DO KOSOVO A TIMOR, OU A INQUINAÇÃO DOS VALORES FUNDAMENTAIS DA VIDA

 

VASCO OLIVEIRA E CUNHA

Vice-Presidente do ISPV

para as Relações Internacionais e para a Cultura

 

 

Foto Reuters/Público

 

No alvorecer da primavera foram os discursos sublimes dos novos educadores do mundo e dos seus discípulos mais dilectos, os direitos da humanidade trompeteados em todas as direcções face à violência e à morte das nações oprimidas; foi o incendiar dos ecos e das consciências com a "miséria informativa" de quem contempla "a realidade fragmentada por biombos espessos erguidos pelos poderes políticos e militares, filtrando os desígnios do Império"; foi a retórica dos Demóstenes e dos Cíceros do nosso tempo, meio educação, meio moralidade, não como uma espécie de gramática de auto-expressão mas como simples estilo e método divorciado de substância.

Bem disse Verlaine: "Peguem na retórica e apertem-lhe o pescoço". Isto é, retirem ao discurso a pompa, a circunstância e o vazio e o saco ficará sem ar.

Cidadãos cultos de Portugal e do mundo repetiram as palavras que Eurípides colocou na boca de Cassandra: "Evitai a guerra! Esse é o dever de todo o homem sábio!". O Papa gritou, tão alto quanto lhe era possível: "É sempre a hora da paz! Nunca é demasiado tarde para reunir e negociar!". Afirmaram uns que «uma guerra que não tenha como objectivo uma solução que contemple os temores, os interesses e, o que não é menor, a honra do povo derrotado, não decide coisa alguma por muito tempo».(1) Disseram outros, que a guerra era ilegítima; que violava o direito internacional; que no seu termo haveria que esconder muito bem os mutilados e os cadáveres para eles não provocarem uma náusea universal.

Apoiados numa moral militar colectivista, os senhores do mundo distanciaram-se de (quase) toda a gente inteligente do planeta e privilegiaram a ideia de Hobbes de que os pactos nada são sem a espada, ultrapassando as Nações Unidas (?) e outorgando-se as decisões sobre a vida e sobre a morte de cidadãos, "mostrando ao mundo para que servem os orçamentos militares" e nunca deixando de afirmar que bombardear o ditador era defender os direitos fundamentais da humanidade. Mesmo os da pequena fracção de sérvios e de kosovares albaneses, obrigados agora a repetir durante muitos anos todo o cansaço e todo o suor da reconstrução depois que os nazis lhes destruíram o seu país há meio século atrás.

Na Europa, querendo fazer aflorar algumas reticências em relação ao falcão americano, algumas fileiras aliadas procuraram não ficar demasiado próximas dos destroços humanos de kosovares e de sérvios, como se os Estados Unidos, nas palavras de Vásquez Montalbán, fossem "o Calígula que os forçara a um conflito bestial". E o jornalista espanhol pergunta: "Que fez o Senado de Roma quando Calígula nomeou procônsul o seu cavalo? Aceitou-o como procônsul(2).» O mesmo que haviam feito os líderes europeus, a euroesquerda de '68 incluída. Para não verteres lágrimas serôdias, diz-nos a experiência, deves meditar antes nas causas das lamúrias.

Como "Maria Mediadora de Todas as Graças", como alguém já lhe chamou, a ONU, ignorada e ultrapassada na questão kosovar, aceitou o papel de gestora das consequências de uma tragédia mais ampla do que a que preexistira aos bombardeamentos nem sempre cirúrgicos da NATO, mas sempre executados "de boa fé".(3)

 

No final do verão, antes e depois da votação massiva do povo maubere pela independência e pela preservação da sua cultura, a orgia de sangue, de destruição e de deportações das milícias e do exército indonésio encontrou os poderosos do mundo com as cordas vocais sem flexibilidade, enquistadas, as línguas entarameladas, a oratória inflamada, afirmativa e imperativa da primavera tornando-se condicional, concessiva, espessa, o discurso, enredado nos meandros cerebrais mais recônditos, limitando e retardando a acção urgente. Como havia sucedido durante mais de duas décadas, dia após dia, depois que Suharto e o seu exército, com espúrias conivências internacionais, ocuparam violentamente um território que nunca fizera parte das Índias Orientais holandesas violando todos os princípios do direito à auto-determinação e à independência dos povos, do respeito pelas culturas nacionais subscritos em Bandung (1955) pela Indonésia, grande impulsionadora do Movimento Não-Alinhado, e sucessivamente reafirmados em Belgrado (1961), no Cairo (1964), em Lusaka (1970), em Argel (1973), na Declaração das Nações Unidas sobre a Nova Ordem Internacional (1974), no Sri Lanka (1976)...; como acontecera quinze anos depois no massacre do cemitério de Santa Cruz, em Díli, as imagens e as palavras em pormenor em todas as televisões do mundo, vezes sem conta.

