OS PROGRAMAS DE PORTUGUÊS NOS PRIMÓRDIOS DA ESEV

ISABEL AIRES DE MATOS

Professora Adjunta da ESEV - Área Científica de Português

Os textos que a seguir se publicam constituem exemplos paradigmáticos de programas pioneiros de disciplinas da área de Português. Foram seus autores o Professor Doutor Joaquim Fonseca, da Faculdade de Letras do Porto – programas de Linguística Portuguesa I e II - o Professor Doutor Aníbal Pinto de Castro, da Faculdade de Letras de Coimbra – programa de Técnicas de Análise Textual - e o Dr. José Carlos Seabra Pereira, da mesma Faculdade – programas de Literatura Portuguesa I e II.

LITERATURA PORTUGUESA I

1. Caracterização sucinta dos grandes estilos epocais na Europa - do Renascimento ao Pré-Romantismo: o Classicismo renascentista, o Maneirismo, o Barroco, o Neoclassicismo; referência ao rocócó.

2. Bosquejo da dinâmica da evolução literária em Portugal até ao século XVIII e indicação sumária dos géneros, autores e obras mais representativos daqueles estilos epocais entre nós.

3. 0 Pré-Romantismo.

3.1. A poética e a temática do Pré-Romantismo europeu.

3.2. 0 Pré-Romantismo português.

4. 0 Romantismo.

4.1. 0 conceito a-histórico de Romantismo e o conceito de Romantismo em periodologia literária. Origem e evolução da palavra "romântico"; o seu significado tipológico e o seu significado histórico-literário.

4.2. Contexto sociológico e político do Romantismo europeu. Ideais contra-revolucionários no Romantismo. Romantismo e liberalismo.

4.3. A poética do Romantismo: a criação literária; a imaginação; o sonho e o inconsciente; a poesia como conhecimento; o símbolo e a metáfora; a renovação da problemática dos géneros literários; a oposição a regras e modelos; estilo e versificação.

4.4. A visão romântica do eu e do mundo; satanismo, titanismo e donjuanismo; a Senhsucht, o mal du siècle e o mito do Paraíso; frustração e aniquilamento do herói romântico; evasão e exotismo; a ironia romântica; a religiosidade romântica.

5. 0 Romantismo português.

5.1. Condições históricas do seu aparecimento e da sua difusão. 0 movimento romântico e as lutas liberais. Romantismo e tradicionalismo em Portugal; dissociação de posições.

5.2. As influências estrangeiras.

5.3. Características gerais do Romantismo português. Gerações, fases e faces. Os pendores historicista e sentimentalista do Romantismo português. Primeira referência ao problema do chamado "ultra-romantismo".

6. Almeida Garrett; o processo de instauração e de questionação do Romantismo em Portugal.

6.1. Dados bibliográficos. A formação durante a estadia nos Açores; D. Frei Alexandre da Sagrada Família. Garrett e o Neo-Classicismo. 0 período coimbrão de Almeida Garrett: influências ideológicas; o jovem dramaturgo e poeta.

6.2. A poesia da primeira fase de Garrett. Breves referências às características temático-formais d' O Retrato de Vénus. A Lírica de João Mínimo: a expressão da ideologia liberal; influências literárias; o filintismo; traços pré-românticos; os poemas do exílio.

6.3. 0 poema Camões: condições da sua criação; a escolha da figura de Camões para herói do poema; o significado histórico-literário do poema; o prefácio da 1ª edição. A estrutura formal do poema; influência da obra camoniana; aspectos neo-clássicos e românticos de Camões.

6.4. 0 poema Dona Branca: circunstâncias da sua criação; importância histórico-literária do poema. O carácter joco-sério da temática e o seu tratamento; o problema do maravilhoso poético; o medievalismo e o nacionalismo literário.

6.5. 0 prefácio da Lírica de João Mínimo: as ideias estético-literárias expostas e a renovação da prosa portuguesa no estilo do texto.

