A Ordem Errática

 

há um dia que erige o silêncio em sinal e o comum em partilha o gesto final

há um dia em que a alvorada pranteia a insónia da escrita com um trovão

 

há um dia em que o sino toca e ninguém vem e o toque se atordoa e cai

 

há um dia em que o sol te ira e só na noite só ofendes a paz e ressumbras raivas

 

há um dia em que o olhar é opaco e o infinito invisível porque se aproximou de ti

 

há um dia em que na mão lívida de dar não transparece no espasmo o perdão

 

há um dia em que a mudez te invade e só no gesto ecoa a agitação do ar suplicante

 

há um dia que fica marcado pela lua perplexa e mais pálida que no último quarto

 

há um dia sem horas horizontal e açaimado na penumbra de todas as sombras

 

há um dia sem afagos nem a quem afagar perdido o gesto o jeito o mimo

 

há um dia em que estremeces a dor nos poros e a agonia é um enjoo longo que mói

 

há um dia em que a ave azul te fura o olhar com o bico de ferro mordaz e céptico

 

há um dia o primeiro dia dos dias em que voas a cremar-te numa estrela o dia

 

Paulo Neto

 

 

Percurso pela poesia e pela pintura de nomes que em Viseu nasceram ou viveram uma parte das suas vidas, O Regresso à Condição junta em livro e em exposição alguns dos mais proeminentes criadores do distrito e região de Viseu.

Geografia do pensamento, de emoções e de linguagens que o disseminam, O Regresso à Condição é, simultaneamente, produção e reprodução de uma identidade cultural fortemente eivada de experiências e influências polifacetadas de universalismo.

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Galeri@ ispV

 

 

Paulo Neto (Aveiro, 1955).

Vive em Viseu, é professor da ESEN e do ISCE. Colaborador periódico em jornais. Artigos de opinião em revistas pedagógicas e literárias, com ensaios, contos e poesia. Membro do Conselho Redactorial da revista Ave Azul: "A alvenaria do texto / não acolhe o ritmo / nem a rima dos meus sons". (textos do capricórnio).