Álvaro Meneses

Não é tarefa fácil falar de um HOMEM com quem tive o privilégio de privar de perto e por quem nutria profundo respeito e admiração.

Nos últimos tempos o "café Twin’s" transformou-se no nosso ponto de encontro onde diariamente o encontrava a tomar o seu café da manhã, sempre com o seu companheiro inseparável – um jornal.

Por mais variados que fossem os temas de conversa inevitavelmente o jornalismo, os jornalistas e a comunicação social em geral era assunto, quase obrigatório, entre dois amigos, que embora separados pela diferença de idades, comungavam dos mesmos valores éticos e deontológicos, cada vez mais arredados da prática de uma profissão que, há muito, esqueceu o seu verdadeiro papel de formar e informar.

Foram momentos que nunca mais poderei esquecer. Falava o Mestre. O saber de uma experiência acumulada misturava-se com uma amargura, e quantas vezes raiva, patenteada num vocabulário rude e tipicamente beirão que definiam uma personalidade vincada e ao mesmo tempo desiludida com o que lia, ouvia e particularmente, com a forma como se escrevia.

Pintava o quadro social actual com cores bem cinzentas e criticava severamente uma parte da sociedade viseense a que ele chamava de "acomodada e virtualmente instalada na vida, que nada fazia pelo desenvolvimento da nossa região".

Viseu perde assim este HOMEM intelectualmente superior. Eu perdi um Mestre, um amigo. Paz à sua alma!

Manuel Martins

4º Ano do Curso de Comunicação Social

 

Importância de um Código de Ética ?

 

" Em princípio todas as coisas devem ser regularizadas preto no branco, embora a eficácia dos resultados dependa muito da consciência individual de cada um.

... no que diz respeito ao jornalismo tudo deve ser regularizado, a sua deontologia, os seus princípios éticos, até porque ninguém tem o direito de pôr o pé na argola de forma a chatear os outros e a prejudicá-los. Todavia como o jornalismo tem, quanto a mim, uma função didáctica, pedagógica de intervenção social, por vezes as coisas más, feias, porcas têm que ser trazidas cá para fora... isentas, elegantes, de forma a não estar gratuitamente a dar pancadaria em quem não merece".

 

O Jornalismo actual distancia-se ou não desse Código?

 

" Há excepções como tudo mas há um bocado de bandalheira assim para pôr as coisas em termos mais violentos, porque o deus dinheiro está outra vez na mó de cima, os princípios estão lançados às malvas e o que os proprietários dos jornais querem é dinheirinho na carteira... e só não vale tirar olhos, porque as coisas bonitas, a música suave não interessa a ninguém, o que interessa é o pimba, a cambalhota... aquilo que dá no olho das pessoas de forma a provocar um certo impacto. Lá há a velha história – um cão que morde um homem não é notícia mas se o homem morde o cão já é uma notícia e isto verifica-se muito, para se vender p´rá frente é que é o caminho e não se olha de facto a ética nenhuma, o que interessa é os escudos...

... enquanto a mentalidade social, que não é só no jornalismo, for esta, andar à procura do eurozinho, do escudinho, estamos mal...

Agora um Jornalista consciente assim como outro qualquer profissional tem que ver que o dinheiro não é o mais importante de tudo...

Acredito se queremos ser civilizados, humanos e solidários que este princípio de atracção ao vil metal tem que levar uma machadada.

 

Necessidade de uma entidade fiscalizadora ?

 

" Eu sou contra a repressão oficial, acho que a repressão deve estar em nós mesmos, nós é que temos obrigações.

... isso passa muito pela moral e a moral não é o estado que a dá, a moral tem que ser nas escolas, tem que ser nas igrejas no aspecto de criar um homem novo, o tal homem - sê homem de verdade - como dizia o anterior Papa.

Preto no Branco – haver de facto uma Lei da Ética, da Deontologia Profissional é necessário mas sobretudo se as coisas não estiverem no coraçãozinho e na cuca das pessoas não há lei nenhuma que dê efeito...

 

Qual o papel do Jornalismo?

 

"... isto é necessário denunciá-lo, que já está, mas o que é preciso é cortar as patas ao bezerro, essa coisa do dinheirinho ser o principal da vida é importante não se nega, mas essa obsessão por dar tudo por uns patacos na algibeira, não pode ser... por vezes pessoas e grupos sociais em que nós tínhamos uma certa esperança que reagissem contra isso estão a deixar-se atolar no mesmo espírito do capitalismo...".

 

Crise no Jornalismo é reflexo da crise social ?

 

"... o que se passa no jornalismo neste aspecto de uma certa indecência é o reflexo de tudo isto. O jornalista não é um gajo especial, não é um eremita, vive no mundo, agora tinha a obrigação de reagir no sentido da decência, no sentido do acerto destas coisas todas, mas o jornalista também precisa de viver e por vezes tem que estar na dependência, quase absoluta, do autor, do director, do proprietário que o que quer é massa e se o gajo começar a ser muito honestozinho, muito certinho, muito verdadeirosinho e tal, está lixado...".

 

Independência, Verdade, Isenção... ?

 

"... também é verdade que não é preciso um gajo estar a fazer um jornalismo de escândalo, um jornalismo rasca para se vender jornais... se um gajo for certinho, verdadeiro a denunciar o que está mal e a aplaudir o que está bem, estou convencido que se vendem na mesma jornais, até se vendem mais, porque nem toda a gente é pimba... tem uma mentalidade do imediato, da coisa que soa bem ou que se movimenta bem... o grande público querendo embora a sua pequena malandrice, gosta de ouvir e ler umas coisas frescas, no fundo gosta de coisas sérias, gosta de coisas honestas, gosta de coisas verdadeiras... temos para aí publicações e não só, rádios e televisões que por causa do tal dinheirito é à balda, aquilo quanto mais ordinário melhor para os gajos e as pessoas dão atenção àquilo...".

SUMÁRIO