6.6. A acção de Almeida Garrett como renovador do teatro português: criação de um reportório nacional, de um Conservatório e de um Teatro nacional. Um Auto de Gil Vicente: significado histórico-literário; a renovação do teatro português sob o signo de Gil Vicente; caracteres estético-formais da obra. Breve referência a 0 Alfageme de Santarém.

6.7. As concepções manifestadas na "Memória ao Conservatório"; a importância desse texto para a interpretação do Frei Luís de Sousa.

6.8. 0 Frei Luís de Sousa: o problema das fontes e da motivação da obra; o drama no contexto romântico; os caracteres e o significado do Frei Luís de Sousa como tragédia; análise da acção e das personagens da obra.

6.9. As Viagens na minha terra: a origem da obra e o seu significado ideológico e estético. Análise dos elementos românticos da obra. A oposição frade/barão; a crítica à prática do Poder liberal e à sociedade portuguesa da época; o tema da decadência de Portugal. A crítica ao desvio historicista e ao retoricismo da literatura romântica portuguesa. Análise da "novela da Casa do Vale" e do problema psicológico-moral de Carlos; Carlos e a odisseia do eu romântico; significado do donjuanismo nas Viagens. Mundividência romântica e estilo romântico: a renovação da linguagem literária portuguesa operada com as Viagens; os fundamentos e os processos da renovadora prosa das Viagens.

6.10. As Folhas Caídas: a estruturação da obra; caracteres temáticos e formais do seu lirismo "impuro".

7. A evolução político-social do país a partir da Regeneração e a evolução da literatura romântica. A morte de Garrett, o recolhimento de Herculano, o pontificado de Castilho; a origem e o desenvolvimento das características que motivaram o emprego da designação de "ultra-romantismo" (análise do valor conceptual e operatório desta denominação). Da degradação "ultra-romântica" à intervenção revolucionária e estética da naturalidade.

8. Os antecedentes da "Questão Coimbrã". A vida intelectual e literária na Coimbra da década de 1860.

A "Questão Coimbrã": história da polémica; dilucidação dos seus aspectos mais relevantes. As ideias estético-literárias propugnadas por Castilho e por Antero; a nova "querela de antigos e modernos"; forma e ideia na expressão literária; a crítica à deformação sentimentalista do Romantismo (Germano Meireles); a atitude de Ramalho Ortigão.

9. As Conferências do Casino: os objectivos da iniciativa; os condicionamentos históricos da sua realização. Síntese das palestras efectivadas. Análise da conferência de Eça de Queirós sobre "A literatura nova".

10. Romantismo e Realismo. Diferenciação da problemática da polémica da "Questão Coimbrã" e da problemática das Conferências. Personalidades e projectos da Geração de 70; balanço da sua acção.

Os conceitos periodológicos de Realismo e de Naturalismo: conexões e distinção; análise das coordenadas ideológicas e estéticas e dos caracteres temáticos e estilísticos do Realismo e do Naturalismo.

11. Um trajecto pessoal na Geração de 70: vida e obra de Eça de Queirós.

11.1. Eça e a sua estadia em Coimbra; leituras e influências literárias. Os traços românticos das Prosas Bárbaras: sua novidade relativa em Portugal, seus processos de realização, sua influência em poetas da época; o estilo das Prosas Bárbaras.

11.2. Condições da experiência jornalística no Distrito de Évora e seu alcance na evolução literária de Eça de Queirós. Importância da obra O Egipto - Objectivos e caracteres fundamentais das Farpas e da participação de Eça no empreendimento.

Os temas fundamentais da crítica queirosiana (o domínio político-social, a literatura romântica, os problemas educativo e religioso): relacionação de textos queirosianos das Farpas (Uma Campanha Alegre) com passos d'O Conde de Abranhos, A Capital, A Ilustre Casa de Ramires, etc.

