REFLECTIR DE FORMA PERTINENTE

Por José Luís Oliveira

 

A razão de ser dos jornalistas são as notícias, logo são elas a principal matéria de trabalhos dos profissionais da comunicação social. Concordo plenamente com o um ser pensante que sustentou que "toda a gente precisa de notícias", uma vez que estas nos contam "aquilo a que nós não assistimos directamente" e assim aproximam acontecimentos que "seriam remotos de outra forma". As notícias funcionam, neste quadro, como a matéria visível da acção dos jornalistas, carregadas de uma ideia de verdade e autenticidade e assim se transformando em "documentos públicos que colocam um mundo à nossa frente", segundo a expressão de Gaye Tuchman.

Mas os jornais, como dizia Malraux, transformaram-se em comércio. Alguns estão até mais próximos da lógica industrial. Em ambos os casos, são os critérios e as estratégias económicas, embora podendo apoiar-se em princípios editoriais, que ditam as regras e as opções que cada empresa jornalística adopta no seu processo de crescimento e modernização.

A informatização das redacções e a adaptação do seu modelo de funcionamento aos tempos modernos constituem dois bons exemplos das transformações que marcaram os jornais portugueses na última década. Desde a reestruturação interna até à substituição do velho fax pelo Modem nas ligações entre delegações e sede, assim se foi, gradualmente, tecendo a sua entrada na terceira vaga. Embora, à boa maneira hegeliana, tal processo de renovação tenha transportado algo de antigo.

No interior do mesmo jornal coexistem práticas tão diferentes que, vistas de relance, parecem pertencer a épocas muito afastadas no tempo. Apostado na sua internacionalização por via Internet e numa maior qualidade através de uma crescente especialização de diversos dos seus jornalistas, a que se deve ainda juntar os esforços feitos na sua modernização gráfica, o Correio da Manhã é bem o exemplo da diversidade profissional a que nos temos vindo a referir, uma vez que nele convivem as práticas mais modernas do jornalismo.

A polivalência, aliada a uma grande disponibilidade para a variedade temática permanente representam, dentro deste quadro, os principais argumentos profissionais de quem se espera tudo e a quem nunca se poderá ouvir dizer que não tem jeito, apetência ou capacidade para fazer o que deve ser feito.

Não obstante, como nota Louis Guéry, em La Presse Régionale et Locale, "beaucoup de journalistes de la presse quotidienne de province souhaiteraient être devantage spécialisés, mais les rédacteurs en chef y répugnent, car ils estiment que - l’actualité étant par essence variée et pour une bonne part imprévisible - tout journaliste doit être prêt à se rendre sur um événement, de quelque nature qu’il soit".

São os jornalistas para todo o serviço - "les jornalistes à tout faire" - que no terreno, apesar dos enfoques diferentes que as mesmas matérias terão quando cobertas por jornalistas locais e pelos que trabalham para um órgão de âmbito nacional, têm um estatuto muito semelhante.

Quer queiramos quer não, estamos a falar de uma cultura jornalística muito antiga que interpreta o papel das delegações e dos seus elementos como uma espécie de segundas linhas, a quem se recorre em caso de necessidade. Por outro lado, é normal os editores desconhecerem as condições em que os seus camaradas trabalham e, valha a verdade apesar de pouco simpática, pouco ou nada se preocupam com isso. A sua função é exigir e editar e o que conta, no momento da verdade, é a notícia ou a reportagem em tempo útil com os padrões normais de qualidade respeitados.

 

Um ‘negócio’ interessante

 

A subalternidade de uma delegação face à sede implica, pois, um jogo de forças desigual. De um lado está a decisão, no outro a obediência. A especialização faz carreira na sede e abre novas perspectivas a esses jornalistas, enquanto a polivalência, nas delegações, limita-se a manter o posto de trabalho e a progressão na carreira em "banho maria".

