Os Deuses vendem quanto dão

Luz-Gládio/Marte, Orfeu.

 

I

 

Sibilina Vénus, secular, vieste,

Gotícula etérea de azul celeste,

Translúcida espiral,

Esperança boreal,

Espírito, memória,

Hermínio, história.

 

Em marulho, o segredo amado:

Sombra vaga - luar ornado,

Grão, de areia futura,

Tempo renascido,

Pórtico fendido,

Milenar alvura.

 

D'apolinea sede, vitral de luz,

Desceu o arcanjo - o olhar o conduz.

Marte, o ungido,

Gládio erguido,

Missão: cruz.

 

Brame, branco, o deus belicoso,

Flama em sol, olhar furioso.

De Vénus, as sombras funestas,

Afastou, cerúleo, em pugnas e gestas.

O gládio venceu venturoso.

 

Nascitura, escrita, do céu, a certeza.

Em monte luzia, a azul beleza:

Gládio-sol e Lua acesa!

 

II

 

Mas os Deuses vendem quanto dão.

Esvai-se a Luz: estipêndio atroz.

Risos negros de satisfação

De espectros-sombra em muda voz.

 

III

 

Gládio partido,

Estilhaço ferido,

Tempo que morre,

Sonho que escorre.

 

IV

 

E Marte fez-se Orfeu.

Carpe Vénus, o sol fendeu

Com raiva à terra, dor sem céu.

Jurou ser Homem, deus só seu.

E rasgou do ser a nova entranha,

Queimou ambrósia em seca lenha,

Verteu no templo o sangue ganho,

E gritou rebelde e estranho:

"Juro vingar o tempo vendido,

A morte da areia, o pórtico fendido,

O horizonte azul, o doce olhar,

Os dois em um, o céu em mar!

Eu canto, telúrico fiel,

Icário humano, palavra em asa,

Sem medo estigio, doçura de fel,

De Sisifo, o castigo, de Ulisses a casa.

Os Deuses vendem quanto dão,

Mas o meu destino serei eu!

Retalho de mim, buscarei união

Do sonho ao futuro, o sangue que é meu.

Nasci de mim mesmo, Homem!

Dos ombros nascem asas

E sombras aduncas se somem.

No estertor vivo, a pele se rompe.

Serei Faetonte, Titã e Narciso,

Serei Ómega e Alfa, deserto e fonte,

Serei Édipo, de olhos vazados,

E cego, terei olhar preciso,

Além dos Deuses já passados.

Depois do Tempo, agora sem Tempo,

Depois da Luz, agora sem Luz,

Buscarei, noutra vida, o vento.

O vento me levará, teu olhar o conduz.

 

Espírito em espiral, de novo me fito.

Sou eu, de novo, mortal, mas infinito."

 

Luís Miguel Cardoso

 

 

Percurso pela poesia e pela pintura de nomes que em Viseu nasceram ou viveram uma parte das suas vidas, O Regresso à Condição junta em livro e em exposição alguns dos mais proeminentes criadores do distrito e região de Viseu.

Geografia do pensamento, de emoções e de linguagens que o disseminam, O Regresso à Condição é, simultaneamente, produção e reprodução de uma identidade cultural fortemente eivada de experiências e influências polifacetadas de universalismo.

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Galeri@ ispV

 

 

Luís Miguel Cardoso ( Viseu, 1969).

Estudou e viveu em Viseu até aos seus estudos superiores. Mestre em Literaturas Clássicas e doutorando em Literatura Comparada (Literatura e Cinema) na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Docente na Escola Superior de Educação do Instituto Superior Politécnico de Viseu: "... horizonte azul / do sonho ao futuro / espírito em espiral ..."