11.3. A fase realista e naturalista de Eça de Queirós. Os objectivos e a estrutura d'O Crime do Padre Amaro e d' O Primo Basílio; o projecto das Cenas da Vida Portuguesa. Análise dos principais vectores temáticos e formais daqueles dois romances. Sua relacionação com aspectos derivados de romances posteriores.

As três versões d'O Crime do Padre Amaro: análise contrastiva e dedução do seu significado na evolução estético-literária de Eça. A crítica de Machado de Assis ao Crime... e ao Primo Basílio; a crise dos valores realistas e naturalistas em Eça de Queirós.

11.4. 0 significado estético-literário de alguns textos da crise queirosiana: o malogrado prefácio da terceira versão do Crime... ("Idealismo e realismo"), a carta-prefácio d`O Mandarim, etc. 0 valor d' O Mandarim no processo evolutivo da ficção queirosiana.

As incidências da reacção anti-positivista e anti-cientista dos finais do século XIX na posição mental de Eça; aproximação de textos queirosianos às tendências idealistas e esteticistas finisseculares.

11.5 Análise d'Os Maias: os aspectos que prolongam os propósitos de crítica realista da sociedade portuguesa; a estética trágica e simbólica d'Os Maias: seu significado, seus processos.

11.6. 0 humor de Eça, os intuitos da ficção queirosiana e a renovação correlata da prosa literária portuguesa. Traços fundamentais do estilo queirosiano.

12. A personalidade literária e a obra de Gomes Leal - as condições da criação cultural em meio século da sociedade portuguesa.

12.1. Escorço biográfico de Gomes Leal; as vicissitudes da recepção da sua poesia e o destino dos seus textos.

A diferenciação dos ambientes sócio-culturais de Coimbra e de Lisboa na década de 1860. Vocação e formação literária de Gomes Leal.

12.2. Das primícias líricas às Claridades do Sul. As concepções de Gomes Leal sobre poesia na época das Claridades.

Tradição romântica, parentescos com João de Deus e criação duma poesia nova. As sugestões das Prosas Bárbaras e a sobreposição de novas influências (Nerval, Baudelaire, Heine) ao tradicional ascendente de Hugo, Musset e Byron. Realização ou antecipação nas Claridades do Sul dos aspectos e das tendências principais da obra de Gomes Leal e da poesia portuguesa que vai do Romantismo ao Modernismo.

12.3. As Claridades do Sul e o Realismo. 0 satanismo das Claridades e os caracteres baudelairianos do 1º Anti-Cristo. A secção "Carteira de um fantasista" das Claridades; caracterização e itinerário subsequente da poesia de costumes em Gomes Leal. A obra de Gomes Leal e a poesia realista à maneira de Cesário Verde: acompanhamento ocasional, desdobramento em pretensões naturalistas (o 1º Anti-Cristo e as elucubrações da sua "Nota"), variação original em Mefistófeles em Lisboa.

12.4. A poética do Parnasianismo. Incidências secundárias nas Claridades do Sul. Fundo anti-parnasiano da poesia de Gomes Leal.

12.5. A poesia de intervenção de Gomes Leal. Razões e sentido da reacção panfletária aos principais acontecimentos da sua época.

A fermentação política e social na Lisboa da década de 1870. A participação de Gomes Leal no lançamento d' O Espectro de Juvenal e d'O Século. A poesia de combate dos poetas menores antologiados por Teófilo Braga no Parnaso Português Moderno; a rivalidade de Gomes Leal com Junqueiro; aproximação a Guilherme de Azevedo. Breves referências aos panfletos políticos de Gomes Leal desde O Tributo de Sangue até Protesto d'Alguém.

0 ambiente em torno do Ultimatum e a Troça a Inglaterra.

Permanência do espírito interventivo na poesia de Gomes Leal do século XX: breves referências aos seus panfletos poéticos desde Carta ao Bispo do Porto até Pátria e Deus e a morte do mau ladrão.

12.6. A recolha das "sátiras modernas" em Fim de um Mundo e a evolução mental e estético-literária de Gomes Leal no fim-de-século.