Mas a nossa distância face ao centro de decisão tem, ainda, outras implicações curiosas. A "venda" das notícias aos editores é uma delas, o que faz de nós uma espécie de super-negociadores. Porque temos, como qualquer outro, de negociar, primeiro, com as fontes e, depois, somos obrigados a "explicar" às respectivas chefias a importância da matéria em causa, tentando neste segundo processo negocial conquistar o seu interesse e o espaço necessários à publicação deste trabalho.

O centro de decisão está nestes casos afastado do centro dos acontecimentos, por vezes completamente alheado deles, o que provoca um aumento do grau de dificuldade da nossa acção. Porque "a proximidade geográfica da questão relativamente aos membros de audiência", assim como "o papel da discussão interpessoal das questões", como refere Nelson Traquina, ao analisar o paradigma do "agenda-setting", são elementos determinantes no momento da decisão das matérias a noticiar.

Mas as dificuldades não terminam aí. Uma vez ultrapassada esta primeira barreira, ou seja, a de convencer o editor sobre o interesse, a actualidade ou importância da matéria em causa, segue-se outra, tão decisiva como a anterior: a conquista do melhor prazo de publicação, visto que a sua qualidade "é altamente deteriorável e o seu valor de utilização baixa rapidamente", como salienta a este respeito Philip Schlesinger.

O Correio da Manhã é um jornal nacional, o que significa que uma notícia ou reportagem feita por nós em Viseu, está a concorrer directa e indirectamente com todas as outras realizadas ao longo do país. E o espaço de cada secção está limitado a um determinado número de páginas, cuja gestão é da inteira responsabilidade do respectivo editor. A este cabe, efectivamente, escolher aquilo que deve ser publicado e com que relevo; aos redactores compete "provocar" a atenção e o interesse de quem decide sobre o destino dos seus trabalhos. Sendo certo que um bom relacionamento ou uma boa relação de confiança entre os dois é meio caminho para uma resolução que agrade a ambos, como refere Nelson Traquina, quando salienta o papel decisivo das relações interpessoais no inferior deste processo "negocial".

É portanto, no interior de uma ampla relação dialéctica, que na maioria das vezes se decide e se hierarquiza a publicação de uma dada matéria jornalística. Concretamente, é bom frisar, nos casos em que o acontecimento se deu fora da órbita de acção e percepção do centro de decisão. Ou seja, quando é exterior à sua agenda e planeamento, dito de outra maneira, sempre que escapa aos seus mecanismos de controle.

Daí a necessidade que nós sentimos em cativar o editor para o nosso lado, ao mesmo tempo que tentamos assegurar que a publicação do respectivo trabalho seja imediata.

Este aspecto, muitas vezes secundarizado por quem está longe, justamente porque possui dessa realidade uma ideia difusa e porque tende a privilegiar a sua própria agenda, reveste-se de grande importância para a imagem da delegação e seus jornalistas. Primeiro, porque hoje Viseu tem uma imprensa regional aguerrida e alberga delegações dos principais órgãos nacionais de comunicação. E quando fazemos uma notícia, estamos a escrevê-la para o nosso jornal e, nesse sentido, estamos a concorrer com os restantes órgãos de comunicação. Em segundo lugar, porque quando a informação tarda ou se perde, é a imagem do jornalista face às fontes e aos diversos poderes locais que sai prejudicada e, com ele, a do próprio jornal.

E independentemente dos múltiplos contornos com que a questão possa ser avaliada, o certo é que tal prejuízo, quando se dá, é uma perda inglória. Apesar de o chamado "saber de reconhecimento", através da mobilização dos critérios de noticiabilidade, conjugado com o news judment, que Gaye Tuchman define como aquela "capacidade secreta do jornalista que o diferencia das outras pessoas" terem sido escrupulosamente praticados, a imagem que fica para o público é a do falhanço ou da distracção profissionais. É evidente que situações como esta, embora não aconteçam diariamente numa delegação, raramente ocorrem na sede; não só porque a gestão de cada secção diminuiu ao máximo tal possibilidade, mas também dada a proximidade do acontecimento face ao centro de decisão, que é igualmente o local onde reside o principal mercado do jornal.

