Comunicação e Cultura na epistolografia do Renascimento

 

Luís Miguel Oliveira de Barros Cardoso

Escola Superior de Educação de Viseu

 

Hominum doctorum amicitiam, non aestimabat tantum, sed et solicitabat, eosque ad mutua litterarum commercia lacessebat.

Pe. ANTÓNIO DOS REIS, Vita Petri Sancii Vlissiponesis.

 

Cidadão do mundo, em constante desejo de enriquecimento pessoal, científico, literário e humano, o humanista encontra nas cartas um meio privilegiado de saciar a sua sempre viva sede de conhecimento.

Pedro Sanches, como o seu biógrafo nos diz no Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum, estimulava e solicitava o contacto com os homens doutos, o que só vem reiterar a sua veia humanista de «comércio literário», entabulado através da via epistolar.

Uma leitura das cartas do humanista revela-se um instrumento de eleição para o conhecimento da personalidade do autor, à semelhança do que aconteceu, por exemplo, com Cícero.

Cícero, na sua exemplar capacidade «poligráfica», deixou à Humanidade uma herança rica pelas suas ilustres virtudes na política e na filosofia, legando todavia o seu cálamo mais aceso, mais vivo, no seu epistolário, documento raro que espelha o percurso biográfico do autor bem como as vicissitudes da república num período conturbado. Tal como Cícero, Pedro Sanches testemunha e experiencia o mundo que o rodeia através de uma pena perspicaz, aguda, cortês, graciosa, judiciosa, meditabunda ou enérgica.

A alma de Cícero reflecte-se frequentemente nas suas cartas como podemos constatar com as seguintes palavras de Paratore:

«E, afinal, aquilo que se descobre nas cartas é um dos aspectos mais humanos e mais vivos de Cícero. Que ele deponha o tom de optimus vir, de guarda de toda a sã norma do viver civil, e se nos mostre nas suas fraquezas, nas suas angústias, nas suas ânsias, nas suas teimosias, nas suas antipatias, nas suas malícias, homem entre os homens, é uma integração felicíssima e simpática da sua figura poliédrica1».

O nosso humanista Pedro Sanches apresenta alguns traços biográficos comuns a Cícero: a jurisprudência e as Belas-Letras. A filosofia parece-nos ser também um traço comum, que aliás, a Sanches não seria totalmente estranha, dado que uma carta de André de Resende dirigida ao humanista e amigo, aborda a problemática da busca filosófica da verdade, o Homem como títere do destino e o Universo sujeito ao Acaso. Por outro lado, ecos de Platão e do De Senectute de Cícero parecem ressoar na carta a João Lopes.

Quanto a Pedro Sanches, nas cartas que vão saindo à luz, entrevê-se um homem e um humanista sério e fervoroso, afável e bondoso, avesso a intrigas palacianas, como nos diz o seu biógrafo, o Pe. António dos Reis na Vita Petri Sancii, que passamos a citar:

«Por isso, muitas vezes se lamentou das manhas de uns quais que quase expulsaram Lúcio André de Resende do palácio e persuadiu o próprio Resende a que procurasse o Rei mais frequentemente e obrigasse a calarem-se aquelas loquazes rãs, que importunavam os régios ouvidos com as suas desagradáveis vozes».

O nosso humanista, que ocupou vários cargos de grande responsabilidade na Corte, pelo que sabemos até ao momento, não se deixou enlear pelas teias da ambição política, e a sua repulsa pelas conspirações e manobras palacianas era enérgica e sentida, como o extracto que apresentámos provou, relativamente ao seu amigo André de Resende.

Conhecemos também um Pedro Sanches que não hesitou em publicar a expensas pessoais obras dos seus amigos Inácio de Morais e Jerónimo Cardoso, gesto decerto acompanhado com benesses financeiras, a julgar pela comiseração patente na Epístola a Inácio de Morais. Por outro lado, sabemos que Sanches distribuía frequentemente aos mais necessitados dinheiro «dizendo que não havia nada de mais vergonhoso para um homem, principalmente nobre, do que não adquirir para si o amor de todos por tão pequeno preço», nas palavras do seu biógrafo no Corpus.

Os testemunhos epistolares são documentos imprescindíveis para a compreensão dos seus autores, bem como dos factos e das pessoas que são nelas referidas.

André de Resende, amigo de Pedro Sanches, cultiva dois tipos. A carta literária oferece-nos um perfeito retrato da época, como é o caso da que escreveu a Pedro Sanches, em 1542, sobre a Corte e seus «abutres» ou o De uita aulica, de 1531, dirigida a Martinho Ferreira. Quanto à carta erudita, a Epistula ad Kebedium é o exemplo perfeito do historiador e do estudioso da Antiguidade2.

As cartas, por exemplo, para André de Resende, já no final da sua vida, são uma derradeira esperança num mar de contrariedades: a Corte não lhe granjeou simpatias, pelo contrário, os seus amigos, principalmente estrangeiros, são cada vez menos; a Inquisição e os índices vigiam e controlam; os temas polémicos não são abordados, e focam-se agora os motivos hagiológicos ou panegíricos.

Para o amigo de Sanches, a correspondência é a última luz na luta contra um progressivo isolamento e contra a solidão. Por isso, vemos Resende descontente com as demoras do correio, que o privam do contacto com as suas amizades3, tal como Pedro Sanches se lamenta a Jerónimo Cardoso, como já tivemos o ensejo de constatar, de que o mensageiro do seu amigo não é cuidadoso e célere. Mas estas demoras não eram raras. Sete meses terá demorado uma carta de Bartolomeu de Quevedo a André de Resende, desde Toledo até Évora, e Erasmo chegou a esperar mais de um ano até receber uma missiva de um amigo4.

O Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum apenas apresenta uma epístola de Pedro Sanches: é a carta a Inácio de Morais, datável de 1579 ou 1580, que no Ms. F.G. 6368 apresenta o título «Petri Sanctij Supremi Senatus a Secretis, Rege Sebastiano, Carmina de poetis Lusitanis ad Ignatium Moralem». Como sabemos, foi impressa no Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum qui Latine scripserunt, pp. 11-34, pela primeira vez sob o título de «Epistola ad Ignatium de Moraes», apesar de ter sido escrita em 1579, ou pouco tempo depois, pois Pedro Sanches cita a morte de Belchior Beliago, que ocorreu nessa data, como um facto pouco distanciado no tempo:

«Quis, Beliage, tuum non defleat, optime Praesul,

Interitum? Cui praeduras iniecit acerba

Parca manus? ah quanta bonis iactura Camaenis!»

Quanto ao género epistolar e relativamente a Pedro Sanches, os compiladores do Corpus não incluiram qualquer outra missiva do humanista. Apenas brindaram o leitor com uma carta do seu filho Luís Sanches, dirigida a seu pai, incluida nos Testimonia.

O Pe. António dos Reis na Vita Petri Sancii... refere-se a Luís Sanches apontando os estudos jurídicos em Coimbra e o seu exímio conhecimento do latim, ministrado pelo seu pai, chegando mesmo a rivalizar com ele nessa área.

A carta, publicada entre os Testimonia, apresenta-nos Luís Sanches em Coimbra, «cidade de Palas», recebendo a visita de uma ninfa vinda «desde a costa de Ulisses».

Luís Sanches descreve a ninfa ao longo de dezassete versos, através de comparações com figuras mitológicas como Cíntia (v. 5), Citereia (v. 6), a Aurora (v. 7) e as donzelas Ausónias (v. 9).

