Entrevista com o Professor Doutor José Hermano Saraiva

Dois Vultos do Século XX - Kennedy e Gorbatchev

Entrevista conduzida por Iliana Pereira e Sónia Castro

Edição Especial - Considera que Kennedy nasceu para o serviço público ou que foi modelo para os seus sucessores?

 

José Hermano Saraiva - Penso que, na dinâmica eleitoral norte-americana, destacamos a personalidade e o valor diferencial de cada individualidade, os líderes políticos são expoentes do interesse económico.

 

E. E. - Durante a campanha presidencial, a televisão norte – americana transmitiu uma série de debates entre Kennedy e Richard Nixon. Este alegava que Kennedy era muito jovem e inexperiente mas, no vídeo, pareceu pouco à vontade e sem preparação, face à elegância do seu adversário. Que tem a dizer sobre isto?

 

J.H.S. - Repito: todos esses jogos são ensaiados. A espontaneidade da vida política norte-americana não me convence. Foi um presidente... Foi um presidente que entrou na história, essencialmente por ter sido assassinado em condições dramáticas. Era um homem que dominava muito bem os meios de propaganda gigantescos ao seu dispor, mas, enfim, não creio que a personalidade tivesse influenciado a história

 

E. E. - Que consequências teve o fracassado episódio da Baía dos Porcos, em 1961?

 

J.H.S. - Penso que foi um erro a tentativa de interferência na política de um país vizinho e, portanto, considero o facto negativo e condenável, e ainda por cima, fracassado. Um fracasso que teve um efeito decisivo na consolidação do poder pessoal cubano.

 

E. E. - Que reforma foi essa que Kennedy propôs, na Legislação dos Direitos Civis, em 1963, perante as demonstrações de violência nos EUA?

 

J.H.S. - Tudo isso é um grande jogo de propaganda, na minha opinião. As manifestações de violência nos Estados Unidos têm a ver com diferenças raciais e económicas muito enraizadas, que Kennedy não fez nada por corrigir.

 

E. E. - Na sua opinião, o assassinato de Kennedy deveu-se a um movimento colectivo de retirada na política ou, pelo contrário, tratou-se apenas de um acto delinquente?

 

J.H.S. - Continua a ser um enigma policial por desvendar.

 

E. E. - Numa frase, como define e contextualiza John Kennedy?

 

J.H.S. - Mais um presidente.

 

J.H.S. - Claro que foi porque, enfim, dirigiu uma carreira política. Se ele não tivesse seguido essa carreira, nunca poderia ter sido líder do governo. Portanto, essa foi a base para o lançar no governo.

 

E. E. - Quando Gorbachev chegou ao poder, em 1985, a União Soviética enfrentava inúmeros problemas. Que problemas foram estes? O que é, afinal, a Perestroika?

 

J.H.S. - Gorbachev é um homem a quem a história deve um enorme serviço. E, pessoalmente, era um homem muito corajoso. A bem dizer, a Europa estava em guerra desde 1940 e é em 85 que Gorbachev vai directamente aos Estados Unidos, e propõe o desarmamento. É ele quem termina a Guerra Fria. Quer dizer, a Europa deve a paz a Gorbachev. A esse seu gesto gigantesco e magnético, deve a sua derrota política porque, evidentemente, desarmando a Rússia, esta perdeu a força que tinha. E os russos não concordam com o facto de Gorbachev ter transformado a Rússia-Superpotência, num pobre país, que hoje anda a reboque dos Estados Unidos.

 

E. E. - Vê na liderança de Gorbachev um ponto de ruptura com o passado soviético ou, pelo contrário, como alguns contestaram, uma nova embalagem da velha ideologia do Partido Comunista?

 

J.H.S. - Completamente. Completamente. Este homem alterou o estado.

 

E. E. - Que marcas é que ele deixou na União Soviética, ao ter passado pelo poder?

 

J.H.S. - A perestroika e a transparência do governo catedrático, a desmitificação do poder pessoal, a tentativa de introdução de instituições democráticas e comunicações livres. Eu diria, é um homem que tentou rebocar a Rússia para o Ocidente. É claro que isso foi à custa dele próprio.

 

E. E. - Considera que o facto de Gorbachev ter sido Secretário-Geral do Partido Comunista, foi decisivo no seu lançamento à liderança da União Soviética?

J.H.S. - Claro que foi porque, enfim, dirigiu uma carreira política. Se ele não tivesse seguido essa carreira, nunca poderia ter sido líder do governo. Portanto, essa foi a base para o lançar no governo.

 

E. E. - Numa perspectiva biográfica de Gorbachev, o homem que era contra o fabrico de armas nucleares, como define a sua personalidade, a sua ideologia e as suas realizações?

 

J.H.S. - Bom, penso que era um homem de gabarito. Gorbachev viu claramente que, na confrontação dos armamentos e no dirigir maciço ao estado soviético, estes foram ultrapassados pelo governo americano. Quis impor essa derrota no plano económico, acabando com a planificação maciça e tentando ocidentalizar a Rússia. São grandes acções e, naturalmente por isso, teve que pagar um preço

SUMÁRIO