Por MARIA DA CONCEIÇÃO

Assistente Administrativa Principal do ISPV

 

 

Uns pertencem à classe VIP (de vilão(1), idiota(2), parasita(3)) outros à Patuleia(4) (de rasca, pata descalça). Os primeiros, há-os aos montes, a potes, a rodos. Aparecem-nos em cada esquina, entram-nos pelos olhos dentro como faúlhas de incêndio em tardes de Agosto. Em países reais, estão em apuros, em vias de extinção. Há muito se lhes acabou o reinado do pedantismo, do desplante, da lábia balofa.

Não obstante, acalentam uma réstia de esperança. Há ainda alguns oásis terceiromundistas onde podem mostrar serviço, obra feita. Nem que seja à garupa de um qualquer papalvo. Aí, crescem como cogumelos bravios, vistosos, de aspecto inofensivo, inodoro, insípido, mas fatais! Não sabem nada e nada fazem. Mas fazem que fazem. Provam por A mais B que fazem e que tudo quanto lhes sai das mãos é perfeito. Provado e comprovado. Nunca erram, equivocam-se. E quando isso acontece é porque foram induzidos em erro pelos outros... São analfabetos de intelecto, mas doutorados na arte do polimento. Não há gáspea de couro que lhes resista. Vivem em alcateia mas, quando toca a trabalhar, a vergar a mola em prol do bando, perde-se-lhes o rasto. Tudo se altera na presença do macho dominante. É vê-los pulular à sua volta, rabo entre as pernas em sinal de submissão. Roçam-se-lhe às canelas, ronronam delicodoces sons guturais, aplicam palavras caríssimas. Puxam daquilo que os militares habitualmente colocam acima das omoplatas em dias de gala. Estrebucham, arrotam postas de bazófia, vomitam lingotes de prosápia. A baba escorre-lhes, pastosa, mas não se incomodam. É tudo por uma boa causa. Como se de cefalópodes se tratassem, abrem os apêndices, arregaçam as mangas Armani, desdobram-se até à exaustão. Com tudo isto vão-se quedando com as glórias, vão-se empanturrando de louvores. Comem tudo(...) comem tudo e não deixam nada...

Acautelem-se os incautos e previnam-se os mais distraídos. Eles cada vez ascendem vais alto. Mark Twain dizia que antes merecer honrarias sem as receber do que recebê-las sem as merecer. Eles assim não pensam. Primeiro as honrarias, depois o mérito. Esse, perfeitamente dispensável e secundário.

Esquecem-se que esta aura, porque fictícia e virtual, é sol de pouca dura. Como a magnífica camélia, depressa lhes caem as pétalas e voltam ao que sempre foram. Um zero à esquerda...

Quanto aos outros, à patuleia, são mais que muitos. Cada vez são mais. Mas cada vez valem menos. Tudo se lhes exige e nada se lhes perdoa. Quando erram, são apontados a dedo. Incompetentes e inúteis são os adjectivos mais usados para os caracterizar. Contudo, é deles que escorre o suor. É deles que provém o palpável. São eles que se atrevem a sobressair no lodo da mediocridade. Não há maior delito do que a audácia de sobressair, já Churchill assim falava.

Só existiu, até hoje, uma VIP genuína, autêntica, pura. VIP de Very Important Person e não da definição que atrás dei à sigla.

Em Skopje nascida Agnes Gonxha Bojaxhiu. Em Calcutá tornada Teresa. Dela se conta que, um dia, numa das suas inúmeras viagens, desta feita a terras do Tio Sam, lhe foi ofertado um crucifixo de ouro. Também lhe fizeram questão de doar um bilhete de avião em classe Vip para o regresso à terra mãe. Sem que ninguém o soubesse comprou outro, a expensas do seu parco orçamento, para viajar junto dos comuns mortais. O lugar Vip não foi desperdiçado. Nele viajou o crucifixo. No lugar que lhe é devido e onde deveria sempre ser colocado...

Se os olhos da razão e do entendimento de uns e de outros não estivessem toldados pelo astigmatismo da indiferença e pela miopia do egoísmo, perante esta nobreza de carácter, concluiriam que nada são e nada valem...

Não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe. Quanto mais alto se sobe, maior pode ser o trambolhão. Sobretudo se não houver garra e fibra para manter o equilíbrio no trapézio no circo da vida...

NOTAS:

1 "Rude, rústico, grosseiro, sem arte, malcriado, descortês, abjecto, vil, baixo. Pessoal vil, desprezível, que comete acções más ou baixas." Machado, José Pedro, Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Edições Alfa. Lisboa, 1991. Vol. VI, pág. 587.

2 "Diz-se do que, por qualquer defeito de conformação ou por alguma alteração nos órgãos cerebrais, é incapaz de coordenar ideias. Imbecil, estúpido, parvo, obtuso, tolo." Idem. Vol. III, pág. 373-4.

3 "Animal que se nutre do sangue de outro. Pessoa acostumada a viver à custa alheia. Supérfluo, desnecessário." Idem. Vol. IV, pág. 553.

4 "A plebe, o povo. Indivíduo pertencente ao povo, à classe chamada baixa." Idem. Vol. IV, pág. 593.

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