de apóstolo. Apóstolo. É o Papa a tentar reconstruir a Europa.

Bom, e começa... Ano 1000. Vamos entrar, como sabem, em 1001. Já estamos no século XI. No século XI, posso-vos dizer, ainda não havia Portugal. Já havia Viseu. Porque Viseu deve ter começado ali por volta do ano 1. Viseu nasce nessa altura. Nasce antes de Portugal. Agora, neste século XI ainda não há Portugal. É o tempo do feudalismo, o tempo em que a única riqueza é a terra, é um tempo, enfim, de lenta reorganização de uma Europa profundamente destruída, mas uma reorganização que está a ser ajudada por uma coisa. É que os mouros e o Califa de Bagdad (era quem estava a opor-se aos mouros) estão lentamente a destruir-se e os cristãos começam a pensar em ir até ao Oriente, à terra santa, e destruir as fontes do poderio dos mouros.

O segundo facto de que eu vos queria falar é no ano de 1100. A palavra é Jerusalém. Jerusalém, porque durante todo o século XI, a Europa vai ganhando forças e, quando chega ao fim do século, a cristandade já quer medir forças com o Islão. E, em 1095 organiza-se a primeira Cruzada. Na primeira Cruzada eles conseguem conquistar Jerusalém e exactamente neste ano de 1100 organiza-se em Jerusalém uma ordem de cavaleiros para ajudar os peregrinos feridos, os peregrinos que precisam de ir para o hospital. São os Cavaleiros de S. João do Hospital, são os Hospitalários. Os Hospitalários, depois, chamaram-se Ordem de Malta, que ainda hoje existem. E existem em Portugal, como sabem, os Cavaleiros do Hospital, olhem a Flor da Rosa, o Castelo de Belver, tudo isto tem a ver com Portugal. Todas estas datas têm relação com Portugal. Há bocadinho falei-lhes da Hungria. É da família desse primeiro Estevão, Rei da Hungria, a nossa Rainha Santa Isabel, que aliás é de 300 anos mais tarde. Mas tudo se liga em Portugal. Portanto, a segunda data da história do mundo é Jerusalém. Os cristãos estão em Jerusalém, organizam uma ordem de cavaleiros para tratar dos doentes – S. João do Hospital ou Ordem dos Hospitalários.

E começa o século XII. O século XII é um século de expansão da Europa. É o século das cruzadas. É claro que eu fico um pouco mal, dizendo que o século XII é o século das cruzadas. Porque se vocês me disserem "Então e o século XIII, não foi?". Também foi. O século XII e XIII são séculos de cruzadas. Mas são as duas grandes cruzadas, a primeira e a segunda cruzada, que a nós nos dizem imediatamente respeito (foi com a segunda cruzada que a gente conquistou Lisboa). Portanto, são no século XII. As cruzadas têm a maior importância, porque levam realmente a cristandade a instalar-se nos portos da Ásia Menor. Voltam os navios a vir carregados de mercadorias, as cidades italianas enriquecem durante o século XII, o feudalismo começa a entrar lentamente em decadência, porque estão a aparecer as cidades. Cidades independentes, algumas com forma republicana. Mas o facto que ficou para o ano 1100 foi Jerusalém. Bom, eu escolhi os factos porque há tanto facto em cada ano que era indispensável escolher.

