No parque da cidade

 

O parque desce sob o meu olhar

instável desce para o lago

onde florescem latas de cerveja, folhas

e a névoa dos namorados.

 

À superficie das coisas o pó

aquietado da vida, a poalha dos impropérios

da castiça, o fumo do monte branco

a coroar, à hora da bica, a ave da juventude

 

que assobia canções combatentes.

Muita coisa começou assim, um punhal

a esmagar os sonhos, uma pedra a torcer

o primeiro amor contra o mundo.

 

Mais tarde, é sempre mais tarde, a morte

de amigos cuspiu de mim toda a cidade,

as ruelas que iam para o fontelo

escureceram também para sempre.

 

O silêncio, como o inferno, começa sempre

com os outros.

 

Fernando Luís Sampaio

 

 

Percurso pela poesia e pela pintura de nomes que em Viseu nasceram ou viveram uma parte das suas vidas, O Regresso à Condição junta em livro e em exposição alguns dos mais proeminentes criadores do distrito e região de Viseu.

Geografia do pensamento, de emoções e de linguagens que o disseminam, O Regresso à Condição é, simultaneamente, produção e reprodução de uma identidade cultural fortemente eivada de experiências e influências polifacetadas de universalismo.

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Galeri@ ispV

 

 

Fernando Luís Sampaio (Moçambique,1960).

Viveu e estudou em Viseu, cidade onde terminou o liceu e se iniciou na escrita. Em 1981 recebeu o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores com o livro Conspirador Celeste (Publicações D. Quixote). Publicou, ainda, Sólon (IN-Casa da Moeda), Hotel Pimodan (Frenesi) e Escadas de Incêndio (Quetzal). Está representado em várias antologias e traduzido em francês, espanhol, italiano, inglês e croata. Foi director do Festival Mergulho no Futuro, na Expo' 98, e actualmente é director do IPAE: "Um longo silêncio tropeçou / no tráfego nocturno de aves e astros." ("Inveraray").