UM PROJECTO INOVADOR - O Meu testemunho

ANABELA PANÃO

Professora Adjunta da ESE de Coimbra

Estava eu sentada a finalizar a elaboração de um documento fundamental para a progressão na minha carreira de Ensino Superior quando tocou o telefone e ouvi uma voz que não ouvia seguramente há dez anos; ultrapassados os primeiros momentos de admiração, ao tomar conhecimento deste pequeno projecto para a comemoração de aniversário da 1 escola Superior de Educação, senti um profundo orgulho e agradecimento por finalmente alguém se lembrar do nosso pequeno contributo, mas tão decisivo para a história da Formação de Professores e Educadores em Portugal.

Num momento crucial da minha carreira eis que alguém me pede que fale sobre o início de uma instituição de formação absolutamente determinante para a minha opção profissional. Eis pois o meu testemunho pessoal sobre esta importante iniciativa de então, com efeitos no tempo absolutamente determinantes para o quadro de Formação de Professores do Pré-Escolar, do 1 e 2 Ciclo.

Tinha iniciado há pouco mais de dois anos a minha carreira docente na Escola do Magistério Primário de Coimbra quando tomei conhecimento da possibilidade que havia de eu vir trabalhar naquela que era a primeira Escola Superior de Educação do nosso país.

Aderi logo à ideia de colaborar num projecto novo que visava uma formação docente a nível superior, tanto mais que ela não era para mim desconhecida, devido a razões de vária ordem, nomeadamente o facto de me ter deslocado à Escola Normal Superior de Merignac, em Bordéus, com um grupo de alunos-mestres finalistas da Escola do Magistério de Aveiro, no âmbito de um intercâmbio institucional de acompanhamento e assistência às aulas da Formação Inicial e das Práticas Pedagógicas, quer do Pré-Escolar quer do Ciclo do Ensino Básico. Ainda nesta estada contactámos com os programas de Formação Contínua, obrigatória para a progressão na carreira docente, organizada fora dos tempos lectivos, de preferência nas férias escolares.

Esta preocupação de reformar a Formação Inicial, em França, dos futuros professores do Pré-Escolar e do Ensino Básico e a forma que foi adoptada, apesar das dificuldades de que tomámos conhecimento então, deu-me logo a convicção que, também em Portugal, era possível e absolutamente necessário melhorar e qualificar profissionalmente a profissão destes dois níveis do nosso Ensino, uma vez que o novo contexto escolar e as necessidades sentidas pelos professores, na prática, eram evidentes.

A ligação afectiva à cidade, que possuía pelo facto de ter sido também o início de uma carreira profissional ao serviço do Ensino, na Instalação e Inovação da formação de Professores Primários e Educadores de Infância, por parte do meu pai, pelos três cantos do Mundo: Aveiro, Angola, Timor e Guiné, foi mais que suficiente para aceitar o carinho especial por parte das gentes de Viseu que, apesar do seu bairrismo, tende a valorizar e a complementar os contributos de gentes de outras cidades.

Não me foi difícil, portanto, abraçar com entusiasmo esta oportunidade de contribuir para uma tarefa inovadora, por isso mesmo difícil de pôr em pé, mas de cujo êxito dependia o futuro da criação das novas Escolas Superiores de Educação.

Adoptando a perspectiva histórica, com a qual então iniciei a minha actividade docente, não posso deixar de contextualizar o aparecimento inicial e decisivo do arranque desta Escola. Basta lembrar que, no final da 1 República, apesar da sua criação por Decreto-Lei do Parlamento, a Faculdade da Educação, para formar a nível superior Professores Primários e Jardineiras de Infância, fracassou. As Escolas Normais Superiores, a criar para esse fim, pelo Ministro Veiga Simão, também não vingaram.

Neste contexto, todos sentíamos que agora tinha de ser de vez, se não, nunca mais era, pelo menos tão cedo; isto apesar das insistentes recomendações da UNESCO para que fosse dada a formação de Nível Superior, primeiro Bacharelato e depois Licenciatura, aos futuros Professores do Ensino Básico e Educadores de Infância.

Felizmente que deste vez tinham sido reunidas as pessoas certas e todas elas empenhadas em levar por diante esta nova realidade, a despeito dos habituais Velhos do Restelo.

Considero que o êxito deste projecto, e consequentemente de não ter mais uma vez fracassado, se deve a um facto talvez um pouco aleatório, isto é, à sorte de ter estado na Comissão Instaladora uma pessoa determinada que foi motor de arranque dos trabalhos preparatórios; refiro-me à Senhora Doutora Avelina Raínho.

No primeiro encontro que tivemos, na entrevista do Concurso para Assistente do 1 Triénio para História de Portugal, em que fui seleccionada, fiquei surpreendida ao ser confrontada com a questão se sabia claramente os riscos, as consequências e as responsabilidades futuras se aceitasse este lugar de concurso em que só havia um projecto, cujo futuro dependia do empenho de um grupo de cinco pessoas que eu passaria a integrar.