As poéticas do Decadentismo e do Simbolismo. A convergência de Gomes Leal com as novas orientações: abandono do projecto de Poemas da alegria digressões doutrinárias no prefácio e na "Autópsia final" de Fim de um Mundo e no preâmbulo a 0 poema dum morto de Guilherme de Santa Rita; temática de Serenadas de Hilário no Céu e de poemas esparsos; a preparação de A mulher de Luto.

12.7. A poesia cíclica de Gomes Leal.

A aspiração latente em "Os deuses mortos" e outras composições das Claridades do Sul. Ambições e fraquezas do poema do "naturalismo" (o 1º Anti-Cristo) e do poema do ocultismo (A Mulher de Luto).

0 Herege como primeiro dos poetas dramatizados que transpõem alegoricamente o sentimento de predestinação pessoal. 0 pretexto amoroso e, a linhagem do "poeta maldito". A projecção no mito de Camões e uma grande obra de motivação circunstancial: análise do poema em 4 cantos A Fome de Camões.

12.8. A Poesia religiosa de Gomes Leal: da criação surpreendente de História de Jesus à refundição místico-sentimental do Anti-Cristo; o lirismo mariânico de Senhora da Melancolia.

13. A problemática sócio-ideológica de Portugal nos alvores do século XX. Agonia das instituições monárquicas e dos partidos constitucionalistas, agitação social e revolução política. A diversa actuação do republicanismo positivisto-jacobino perante a "questão política", a "questão religiosa" e a "questão social". Continuidade sócio-cultural sob a I República.

14. A secundarização dos esteticismos finisseculares e o seu destino bifronte (metamorfose de elementos parcelares no Modernismo e retorno epigonal).

15. 0 Neo-Romantismo dominante no primeiro quartel do século XX. Características gerais da poética neo-romântica.

As condições de existência de três correntes distintas no Neo-Romantismo português.

Síntese dos aspectos ideo-temáticos e estilístico-formais que definem o Neo-Romantismo vitalista.

Síntese dos aspectos ídeo-temáticos e estilístico-formais que caracterizam o Neo-Romantismo lusitanista.

 

LITERATURA PORTUGUESA II

1. Teixeira de Pascoaes e o saudosismo: uma variante nacional e pessoal do Neo-Romantismo.

1.1. Escorço biográfico de Teixeira de Pascoaes; a formação literária e as produções poéticas finisseculares; a maturação original nos inícios do séc. XX; a acção como impulsionador e orientador do movimento da Renascença Portuguesa; o recolhimento em Gatão e as criações literárias subsequentes síntese das digressões, filosóficas em 0 Homem Universal e nas "biografias".

1.2. 0 pathos e o significado histórico-cultural e estético-literário da doutrinação saudosista n'A Águia, em conferências, em ensaios e em livros de prosa aforismática. Análise e correlacionação de textos de Verbo Escuro, Os Poetas Lusíadas, A Arte de Ser Português, etc.

1.3. Caracterização do Neo-Romantismo saudosista a partir da análise de textos de Teixeira de Pascoaes (com destaque para Sempre, Terra Proibida, Jesus e Pã, Vida Etérea, Sombras, Marânus e Regresso ao Paraíso).

1.3.1. Sincretismo ideológico (anti-positivista, anti-racionalista); misticismo heterodoxo e intuicionismo poético.

1.3.2. Herança e superação prospectiva da perplexidade e do dilaceramento espirituais do Decadentismo.

Soledade e cisma/Isolamento e contemplação.

1.3.3. Metamorfoses da ironia romântica.

1.3.4. 0 vate e a Raça. A mitogenia da Saudade: virtualidades e contradições. A intervenção cívico-cultural e a literatura como factor de regeneração pátria. Nacionalismo mítico e nacionalismo literário.

1.3.5. Engagement patriótico e engagement social; ambiguidades e derivações.

1.3.6. Amor e Ausência. 0 Amor sublime. A mulher e o amor em Vida Etérea e Regresso ao Paraíso.

1.3.7. Arte "inspirada" e "humana"; o retorno da imaginação romântica e o conhecimento simbólico; o imaginário saudosista; o verbo oracular e sentencioso, estilo e linguagem saudosistas.