Para o ano 1200, eu escolho uma palavra, também uma cidade. E não é por causa da cidade que eu escolho esse nome. A palavra é "Salamanca". É que no ano 1200 vai começar o século XIII. E o século XIII é o século das universidades, assim como o século XII foi o século das cruzadas. Em 1200 já estava a funcionar a Universidade de Paris, já estava a funcionar a Universidade de Bolonha, já estava a funcionar a Universidade de Bordéus. Portanto, eu tive que achar uma universidade que fosse criada nesse mesmo ano. Ora bem, nesse ano foi criada Salamanca, aqui ao pé de nós. Salamanca. Como sabem, a universidade portuguesa, Coimbra... só é criada em 1288. 88 anos mais tarde. Eu confesso que esse longo atraso entre Coimbra e Salamanca me dá que pensar. Eu penso que talvez essa data nos engane. Mas enfim, é o que está estabelecido oficialmente e está nos documentos. O Rei é que mandou pedir ao Papa licença para ter uma universidade em 1288. É claro, a minha dúvida vem daqui. Isto é um desafio aos colegas de História. É se antes disso ele não teria alguma universidade sem licença. Porque isso é muitíssimo possível. Porque antes disso ele estava excomungado. E um rei excomungado não podia ter universidades. E mesmo em 88, o Papa deu a licença, mas Teologia não se podia ensinar na nossa universidade. O estudo geral de Lisboa (começou em Lisboa, como sabem, depois passou para Coimbra) não podia ensinar Teologia. Isto faz-me acreditar que já havia estudos superiores em Lisboa antes de 88, porque 1288 é uma data muito avançada da História de Portugal. É do tempo do D. Dinis. Como sabem, o D. Dinis é filho do D. Afonso III. O D. Afonso III é um rei europeu. D. Afonso III passa a vida em Paris. É um parisiense. D. Afonso III, vem para aqui, nomeado pelo Papa e depois dum compromisso solene tomado na Universidade de Paris. Tudo isso é bastante pouco harmonizável com ele não ter chegado... E vem para aqui acompanhado por professores da Universidade de Paris, um dos quais foi o Bispo de Lisboa. Bom e ficamos com 1200, Salamanca. Portanto, o século XIII é o século das universidades e por isso, é um século de grande progresso. Século XIII é o século do gótico. Século XIII é o século dos grandes manuscritos, das grandes sombras teológicas. É o século de Filosofia. É o século da querela dos universais. É o século de S. Tomás. O século XIII é dos séculos mais ilustres da história da Europa.

Bom, e chegamos assim ao ano de 1300. No ano de 1300 a palavra é "Dante". Em 1300, Dante terminou a "Divina Comédia". A "Divina Comédia" é escrita numa das mais, talvez então fosse a mais avançada cidade do mundo, em Florença. A propósito, Florença fez-se república em 1250. Como sabem não há italiano. Italiano é uma invenção nova, depois da unificação da Itália. Porque o que havia era dialectos. Portanto, no tempo de Dante havia o florentino e ele escreveu a "Divina Comédia" em florentino, de Florença. Ainda hoje, em Florença, há o culto do Dante. Dante, o Grande, porque representa o grande expoente da cultura italiana, em 1300. Em 1301 começa o século XIV que é outra vez um século a andar para trás. É um ano de grandes fomes. E grandes fomes porquê? Porque no século XIII, com aquela expansão toda, foram cultivar terras, desbravar terras que não serviam para dar pão. É claro que os efeitos sentem-se no século seguinte. Essas terras são abandonadas. Mas agora já há muita gente nos casais que quer comer e não tem pão. É o século da peste. É a terrível peste negra, em 1348. Morreu um terço da população da Europa. É o século da guerra. Começa a Guerra dos Cem Anos, começa no meado do século e durou cem anos. Vai acabar já no século XV, em 1457. Portanto, um século de fome, de peste e de guerra, o século XIV, de revoluções, de revoltas e chacinas de populações. Nós também tivemos a nossa revolução, no século XIV, como toda a Europa. Levantam-se os camponeses do Alentejo e aclamam um jovem cavaleiro que se põe à frente deles, que se chamava Nuno Álvares Pereira. O século XIV é um século em que despertam por toda a Europa os espíritos nacionais. Antes do século XIV, um homem não dizia "eu sou espanhol", "eu sou português", "eu sou francês", "eu sou italiano", "eu sou inglês". Não. Eram católicos apenas. Eram filhos da Igreja. A língua universal era o latim. A ideia de cada terra, cada pátria, sua língua, sua comunidade, sua independência, sua bandeira. Olhem, as bandeiras nacionais nascem todas no século XIV. O século XIV era o século das nações. É um século de violência, é um século a andar para trás.

Bom e chegamos a 1400. Qual é data que eu escolhi para 1400? Em 1400, eu confesso que não achei assim um ano, um acontecimento. Portanto, proponho para 1400: "ajudem-nos". No ano de 1400, os turcos estavam já a cercar por todos os lados a cidade cristã de Constantinopla. O imperador de Constantinopla, Manuel II, veio à Europa, foi ter com os Duques da Áustria e a todos pediu que mandassem ajuda para evitar que Constantinopla caísse em poder dos turcos. Mas a Europa metida com as suas guerras quando ele aqui chega (ainda não tinha acabado a Guerra dos Cem Anos). Como é que a França que estava a fazer guerra à Inglaterra, podia mandar tropas para Constantinopla? Bom, o resultado foi, que no meado do século, Constantinopla caiu em poder dos turcos, os turcos alastraram por toda a Europa, chegaram às portas de Viena. Dizemos que a Idade Média acabou em 1453. Sim. Mas, na verdade, em 1400, já o imperador pedia ajuda à França e essa ajuda era-lhe recusada.