Este encontro impressionou-me favoravelmente, por verificar que tinha pela frente alguém com ideias muito claras, que não era pessoa de baralhar ideias para debitar um discurso redondo e oblíquo, perifrástico quanto baste, para ir vendo o que é que dava.

Mas a verdade é que, para além daquele grupo, permito-me destacar três pessoas, Docentes e Não Docentes, que se envolveram neste projecto:

O saudoso Professor João Evangelista Loureiro, Professor Catedrático de Universidade de Aveiro, grande pedagogo e incansável inovador na Área da Educação, cujo desaparecimento quando havia ainda muito a esperar da sua acção foi uma grande perda para o ensino.

A Senhor Doutor António Oliveira, ilustre Professor Catedrático de História, da Universidade de Coimbra, de quem tive a honra de ser Assistente na Escola Superior de Educação de Viseu e de quem recebi todo o apoio e muita estima; essa consideração que deu impulso ao meu percurso posterior, primeiro como Assistente e Mestre da Universidade do Minho na Universidade das Ciências da Educação, e depois como Professora-Adjunta, da Área de Psicologia e Ciências da Educação da Escola Superior de Educação de Coimbra e, presentemente, como equiparada a bolseira para a realização do projecto de Doutoramento.

Por fim, não posso deixar de referir o Senhor Medeiros, homem recto e aparentemente duro, mas afável, que, em muitas situações, colaborou no esclarecimento de dúvidas burocráticas ligadas ao nosso percurso profissional.

Vim para esta Escola no ano lectivo de 1982/83, precedendo concurso, para reger a cadeira de História de Portugal; este é um pormenor importante dos Planos de Estudos que me permito realçar. Todos se lembram de como naquela altura, pouco depois do 25 de Abril, o ensino da História de Portugal era considerado desnecessário e conservador; isto vinha de tempos anteriores ao 25 de Abril, em que o seu ensino era considerado politicamente incorrecto. Esta visão progressista, contudo, deixava escapar que a História de Portugal, no nosso caso, e a língua comum são factores essenciais para a formação do conceito de Nação dos cidadãos de qualquer Estado.

Incluir esta disciplina nos Currículos da Escola Superior de Educação denotava lucidez, rigor e um profundo conhecimento da maneira de alcançar os verdadeiros objectivos de formação da Escola.

O programa da disciplina estava muito bem elaborado, tanto do ponto de vista científico, como a defesa de valores democráticos que orientavam a formação dos jovens formandos da Escola e dos seus futuros alunos espalhados pelas regiões em que trabalham.

E pelo que me foi dado conhecer, a estrutura curricular dos cursos incluía as disciplinas mais adequadas à formação docente, com programas cujas rubricas de carácter científico e objectivos pedagógicos e didácticos estavam rigorosamente expressos. Só desta forma se podia falar numa verdadeira mudança na formação dos novos Professores do Ensino Básico e Pré-Escolar.

Os Currículos previam, pela primeira vez, que a formação do docente assumisse a necessária articulação e conhecimento dos diferentes níveis de Ensino, isto é, o Pré-Escolar e o 1 Ciclo e o 1 Ciclo e 2 Ciclo.

A Prática Pedagógica, com as suas reuniões semanais, verdadeiramente interdisciplinares, com a presença e contributo de todos os docentes das diferentes disciplinas do ano em que se realizava, tinha como objectivo claro contribuir para a consecução dos objectivos de cada ano no contacto com as realidades institucionais que os alunos frequentavam, quer a nível de observação, quer ao nível da execução.

As viagens de estudo enquadradas em projectos verdadeiramente interdisciplinares, como foi o caso da ida à XVII Exposição Mundial, a decorrer em Lisboa, possibilitaram, para além do conhecimento, o estreitamento de laços de cumplicidade entre docentes e discentes; enfim, um sem número de actividades perfeitamente estruturadas, organizadas e avaliadas, como só num projecto verdadeiramente assumido pelo corpo docente e discente é possível.

Penso que esta minha asserção pode ser facilmente confirmada pelos resistentes da primeira hora. Éramos poucos, mas o ambiente vivido era óptimo. Este processo irreversível de pôr de pé um Projecto Inovador que hoje está consolidado, aconteceu num momento crucial e foi a garantia da difusão, pelo resto do país, das Escola Superiores de Educação, com claros benefícios para os nossos jovens.

Era hora de partir para poder progredir na carreira do Ensino Superior que havia iniciado e me propunha continuar a desenvolver, contribuindo desta forma para o aprofundamento do conhecimento desta Área de Formação de Professores.

Hoje, de novo numa Escola Superior de Educação, a de Coimbra, continuo a contribuir, para o desenvolvimento do Projecto Inicial da ESE de Viseu, na dignificação e qualificação da Carreira dos Educadores do Pré-Escolar e do 1 Ciclo.

A todos, estou reconhecida pelo facto de me terem dado a oportunidade de reviver estes momentos de grande alegria que é compartilhada por todos os que os vivemos.

SUMÁRIO