2. 0 impacto da 1ª Grande Guerra na vida portuguesa. A irrupção dum novo tipo de sensibilidade e de cultura com a geração do Orpheu o contraste entre a superiorização das criações literárias correspondentes e o soterramento temporário da intervenção modernista (em termos de recepção de sociologia da comunicação literária).

A problemática do Modernismo orfaico: estratégia de provocação e inovação profunda; reelaboração de antecedentes na literatura portuguesa e contactos cosmopolitas; "paulismo" e herança decadentista; "interseccionismo" e estética cubista; a componente futurista; a nova e transmutante presença do Eu no epicentro da criação literária.

3. Caracterização sintética da personalidade e da obra de Fernando Pessoa; motivações e funções dos heterónimos; o sentido da heteronímia em Pessoa e uma aproximação a Almada Negreiros.

Traços fundamentais da obra de Mário de Sá-Carneiro.

O papel desempenhado por figuras secundárias (Alfredo Pedro Guisado e Luís de Montalvor; Mário Saa e Raul Leal; Angelo de Lima; António Botto e António Ferro).

4. Itinerário existencial e artístico de Almada Negreiros: Modernismo e realização nacional.

4.1. Artes plásticas e literatura em Almada; a actividade vanguardista anterior a Orpheu; o sabor nacional e lisboeta do vanguardismo de Almada; as antecipações e as contrapartidas plásticas ou gráficas do interseccionismo e do primitivismo literários.

4.2. A faceta satírita do escritor Almada Negreiros. Irreverência, caricatura e surpresa estilística no Manifesto Anti-Dantas. A superior importância d'A Cena do ódio: premonições e contradições do poema futurista; significado da eliminação de certos passos na sua primeira publicação; a revelação das qualidades mais características da literatura de Almada numa encruzilhada de tendências (sensacionismo, amoralismo, egotismo pan-sexualista), e de influências (Whitman, Nietzsche) datantes.

4.3. A fase futurista. 0 vitalismo amoral. 0 nacionalismo anti-passadista e fundacional. A intensificação do cratilismo secundário no texto literário.

4.4. A poesia de Almada. Frisos e a herança dos esteticismos finisseculares. A pessoal modernidade de Almada em poemas como "Mima Fataxa","Litoral" , "0 menino de olhos de gigante", "Presença", "As quatro manhãs"...

4.5. Do futurismo ao interseccionismo e ao programa de "Reaver a inocência".

Referência a "K4 o Quadrado azul" ' a "Saltimbancos" e aos textos da revista Contemporânea. Análise d'A Engomadeira: a decomposição e a recomposição da realidade; intersecção e estrutura narrativa; intersecção e imagens; intersecção e sintaxe; o humorismo interseccionista; antecipações do Surrealismo.

4.6. De A Invenção do Dia Claro a Nome de Guerra: os antecedentes no conto "0 homem que não sabia escrever"; Bildungsroman, lirismo e doutrinação imaginosa; a apologia da candura a estrutura novelística; a ficção psicologista de motivação não-abstracta e seus aspectos para-existencialistas o quadro físico e social: um pitoresco não convencional; a reinvenção vivaz do estilo.

4.7. Os ensaios doutrinários de Almada Negreiros. "1+1=1". A "direcção única" e o unanimismo. "Teknê, a Cabeça da Colectividade". Teleon símbolo, logos e mito em Almada.

4.8. Doutrina e teatro em Almada Negreiros.

Crítica da estética naturalista. Implicações dos princípios enunciados na palestra de apresentação de Antes de Começar (1949). Os "ensaios de diálogo seguidos de comentários

Análise de Deseja-se Mulher: discontinuidade estrutural; os quadros cénicos como poemas dramáticos; a temática; o estilo.

