o tempo desdenhava do perfil da idade, a cidade não tinha peso, as ruas as árvores

eram a parte de fora da casa. o tempo ajudava os corpos no seu delírio de

conquista, morenamente tocados por dedos sem memória. era uma alma a cidade,

um exercício de escrita, uma solidão onde cada objecto teria a sua história.

 

a casa, discurso de frechas, silêncio mitológico: observava a aventura, tocava às

vezes deus porque ele enforma nas coisas a omnisciência dos mistérios -- deus é

parte da gramática de quem se aventura. a casa, sim, a cidade, a própria tristeza

remodelava sinais.

 

hoje porém, talvez porque o cidadão não é arquitecto e outrora uma palavra

incompreensível -- a cidade esvazia-se em nome dos oiros de moda, espalha-se o

des-saber desatando labirintos; lembras-te, amor?, já não é possível essa cidade.

 

onde iremos de mãos dadas murcham as glicínias na ausência das estações em

movimento -- os caixotes que agora substituem o olhar aburguesam o sol,

uniformizam as nuvens, desgostam árvores. como dizer-lhes meu amor às pessoas

que mais do que dos terroristas se devem proteger dos políticos comuns? a cidade.

houve um tempo, um espaço de movimento, um pôr-do sol, teu corpo. que

lágrima agora eternizará a velocidade a que a memória se desfaz?

 

João Pedro Domingos de Alcântara Gomes

 

 

Percurso pela poesia e pela pintura de nomes que em Viseu nasceram ou viveram uma parte das suas vidas, O Regresso à Condição junta em livro e em exposição alguns dos mais proeminentes criadores do distrito e região de Viseu.

Geografia do pensamento, de emoções e de linguagens que o disseminam, O Regresso à Condição é, simultaneamente, produção e reprodução de uma identidade cultural fortemente eivada de experiências e influências polifacetadas de universalismo.

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Galeri@ ispV

 

 

João Pedro Domingos D' Alcântara Gomes (Torres Novas, 1959).

Viveu em Viseu durante vários anos onde se dedicou ao associativismo cultural. Tem textos publicados em diversas revistas literárias e programas de exposições de artes gráficas. Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas pela Universidade de Coimbra, cidade onde vive. Menção honrosa no Concurso Nacional de Poesia Guerra Junqueiro (1997). Co - editor da publicação Filigrafias: "... reparem na orquídea: todos os sinais do mundo lhe estão escritos..." (runas).