Bom, segue-se o século XV. Como sabem, o século XV é um século muito importante, porque é um século também de grande progresso, apesar dos turcos, e talvez em parte por causa disso, é um século de cultura. Aquelas obras primas das cidades italianas, a Catedral de Florença, por exemplo, é do século XV. Em Portugal, o grande cronista Fernão Lopes, que é um dos maiores escritores da história europeia de todos os tempos, é do século XV, viveu no século XV. Mas há aqui um facto que é do século XV e só isto, infelizmente não foi em 1400, mas é um facto que marca um século. É a invenção da Imprensa. Como vocês calculam, a Imprensa permite em vez de um livro escrito à mão, fazer um livro escrito a carimbo, com folhas. E em vez de se tirar um exemplar, tiram-se centenas. A invenção da Imprensa vem alterar completamente as condições culturais da Europa. Completamente. Sem livros não se aprende. Isso comove-me muito. A importância de um livro.

No próximo dia 1 de Abril, que é daqui a três dias, faria anos que o meu pai nasceu, se ele fosse vivo. O meu pai era de uma família pobrezinha e nasceu em Abril, na Beira. É um clima gelado e o menino nasceu prematuro. Nasceu de sete meses. Então, o pai dele levantou a mão, tirou uma telha do telhado e ele pega no menino, põe o menino na telha e viu-se que do corpo do menino para a telha ainda sobravam três dedos. E todas as velhas da aldeia disseram "Que pena, mas este menino não vinga!". Esse menino vingou, foi o meu pai, teve seis filhos, foi membro da Academia, foi vice-presidente da Academia das Ciências, morreu com 80 anos. Mas tão pobrezinho que nunca pôde andar na escola. E julgava ele, se ele tivesse um livro. E a certa altura, assim, em vésperas de Páscoa, quando se fazia a limpeza das casas, ele viu lá nas traseiras de um palácio, umas folhas de um livro sem capa nem nada, mas era livro, sem dúvida, era livro, começou a perguntar aos colegas que tinham a sorte de andar na escola primária. "Olha, isto como é que se lê?" Um B e A. Então, B, A, BA". E foi assim, ligando as letras que ele aprendeu a ler e aprendeu aquele livro de cor. Aflito, com as lágrimas nos olhos, procurou o professor da escola primária e disse-lhe: "Senhor professor, eu, como sabe, não posso vir à escola, porque tenho que guardar as duas cabrinhas" - que eram o que dava leite para os seus irmãos que ele tinha – "mas tenho um livro, mas eu devo ser muito estúpido, porque eu não entendo nada, nada do que o livro diz. Eu já o sei de cor.". E começou a dizer o livro. E o professor disse: "Ó rapaz, traz-me lá o livro. Eu também não percebo.". Bom, é que o livro que ele tinha achado não era em português, era em latim. E mesmo assim aprendeu-o de cor. Foi um dos maiores latinistas portugueses. Mas isto mostra até que ponto um livro é importante. Vejam se o meu pai não tinha encontrado aquele livro. Eu não estava agora aqui concerteza a falar convosco. Não estava. Desculpem-me esta invocação que me enternece muito: o meu pai que, enfim, foi o maior homem que eu conheci.

Mas o livro no século XV vem tornar possível que milhares de pessoas leiam e pensem.

Bom e chega 1500. Em 1500 quero-vos dar um facto, mas aí é que já todos o sabem e se eu lhes desse um que não fosse este, levavam-me a mal. Em 1500, o navegador português levando uma grande armada chegou defronte da costa do Brasil, a um lugar chamado Porto Seguro e travou o primeiro contacto com os índios brasileiros. Está nesta altura, portanto, a decorrer o meio milénio sobre uma das datas mais gloriosas da história da humanidade.

Eu não compreendo a frieza, a quase vergonha com que os portugueses estão a comemorar a descoberta do Brasil. Por este caminho só nos resta, senhores professores, mandarmos uma embaixada ao Brasil a pedirmos perdão por os termos descoberto. E não temos nada que pedir perdão. A acção portuguesa no Brasil não tem paralelo em qualquer das nações colonizadas pela Europa. Primeiro, porque éramos poucos. Quando os colonizadores eram muitos, substituíram-se aos colonizados. Foi isso que fizeram os espanhóis no México. Foi isso que fizeram os ingleses na América do Norte. Já não há índios, os restos que há, estão nas reservas ou nos museus de cinema. Os índios continuam a ser o fundamental da população brasileira. Nós não os exterminámos.