 

TÉCNICAS DE ANÁLISE TEXTUAL

I. Introdução

A disciplina de Técnicas de Análise Textual destina-se a ser frequentada por alunos do Bacharelato em Educação Básica das áreas de Português/Inglês e Português/Francês. Integrada no 6º Semestre, os seus objectivos e conteúdos programáticos decorrem, necessariamente, das disciplinas de Linguística e de Literatura que a precedem curricularmente e, de forma particular, das disciplinas de Língua Portuguesa (I e II), nas quais se visa, primordialmente, o "Domínio dos conceitos básicos e da metodologia utilizados nos estudos linguísticos e nos estudos literários."

Mais do que uma reproblematização teórica das orientações críticas mais consagradas (recorde-se que o programa de Língua Portuguesa II contempla já rubricas respeitantes à análise estilística e à análise estrutural) importa agora disciplinar, metodologicamente, o contacto com o texto e, sobretudo, rentabilizar as suas potencialidades pedagógicas.

Entende-se, assim, que tendo em conta os destinatários mediatos e imediatos, as Técnicas de Análise Textual devem conduzir ao enriquecimento da competência estética e da competência comunicativa dos alunos, assumindo a última função um carácter de extrema importância, até pela ausência, no curriculum, de uma disciplina declaradamente orientada para as Técnicas de Expressão do Português. 0 texto (literário e não-literário) deve ser, por conseguinte, objecto de fruição, objecto de estudo em ordem ao aperfeiçoamento do domínio da língua e ponto de partida para a produção textual própria e apropriada.

Compreende-se, deste modo, que se tente superar a análise estritamente imanentista, suportada pela chamada especificidade ôntica do texto literário, não só pelas suas insuficiências epistemológicas como, e sobretudo, pela sua comprovada inoperância pedagógica. Afigura-se-nos mais útil a adopção de um esquema de contacto com os textos metodologicamente consistente, mas suficientemente desconfinado para permitir a desejável questionação e eventual apropriação dos valores estéticos e ideológicos dos textos. A visível inspiração do programa na concepção semiótica do texto e a articulação complementar das perspectivas semântica e pragmática justificam-se, pois, em funções dos pressupostos enunciados, embora caiba ao docente da cadeira ajustar a profundidade dos conceitos à situação pedagógica real.

Porque os conteúdos programáticos assentam numa base teorética global e relativamente homogénea, desaconselha-se um tratamento excessivamente seccionado e linear dos conceitos que prejudique a visão articulada do texto como sistema.

A análise do texto deverá ser, naturalmente, consubstanciada na produção oral e escrita, que poderá ir do debate à dissertação, sem descurar o levantamento de pistas de exploração pedagógica a nível do Ensino preparatório, procurando-se, com isso, que as aulas sejam, efectivamente, práticas e úteis.

A escolha dos textos a analisar deverá obedecer às necessidades e interesses dos destinatários mediatos e imediatos do programa, contemplando um leque tão variado quanto possível de géneros e privilegiando textos contemporâneos, por serem estes os que mais perto se situam do estádio de língua dos alunos falantes, podendo servir, desse modo, se não como modelo, pelo menos como ponto de referência útil na consecução do aperfeiçoamento da sua competência comunicativa e no enriquecimento mais seguro da sua competência estética.

 

II - OBJECTIVOS

OBJECTIVOS GERAIS

1. Analisar os vectores pragmático-semânticos do texto literário.

2. Analisar os vectores pragmático-semânticos do texto não-literário.

3. Assumir o texto (literário e não-literário) como ponto de partida para a produção textual própria.

OBJECTIVOS ESPECÍFICOS

1. Distinguir, metodologicamente, os níveis de análise pragmática e semântica do texto.

2. Detectar as conexões existentes entre ambos os níveis.

3. Adequar os modelos de análise a textos de diferente teor (ficcional e não ficcional).

4. Captar e valorar a dimensão estética do texto.

5. Confrontar o funcionamento semiótico do texto literário com o funcionamento semântico de textos não literários.

6. Seleccionar pistas de exploração pedagógica decorrentes da análise textual.

III- CONTEÚDOS PROGRAMÁTICOS

1. Significado(s) do texto

1.1. Sentido, Significado e Significância

1.2. A questão da indeterminação semântica e da semiose ilimitada no texto ficcional.

1.3. Significado plausível e Significado provável.

1.4. Anti-reducionismo e critérios de aferição hermenêutica

2. A Pragmática do texto

2.1. 0 "Universo do Discurso" (Orecchioni): a situação de comunicação e a estruturação temática e retórica do texto.