Dos atributos genéricos passa aos qualificativos específicos: as faces rubras, os cabelos louros e o peito, colo e mãos «de neve Bistonia», os olhos negros...

À extrema beleza desta ninfa junta-se um pormenor curioso: um dos seus pés era mais curto!

A ninfa entra no domicílio de Luís, que, perturbado pela presença de tal divindade, lhe pede para explicar o motivo da sua vinda, ao que a figura feminina responde, identificando-se como uma «ninfa do rio de Ulisses», enviada pelo seu pai a fim de lhe transmitir recados.

Depois da apresentação, a ninfa narra-lhe a sua viagem através das águas, a sua chegada ao rio Mondego, a hospitalidade das suas ninfas, a intervenção do próprio rio – em tom de prosopopeia – que salvou o seu carro da corrente e indicou o caminho a seguir.

Após a viagem, seguiu-se a recepção das ninfas do Mondego que, em perfeita harmonia coral e coreográfica, dançaram em coro, colheram flores e entrelaçaram grinaldas.

O interregno idílico prosseguiria – tal a hospitalidade do Mondego e das suas ninfas, bem como os seus pedidos – mas a ninfa do Tejo tinha um caminho a seguir.

Sob o manto diáfano da mitologia, o seu destino, «lugar e morada das Piérides/onde o douto Apolo toca a Ausónia lira» é Coimbra, cidade da cultura e da poesia, escolhida pelos deuses para aí habitarem, como dirá Pedro Sanches na carta a seu filho de 20 de Dezembro de 1559. Esta coincidência de topos poderá indicar que a presente carta de Luís será posterior e uma resposta à de seu pai da data referida? O pormenor poderá ser um indício, mas outras cartas de Pedro a seu filho Luís poderiam ter a chancela deste motivo humanista.

A parte final da epístola de Luís a seu pai retrata-nos o diálogo que travou com a ninfa sobre «o fogo pátrio», pedindo para que se demorasse, mas esta subiu para o seu carro e regressou a Lisboa, às «regiões pátrias», ou seja, de onde seu pai a havia enviado.

Depois da narração eivada de mitologia, Luís Sanches dirige-se abertamente a seu pai dizendo que pode enviar muitas vezes os seus recados através da ninfa. Em seguida, um pormenor revela uma certa intertextualidade desta carta, relativamente à obra do pai.

Luís Sanches afirma que se o pai se queixar de que ele utiliza carmes seus nas suas composições, não se deve admirar ou lamentar «pois é próprio da justiça dar a si o que é de seu». Esta afirmação elogiosa coloca em relevo os versos paternos quanto à sua qualidade superior que os distinguiria entre os outros, mas indica sobretudo que Luís Sanches terá utilizado nesta carta versos e/ou tema(s) de poesias do seu progenitor.

Não sabemos até que ponto o filho imitou o pai, mas a tessitura textual de Luís poderá revelar uma imitação do estilo paterno pautado pelo ornato mitológico – que outros textos que comentámos tendem a confirmar –, uma sintaxe fluida e elegante, caracterizada pela expressão subtil, marcada por similes, vocabulário seleccionado e de fino recorte, entre adjectivação expressiva e reminiscências dos autores clássicos.

De uma carta do filho para o pai pensámos em outra do pai para o filho. Abandonámos o Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum e, entre o Ms. F.G. 6368 da B.N.L., o Senhor Professor Américo da Costa Ramalho remeteu-nos para dois textos de Pedro Sanches. O primeiro estabeleceu a ponte desejada: a carta de Luís fizera referência à sua estadia em Coimbra, a cidade eleita pelos deuses, onde recebera notícias do seu pai, transportadas de Lisboa por uma ninfa do Tejo.

Abordemos agora uma missiva de Pedro a seu filho Luís, estudante do Colégio das Artes em Coimbra.

A carta em verso tem data de 20 de Dezembro de 1559 e foi enviada de Lisboa, onde se encontrava Pedro Sanches, para Coimbra, onde seu filho estudava.

Esta carta é importante quanto aos dados biográficos relativos a Pedro Sanches, ao seu filho e à família, mas também para aquilatarmos as relações do humanista com católicos ortodoxos, nomeadamente os padres jesuítas do Colégio das Artes.

O contexto que rodeia o destinatário e o remetente recorda-nos ab initio Cícero e o seu tratado De Officiis ou Dos Deveres.

Esta obra, que parece ter surgido pouco a pouco da sua correspondência, como podemos depreender da introdução de M. Testard na colecção Budé5, é dedicada a seu filho Marco, que estudava filosofia na escola do peripatético Cratipo, em Atenas, tal como, de forma semelhante, Pedro Sanches se dirige a seu filho que estudava em Coimbra.

A epístola de Pedro Sanches inicia-se com um contacto com o estado de espírito do emissor, triste e pesaroso face à partida do filho. Aliada à tristeza e à saudade, detectámos uma certa mágoa de Pedro Sanches, pois Luís Sanches não havia abandonado o lar e não tinha ido estudar para Coimbra com o incentivo do pai e muito menos com a sua aprovação, como provam as expressões «sou levado a aceitar a tua resolução, meu querido filho» e sobretudo «Porém, louvo-a contra a vontade».

A determinação, o espírito decidido e independente de Luís Sanches faz-nos pensar que, quando o exilado de Miranda lamentava a partida para África, às escondidas, de um filho de Pedro Sanches, não se referiria a Atanásio, sobre o qual não conhecemos facetas de «ânimo rebelde» – pelo contrário, professa e abandona as coisas do mundo – mas sim a este jovem determinado e de decisões férreas.

Depois de um tom magoado, Pedro Sanches elogia as virtudes do seu filho. Em primeiro lugar, sabemos que Luís Sanches tomou a decisão de abandonar o lar paterno bem na sua juventude, dado que seu pai louva-lhe o «ânimo viril e maduro» quando ele «mal conta três lustros», ou seja, rondaria os quinze anos. Em seguida, elogia as suas qualidades confrontando-as com as facetas negativas típicas dos jovens da sua idade, que não conhecem a constância, o sentido do limite, o refrear das paixões; ao invés, ele recusa os caminhos fáceis, procura a via «recta» e não se atemoriza com os trabalhos que terá de enfrentar.

Cícero preocupava-se mais com o seu filho Marco, pois «parecia mais dado aos prazeres do que à filosofia», como nos diz Ettore Paratore6; todavia o tom de conselho é comum aos dois pais. Pedro Sanches, jurista, escreve ao filho que conhecerá os grandes mestres do Direito e fala-lhe sobre a via recta – que ele já segue – e as virtudes, tal como Cícero, filósofo, escreve ao seu filho, que aprendia filosofia, e aconselha-o quanto ao recto caminho – que não estaria a trilhar – bem como das qualidades supremas.

As palavras de Pedro Sanches não são de censura quanto aos costumes – pois o filho parece ser um exemplo de virtude – mas a crítica ao seu espírito fogoso surge a cada passo. Em concomitância laudatória, Luís Sanches, apenas com quinze anos, revela as qualidades de um adulto e a sageza de um velho. É uma revisitação ao topos do Puer Cato.

