(PARA UM) OLHAR

 

Não regresso a um lugar que julgue meu

nem a um tempo povoado de sinais.

Cruzo viagens em direcção a uma utopia

imemorial.

 

Mesmo que as tílias ainda cheirem a tília

(cheirar a tília é, afinal, o destino inexorável das tílias...).

 

Há lugares e tempos que só quero ver com um olhar

construído noutros sítios, a des-horas.

Não de olhos inutilmente abertos.

Ir além de corredores que se ajoelham em altares,

de ruas que desaguam em igrejas,

de bairros que se esgotam em paróquias.

 

Mas faço - desfaço - refaço teias de memória

urdidas por deuses invisivelmente competentes,

cantados por castrados e visíveis catequistas semanais.

 

E quero um destino que não seja inexorável,

em que cada volta seja mais que um regresso.

Construo - desconstruo - reconstruo ângulos e direcções,

num olhar.

 

Longe e devagar.

Com olhos transitoriamente fechados,

sonhadores de deuses

preguiçosamente sensuais.

 

Desenterro raízes de fogo

que planto na água

de todos os ares.

 

João Luís Oliva

 

 

Percurso pela poesia e pela pintura de nomes que em Viseu nasceram ou viveram uma parte das suas vidas, O Regresso à Condição junta em livro e em exposição alguns dos mais proeminentes criadores do distrito e região de Viseu.

Geografia do pensamento, de emoções e de linguagens que o disseminam, O Regresso à Condição é, simultaneamente, produção e reprodução de uma identidade cultural fortemente eivada de experiências e influências polifacetadas de universalismo.

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Galeri@ ispV

 

 

João Luís Oliva (Viseu, 1956).

Nasceu no ano de 1956, em Viseu, terra de onde saiu em 1970. Conheceu pessoas e situações em muitos sítios. Aprendeu a fazer perguntas. Vive novamente em Viseu, desde 1987. É investigador, na área da História das Ideias, do Centro de Estudos Interdisciplinares do séc. XX da Universidade de Coimbra. Docente na Faculdade de Letras da mesma universidade e no Instituto Superior Miguel Torga, Coimbra: "Continua a gostar da vida e também, embora às vezes não pareça, do cheiro das tílias ..."