2.1.1. A competência enciclopédica (Eco): códigos e sub-códigos.

2.1.2. 0 horizonte do emissor como hipótese interpretativa : alocracia e autocracia hermenêuticas (Hirsch)

2.1.3. 0 horizonte do receptor

2.1.3.1. A previsão do leitor no texto

2.1.3.2. 0 leitor modelo

2.2. A subjectividade no enunciado

2.2.1. Os deícticos

2.2.2. As categorias morfológicas

2.2.3. Conotação e marcas axiológicas

2.2.4. Tropos e figuras de estilo

2.2.5. Aproveitamento das virtualidades fónicas, rítmicas e gráficas do significante.

3. A Semântica do texto

3.1. Os macro-signos semânticos (Isotopia, tema/rema, personagem, motivo, imagem, tema)

3.1.1. Sua repercussividade e recorrência

3.1.2. Sua intensionalidade e extensionalidade

3.2. A sintaxe dos macro-signos semânticos: a questão do círculo hermenêutico.

3.3. As estruturas narrativas

3.3.1. Núcleos e catálises

3.3.2. A sequência narrativa: sintaxe e semântica

3.3.3. Estruturas actanciais e ideológicas

3.3.4. Limites e possibilidades da interpretação profunda.

4. A Produção Meta-textual

4.1. Análise e interpretação

4.2. Da alteridade hermenêutica à valoração estética.

4.3. A apropriação dos valores do texto.

IV - BIBLIOGRAFIA *

ANGENOT, Marc- Glossário da Crítica Contemporânea, Lisboa, Editorial Comunicação, 1984

BARTHES, Roland - "Introduction à l'analyse structurale des récits" in Communications 8, 1966

ECO, Umberto - Tratado Geral de Semiótica, São Paulo Editora Perspectiva,1980

ECO, Umberto - Leitura do Texto Literário - Lector in Fabula Lisboa, Editorial Presença,1985

GENETTE, Gérard - Discurso da Narrativa - Ensaio de Método -, Lisboa, Ed. Arcádia (Colecção Práticas de Leitura),1979

GREIMAS, A.J. - Du Sens. Éssais Sémiotiques, Paris, Ed. du Seuil,1970

GREIMAS, A.i. - Sémiotigue et sciences sociales, Paris, Ed. du Seuil, 1976

GREIMAS, A.J. e COURTÈS J. - Semiótica - Diccionario Razonado de la Teoría del Lenguaje. Madrid, Ed. Gredos,1979

Groupe U Rhétorique Générale, París, Ed. du Seuil,1982

HIRSCH, Eric Donald - The Aims of Interpretation , Chicago and London, Un. of Chicago Press,1976

HIRSCH, Eric Donald - "The Politics of Theories of Interpretation" in The Politics of Interpretation, W.J.T. Mitchel (ed.) Chicago, The Un. of Chicago Press, 1983

HOY, Davíd Couzens - The Critical Circle: Literature, History and Philosophical Hermeneutics, Berkeley - Los Angeles, Un. of California Press,1982

KERBRAT-ORECCHIONI, C. - L'Enonciation - De La Subjectivité Dans Le Langage, Paris, Colin,1980

MARTIN Wallace - "O círculo hermenêutico" in Teoria da Literatura Em Suas Fontes, Luís Costa Lima (ed.), Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves Ed., 1975.