Como nos diz o Senhor Professor Rosado Fernandes, traduzindo os Elementos de Retórica Literária de Heinrich Lausberg7:

«O topos paradoxal (§§ 37,1; 389,3) «puer senex» (Curtius, Eur. Lit, pp. /108-115) encontra-se numa formulação infinita, em Cic. Cato 11,38 ut enim adulescentem in quo est senile aliquid, sic senem in quo est aliquid adulescentis probo. Na formulação finita, este topos encontra-se em elogios de pessoas (§22,3), às quais são atribuídas, já na infância, a prudência ou a sabedoria dignas de um velho experimentado».

O tópico do puer senex era corrente na época8 Encontramo-lo, por exemplo, numa carta de Luís Nunes a Diogo de Murça, reitor da Universidade de Coimbra, datada de Antuérpia, de 1545, na qual o autor elogia D. Duarte, filho ilegítimo do rei D. João III, e aluno de Frei Diogo de Murça no Mosteiro da Costa.

Cataldo Parísio Sículo utiliza o elogio do Puer Cato em mais do que uma ocasião9.

Após os elogios a seu filho, Pedro Sanches destaca o excelso objectivo da sua partida, o enriquecimento pela virtude e pelas boas artes, que talvez não pudesse ser atingido em Lisboa porque «esta cidade, muitíssimas vezes foi capaz de corromper os bons costumes», o que reitera uma ideia negativa da capital do país e do império, que descortinamos em muitos humanistas.

O abandono de Lisboa levado a efeito por Luís Sanches acaba por ser de algum modo «perdoado», dada a imagem negativa que transparece da cidade, e pela escolha do filho de Pedro Sanches ter recaído em Coimbra, a «nossa Atenas», como muitos humanistas a designavam. De facto, Coimbra torna-se o símbolo da cultura mercê do pólo aglutinador que é a Universidade, e daí a associação sob vários matizes à ilustre cidade da Hélade. Mestre João Fernandes, na Oratio pro Rostris de 1539, proclama:

«Tu trouxeste a Coimbra, Roma, Jesusalém e Atenas; nas sagradas liturgias hão-de reviver a já extincta caridade, a piedade. E uma só religião de peregrinação, juntamente com a literatura cristã florescem abundantemente; o vigor da erudição de Palas recebe um incremento cada vez maior de dia a dia»10.

Inácio de Morais, na Oratio panegyrica ad inuictissimum Lusitaniae Regem Diuum Ioannem Tertium... louva a acção do Rei que faz renascer a velha Atenas:

«Na verdade, não só enviaste para Paris vários jovens para se cultivarem, a expensas tuas, como também erigiste aqui uma nova Academia de Letras que pode, não só competir com as escolas estrangeiras de todos os povos, mas que também parece fazer voltar para estes nossos tempos, a velha Atenas»11.

Pedro Sanches volta a fazer transparecer o carácter fogoso e determinado do seu filho quando diz que a sua escolha recaiu em Coimbra devido ao que esta cidade tinha para oferecer; caso contrário, Luís Sanches não hesitaria em procurar pelo orbe inteiro o que desejava, nem que tivesse de alcançar o Nilo, as cidades do Ganges ou o Mar Oriental, num périplo tão ingente que lembra a figura de Hércules e as suas viagens pelo mundo.

O elogio de Coimbra é utilizado pelo humanista para louvar a memória do rei D. João III, «rei pio... feliz», «pai da pátria», «a nenhum rei jamais inferior em virtude», que falecera recentemente, em 1557 – dois anos antes de Pedro Sanches escrever a presente carta. Sanches destaca o principal feito de D. João III: expulsou a insana barbárie «que se enfurecia larga e impunemente» e «chamou do Parnaso as Musas e a sagrada Minerva, com dádivas, presentes, pedidos e palavras benignas», o que destaca traços do seu perfil, como a munificência, a amabilidade e a gentileza de maneiras, sugeridos pelo cálamo panegírico do humanista.

O retrato do rei revela um cunho marcadamente laudatório, que encontramos, aliás, em outros autores, nomeadamente os mesmos epítetos e atributos.

A vitória de D. João III sobre a barbárie e a sua superioridade face a outros monarcas destaca-se também no EPITAPHIVM PIISSIMI REGIS IOANNIS de Inácio de Morais12.

Os próprios deuses, pela pena encomiástica de Sanches, abandonam as suas moradas para virem servir tão insigne rei. Baco deixa Nisa, Apolo deixa Delos para encetarem o combate contra as hordas da ignorância. Ganha a paz, admiram o lugar de eleição onde se situa Coimbra.

Os deuses contemplam «o rosto do céu sem núvens e os locais/amenos de um reino feliz, graças à sua admirável moderação de temperatura,/ e as florestas e os bosques sagrados e os jardins verdejantes,/ os paúis, lagos, fontes e rios de águas plácidas,/ as areias refulgentes que o Tejo lança para o mar,/ o ouro que o Mondego arrasta das margens inclinadas».

A descrição de Pedro Sanches não poderia ser mais bela ou mais amena. Nestas palavras ressoam outros textos, principalmente no tocante à descrição quase edénica da localização de Coimbra.

Inácio de Morais, na Oratio panegyrica..., pronunciada a 8 de Novembro em 1550, quando D. João III visitou Coimbra, elogia a confluência de vectores geográficos, ideais para a localização da Academia13.

Inácio de Morais compara a zona de Coimbra com o vale de Tempe, celebrado pelos poetas da Antiguidade Clássica14, por onde corre o rio Peneu, desde o Olimpo a Ossa, situado na Tessália, norte da Grécia, região conhecida pela sua uberidade natural.

Além das qualidades geográficas de excelência, os deuses apreciaram ainda em Coimbra, segundo as palavras de Pedro Sanches, «as antigas casas e os grandes palácios dos reis», tal como Inácio de Morais15 se referira às construções de D. João III, superiores ao Mausoléu.

João Fernandes alia as benesses régias na edificação arquitectónica aos favores concedidos à juventude e aos grandes vultos da cultura que convergiram para Coimbra, vindos das várias regiões do globo16. Este tópico tornou-se um lugar-comum entre o discurso encomiástico dos humanistas como em Arnaldo Fabrício: «Quibus hic Rex Inclytus ut populum suum florentissimum redderet, Gymnasium hoc futurum breui totius Hispaniae celeberrimum litteris dicauit»17.

Com todos estes atributos, os deuses não poderiam deixar de escolher Coimbra como sua sede, o que levou o rei a consagrá-la às Musas e a declará-la eterna.

Os elogios a Coimbra são aliás um tópico recorrente na literatura dos humanistas (Camões, n'Os Lusíadas, Canto III, est. 97, enaltece as qualidades da cidade banhada pelo Mondego).

Didacus Pyrrhus Lusitanus, Diogo Pires, ilustre vate novilatino, um pouco depois de 1548, talvez em Ferrara, cantou Coimbra, em dísticos elegíacos, reiterando temas que Pedro Sanches utiliza na sua carta como o facto da cidade ter sido sede de reis, ser superior às outras cidades, ter deixado a guerra para agora abraçar a paz e ser a mansão edénica das Musas. Neste epigrama, o autor enaltece a fundação do Colégio das Artes de Coimbra que abriu as suas portas no dia 21 de Fevereiro de 1548 18.

Pedro Sanches abandona o encómio a Coimbra e regressa aos conselhos ao seu jovem e decidido filho.

