VIRGÍNIA

 

Embora o sol fosse alto ainda, áquela

hora já dali desertara, as sombras iam

saindo aos poucos de debaixo dos armários.

De vez em quando as mãos, completamente absortas,

detinham-se no ferro, sobre a tábua, ao lado

do gigo agora esvaziado e dos pesados

tabuleiros de verga, onde se erguia a roupa.

Tornavam-se mais nítidos, assim, os seus

contornos recortados contra a luz.

Dali podia-se avistar o mundo inteiro.

Ao longo dos telhados, por onde um ou outro gato

corria atrás das pombas, oscilava

ligeiramente a corda, onde a cidade, o céu

e os montes pareciam pendurados.

 

Luís Miguel Nava

 

 

Percurso pela poesia e pela pintura de nomes que em Viseu nasceram ou viveram uma parte das suas vidas, O Regresso à Condição junta em livro e em exposição alguns dos mais proeminentes criadores do distrito e região de Viseu.

Geografia do pensamento, de emoções e de linguagens que o disseminam, O Regresso à Condição é, simultaneamente, produção e reprodução de uma identidade cultural fortemente eivada de experiências e influências polifacetadas de universalismo.

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Galeri@ ispV

 

 

Luís Miguel Nava (Viseu, 1957-Bruxelas, 1995).

Crítico literário e poeta. Licenciado em Românicas. Leitor de Português em Oxford e tradutor na União Europeia. "Prémio Revelação de Poesia" da APE com Películas (1979). Vulto fundamental da poesia portuguesa: "A carne que os guindastes / suspendem, minha, / rente à fosforescência / no abismo dos dias..." ("Os ecos").