A tomada de posse da Comissão Instaladora decorreu no salão nobre do Governo Civil de Viseu, no dia 16 de Novembro de 1980, sob a presidência do então Senhor Ministro da Educação, Professor Doutor Vitor Crespo, e com a presença do Senhor Secretário de Estado do Ensino Superior e representantes das forças vivas do Distrito. O discurso da presidente da Comissão Instaladora, proferido na circunstância e que a seguir se transcreve, reflecte as concepções com que se partiu para este projecto e a tenacidade que iria caracterizar a respectiva actuação.

 

Discurso da tomada de posse da Comissão Instaladora em 16/11/1980

 

Senhor Ministro

Senhor Secretário de Estado

Senhor Governador Civil

Senhor Presidente da Câmara

Demais Autoridades

Senhoras e Senhores

 

A Instituição que nos propomos instalar é definida como um sistema polivalente ao serviço da educação. Aqui, apenas referirei a sua principal função, visto que ela constitui uma das variáveis mais significativas do tão complexo problema educativo, isto é, a formação dos docentes.

Enquadrado numa visão futurista, o assunto é tema de reflexão em todo o mundo. Principalmente na Europa, constata-se que a formação de professores vigente se encontra mais próxima do séc. XIX do que do séc. XXI. Efectivamente, fala-se muito em transição, mas a verdade é que o período transitório que atravessamos deve considerar-se, não propriamente entre dois séculos, mas entre duas eras. Tais factos levaram a Fundação Europeia da Cultura a incluir num vasto programa de estudos prospectivos "O Plano Europa 2 000", um projecto sobre educação que inclui um estudo prospectivo da formação de professores.

Claro que uma prospecção neste campo pode parecer, por um lado, impossível; mas, por outro, relativamente simples. Simples, porque a evolução, neste campo, tem sido tão lenta que poderá parecer haver elementos suficientes para prever a situação daqui a algumas décadas. Impossível, porque, na lógica das coisas, a formação de professores é condicionada pelos processos e conteúdos da educação, a qual, como se sabe, é expressão de uma situação cultural. Ora, a complexidade da nossa civilização, associada ao súbito conflito energético e consequente crise económica, aumentou consideravelmente a margem de incerteza que apoia qualquer previsão. Por outro lado, essa margem de incerteza, no que respeita à formação de professores, é tanto mais ampla quanto mais acentuada é a crise cultural (sobretudo ligada à revolução tecnológica) que tem conduzido alguns pensadores a pôr em causa a própria existência da escola. Realmente, a palavra desescolarizar invadiu a nossa sociedade e têm-lhe sido atribuídos significados diversos, alguns apoiando ideias bastante extremistas. Pois, parece-me, que compete a nós, responsáveis pela educação, reflectir sobre a palavra, atribuir-lhe um significado concreto e difundi-lo.

Primeiramente, "desescolarizar" não pode significar "suprimir a escola" – defendem esta ideia extremista aqueles indivíduos que, face a uma realidade cultural cujo peso não suportam, procuram assim refugiar-se num universo marginal de segurança. Quanto a nós, pensamos que, quanto mais uma cultura ganha em riqueza e em complexidade, menos a educação dos jovens poderá ser deixada ao acaso de aprendizagens ocasionais ou mesmo do talento pedagógico dos mais velhos e mais experientes. É que, sendo a pedagogia uma acção do homem sobre o homem, por isso mesmo é uma das mais difíceis de executar bem. Aliás, nem que fosse só como centro de coordenação e sistematização das aprendizagens – repare-se que o homem de hoje sabe e deve saber muito mais do que nunca, na história da humanidade – a escola teria aí, já plenamente, a sua razão de existir.

Mas, o papel da escola tende a aumentar ainda mais noutras dimensões, devido às modificações profundas da vida familiar, em que o tempo e os cuidados consagrados à educação dos jovens tendem a diminuir. Portanto, a escola não pode desaparecer, mas vê, isso sim, o seu papel profundamente modificado. Neste contexto, as diferentes componentes da nossa linha de pensamento, no que se refere à formação de professores (que consideramos a variável mais importante da escola), têm subjacentes o seguinte:

Aliando à linha de pensamento que, resumidamente, acabei de esboçar, o forte propósito de que tudo faremos para levar a bom termo a missão que agora nos é confiada, pensamos poder corresponder à confiança que em nós depositaram os responsáveis máximos do Ministério da Educação, o que agradecemos.