"Rarely has the cynicism of world politics been more clearly demonstrated" (raras vezes o cinismo da política mundial foi mais claramente demonstrado), afirmou Francis Sejersted, Presidente do Comité Nobel Norueguês, na cerimónia de entrega do Nobel da Paz a Monsenhor Ximenes Belo e a Ramos Horta(4); "o extermínio de um terço da população de Timor Leste", como acentuaram Jorge Sampaio(5) e o Comité Nobel Norueguês(6); ou, como disse Ramos Horta(7), a tentativa de limpeza «de uma língua e de uma cultura que chegaram à nossa região há cerca de quinhentos anos", os timorenses reduzidos a "uma nota de pé de página da História, um povo dispensável, tal como os judeus e ao arménios no passado, os curdos, os ciganos, os tibetanos, os aborígenes da Austrália, os maoris de Aotearoa (Nova Zelândia), os kanakis da Nova Caledónia, o povo do Saara Ocidental e os povos indígenas das Américas»; as consciências dos políticos nunca incomodadas, ou, como se lê no Velho Testamento, "a justiça nunca fluindo como as águas".

 

A Indonésia é um mercado gigante, consumidor de armas e de bens que não tem capacidade de produzir; fornecedor de mão-de-obra quase escrava que gera lucros obscenos para os estrangeiros atraídos pelo país paradisíaco. Situada bem no eixo mais populoso da humanidade, constitui uma fortaleza estratégica dispersa por ilhas mil de Sumatra à Nova Guiné, capaz de desencorajar qualquer tentativa china de subversão do status quo regional ou de quem ouse ensaiar alguma aventura pelo Pacífico, piscina azul imensa no meio de coqueirais de sonho. Não é inteligente nem sábio para quem quer continuar a reger o universo beliscar regime tão sacrossanto.

Acusadas de lentidão e de ineficácia na primavera, as Nações Unidas poderiam muito bem lidar com a questão timorense no outono, e no futuro, disseram os segundos e os terceiros secretários dos senhores do mundo, mas sempre no respeito pelo princípio do diálogo com a Indonésia, ainda que a sua soberania sobre Timor Leste só houvesse sido reconhecida pela Austrália durante um quarto de século. Uma força internacional de três milhares de homens, um dezasseis avos da que foi deslocada para o Kosovo, três vezes menor em superfície, seria suficiente para estancar a orgia.

 

Os valores são princípios primeiros. Alicerces. Fundamentos da vida e da convivência internacional. Têm de ser universais; têm de defender-se sempre com a mesma determinação. A nível do mar, no planalto e na serrania. Na Europa, na Ásia, na África e na América. Na mais pequena das ilhas.

Os povos têm assistido neste século a excepções sem conta desta regra elementar: no Chile de Pinochet, no Brasil e na Grécia dos coronéis, no Zaire de Mobutu, na Argentina dos generais, na Espanha de Franco e no Portugal de Salazar, no Vietnam, em Myanmar e no Cambodja, na Coreia do Norte, na África do Sul, na Rússia e na China; nas Filipinas de Marcos, no Uruguay de Bordaberry, na Bolívia de Banzer...

Em todos os continentes, ditadores sem conta, brancos, pretos, amarelos, mestiços, a norte e a sul, a leste e a oeste, torturaram, massacraram, deportaram, exterminaram etnias e culturas amassando fortunas das mil e uma noites e gozando o resto das suas vidas em exílios de ouro, frequentemente em países com um forte pendor para o discurso fácil dos direitos humanos. Timor não foi, certamente, o último dos exemplos.

 

Talvez envergonhada, a humanidade quer fugir rapidamente do século XX e deste milénio, antes mesmo de os deixar chegar ao seu termo. Pura ilusão! Sem a reformulação das actuais instâncias planetárias e dos quadros mentais que regem os poderosos deste mundo o homem vai permanecer ancorado no tempo em que hoje se encontra. Durante longos anos.

 

Viseu, 27 de Outubro de 1999

 

NOTAS:

1 Howard, M. «Survival», (1999). Cit. por A. Ortega «Después». El País, Madrid, 29/03/1999.

2 Montalbán, V. «La ONU». El País, Madrid, 14/06/99.

3 Em 14/07/1999 (Euronews, 18.00 horas), Jamie O'Shea, porta-voz da organização, ao referir-se ao erro trágico do piloto de um F-17 que provocou setenta e cinco mortos confirmados entre kosovares que fugiam dos sérvios e da guerra, afirmou que ele (o piloto) deixara cair a bomba de "boa fé".

4 The Lecture given by the Chairman of the Norwegian Nobel Commitee Francis Sejersted, (Oslo, 10/12/1996). In East Timor Leste - Nobel da Paz/Nobel Peace Prize.Lisboa: Faculdade de Letras, Edições Colibri, Março de 1997, p.45.

5 Prefácio. In East Timor Leste - Nobel da Paz - Nobel Peace Prize. Lisboa: Faculdade de Letras, Edições Colibri, Março de 1997, p. 20.

6 Text of the Norwegian Nobel Committe's Citation for the Peace Prize, (Oslo, 11/10/96), op. cit. P. 31.

7 Discurso de Aceitação do Prémio Nobel proferido pelo laureado com o Prémio Nobel da Paz de 1996. In East Timor Leste - Nobel da Paz - Nobel Peace Prize, Lisboa: Faculdade de Letras, Edições Colibri, Março de 1997, p. 85/93.

 

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