Fizeram em Lisboa, agora, uma exposição sobre o Brasil. Ninguém fala do Cabral. Não se pode falar do Cabral. Cabral? Que coisa tão feia! Mas ninguém fala também no Tiradentes. Mas ninguém fala também no Caramuro. Mas ninguém fala também no Martim Afonso de Sousa. Nada! Fala-se apenas no ouro que roubámos e na escravatura que impusemos. É isto que se ensina aos estudantes. Portanto, dá-se já uma explicação. Quanto ao ouro, é certo que em 1698 se encontraram ricos filões de minas auríferas no Brasil. Esse ouro foi explorado e era obrigado a entregar ao Estado o quinto. E os senhores alunos de Matemática que me digam se eu estou enganado, mas eu acho que o quinto é 20 por cento. Porque isso que era o tributo real, era para ser gasto em Portugal e no Brasil. A escravatura: é verdade que houve escravatura no Brasil. Como houve em todos os países do mundo. A escravatura é uma coisa horrorosa e a gente hoje mal pode compreender, como durante tantos séculos ela se praticou. É uma coisa que nos envergonha a todos. Bom, mas não fomos só nós, foram todos. O que fomos só nós a fazer, foi que fomos o único país em que se ergueram vozes a condená-la. O que há só no Portugal e no Brasil, é um herói dos direitos humanos como o Padre António Vieira. Lá nessa exposição apresentam uns instrumentos de escravatura horrorosos, umas argolas para levar os escravos. São de aço. Têm cinco centímetros de espessura, e cada argola daquelas servia para prender cem elefantes. Aquilo é perfeitamente falso. É claro que havia cordas, eles andavam presos por cordas. Agora, o que ficou no Brasil e ainda hoje há lá por todo o lado e só no Brasil é que há, não é a coleira do escravo, é o balangandã e isso não está na exposição. O balangandã é quando um homem branco amava uma mulher preta, dava-lhe uma prenda, uma prenda de prata. Era um fruto, uma figa, uma cabeça de anjo, uma maçã, um pombo. Era uma peça pequena e isso tinha umas argolas e enfiava-se umas nas outras até fazer um colar. Claro, quando uma mulher dançava com aquilo ao pescoço, aquilo fazia balangandã. Ainda hoje, em qualquer loja do Brasil, se encontra os balangandãs. É o único país aonde a escravatura engendrou uma forma de ourivesaria oferecida pelos homens às mulheres. E isso ninguém o recorda. Portanto, o Brasil deve-nos o exemplo de uma solidariedade humana, uma capacidade de amar, uma dimensão. Deve-nos, por exemplo (eu acho que isto nos enche de orgulho), o Brasil foi a única colónia do mundo que quando se quis fazer independente, escolheu para seu chefe de estado, o filho do Rei de Portugal. Não há mais nenhum país da Europa que possa contar uma história assim. Na hora da revolta, da libertação, de deitar fora as algemas, elegeu o imperador, o Senhor D. Pedro, filho do Rei D. João VI. Ora, é essa história que hoje é viva, que é verdadeira, que é preciso contar. E disso eu não tenho vergonha nenhuma, pelo contrário, tenho um imenso orgulho de termos sido nós quem prestou esse serviço e deu esse exemplo à humanidade. A própria forma, meus amigos, como nós chegámos ao Brasil! A testemunha chama-se Pêro Vaz de Caminha, ele escreveu. É claro, o Cabral chegou lá, havia um bosque denso e começam a aparecer por entre o bosque, muitas caras de índios. Bom, eram uns belos homens, pintados de encarnado, estavam despidos, mas tinham uns penachos de penas com cores vivas, vermelho, amarelo e também mulheres. E as mulheres estavam inteiramente despidas. Bom, vocês imaginam, os nossos marinheiros, estavam há 40 dias num navio, há 40 dias fechados ali Aquelas rapariguinhas ali. Aquilo parecia o paraíso e eles queriam saltar para o paraíso. O nosso capitão, Pedro Álvares Cabral, mandou lá um rapaz novo, Diogo Dias, que era um rapaz muito culto, era almoxarife das rendas de Sacavém e era dançarino. Eu desconfio que o Cabral o mandou por isso. Ele era dançarino. E o rapaz disse. "Então, mas eu agora, sozinho...?". "Não, não. Levas um guarda, mas a única arma que o teu guarda pode levar é uma gaita de foles d’ Entre Douro e Minho. Não pode levar nem faca, nem adaga, nem espingarda...". Já havia armas de fogo, os nossos navios estavam cheios de armas de fogo, canhões. Mas não. A única arma é uma gaita de foles. Bom, e o rapaz lá se mete no batel, lá desembarca, salta na praia, cheio de medo, porque os nativos tinham arcos, setas muito grandes e com setas que ele nem sabia se não estariam envenenadas. Portanto, eu imagino a aflição daquele rapaz a dizer ao gaiteiro: "Toca, toca!". O gaiteiro começa a tocar umas coisas. Como todos sabem, os brasileiros são extremamente musicais. Ao primeiro compasso de música tudo aquilo começa a dançar. E é o que acontece. A gaita a tocar, eles acham bonito e põem-se a dançar. O Diogo Dias percebeu, olhou para os índios, um tinha um penacho maior que os outros e portanto, devia de ser chefe dos outros, e pegou nas mãos dele e começou a dançar. Os outros índios fizeram todos uma roda e fizeram uma enorme dança ao som das melodias rústicas do nosso Entre Douro e Minho. Não há, em toda a história da expansão europeia antiga e moderna, desde os cantos homéricos até à actualidade, nenhuma página tão bela de entendimento humano. Eu pergunto, com incontida mágoa e desgosto, que diabo de feios sentimentos nos impedem de contar essa página, de mostrar que foi assim, de ter exposto em lugar de honra nessa exposição a carta de Pêro Vaz de Caminha que escreveu isso pelo seu próprio punho, num documento que ainda hoje existe mas que está guardado a sete chaves.