Também desejo expressar os votos de que o período de instalação desta Escola Superior de Educação represente, de facto, uma contribuição significativa para o período de gestação necessário ao nascimento de um novo modelo educativo, que as próximas décadas conhecerão no estado adulto.

 

Muito obrigada.

Dr.Ş. Avelina Rainho

 

Assim, no dia 16 de Novembro de 1980, a Escola Superior de Educação de Viseu tinha dado dois passos importantes, e talvez decisivos para o desenvolvimento da cidade de Viseu e região: estava incluída na primeira fase de lançamento do ensino superior politécnico e tinha uma Comissão Instaladora para a sua Escola Superior de Educação, mas ... nada mais.

Era necessário arranjar um espaço e começar, de imediato, o processo de instalação, em duas frentes: montar o aparelho administrativo de suporte; desencadear a difícil e complexa caminhada, rumo a um modelo de formação de professores realmente inovador, desafiante e que estimulasse a transição (tardia) da educação, em geral, e da formação de professores, em particular, para o século XX. Sim, porque a ESEV não começou como uma reconversão da antiga Escola do Magistério Primário; a ESEV foi, de raiz, um projecto novo e inédito no país.

Não é nossa intenção contar, aqui, a história do período de instalação que decorreu entre esta data e a entrada em funcionamento da Instituição. O espaço disponível não o permitiria e o nosso enfoque é, de facto, apenas este evento. Contudo, há que enquadrá-lo devidamente para que os leitores fiquem plenamente informados e apreendam plenamente o seu significado.

Em termos de instalações, começou a funcionar num T2 – no 3ş andar do nş55 da Rua Alexandre Lobo – e aí decorreu toda a fase de concepção do Projecto.

O primeiro funcionário administrativo da fase de instalação foi o Senhor José Ferreira Medeiros que, infelizmente, já não está entre nós. Qualquer homenagem que se relacione com os obreiros da Escola Superior de Educação de Viseu tem de passar necessariamente pelo Senhor Medeiros. É meu dever expressar aqui algumas das recordações que guardo da sua acção connosco: a dedicação plena e incondicional ao Projecto; o entusiasmo e a competência com que organizou os serviços administrativos e académicos; a forma brilhante como contribuiu para a resolução dos problemas, sobretudo nos momentos mais difíceis; o modo inteligente e perspicaz como sucessivamente soube gerir o evoluir das situações. Todos os que viveram essa época sabem, e é justo que se divulgue, que sem o Senhor Medeiros não teria sido possível muito do que se conseguiu, em termos de eficiência e em termos de prazos cumpridos. A sua evocação, neste trabalho, é um acto simples, certamente incompleto, mas é a afirmação de uma grande admiração pelo trabalho que desenvolveu, de um grande respeito pela sua memória e de uma profunda saudade.

Na mesma onda de recordações, não posso deixar de invocar também o meritório trabalho desenvolvido pela D. Adelaide Nogueira, colaboradora directa do Senhor Medeiros, no âmbito administrativo, e hoje secretária da Presidência do Instituto Superior Politécnico de Viseu. E também o contributo indispensável da D. Alice Matos, pioneira, nas funções de pessoal auxiliar.

Resumindo, com a entrada do Senhor Medeiros na equipa, graças à sua competência e dinâmica, a preocupação com a instalação e funcionamento da vertente administrativa diluiu-se e a Comissão Instaladora pôde dedicar-se mais a fundo à vertente curricular do processo.

O ano de 1980 foi um autêntico marco histórico na formação de Professores, em Portugal. Neste ano, arrancou a Profissionalização em Exercício, arrancou a instalação das Escolas Superiores de Educação e também a instalação dos Centros Integrados de Formação de Professores nas universidades novas. No plano pessoal, embora com experiência anterior na formação de professores, iniciei uma etapa profissional extraordinariamente rica, neste campo. Com efeito, como membro da Equipa de Apoio Pedagógico, participei no projecto da Profissionalização em Exercício, desde o seu início e, ao assumir a presidência da Escola Superior de Educação de Viseu, vi-me também envolvida na concepção e implementação de um outro tipo de modelo de formação inicial.