Incita-o, estimula-o e, parecendo rendido aos firmes desígnios de Luís Sanches, diz que o seu esforço deve ser convicto e absoluto para que a esperança não seja frustrada e as preces paternas não tenham sido em vão. O encorajamento também foi uma das notas constantes de Cícero, no seu De Officiis, a seu filho: «Por isso te exorto com grande empenho, meu querido Cícero»19; também no final da dedicatória do livro III do De Officiis, Cícero exorta o seu filho ao estudo:

«Por isso, com todo o empenho intelectual de que és capaz, com quanto trabalho podes (se é que aprender dá mais trabalho do que gosto), tanto te esforça, não vá parecer que, quando eu te felicito todas as condições, a ti próprio só tu faltas».

A exortação ao estudo era um tópico frequente também no final das orações universitárias dos humanistas. Arnaldo Fabrício, em 1548, um ano antes de Pedro Sanches enviar esta carta a Luís Sanches, terminava assim o seu discurso:

«E sendo tão grande a abundância de preceitos, a oportunidade do lugar, na flor da idade, com a vantagem de todas as coisas que podem ajudar os vossos estudos e fazê-los progredir, deveis dar o melhor do vosso esforço, não vá parecer que, quando todas as condições estão presentes, só vós próprios faltais»20.

Pedro Sanches continua a incitar Luís Sanches dizendo-lhe que se dirige para «a melhor e a mais ilustre [escola] que existe, o Ginásio» – os humanistas designavam as escolas superiores através das palavras gregas Gumnaion (Gymnasium), Akadhmeia ou Akadhmia (Academia) e Lukaion (Lycaeum).

O humanista elogia em seguida, os «mestres notáveis pela doutrina e incorruptos», o que nos remete para a atmosfera que envolvia o Colégio das Artes após ter sido confiado aos Jesuítas, extirpada a «núvem» erasmista e recebido o manto da ortodoxia, que podemos entrever nas palavras de Sanches, laudatórias e simultaneamente distintivas, Doctrina illustres incorruptique magistri, mais carregadas de sentido do que o habitual encómio dos mestres de Coimbra, «simultaneamente homens cultos, que instruam a nossa juventude em letras e honestos costumes», nas palavras de João Rodrigues de Sá, em 1537 21, por exemplo.

Tal como Cícero exortara o seu filho a seguir atentamente os ensinamentos do seu mestre, Cratipo («Embora devas, meu filho Marco, depois de, há um ano, seres discípulo de Cratipo, e, para mais, em Atenas, estar imbuído de preceitos e doutrinas filosóficas, devido à excelsa autoridade, quer do mestre, quer da urbe, aquele enriquecendo-te com a ciência, esta com os exemplos...»)22, Pedro Sanches incentiva Luís Sanches a fazer o mesmo quanto aos seus mestres, sob a égide de Venegas.

O humanista, poeta e dramaturgo Miguel Venegas (Ávila, 29.9.1531 – ibid.?, depois de 1567) era jesuíta, entrado na Ordem em 1554 e ordenado em 1559 e, como docente, ensinara em mais do que um colégio desta Companhia: Stº Antão, em Lisboa (1556-1558) e Colégio das Artes, em Coimbra (1559-1562).

O seu nome está associado ao teatro novilatino. Em Coimbra foi representada a sua tragédia Saul Gelboaeus a 9.7.1559 e Achabus em 1560. Em Julho do ano seguinte, os discípulos de Miguel Venegas levaram ao palco um diálogo escolar quando Próspero de Stª Cruz, legado do Papa, passou por Coimbra; em 1562 vem à luz Absalon, uma tragédia, provavelmente a sua melhor obra.

A 6.11.1562 deixa Lisboa, vai até Roma; em 8.11 de 1563 lê Retórica no Colégio de Clermont, em Paris. Roma recebe-o em Abril de 1566; em seguida parte para a Baviera e regressa a Itália em Julho de 1566.

O grande professor de Humanidades e dramaturgo viria a ser «licenciado» em 1567 pela Companhia de Jesus, segundo se crê, por motivos morais.

O teatro novilatino respira o humanismo cristão e tinha vocação pedagógica sendo um instrumento preferencial dos Jesuítas simultaneamente na doutrina e no uso da língua latina mas é inegável que o seu valor ultrapassa a clausura das Universidades. Mais ainda: há registos de representações teatrais no exterior levadas a efeito por alunos dos Jesuítas em Goa, a partir de 1563.

Os Jesuítas tiveram consciência da sua relevância: «Com as suas tragédias e outras peças similares, de grande ou pequeno fôlego, os assuntos hagiográficos, bíblicos ou históricos eram explorados, dentro dos cânones estéticos dos clássicos e renascentistas, para fins de edificação moral e teológica do auditório, pelos processos lúdicos»23, nas palavras de J. S. da Silva Dias.

Se Pedro Sanches se refere a Venegas com algum distanciamento, o mesmo já não ocorre com o «teu amigo Andrade», louvado pela piedade, saber, virtude e «de juventude irrepreensível», entre outras qualidades que o humanista não celebra diz-nos, em tom hiperbólico, por ser mais rápida a enumeração das estrelas do céu.

Abandonando os mestres de Coimbra que acolheriam o fervor discente do seu filho, Pedro Sanches passa a enunciar exemplos da sua própria família para incentivar Luís Sanches, na linha dos ilustres nomes dos seus antepassados, tal como Cícero dissera a seu filho em Dos Deveres «que se deviam imitar os antepassados [Maiores]»24.

Os exemplos familiares são o pai de Pedro Sanches, de fisionomia semelhante a Luís, culto, versado em ambos os direitos, falecido com 30 anos; Rodrigo Sanches, irmão de Pedro Sanches, capelão da rainha e prior de Óbidos e o Brocense, «primo direito» ou parente mais afastado.

Este ilustre humanista salmantino, Francisco Sánchez de las Brozas (Brozas é uma pequena localidade situada a não muitos quilómetros de Alcântara, berço de Pedro Sanches), elogiado por Sanches (ao longo deste trabalho temos vindo a preferir a forma mais lusa em detrimento da original castelhana, que encontramos no apelido do salmantino) pela sua erudição e domínio do Grego e do Latim, é conhecido pelo seu enciclopedismo que engloba a teologia, música, drama, poesia, arquitectura, arqueologia, cosmografia, astronomia, medicina, direito e filosofia25.

O próprio exemplo do pai poderia ser efectivo mas a ocupação jurídica impediu Sanches de privar com mais frequência com as Musas.

Deixando para trás outros ilustres parentes, Pedro Sanches volta a centrar as suas palavras no incentivo ao filho, pautado pelo elogio da rectidão e da virtude. Recorda o dia em que Luís saiu de casa entre as lágrimas de toda a família e os seus conselhos repetidos de pai preocupado, guardando a consolação de ver o seu filho partir para engrandecer o espírito com os ensinamentos de tão grandes mestres.

Numa palavra, o conselho supremo que lhe dirige é que siga sempre o exemplo do «grande Cipriano, sob cuja direcção regressam os séculos felizes».

Pedro Sanches guardou para último o elogio a uma figura chave no Colégio das Artes que faz com que os tempos agitados das questões religiosas e das fricções entre «parisienses» e «bordaleses» fiquem para trás e que regresse um clima mais tranquilo, sem questões, sob a égide dos novos ventos que sopravam na instituição desde que foi confiada aos Jesuítas.