OISEN, Stein Haugom - A Estrutura do Entendimento Literário, Rio de Janeiro, Zahar Editores,1979

PARRET, Herman et al. - Le Langage en Contexte - Etudes philosophiques et linguistiques de pragmatique, Paris, John Benjamins B.V., 1980.

REIS, Carlos - Comentario de Textos - Metodologia y diccionario de términos literarios, Salamanca, Almar,1979

SILVA, Vítor Manuel Aguiar e - Competência Linguística e Competência Literária, Coimbra, Almedina,1977

SILVA, Vítor Manuel Aguiar e - Teoria da Literatura (6ª ed.), Coimbra, Almedina,1984

* Indicam-se, apenas, os textos teóricos que mais de perto influenciaram o presente enunciado programático, deixando ao critério do docente a escolha dos livros a aconselhar aos alunos tendo em conta o grau de preparação por eles demonstrado.

Programa para a disciplina de LINGUÍSTICA PORTUGUESA I (Fonética, Fonologia e Morfologia do Português)

I. Objectivos

a)Caracterizar o plano fónico da organização das línguas, e apresentar as disciplinas linguísticas que o tomam como objecto;

b)Descrever o sistema fónico do Português;

c)Propor o tratamento de alguns aspectos da morfologia flexional e derivacional do Português.

1. Módulos e conteúdos

l. Introdução

1.1. 0 plano fónico da linguagem

1.2. 0 domínio e as diferentes orientações da Fonética

1.3. Propriedades físicas dos sons. Altura, intensidade, timbre, duração

1.4. O aparelho fonador e seu funcionamento. O aparelho auditivo - breve apresentação.

1.5. Fonética e Fonologia. Propriedades fónicas e propriedades fonológicas. A noção de pertinência. Fone, alofone, fonema, arquifonema. As funções da matéria fónica.

    1. O binarismo.

2. O sistema fónico do Português - descrição em bases articulatórias

2.1. Vogais e consoantes. Critérios para a sua definição e classificação.

2.2. As consoantes. Descrição fonética e fonológica.

2.3. As vogais. Descrição fonética e fonológica.

2.4. Os diversos tipos de oposição fonológica no Português.

2.5. Semi-vogais; ditongos.

2.6. A sílaba; esquemas silábicos.

2.7. Os supra-segmentais.

2.8. Transcrição fonética e transcrição fonológica.

2.9. Fonema e grafema.

3. Morfologia do português

3.1. A morfologia flexional. Alguns processos flexionais do nome e do verbo.

3.2. A morfologia derivacional. Processos de formação.

III. Bibliografia de base

E.Alarcos Llorach - Fonologia,SDaffola.Madrid,1971

T.M. Barbosa - Etudes de phonologie portugaise. Lisboa,1965

J.M.Câmara - Para o estudo da fonémica portuguesa. Rio de Jan.,1953

-Estrutura da língua portuguesa. Rio de Jan.,1976

-Problemas de Linguística Descritiva. Rio de Jan,1978

J.G.Herculano de Carvalho -Teoria da Linguagem, II.Coimbra,1983

J.-L.Chiss e outros - Initiation à la problématique structurale. Paris,1977

J.Fontaine - Le Cercle Linguistique de Prague. Paris,1974

C.Fuchs e P Le Goffic - Initiation aux problèmes des linguistiques contemporaines. Paris,1975

E.S.Genouvrier e J. Peytard - Linguística e ensino do Português. Coimbra.

H.A.Gleason - Introdução à Linguística Descritiva. Lisboa,1978

R. Jakobson - Essais de Linguistique Générale. Paris,1963.

A. Lacerda e G.Sammarston -"Transcrição do português normal. Revista do Laboratório de Fonética Experimental, Universidade de Coimbra,1952

P.Lieberman - Speech Physiology and acoustic Phonetics: an introduction. N. York,1977

B. Malmberg - A Fonética. Lisboa

A. Martinet - Elementos de Linguística Geral. Lisboa, 1973

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SUMÁRIO