Eu e a E.S.E.V.: grata evocação

JOSÉ AUGUSTO CARDOSO BERNARDES

Professor Associado da Faculdade de Letras de Coimbra

Tomei posse como Assistente de Português da E.S.E. de Viseu em 4 de Dezembro de 1984 e três dias depois chegava para começar a trabalhar. No terminal da Rodoviária, estava alguém à minha espera, "mandado" pela Dr.ª Maria José Moura (da Comissão Instaladora), com a solícita incumbência de me ajudar a enquadrar na cidade e no ambiente escolar. Eram atenções a mais - pensei - sobretudo para quem estava no absoluto princípio da carreira; mas vim depois a saber que era uma prática de acolhimento natural, vinda de quem vinha.

Conheci entretanto o Dr. António Soares Marques, com quem partilhei turmas, muitas conversas de proveito científico e pedagógico mas também de agradável distensão. E comecei as aulas. Eram árduas as matérias que me incumbiram de leccionar. Em Língua, os programas, embora inteligentes, eram muito devedores do Estruturalismo, então ainda a atravessar a fase de todos os exageros; e mesmo em Literatura, calhavam-me muitos e muitos autores periféricos do século XIX e XX. Cedo vi que, tanto para uma como para outra matéria, não iria longe sem a cumplicidade dos alunos. E ela veio, generosa, mesmo surpreendente.

Correu bem o ano lectivo e, quando em Outubro de 1985 tomei conhecimento da existência de uma vaga para Assistente de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras de Coimbra, confesso que perdi o sono por uns bons pares de dias. Mais do que razões de prestígio ou de filiação intelectual (tinha-me licenciado nessa Faculdade e nela estava também a concluir o Mestrado), pesaram na minha escolha as conveniências práticas de me sediar em Coimbra, bem mais perto do meu local de residência. No que voltou a ser uma lição de generosa humanidade, a Comissão Instaladora (que tinha entretanto passado a integrar também, como elemento activo, o Dr. Antas de Barros) entendeu, no seu correcto registo, a opção que naquela altura tive de tomar. Testemunhei na altura, junto dos responsáveis pela E.S.E.V. - e mantenho o testemunho - que sempre me senti bem e plenamente integrado no espírito do Ensino Superior Politécnico. De resto, ainda hoje me não convencem as oposições forçadas que muitas vezes se estabelecem entre a Universidade e as outras Escolas Superiores, em abstracto, com o objectivo de fazer emergir concorrência e conflitualidade, onde apenas deveria existir complementaridade e muita colaboração.

Para a minha Faculdade trouxe o somatório de uma experiência que, para além do ano de Viseu, contava já também com quatro anos de Ensino Secundário. Não sei naturalmente avaliar com isenção o que devo a cada uma dessa componentes, mas sinto que tudo se potenciou mutuamente. Não tenho dúvidas de que a minha passagem pela E.S.E.V. me fez crescer muito, em termos profissionais: por ter acontecido numa fase decisiva da minha carreira, mas também porque nela esteve implicada muita gente boa. Não esqueço a instituição e, sobretudo, não esqueço as pessoas.

Tanto quanto posso, venho-me mantendo informado acerca da evolução da Escola. Tem sido uma clara e bonita evolução, em todos os aspectos. E permita-se-me que termine confessando a satisfação que também tiro desse facto. Essa satisfação (porque não orgulho?) tem que ver com os factos relatados; mas resulta também muito da circunstância de a essa evolução na qualidade estarem hoje ligados alguns colegas e amigos que bem conheço e muito admiro, num plano simultâneo de competência profissional e de rectidão humana. Bem hajam!

SUMÁRIO