Cipriano Soares, tal como Manuel Álvares, elaboraram manuais para os alunos do Colégio das Artes que seguiam as linhas mestras do pensamento de Pedro de Perpinhão, jesuíta, que também regeu a segunda classe de humanidades no Colégio das Artes, após 1555. Após a entrega do Colégio aos Jesuítas, proferiu a sua De Societatis Jesu Gymnasiis Oratio, na abertura do ano lectivo de 1555, definindo «as fronteiras do humanismo católico» que J. S. da Silva Dias sintetiza do seguinte modo:

«A sua doutrina define-se, quase logo de entrada, na maneira de pôr o problema. Há, para ele, uma incompatibilidade, pouco menos que visceral, entre a concepção do humanismo como cultura autónoma e as exigências do sentido católico. Não pensa o humanismo como uma cultura – justamente a cultura profana e das coisas profanas; pensa-o apenas como uma forma ou instrumento ao serviço de uma problemática e de um fundo fornecidos pela Igreja. Manifesta-o, com toda a evidência, a denúncia do humanismo puro, isto é, de uma cultura laica e que a si mesma se basta.

Intelectualmente falando, esse humanismo é um desacerto de loucos. Nenhum católico, com a noção das responsabilidades da inteligência, o deve deixar à solta. Deixado à solta, como tantos o fizeram, leva, em caminho direito, à subversão religiosa. E a juventude, cultivando as letras humanas sob a direcção de mestres esclarecidos, há-de ser a primeira a repô-las no seu lugar de conhecimentos, preciosos, sim, mas apenas auxiliares»26.

As humanidades afastam-se das questões que «perturbam» o séc. XVI.

Cipriano Soares, quando escreve o seu De Arte Rhetorica libri tres ex Aristotele, Cicerone, et Quintiliano praecique deprompti (impresso em Coimbra, em 1562, na oficina de João Barreira, que viria a ser editado depois, na mesma tipografia, em 1575 e 1590 e na de António de Mariz, em Coimbra, em 1583), escreve para o leitor cristão.

O seu livro continua o trilho no mesmo tema que traçara como docente. Entre 1533 e 1555 ensina a primeira classe, que incluía a retórica e o grego, para além do latim, no Colégio de Santo Antão e, quando o Colégio das Artes fica nas mãos dos Jesuítas, transfere-se para essa instituição. Os clássicos, para Cipriano Soares, devem exalar modelos de letras, não de ideias, que devem ser as cristãs, numa simbiose a ter em conta no ideal do homem educado.

Em 1561, Cipriano Soares recebe das mãos do Pe. Jerónimo Nadal, visitador da Província, a missão de expurgar os autores latinos, bem como a sua edição com objectivos escolares:

«1. Oratio se limpie y se imprima, y Marcial, y con él lo que fuere limpo de Catullo y Tibullo y Gallo: y el P. Cypriano irá purgando todos los libros: y alcáncese del Papa una gracia, en que su Santidad provea, ó que no se lean los no limpios á estudiantes, ó á lo menos aprueve estos, y conçeda indulgençias á quien los declarare á los discípulos, ó los oiere de su maestro, ó los leiere»27.

Espanhol de origem, o Pe. Cipriano Soares28 representa, no contexto pós – 1555, um exemplo dos novos valores ortodoxos, apoiados por uma atmosfera global de comedimento e fiscalização.

Pedro Sanches terá sentido que os ventos mudavam irrevogavelmente de rumo. Para trás ficara a polémica do poema De Superstitionibus Abrantinorum, de perfume erasmista, que Sanches não ousou publicar.

O humanista crítico e de cálamo penetrante retrai-se e não hesita em elogiar a direcção do «grande Cipriano» que faz com que regressem «os séculos felizes», sentindo decerto que as suas responsabilidades na Corte o impediam de expressar livremente as suas ideias; por outro lado, era o seu filho quem ia estudar para o «novo» Colégio das Artes... a polémica seria inimiga da prudência.

«Rendido» às qualidades de Cipriano Soares, Pedro Sanches incita, mais uma vez, o filho a vê-lo como exemplo a seguir desejando que o seu regresso a casa seja feliz e honroso, para que venha engrandecido «com grandes qualidades, um bom cidadão da pátria, útil a todo o serviço do rei, reconhecido a mim, estimado pelos amigos», fazendo com que pensemos, mais uma vez, nas palavras de Cícero:

22

«Mas uma vez que, conforme escreveu muito bem Platão, não nascemos só para nós, e a pátria reclama uma parte da nossa existência, outra parte os amigos, e, como querem os Estóicos, tudo quanto a terra produz foi criado para utilidade do homem, e por sua vez os homens nasceram por causa dos homens, de maneira a poderem ajudar-se uns aos outros, o nosso dever é seguir o caminho indicado pela natureza, servir o interesse geral, prestando mutuamente serviços, dando e recebendo, e, ora por meio da nossa habilidade, ou da nossa actividade ou do nosso engenho, estreitar os laços sociais»29.

(Dos Deveres I.7.22)

 

A carta de Pedro Sanches a seu filho apresenta a chancela temporal de 1559, quatro anos depois do Colégio das Artes ter sido confiado aos Jesuítas.

O cuidadoso elogio de Sanches aos mestres de Coimbra, principalmente a Cipriano Soares e o insistente tom pedagógico e de orientação pessoal a Luís Sanches – recearia o avisado Pedro Sanches alguma palavra menos feliz, impensada ou pouco propícia em «novos tempos» por parte do seu fogoso filho? – revelam que o nosso humanista acompanhou as transformações que ocorreram no Colégio.

Para trás ficavam os auspiciosos esforços de D. João III, que, depois de reformar os estudos superiores na Universidade de Coimbra, incentivou os estudos médios e a criação do Real Colégio das Artes, decerto pouco realizado com o estudo das Humanidades nas escolas ligadas à Universidade e ao Mosteiro de Santa Cruz.

A inspiração do monarca fora certamente o Colégio Trilíngue, iniciado por Jerónimo Busleyden, em Lovaina, ou o Collège Royal, posteriormente Collège de France, criado em Paris pelo rei Francisco I, sob sugestão de Guilherme Budé.

Arnaldo Fabrício abriu solenemente o Real Colégio das Artes a 21 de Fevereiro de 1548, com a sua De Liberalium Artium Studiis oratio in Gymnasio Regio.

Os mestres chamados ao Colégio incluiam, entre os portugueses, André de Gouveia, o director, Diogo de Teive, amigo de Pedro Sanches, e João da Costa. Entre os estrangeiros contavam-se o escocês George Buchanan, os franceses Nicolau Grouchy, Elias Vinet e Guilherme Guérent. O círculo dos mestres amigos de André de Gouveia respirava o clima humanista de vanguarda, admirando Erasmo, Budé, Vives, Dolet pelo que a núvem da incerteza pairava sobre a sua acção no nosso país.

Os «bordaleses» opõem-se aos «parisienses», ou não tivesse o Colégio de Guiena em Bordéus surgido após ruptura com o Colégio de Santa Bárbara em Paris. O clima de rivalidade instala-se e as contrariedades sucedem-se.

O principal André de Gouveia morre subitamente a 9 de de Junho de 1548 e Diogo de Gouveia é deposto em 1549. A ala europeia começa a partir: Vinet, Patrick Buchanan e Arnaldo Fabrício deixam o Colégio. Em seguida, Diogo de Teive, João da Costa e Buchanan são presos no Verão de 1550 sob suspeita de heresia.