Falei-lhes do século XVI, quero chegar ao fim e quero falar-lhes de um facto, cem anos depois, 1600. E em 1600 vou-lhes indicar um nome próprio. Em 1600, a palavra é "Giordano Bruno". Giordano Bruno é um grande pensador que foi queimado vivo, na cidade de Roma, no ano de 1600. E indico esse facto porquê? Porque realmente é um bom exemplo para o século XVII. Em 1601 vai começar o século XVII. O século XVII é o século das fogueiras da Inquisição. O Bruno foi queimado, mas milhares de outros Brunos foram queimados em muitos países. Em Portugal foram três ou quatro mil. Giordano Bruno era um antigo dominicano, era um homem genial que pensava à frente do seu tempo. Nunca deixou de ser religioso, mas entendia a religião de uma forma que ele pensava ser a que estava de acordo com a inteligência nova, com a inteligência depois do Renascimento. Eu estou convencido que hoje, se Bruno fosse vivo, era canonizado. Para Giordano Bruno, Deus era a inteligência do mundo, era o absoluto personificado; os valores absolutos chamam-se Deus. E é esse valor absoluto que rege a grande máquina do mundo e cria a harmonia dos mundos. Esta era a ideia que Giordano Bruno tinha de Deus e por isso foi queimado. Penso que por um lado, Bruno dá uma ideia da inteligência à frente do seu tempo. Por outro lado, Bruno é uma boa ideia do século XVII. O século XVII vai ser um século de profunda luta entre a inteligência e a repressão. É o século dos grandes pensadores: Descartes, Bacon. Os grandes pensadores europeus que criam um fundo de pensamento original europeu em toda a teoria do conhecimento, são do século XVII. Em Portugal, é o século das fogueiras da Inquisição, dos mártires, da perseguição aos judeus e portanto, de uma decadência muito grande, do domínio filipino e também, o século da nossa restauração.

Em 1700, a data que eu vos queria pedir que registassem seria uma data que nos diz respeito a nós, é o início da Guerra da Sucessão de Espanha, exactamente em 1700. Morreu o Rei de Espanha, era um pobre homem, incapaz de ter sucessor e portanto, tinha que se escolher um sucessor. Esse sucessor tinha que ser um neto, ou um sobrinho-neto, ou francês ou alemão. Se fosse francês, ficava um terrível bloco França e Espanha, e a Inglaterra não concordava. Se fosse alemão, ficavam outra vez com o império da Casa de Áustria, com o sonho do império europeu, da unidade europeia. Sabem que a Casa de Áustria tinha um programa que era AEIOU: Austria Este Imperare Orbi Universu – A Casa de Áustria nasceu para governar o universo. Essa ideia da unificação do mundo, é o império de Carlos V e ia-se agora realizar, outra vez, com a Espanha e o Império Alemão e a Casa de Áustria, todas sob o mesmo monarca. Por isso, a Inglaterra não concordou. Bom, Portugal entrou nessa guerra, foi uma guerra que só nos fez mal. Isso em 1700.

