Jornalismo: profissão ou destino?

Por Sónia Clara Santos

 

 

Uma das principais características de um jornalista, sustentou Juan Luis Cebrián, é a sua curiosidade. Pierre Bourdieu, pelo seu lado, entende que «o jornalista é uma entidade abstracta que não existe; o que existe são jornalistas diferentes segundo o sexo, a idade, o nível de instrução, o jornal, o meio de comunicação".

Um jornalista acrescentamos nós, é tudo isso mais o local de onde olha o mundo, ou seja, ele observa-o através das suas lentes culturais e sociais, mas o seu ângulo de visão é determinado pelo local de onde olha, que é o seu posto de trabalho. Porém, o jornalista atinge a sua expressão e existência na forma como consegue afirmar-se profissionalmente e no modo como se relaciona com os restantes elementos da mesma cadeia jornalística.

Inevitavelmente, a ideia que um jornalista faz do exercício da profissão, o modo como a analisa e os caminhos que entende que ela deve seguir constituem também olhares fortemente influenciados pelo local de trabalho. Um órgão de comunicação pode ter os seus códigos próprios, uma cultura jornalística específica interiorizada por toda a redacção, mas a forma como cada jornalista se vê no interior dessa cadeia varia de acordo com ‘o terreno que pisa’. Desde logo nas relações entre centro e periferia, o que no domínio do jornalismo se traduz na distância e nas diferenças entre a sede e as delegações do respectivo órgão de comunicação, nas relações de poder entre esses dois pólos.

Numa época em que tanto se fala de globalização e tanto se especula sobre a substituição do jornal de papel pelo jornal informático; numa era em que a informação parece estar em toda a parte e se defende a especialização jornalística como via quase única e obrigatória para o sucesso profissional, consideramos oportuno abordar a prática do jornalismo, observando-a a partir do trabalho de uma delegação.

A rotina e as convenções podem dominar na produção diária de um jornal, mas escrever nunca deixará de ser um acto de cultura e imaginação.

 

Expectativas, mitos e realidades

Reflectir sobre a iniciação à prática profissional impõe que se comece pelas expectativas, é ao confrontá-las com a realidade que nascem as frustrações, estupefacções e os deslumbramentos. Nesse sentido, apesar do conhecimento teórico da actividade jornalística, as minhas expectativas sobre a prática situavam-se, ainda, em grande parte, ao nível da mitologia profissional dos jornalistas.

 

O mito da predestinação: nasce-se jornalista

Figura ao nível do senso comum e entre muitos profissionais, como um poderoso mito, a ideia de que "ser curioso é quanto basta e a escrita aprende-se escrevendo!".

Nada pode ser mais falso. Não basta saber escrever. Mas mesmo aceitando o pressuposto que as aptidões condicionam as escolhas profissionais – a curiosidade seria íman, mas é de tal forma comum que se torna irrelevante citá-la.

Fazer notícias e reportagens pode ser entendido como contar «estórias», próximo das formas discursivas da narrativa de ficção, exige imaginação e riqueza linguística é certo, mas exige também, o domínio das convenções narrativas determinadas não por critérios literários, mas antes por imperativos de espaço e tempo.

Por outro lado, a redacção de um jornal não é um local onde se inventam «estórias», as notícias têm o mundo real como referência, são construções discursivas a partir de acontecimentos (muito embora alguns deles sejam meros discursos). A redacção de um jornal, mesmo tratando-se de uma pequena delegação, é um lugar onde se chega a correr, com um bloco cheio de anotações, sem saber ao certo por onde começar, e mais ainda, um lugar onde chegam a toda a hora telefonemas, faxes, press releases, comunicados e outros meios de informação de organizações e pessoas, na expectativa de se tornarem notícia.

Esta constatação é suficiente para aniquilar um outro mito:

 

O jornalista caçador de notícias

À medida que as sociedades se complexizaram e as organizações foram tomando consciência do valor e importância da comunicação, foram organizando internamente os seus gabinetes de imprensa ou destacando pessoas que se transformaram nos principais promotores de acontecimentos, fazendo chegar à redacção toda a informação que consideram «noticiável».

Na prática, um jornalista está mais próximo de uma figura que amarrota e reduz rapidamente a lixo uma porção de papéis ou sentada em frente a um computador escreve nervosamente «estórias» que têm que estar prontas a horas de fechar a página.

De acordo com estudos assentes na observação de comportamentos em redacções e entrevistas a jornalistas (sociologia empírica abundante sobretudo nos Estados Unidos), a selecção do que pode ser noticiável assenta em critérios objectivos.

Significa isso que, face a cada informação recebida na redacção o jornalista se questiona sobre os critérios de selecção da notícia, cujo núcleo duro são os valores notícia, e os discute com os colegas antes de decidir? Seguramente não o faz.

Na verdade, para além da rapidez com que tem de decidir, a partir de uma leitura apressada (operação que era feita na redacção com fins pedagógicos), a possibilidade que cada acontecimento tem de se tornar notícia depende, em proporções de equilíbrio sempre discutíveis, tanto dos valores notícia substantivos como das rotinas produtivas do jornal e particularmente do espaço de que se dispõe diariamente, determinado em larga medida pela agenda.

As páginas do jornal são um espaço exíguo onde cada notícia tem de disputar um lugar que ganhará por mérito próprio e por demérito de outras.

Aparentemente, a avaliar pela informação que diariamente chegam a uma delegação através de faxes (inclusive as notícias pré-feitas de agência), a vida quotidiana – que é a origem/fonte de todas as notícias – fervilha de acontecimentos. Decidir o que deve ser notícia exige um trabalho de selecção que exclui infinitamente mais do que aproveita.

Os critérios de selecção articulados com as rotinas produtivas do jornal estão automatizados pelos jornalistas profissionais, portadores de uma cultura profissional e conhecedores da cultura da empresa. Mas para quem se inicia como estagiária é uma tarefa monstruosa, plena de hesitações e conflitos entre os conceitos de importância e interesse e a realidade do espaço e tempo disponíveis.

A observação da selecção diária, embora não tenha sido feita com instrumentos de análise tipificados, permitiu enquadrar teoricamente o conceito de «gatekeeper» e afirmar, intuitivamente, que as decisões do «gatekeeper» são tomadas «menos a partir de uma avaliação individual da "noticiabilidade" do que em relação a um conjunto de valores que incluem critérios, quer profissionais, quer organizativos, tais como a eficiência, a produção de notícias, a rapidez", como concluiu Robinson(1).

Em muitos momentos, pude verificar a validade duma vasta literatura de análise dos media, resumida na seguinte conclusão de Altheide(2): "A noticiabilidade de um acontecimento está habitualmente sujeita a desacordo mas depende sempre do interesse e das necessidades do órgão informativo e dos jornalistas.

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1 - Citado por Mauro Wolf, in Teorias da Comunicação, Lisboa, Presença, 1992.

2 - Idem, ibidem.

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