O grupo dos «bordaleses», mais progressista e aberto às novas ideias que pululavam na Europa é definitivamente ostracizado e vencido quando, em Dezembro de 1550, é nomeado o lente de Teologia Paio Rodrigues de Vilarinho, um conceituado «parisiense», para principal do Colégio. Nas suas mãos está o embrião da passagem de testemunho para os Jesuítas.

Em 10 de Setembro de 1555, uma carta de D. João III solicita a Diogo de Teive que entregue o Colégio aos Jesuítas no primeiro dia de Outubro. Consummatum est...

Os motivos da entrega já mereceram demoradas reflexões. Teófilo Braga, nas palavras de G. Cerejeira, «teceu a este respeito um romance, atribuindo tudo a intrigas destes [Jesuítas]»30.

O autor do memorável estudo sobre Clenardo reflecte sobre as causas epocais. Recorda que os mestres franceses não seriam totalmente ortodoxos em termos religiosos e Diogo de Gouveia apontava mesmo a veia luterana a seu sobrinho André, mas anteriores ressentimentos poderiam tê-lo feito pronunciar tal acusação. Por outro lado, as qualidades docentes eram perturbadas pelas características pouco abonatórias de alguns lentes: nas rivalidades cediam frequentemente a disputa de palavras às vias de facto, como no caso de Diogo de Teive; Jorge de Sá e Marcial de Gouveia traziam a espada para as aulas, Álvaro Lobato, o confessor do Colégio adquiria o fato aos alunos para jogar o dinheiro obtido31.

Outras razões radicam no sucesso das escolas jesuítas de Santo Antão e na própria consciência do rei que, apesar de aberto ao florescimento das Humanidades, não quis que a problemática religiosa fizesse vacilar a unidade política da nação, dado que a coesão de uma é a força de outra.

Com os Jesuítas, termina a lufada de ar erasmista trazida pelo «bordaleses» apesar de no domínio filológico se manterem fiéis a um certo humanismo próximo do que defendia Erasmo mas, como diz Pina Martins, «si l' érasmisme est forcément un Humanisme, tout Humanisme n' est pas érasmien»32 e com a Companhia de Jesus, a semente de Roterdão não deu fruto e a sua «erradicação» deveu-se também à confusão, por vezes deliberada, entre erasmismo e luteranismo.

Uma certa atmosfera liberal dos governantes que protegeram os «bordaleses» num primeiro plano, cede a um conjunto de influências: «colocado na charneira do século, entre a Reforma e a Contra-Reforma, limitado pelo condicionalismo social interno, Portugal não pôde atingir a perspectiva crítica que o Humanismo ganhou noutros países»33.

Vicente Fabrício, um dos mestres que tinham vindo de Paris em 1535, foi despedido.

Portugal sente os ventos da mudança.

Em 1551, o rol das obras vetadas agrava o de 1547. De Erasmo já haviam sido proibidos o Moriae encomium, a Exomologesis siue modus confitendi, os Colloquia e o Modus orandi Deum, mas agora a proibição extende-se à Explanatio symboli apostollorum, siue cathechismus, o Prologus in Diui Hilarii opera, a Christiani matrimonii institutio, a Epistola apologetica de interdicto esu carnium, a Censura super methodus compendio perueniendi ad ueram theologiam.

Em 1561, seis anos após a entrega aos Jesuítas, Erasmo é erradicado através de uma proibição de raíz. Seguem o exemplo do Roterdamês, François Rabelais, Mathurin Cordier e Beatus Renanus. Adrien Barland, Johann Reuchlin, Vitus Amerbach, John Gertophius e Alfonso Henriquez integram a segunda classe; Lefèvre d' Étaples é mais visado, pois são alvo de proibição o De tribus Magdalenis e Quintuplex Psalterium.

O moderado rol de 1547 relativamente ao erasmismo fica para trás quando não era tanta a influência da Contra-Reforma que tentava refrear a expansão evangélica na Europa. O espírito progressista inicial cede à ortodoxia mercê do fantasma do luteranismo. Na onda repressiva, Erasmo é apanhado e travado progressivamente.

Os humanistas e os intelectuais de cariz europeu após 1550 e principalmente depois de 1560, sentem que o clima mais do que pouco propício, é hostil e repressivo.

A metamorfose da política joanina consuma-se. De admirador de Erasmo (tal como a rainha D. Catarina, que trouxera da corte espanhola a leitura de Erasmo e possuía obras do Roterdamês) como se depreende do Carmen eruditum et elegans Angeli Andreae Resendii Lusitani aduersus stolidos politioris litteraturae oblatratores, o rei D. João III faz uma inflexão global. É a hora das trevas para o livre-pensamento humanista.

Pedro Sanches, homem de grandes responsabilidades na Corte, não poderia ficar alheio a estas alterações. O humanista de cálamo erasmista do De Superstitionibus Abrantinorum acautela-se. Não sabemos se Sanches terá escrito outros textos com a mesma veia mas, quanto a este, a prudência aconselhou-o a não o deixar publicado.

A carta a Luís Sanches, pelo encómio e recato demonstrados face aos novos rumos do Colégio das Artes, revela que ao humanista não passou despercebido o curso dos eventos.

O manuscrito da B.N.L. onde encontramos a carta de Pedro Sanches a seu filho apresenta, em sucessão imediata, uma «missiva» do humanista a João Lopes, discípulo do seu grande amigo Jerónimo Cardoso.

Pedro Sanches lamenta a morte de Jerónimo Cardoso, grande tragédia para o nosso humanista e, acrescentamos nós, também para Filipa, esposa do mestre, pois através do Dicionário de 1569-1570 e pela dedicatória do alemão Stockhammer a D. Sebastião, sabemos que ficou na miséria.

A morte de Jerónimo Cardoso foi também alvo de atenção poética de um amigo comum a este e a Pedro Sanches, Inácio de Morais.

Inácio de Morais34 enaltece as virtudes e os predicados do saber de Cardoso. Assim, elogia a sua atenção aos grandes mestres da Antiguidade Clássica – sabemos que dominava a língua grega para além da latina e citava com frequência Demóstenes, Tito Lívio, Homero, Virgílio, Horácio, Cícero, Quintiliano, Platão, Aristóteles, Ovídio, Plínio, Séneca, Lucílio, etc. – 35, comparando-o a Cícero, na prosa, e a Virgílio, na poesia, tal como o fizera numa carta publicada no Epistolarum familiarum libellus, 1556, de Jerónimo Cardoso, fls. 33 vo-34.

Pedro Sanches, como é seu apanágio, orna o seu poema a João Lopes com a beleza inefável da mitologia, aproveitando o tom elegíaco para reavivar reflexões clássicas sobre a morte, o valor dos vates, da poesia, entre a memória saudosa do amigo que partira e a esperança acalentada no discípulo que deixara.

O poema não está datado mas a expressão inicial de Sanches, «Deflebam nuper» poderá indiciar que não será muito posterior a 1569, data da morte de Jerónimo Cardoso.

O tom de abertura da composição é mais do que um lamento, é a revolta interior de Pedro Sanches que chama cruéis às Musas e aos astros e acusa Apolo de não ter impedido Libitina – deusa romana que presidia às homenagens aos mortos – de o arrebatar e de não ter feito com que vivesse por mais tempo.