E começa o século XVIII. O século XVIII, como todos sabem, é um século também de ideias, é um século de progressos, é um século em que aparece alguma renovação mental, aparecem os iluministas, o Voltaire, o Rousseau, o Montsquieu. É um século em que aparecem as primeiras máquinas a vapor, é um século em que começa a primeira produção em série, é um século em que começa a haver grandes burgueses e esses grandes burgueses têm o dinheiro e quem tem o dinheiro quer o poder. Por isso, eles no século XVIII vão tendo cada vez mais força até quando chegam ao fim do século, em 1789, como sabem, tomam a Bastilha, prendem o rei, cortam-lhe o pescoço, fazem a Revolução Francesa e isso provoca, da parte de todos os outros países, a tentativa de liquidar a França como um país e uma série de coligações para esmagar a França. Bom, mas a França defende-se com uma valentia extraordinária e apresenta um homem, é o homem que marca o ano de 1800.

Para 1800, vocês pensem "Napoleão". Esse homem que é um excelente militar, consegue impedir a destruição da França, pelas potências coligadas e até mais do que isso. Consegue impor a hegemonia da França a toda a Europa. Ele tem a ideia de fazer o império N, o império Napoleão. Ele manda um irmão para a Espanha como rei, manda outro irmão para Itália como rei, manda primos, até um criado dele mandou para a Suécia como rei e lá está, é o Bernardotte. Lá está o bisneto dele, ou o trineto. Ele era uma monarquia de família mas a verdade é que conseguiu com isso levantar muito alto o espírito da França. É claro, depois foi tão longe que quis chegar a Moscovo e aí o Inverno foi mais forte do que ele. O exército dele é destruído na travessia das planícies da Rússia e ele é obrigado a abdicar, a abandonar e vai morrer como triste prisioneiro numa ilha, Santa Helena, numa ilha com um clima cruel, que não lhe deu muito tempo de vida. Napoleão é um homem que além das conquistas, criou o primeiro Código Civil. A ordem jurídica burguesa triunfa na Europa com Napoleão.

O século XIX é o século dos burgueses, a grande burguesia, as avenidas, os edifícios. E por isso mesmo para o ano de 1900, o nome que eu vos proponho é "Eça de Queirós". Morreu nesse ano e foi o homem que desenhou mais genialmente a caricatura do homem burguês. Ninguém entendeu tanto por dentro as podridões do mundo burguês como Eça de Queirós. É um dos mais geniais escritores europeus a descrever exactamente esse mundo que ele tinha visto levantar-se durante a vida dele. Morreu em Paris, tinha 55 anos, morreu no ano 1900.

Bom, e agora para o ano 2000 qual é o facto? Para o ano 2000, o facto para mim, é o Papa, diante do Muro das Lamentações, em Jerusalém, a pedir a Deus que perdoe aos homens que ao longo dos séculos têm cometido tantos erros. Tantos erros que trouxeram outra vez o mundo à beira da guerra. Durante este nosso século, que nós vimos, que agora acaba... Eu nasci na Primeira Grande Guerra feita pela Inglaterra, para derrubar a Prússia, a arrogante Prússia e ganhou. Ganhou com o auxílio americano, e por isso, quem ganhou a guerra foram os americanos. Depois vocês ainda assistiram um pouco a essa longa guerra, primeiro no campo das armas, depois no campo do armamento, primeiro nas batalhas, depois no armamento, depois nas intrigas diplomáticas que se chamou Guerra Fria, guerra entre dois blocos rivais do mundo: a América e a Rússia. Havia uma profecia do Karl Marx, dizendo que o mundo socialista seria o que ganhava, mas a profecia estava errada. Não foi o mundo que ganhou, o mundo socialista, foi o mundo capitalista. Hoje, quem governa o mundo é um poder chamado o dinheiro. Esse poder enorme preocupa-se apenas com a sua própria multiplicação e não faz reinar no mundo os valores eternos da humanidade e da justiça. Por isso, o Papa pediu perdão por tantos erros que continuamos a cometer. Meus queridos amigos, estou a falar há tanto tempo que não posso conter o meu agradecimento pela atenção com que me escutaram.

SUMÁRIO