Mas há ainda os casos do dia, que são aquelas situações imprevistas, que nos aceleram a respiração e nos dão uma "maneira própria de sentir o tempo". Pois bem, face ao minucioso planeamento de um diário e aos fortes constrangimentos impostos pela hora do fecho da edição, não é fácil a uma delegação conseguir o meio ou o fim da tarde um espaço livre generoso para publicar um assunto que não estava previsto ou agendado. Seja como for, em caso algum essa noção deve ser interpretada como tábua sagrada, porquanto toda a regra comporta a sua excepção. E há casos excepcionais.

Por outro lado, é preciso também saber evitar o perigo de um centralismo de sentido contrário. Quer isto dizer que da mesma forma que para quem está longe um determinado acontecimento tem uma importância difusa ou relativa, o mesmo facto parece ter uma importância desmedida aos olhos e ao entendimento de quem está próximo.

Os cuidados a ter com tais comportamentos revestem-se, assim, da mais elementar importância, sobretudo, como é o caso, quando falamos de um órgão de expansão nacional. Só uma interiorização completa da cultura informativa praticada pelo jornal, aliado a um permanente e fluido clima de diálogo entre nós e os editores, evitarão que se cometam exageros desse género.

Conseguido esse equilíbrio, mais fácil se torna a tarefa de todos, cabendo, todavia, aqui realçar que é importante, da nossa parte, haver uma dose razoável de abertura para saber e aceder a transformar nos momentos precisos uma notícia desenvolvida numa mais pequena, sob pena de ela perder toda a actualidade.

É difícil imaginar, como vários vezes afirmou Vítor Cunha Rego, que não há notícia que não se possa resumir ao seu Lead. Contudo, é bom não perder de vista que entre o brilho ilusório de uma grande mancha gráfica publicada fora de tempo e uma informação condensada, enxuta, eventualmente não assinada, mas em cima da hora, é preferível esta a qualquer outra alternativa que guarde a notícia para o dia seguinte.

 

‘Correspondência interna’

 

Cabe, por fim, referir neste contexto, o tipo de relacionamento existente entre nós e o trabalho dos correspondentes que estão dentro do nosso raio de acção. Sem as implicações relativas à decisão de meter o texto na página, digamos que há nessa relação uma grande semelhança com a que se verifica entre nós e os editores. E, no caso concreto da delegação de Viseu, esse relacionamento assume uma particular importância, em consequência do volume de textos que os vários correspondentes nos fazem chegar regularmente, a fim de serem devidamente tratados e posteriormente encaminhados para as respectivas secções.

Independentemente das desiguais qualidades profissionais que cada um deles possui e que têm a devida expressão no seu trabalho jornalístico, é nossa missão, em primeiro lugar, perceber a relevância da notícia e o que ela significa no contexto da realidade em que se insere. Por vezes, torna-se mesmo necessário descobrir a notícia no meio do texto. O que acarreta uma reescrita da narrativa jornalística, uma vez que esta deve sair da nossa órbita em condições de ser publicada.

Conclui-se daqui que o relacionamento entre nós e o correspondente traduz, à sua dimensão, também uma relação de poder-subalternidade. Ao contrário, porém, do que sucede a outros níveis - onde com mais frequência do que é desejável os textos são amputados e até ilustrados com fotos que pouco ou nada têm a ver com o assunto, acompanhadas de legendas que contradizem o sentido da notícia - nós, certamente porque sentimos na pele as consequências de tais atitudes, entendemos que é fundamental contactar o respectivo correspondente, a fim de com ele conferirmos as alterações de fundo que produzimos, e a interpretação que fazemos da peça em causa.

Este procedimento, que deve ser entendido, desde logo, como um sinal de respeito para com o autor do trabalho, é fundamental para manter o sentido e o espírito inicial do texto informativo e, ao mesmo tempo, evita que o correspondente seja surpreendido com o teor da notícia publicada.

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