E tudo começou assim ... em 1980.

Avelina Rainho

Professora Coordenadora da ESEV - Área Científica de Matemática

 

Todo o marco histórico se insere numa linha que tem a sua origem numa ideia e numa personalidade forte que a concretizou.

A Escola Superior de Educação de Viseu, um marco histórico na história da formação de professores, em Portugal, não foge à regra, pelo que é um privilégio poder iniciar esta narrativa com o testemunho da personalidade forte que esteve na origem das origens desta Instituição. Damos, pois, a palavra ao Senhor Engenheiro António Araújo, ao tempo Governador Civil do Distrito de Viseu, hoje Presidente da Assembleia Municipal de Viseu e um incansável e influente dinamizador do progresso desta região.

Difícil é hoje para mim recordar com rigor, dado o afastamento no tempo, os momentos vividos na luta pela criação do Ensino Superior em Viseu na minha passagem pelo Governo Civil de Viseu, no início da década de 80.

O governo presidido pelo saudoso e grande democrata Dr Francisco Sá Carneiro procurava tenazmente, e com grande dinamismo, estabilizar o país político e lançar a base do seu desenvolvimento social, económico, cultural e educacional. Nós, Governador Civil, como seu representante no distrito sentíamo-nos também simultaneamente representantes perante o governo das suas gentes e das suas carências, vivemos momentos empolgantes de reivindicação, de elencagem dos atrasos e necessidades e simultaneamente vivemos uma tensão realizadora que nos levava a querer tudo e ao mesmo tempo pelo que foi necessário um grande trabalho de auscultação e análise em conjunto com os senhores Presidentes das Câmaras para determinar linhas de intervenção e o estabelecimento de prioridades.

Desde logo, e apontada por todos, a urgência de criar um Ensino Superior Politécnico e Universitário se impunha como a mais relevante e inadiável.

No Governo, na pessoa do seu Ministro da Educação - Professor Vítor Crespo - encontrei de imediato todo o apoio, e existindo já uma lei de criação do Ensino Politécnico no país verifiquei com desgosto que o arranque de uma Escola Superior de Educação em Viseu - escolas por onde iriam começar os politécnicos - estavam quase no fim das prioridades do Ministério.

Foi o Ministro da Educação, sensível à minha insistência e exigência de se arrancar de imediato, que, desafiando-me a estar à altura dessa responsabilidade, me pediu para lhe apresentar nomes para uma Comissão Instaladora, presidida por doutorado ou mestrado, que fosse capaz de a concretizar mas com rigor, profissionalismo, capacidade científica e pedagógica.

Desafio feito, desafio aceite de imediato, e a procura desesperada de individualidades capazes de responder a esta responsabilidade e que simultaneamente fossem da região e sentissem a nossa vontade e vivessem a nossa ânsia de avançar, foi a minha preocupação imediata.

Confesso que perante a minha distanciação profissional em relação ao ensino as minhas relações e conhecimentos no meio eram insignificantes. Valeram-me conselhos de amigos, e um deles sugeriu-me o nome da Doutora Avelina Raínho como a pessoa capaz de assumir tal trabalho. Foi difícil convencê-la. A responsabilidade que lhe iríamos lançar sobre os ombros era de facto enorme, sem referências ainda no país, mas a sua determinação, competência e capacidade de trabalho estavam mesmo vocacionadas para tal missão, como se veio a provar.

Completada a Comissão Instaladora com o Doutor João Pedro Antas de Barros e Doutora Maria José Moura que o Ministro da Educação de imediato e somente baseado na confiança que em mim depositava nomeou, assim se criou a Escola Superior de Educação de Viseu que se inaugurou em 26 de Março de 1983.

Seguiram-se meses de trabalho intenso por parte da Comissão Instaladora na organização da futura Escola, de preparação dos currículos dos cursos e de preparação do corpo docente com o nível científico que desde a primeira hora se colocou como a exigência de qualidade que não poderia ser ignorada.

Fui cumprimentado e felicitado pelo Ministro da Educação e pelas estruturas do Ministério pelo trabalho que a Comissão desenvolveu, e sei que foi mais tarde usado e fonte de inspiração para as outras Escolas Superiores de Educação do país.

A nossa Escola Superior de Educação foi a primeira em Portugal, com um nascimento surpreendentemente rápido para alguns, devido à nossa persistência, à grande visão do Ministro Vítor Crespo, do governo de então e das figuras que constituíam a Comissão Instaladora.

Hoje a Escola tem a dimensão e o prestígio que todos conhecem e honra-nos a nós, viseenses, pelo seu alto valor pedagógico e científico e honra também em especial os membros da sua primeira Comissão Instaladora, em especial a sua Presidente, e, permitam-me que o diga, que me honra pessoalmente o seu sucesso por ter contribuído também para a sua criação.

O testemunho do Senhor Engenheiro Araújo, que agradeço, impele-me a tecer algumas considerações clarificadoras.

Em primeiro lugar, parece-me oportuno e importante desfazer alguma confusão que ainda persiste na opinião pública, sobre a criação e a natureza do ensino superior politécnico, reforçando os seguintes pontos:

 

 

Em segundo lugar, desejaria realçar, não só a eficiência, como também a celeridade que o Senhor Engenheiro Araújo imprimiu ao processo. Com efeito, no dia 7/7/80 confirmei-lhe a minha decisão de aceitar o cargo de Presidente da Comissão Instaladora e no dia 8/8/80, em reunião realizada no Gabinete do então Director da Escola do Magistério Primário, Dr João Pedro Antas de Barros, completou-se a equipa da Comissão Instaladora. Na sequência, o Senhor Governador Civil comunicou, de imediato, este resultado ao Ministério da Educação e o Despacho necessário à formalização da situação não se fez esperar.

 

SUMÁRIO