O POEMETO DAS SOMBRAS

 

Ruge lá fora a ventania

e as árvores vergando, desfolhadas,

vão gemendo, como almas na agonia,

contorcidas, desvairadas.

 

À meia-noite,

a voz do sino, pesada e densa,

passa estridulando,

como se uma boca cavernosa, imensa,

nos predissesse negramente, malsinando!...

 

Há lares em festa -

e fome pelos caminhos

da desgraça.

E a minha amargura

vai subindo

na voragem funesta

de clamor que passa!

 

Meu Deus!

Por que é que os inocentes, pobrezinhos,

não têm pão?

Por que é que nesta noite em que nasceu Jesus

o Céu, não se sorri, cheio de luz?

 

Quebram-se soluços na rajada...

Exalo-me em tédio! vibra o meu tormento -

eu trago revestida a alma de saudades

nem eu já sei há quanto tempo!...

 

Sobre a seda vermelha que me envolve.

a luz vai entornando

vagas tonalidades - violetas...

e lá fora batalham peito a peito,

revolvendo as trevas ululando,

longos fantasmas

de negras silhuetas!

 

Judith Teixeira

 

 

Percurso pela poesia e pela pintura de nomes que em Viseu nasceram ou viveram uma parte das suas vidas, O Regresso à Condição junta em livro e em exposição alguns dos mais proeminentes criadores do distrito e região de Viseu.

Geografia do pensamento, de emoções e de linguagens que o disseminam, O Regresso à Condição é, simultaneamente, produção e reprodução de uma identidade cultural fortemente eivada de experiências e influências polifacetadas de universalismo.

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Galeri@ ispV

 

 

Judith Teixeira (Viseu, 1880-Lisboa, 1959).

Poetisa de predominância decadentista com um halo modernista indesmentível. Directora da revista Europa. A mulher - poeta de maior arrojo na década de vinte portuguesa, com laços com o ultraísmo espanhol: "Sim, vou partir. / E não levo saudade de ninguém..." ("Adeus").