A mágoa e a tristeza de Sanches fazem-no reflectir sobre a morte que não poupa alguém que celebrara os deuses em poemas sublimes, os heróis em odes pindáricas e que vivera uma vida imaculada.

Glosa o tema da morte injusta que arrebata com o mesmo destino o douto e o indouto. O tema aparece no poema De Senectute de Lopo Serrão (doctus et indoctus mortis adibit iter, «douto e indouto hão-de trilhar o caminho da morte», v. 232 36) e aí é abordado, mais do que uma vez.

A mágoa e a dor pela partida do amigo provocam em Pedro Sanches uma verdadeira exasperação que o leva a pronunciar palavras duras, ostracizando os deuses que presidem à poesia: «Se a morte injusta tudo arrebata com destino comum, se o douto e o indouto morrerão com sorte semelhante, para que me interessam as Musas? Que passem bem a montanha do Parnaso, Timbreu e Palas e os nomes vãos das irmãs!».

Para amenizar a dor do humanista, que vê um seu companheiro das Belas-Letras deixar o mundo como o vulgo, surge-lhe em sonho a própria Calíope. A musa da poesia por excelência dirige-se ao magoado humanista com palavras fortes, censurando o seu carpir.

Sanches, revoltado com o destino vulgar do amigo, reflecte, afinal, a voz do vulgo, da «plebe indouta» e do «povo miúdo» que lamenta a morte dos seus e não vê a outra vida para além da terrena, tal como lembra o seu amigo Lopo Serrão quando diz «E apesar de ser um cárcere tenebroso esse em que vivemos,/ a isso, porém, a isso chama vida a bárbara multidão.»37 ou «Tu, porém, a quem a cabeça foi banhada na água/ sagrada e que possuis a visão luminosa da nova lei,/ receias morrer, sabendo que nasce da morte/ uma outra espécie de vida, superior e distinta»38.

Calíope faz com que Sanches pondere nas suas palavras, pois o seu discurso vulgar, afinal, não se coaduna com o seu contacto com os deuses, a sua inspiração e divindade. Mais ainda, trai o seu lamento anterior quando pretendia os vates afastados do vulgo, no que toca ao destino.

A musa questiona o poeta quanto às suas convicções. Acaso Sanches considera mortos os que partiram desta vida – «É que, ao folhear as obras do divino Platão/, tinha lido muitas vezes que a alma é imortal» poderia responder-lhe Lopo Serrão39 –, os que se libertaram do «negro cárcere», imagem utilizada por Lopo Serrão no De Senectute, v. 119, X; v. 149, IX; vv. 527-528, IX, que voltam às «mansões celestes», nova imagem que se encontra em Lopo Serrão, e aí não experienciam quaisquer perturbações?

Este passo do poema de Pedro Sanches está eivado da mundividência platónica e mais especificamente de ecos do Fédon40 é também abordado o temor do vulgo face à morte e o tema da alma que chega às mansões celestes após deixar este mundo e todas as perturbações terrenas.

Este conceito aparecerá no Sonho de Cipião de Cícero (decerto um modelo para Sanches, pois não pode passar despercebida a semelhança entre a revelação em sonho de Cipião-o-Africano a Cipião Emiliano e a aparição, também em sonho, de Calíope a Pedro Sanches) onde se vislumbra igualmente a ideia da morada celeste da alma41.

Após uma mensagem de cunho platónico, Calíope assegura que Jerónimo Cardoso vive uma vida melhor e «viverá na terra enquanto Febo amar Delos, enquanto Baco amar Nisa, enquanto nós amarmos as águas de Aganipe», numa palavra, eternamente – ou não fosse a poesia capaz de imortalizar o homem, na tradição clássica e humanística.

Os versos de Cardoso são imortais e na terra deixou discípulos que também o farão imortal, pois continuam o seu nome. Jerónimo Cardoso guiou os seus alunos na poesia e nos discursos de Cícero, enriquecendo-os a todos com os ensinamentos e costumes de Catão, unindo saber e virtude.

Entre os alunos, Calíope destaca um, João Lopes, fidedigno herdeiro do mestre, potencial vulto ainda mais insigne, escolhido pelo próprio Apolo para substituir Jerónimo Cardoso.

Com estas palavras termina Sanches o relato do seu sonho e da aparição da musa que partiu, já serena, na companhia do sono e da noite.

A efabulação mitológica do humanista resulta num elogio e num incentivo a João Lopes para que continue a obra de Cardoso, mas, apesar das palavras de Sanches, o tempo preferiu guardar a memória do mestre e não tanto a do epígono.

A composição de Sanches reitera os versos que lhe são dedicados na Epistola ad Ignatium de Moraes:

«O mihi Cardose a prima dilecte iuuenta,

Quem rapuit Libitina nocens, et funere tristi

Submersit caput, immaturaque morte peremit:

Te sibi subtractum doluit Parnassia rupes:

Nam tu formabas multos bonus arte poetas.

Et iuuenes multos ad sacra cacumina montis

Perduxti, qui longa tuum per saecula nomen

Extendent per quos toto cantaberis orbe»42.

João Lopes, o destinatário de Sanches, é um nome que se perdeu na memória e na constelação onomástica da História. Através das palavras de Sanches, sabemos que foi um destacado aluno de Jerónimo Cardoso mas não conhecemos outros elementos.

O decano das biografias, Barbosa Machado, refere vários vultos com o mesmo nome, mas nenhum parece identificar-se com o aluno do célebre mestre. Afiguram-se distantes os nomes de João Lopes Correia, de Coruche, cirurgião; João Lopes de Leão, de Lisboa, professor de Jurisprudência ou João Lopes Raposo de Castanheda, juiz de fora. Uma hipótese é João Lopes de Oliveira, de Évora, autor de poesias cómicas, de um Achilles, e Thetis, levado à cena em 1578, na noite de Natal; do Prodigo, em verso e prosa, num total de 75 folhas e que foi aprovado pela Inquisição eborense a 25 de Agosto de 1590 e do Auto da Assumpção de Nossa Senhora. A veia literária poderia revelar os laços discentes a Jerónimo Cardoso, mas Barbosa Machado não nos adianta qualquer outro dado que corrobore esse pressuposto. João Lopes continua assim a merecer futuras investigações...

Com este pequeno périplo em tom epistolar e poético, conhecemos um pouco mais da personalidade do humanista Pedro Sanches. A musa de Arpino, tal como revelara facetas do «grande cônsul», como lhe chama Sanches na composição dedicada a João Lopes, ressoou em textos do nosso humanista. Os documentos da epistolografia não raro contribuem para a percepção do seu autor e/ou do seu destinatário e, no caso presente, são imprescindíveis para o estudo de um humanista sobre o qual esperamos vir ainda a saber mais.

 

NOTAS

 

1 Ettore Paratore, História da Literatura Latina, op. cit., p. 198.

2 Vd. Virgínia Soares Pereira, André de Resende – Carta a Bartolomeu de Quevedo, Instituto Nacional de Investigação Científica, Coimbra, 1988.

3 Sobre esta fase disfórica de Resende, vd. M. Manuela Barroso de Albuquerque, «André de Resende: o drama de um humanista português».

4 Vd. Allen, Erasmi Epistolae, 7, 358, citado por J. W. Binns, «The letters of Erasmus», nº 14, p. 77. Citação retirada de André de Resende – Carta a Bartolomeu de Quevedo, op. cit., p. 159.