Fruto das relações que, imediatamente após a tomada de posse da Comissão Instaladora, iniciámos com as universidades, a fim de congregarmos apoios e experiências de diversos quadrantes e, ao mesmo tempo, conquistar espaço no ensino superior, nasceu como que uma geminação com a Universidade de Aveiro. O seu mentor, o saudoso Professor Doutor João Evangelista Loureiro, a quem reservamos um espaço próprio nesta revista, sabiamente reconheceu que o CIFOP e a ESEV eram instituições com os mesmos objectivos e a mesma filosofia de formação de professores, pelo que ambas beneficiariam se juntassem esforços e recursos. Assim, foi por despacho das entidades competentes que passei a integrar o grupo de trabalho para a concepção dos currículos dos cursos a criar no CIFOP e as duas Instituições – ESEV e CIFOP – desabrocharam de mãos dadas.

A conjuntura referida permitiu, pois, que a concepção da formação de professores, a realizar na ESEV, se desenvolvesse com pleno conhecimento das linhas de força dos modelos de formação de professores implantados ou em fase de implantação no país. E permitiu ainda que a elaboração dos currículos fosse um processo participado, profundamente discutido, que congregou várias sensibilidades, e fortemente apoiado por especialistas nacionais e estrangeiros.

Foi um processo participado, profundamente discutido, e congregou várias sensibilidades, na medida em que foi motivo de reuniões periódicas com responsáveis do Ministério da Educação e com as Comissões Instaladoras das outras ESEs, já empossadas, e de protocolos de colaboração com diversas universidades (de Lisboa, Coimbra, Aveiro, Porto e Braga), no âmbito dos quais o seu desenrolar foi acompanhado e discutido.

A relação com as universidades tornou-se de tal modo harmoniosa e profícua que, já no programa de formação contínua de professores, implementado pela Comissão Instaladora ao longo do ano lectivo de 1980/81, a participação de professores universitários foi dominante e, em continuidade, a sua intervenção no processo intensificou-se gradualmente. Recorde-se, a este propósito, que os programas das diferentes disciplinas dos planos de estudo dos cursos da ESEV foram elaborados por equipas lideradas por professores universitários da respectiva especialidade e, posteriormente, o ensino de cada disciplina e a respectiva articulação à prática pedagógica foi assegurada por uma equipa constituída por um professor universitário, um assistente convidado com experiência profissional comprovada (nomeadamente na formação de professores) e por um assistente de carreira – 1ş triénio, a recrutar por concurso.

Neste contexto, um outro indicador a merecer registo é a constituição do primeiro Conselho Científico da Escola Superior de Educação de Viseu: Professor Doutor António de Oliveira (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra) – Presidente; Professor Doutor João Evangelista Loureiro (CIFOP da Universidade de Aveiro); Professora Doutora Maria Odete Valente (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa); Professora Doutora Isabel Alarcão (CIFOP da Universidade de Aveiro); Professor Doutor Artur Soares Alves (Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra); Professor Doutor Nicolau Raposo (Faculdade de Psicologia da Universidade de Coimbra); Mestre Avelina Rainho (Presidente da Comissão Instaladora da Escola Superior de Educação de Viseu) – Vice-Presidente e Secretária.

A elaboração dos currículos foi um processo fortemente apoiado por especialistas estrangeiros porque, ao abrigo da Fullbright, conseguimos a colaboração de quatro peritos americanos, em diferentes áreas de especialização (currículo, educação matemática, avaliação da acção educativa e supervisão).

Neste trabalho, o nosso destaque vai para o Professor George Wesley Sowards, pela sua intervenção directa e relevante nas versões finais do modelo de formação inicial que veio a ser aprovado pelo Ministério da Educação e com o qual se iniciou a actividade lectiva da Instituição.

Por outro lado, a Universidade de Aveiro iniciou um período de intensa formação do grupo de trabalho para a elaboração dos currículos, do qual eu fazia parte, proporcionando um ciclo de minicursos ministrados pelos peritos europeus mais influentes, na altura. Foi também um contributo extraordinário para o nosso Projecto, visto que a gama de especialistas dos cursos em causa cobria todas as áreas de formação, desde a Educação Pré-Escolar até ao Ensino Secundário.

E não seria justo avançar nesta minha recordação do passado, sem dedicar um espaço muito especial ao grande mestre, ao grande amigo e colaborador da Escola Superior de Educação de Viseu, desde a sua origem, e meu grande amigo pessoal, o Senhor Professor Doutor João Evangelista Loureiro.

SUMÁRIO