5 Paris, 1974, Tome I, pp. 1-21. Citado por Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica, vol. II, Cultura Romana, p. 152.

6 Vd. Ettore Paratore, História da Literatura Latina, op. cit., p. 231.

7 Vd. Heinrich Lausberg, Elementos de Retórica Literária, op. cit., p. 111.

8 Vd. Ernst Robert Curtius, Europäische Literatur und Lateinisches Mittelalter, Bern, 1948, p. 106 e segs.; citado pelo Senhor Professor Américo da Costa Ramalho em Latim Renascentista em Portugal, op. cit., p. 171. O excerto que apresentamos de Luís Nunes foi traduzido pelo Senhor Professor A. Costa Ramalho na obra que citámos.

9 Vd. Augusta Fernanda Oliveira e Silva, Cataldo Parísio Sículo – Algumas cartas a portugueses do século XVI (Livro II), pp. 39, 42, 85-86.

10 Vd. Fernando Alexandre de Matos Pereira Lopes, Mestre João Fernandes: A «Oração Pública» de 1539, Dissertação de Mestrado em Literatura Novilatina em Portugal, Coimbra, 1993, pp. 147-148.

11 Vd. Inácio de Morais – Vida e Obra, op. cit., p. 328.

12 Vd. Inácio de Morais – Vida e Obra, op. cit., p. 414.

13 Idem, ibidem, p. 329.

14 Cf. Virgílio, G. 2, 469; Horácio, Carm. 1,7,4; Ovídio, Met. 7, 222.

15 Vd. Oratio panegyrica... in Inácio de Morais – Vida e Obra, op. cit., p. 329.

16 Vd. A Oração sobre a fama da Universidade, op. cit., pp. 124-125.

17 Citado por Jorge Alves Osório, op. cit., p. 153.

18 Vd. Américo da Costa Ramalho, Latim Renascentista em Portugal, op. cit., pp. 208-209.

19 Vd. De Officiis, I., 1, 3.

20 Vd. Para a História do Humanismo em Portugal, op. cit., p. 47.

21 Idem, ibidem., pp. 46-47.

22 Vd. De Officiis, I., 1, 1-2. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira na sua obra Estudos de História da Cultura Clássica, vol. II, Cultura Romana, p. 154.

23 Vd. José Sebastião da Silva Dias, A política cultural na época de D. João III, op. cit., p. 890.

Sobre o teatro neolatino veja-se Le théâtre neo-latin au Portugal (1550-1745), pp. 127-238, em particular.

24 Dos Deveres, I, 33.121. Vd. Romana, op. cit., p. 57.

25 Vd. A Oração sobre a fama da Universidade, op. cit., pp. 116-147.

Sobre Francisco Sanchez veja-se Aubrey Bell, Francisco Sánchez el Brocense, Oxford University Press, 1925.

26 Vd. José S. da Silva Dias, A política cultural da época de D. João III, op. cit., pp. 891-892.

27 Instruções de Jerónimo Nadal para os estudos de humanidade e retórica de Coimbra, in MHSI – Monumenta Poedagogica Societatis Jesu, pp. 667-668. Citado por J. S. da Silva Dias, op. cit., p. 899.

28 Sobre a figura do Pe. Cipriano Soares, vd. G. Sommervogel, Bibliothèque de la Compagnie de Jésus, Bruxelles – Paris, 1896, VII, 1331-1338; Leitão Ferreira, Alphabeto dos Lentes da Insigne Universidade de Coimbra desde 1537 em diante, Coimbra, 1937 (1ª ed.,1730), p. 215.

29 Vd. Romana, op. cit., p. 55.

30 Vd. O Renascimento em Portugal – II Clenardo. O Humanismo. A Reforma, op. cit., p.123.

31 Idem, ibidem., pp. 124-125.

32 Vd. Humanisme et Renaissance de l' Italie au Portugal, op. cit., p. 567.

33 Luís de Sousa Rebelo, A tradição clássica na literatura portuguesa, op. cit., p. 89.

34 O poema, publicado in Jerónimo Cardoso, Elegiarum liber II, fl. Fjvo – Fij e transcrito por Barbosa Machado, II, p. 489 – sem título –, foi traduzido pelo prof. Justino Mendes de Almeida, op. cit., pp. 22-23.

35 Cf. Justino Mendes de Almeida, Jerónimo Cardoso, 1965, p. 38. Citado por Aires P. do Couto, Inácio de Morais – Vida e Obra, op. cit., 487.

36 «a morte tudo iguala: escravos e senhores são metidos / no sepulcro, ninguém escapa aos limites da morte.» (Vd. S. T. de Pinho, Lopo Serrão e o seu poema Da Velhice, op. cit., p. 245).

Ecoam nestes versos as influências de Claudino, De Raptu Proserpinae, II, 300-302, Omnia mors aequat: tu damnatura nocentes,/ tu requiem latura piis; te iudice sontes/ improba cogentur uitae comissa fateri, mas Séneca, Ep., 71, 15 tem um pensamento similar: omne humanum genus morte damnatum est. Outros passos de Lopo Serrão (IX, 373-380) referem a morte que todos arrebata, entre os quais recordamos o decalque do médico amigo de Pedro Sanches feito a versos de Ovídio da elegia Consolatio ad Liuiam (Cons., 357-360 e 371-374).

Outro passo de Serrão, que glosa o mesmo tema, revela influências de Maffeo Vegio, de Lodi, que para além da lexicografia jurídica, da hagiografia, da arqueologia cristã e da pedagogia se dedicou a um Supplementum à Eneida (De Senectute, vv. 365-368, IX).

Inácio de Morais, na elegia In interitum D. Catharinae Lusitaniae Reginae, recuperando Horácio, Carm., 1, 4, 13-14 (Pallida Mors aequo pulsat pede pauperum tabernas/ regumque turris..., «A pálida morte fere com o mesmo pé as cabanas dos pobres e/ os castelos dos reis...») fala da morte que não poupa ninguém e não faz distinção:

«Oh! a morte cruel não sabe respeitar a tiara real, mas ela entra também nas casas sagradas. Mistura os grandes com o povo, sem qualquer diferença, e lança os dardos certos em tempo incerto».

37 Vd. S. T. de Pinho, Lopo Serrão e o seu poema Da Velhice, op. cit., vv. 149-150, IX, pp. 472-473.

38 Idem, ibidem, vv. 565-568, pp. 734-735.

39 Idem, ibidem, vv. 181-182, IX, p. 474.

40 Vd. Platão. Diálogos III, Ed. Europa-América, op. cit., p. 120.

41 «Exercita-a, a ela, nas melhores acções! Os melhores cuidados são os da salvação da pátria. Agitada e exercitada por eles, a alma voará mais veloz para esta mansão, que é a sua morada. Mais depressa o fará se, já quando encarcerada no corpo, sair de lá e, contemplando o exterior, se libertar dele o mais possível. Pois as almas daqueles que se entregaram aos prazeres físicos e se comportaram como uma espécie de seus servos e, dóceis ao impulso da cupidez e do prazer, violaram as leis dos deuses e dos homens, depois de abandonarem os corpos andam à volta da própria Terra e não tornam a este lugar senão depois de perseguidos durante muitos séculos».

Ele desapareceu, e eu despertei do sono.

A República, VI. 9-26

(Vd. Romana, op. cit., p. 47).

42 Vd. Estudos sobre o Século XVI, op. cit., p. 262.

 

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SUMÁRIO