Mesa Redonda com Docentes Pioneiros da Escola Superior de Educação de Viseu

AVELINA RAÍNHO

Professora Coordenadora da ESEV - Área Científica de Matemática

Moderadora

Professora Doutora Avelina - Introdução

A Escola Superior de Educação de Viseu, a primeira instituição do género a entrar em funcionamento, no nosso País, festeja mais um aniversário, o 16º. Como é natural, todos os anos a Escola festeja o dia 26 de Março de 1983, aliás, um acontecimento de que muitos falam, mas que muito poucos conhecem efectivamente. É para construir e dar a conhecer esse pedaço da história desta Instituição e da formação de professores que ela iniciou em Portugal, que tomámos a iniciativa de nos reunirmos. Por isso, é com muito prazer e também com muita emoção que dou as boas vindas aos queridos colegas e verdadeiros pioneiros, hoje aqui reunidos para uma mesa redonda sobre este marco histórico que foi a entrada em funcionamento da Escola Superior de Educação de Viseu e obviamente sobre o precioso trabalho que desenvolveram e que tornou possível, não só esse acontecimento, mas também o impulso que projectou a Instituição e este modelo de formação de professores para os nossos dias.

O pretexto visível para este encontro de professores pioneiros é assinalar a referida efeméride. Todavia, eu sinto que, mais cedo ou mais tarde, com pretexto ou sem pretexto à vista, este encontro era indispensável, era mesmo inevitável, sobretudo, porque estava no pensamento de todos nós. Mas, é um encontro indispensável, porquê? Porque a verdadeira história que envolveu, mais propriamente, o dia x de Outubro de 1982 – o mês em que deveria ter entrado em funcionamento a Escola e que foi adiado para 26 de Março de 1983 por razões absolutamente alheias ao processo – essa história está por contar e quem sabe contá-la são os pioneiros e contá-la é importante para a imagem da instituição, aliás frequentemente agredida. Por outro lado, este encontro era inevitável porque o investimento, quer individual quer colectivo, deste grupo de pessoas pioneiras, onde infelizmente faltam alguns elementos basilares, criou laços que nem o esquecimento natural nem qualquer tipo de esquecimento forjado podem destruir. O mérito e a honra de terem sido os alicerces do que é hoje a formação de professores em Portugal ninguém tem o direito de lho tirar e todos têm o dever de lho reconhecer.

Como referi atrás, não nos foi possível reunir nesta mesa redonda todos os professores pioneiros da ESEV, mas serão certamente recordados e homenageados, ao longo da conversa que se segue. Assim, estão presentes:

É, pois, com muita emoção que eu passo a palavra ao grupo, pela ordem que entenderem, e os acompanho nessa viagem pela década de 80.

Doutor Fernando - Para mim, o que é importante, em termos de início da Escola, começa exactamente em Setembro de 1982, num dia em que a Doutora Avelina Raínho me fez o convite para leccionar Matemática na Escola Superior de Educação de Viseu, recém criada e que entraria em funcionamento no ano lectivo 1982/83. Era, a essa altura, professor da Escola Secundária de Alves Martins e nunca tinha ouvido falar da Escola Superior de Educação.

Perante o convite e o desafio que encerrava, disse "Sim" e comecei o meu envolvimento de mais de uma década a esta instituição.

No início não conhecia os objectivos e tão pouco como seria o modo de funcionamento dessa nova instituição, então tentei, com os meios a que tive acesso, perceber um pouco melhor quais os principais objectivos da Escola.

Chegou Outubro de 1982 e começou o período de árduo e profícuo trabalho. Eram reuniões sucessivas tudo era feito e decidido, desde a definição de objectivos mais específicos, às definições de algumas regras básicas que permitissem o normal funcionamento de uma instituição que era única no país. Obviamente que nessas reuniões participavam todos os elementos envolvidos no projecto.

Todo este trabalho se mostrou proveitoso já que em Março de 1983, aquando da chegada dos primeiros alunos, tínhamos os instrumentos necessários e tudo pensado ao pormenor para iniciar as actividades lectivas.

Para a Escola Superior de Educação de Viseu, tinham sido fixadas 60 vagas de alunos, que deram origem a duas turmas, A e B. Com o começo e decurso das aulas continuaram a surgir situações imprevistas e de difícil solução, mas que lá se iam resolvendo com muito trabalho, empenhamento e bom senso.

Dos alunos matriculados, alguns foram desistindo, ao longo do semestre, tendo concluído cerca de 35 alunos. Nesse semestre inicial, houve algumas inscrições de pessoas que já tinham o curso do magistério primário e foram essencialmente estas que constituíram a maioria das desistências.

Nessa altura, a Escola seguia um modelo de formação que assentava no seguinte princípio: três semestres de formação igual para todos (tronco comum) e depois três semestres de formação mais especializada de acordo com as áreas de especialização (Educadores de Infância, Professores do Ensino Primário, Professores do Ciclo Preparatório (Português-Francês, Português-Inglês, História-Ciências Sociais, Matemática- Ciências da Natureza).

Durante este primeiro ano de funcionamento, a Escola teve uma vida difícil, quer pelo aspecto das precárias instalações (partilhávamos este edifico com as escolas anexas e, penso eu, com os alunos do último ano da escola do magistério, que entretanto tinha sido extinta), quer pelo aspecto de não haver nenhum dos nossos docentes com "assento" no Conselho Científico (então formado por professores das Universidade de Coimbra, de Lisboa e Aveiro).

Todas estas dificuldades iam sendo superadas pela satisfação de vermos que éramos capazes de as superar e também pelo prazer que havia no trabalho em conjunto que se ia fazendo. Quero aqui realçar o bom ambiente de trabalho e mesmo de amizade que existia entre a maior parte dos poucos docentes (e não só…) que começámos este projecto. As dificuldades que qualquer um de nós experimentava eram de imediato comunicadas aos outros que, cada qual à sua maneira, tentava ajudar no sentido da solução dessa dificuldade.

Entretanto a Escola foi crescendo e inerente a esse crescimento alguns constrangimentos e limitações foram-se tornando mais evidentes. Das limitações não posso deixar de recordar o problema dos espaços. Passámos pela Universidade Católica, pela Escola da Ribeira e ainda num edifício (da Equipa Pedagógica) na rua dos Casimiros. Havia aulas ao mesmo tempo em todos estes espaços o que nos abrigava a que, entre duas aulas, nos deslocássemos de um edifício para o outro. Embora para nós, docentes, não fosse muito agradável, para os alunos era bem pior….

Após algum tempo nesta situação a Escola "assentou" no edifício da ex-ENEI ( Av. Infante D. Henrique) e aí, no meu entender, se fez a verdadeira consolidação da Escola.

Neste momento quero recordar com muita força as relações de amizade e estima que se foram criando entre todos os intervenientes neste processo, professores, alunos e funcionários. As relações de amizade criadas nessa altura ainda hoje perduram e mesmo quando as pessoas estão longos anos sem contactarem, quando se (re)encontram é visível o prazer que esse (re)encontro proporciona.

Como em quase todos os processos de crescimento e consolidação de qualquer projecto, os problemas, mais tarde ou mais cedo, começam…. e aqui não foi diferente.

Por esta altura (1985), começavam, em Portugal, a surgir alguns projectos pilotos de novas experiências pedagógicas, com novas técnicas e novos meios. Pessoalmente gosto de experimentar e tentar inovar…. Assim comecei a querer conhecer os objectivos e estratégias desses projectos e comecei a envolver-me. Mas iam aparecendo dificuldades… Estes projectos não se compadeciam com a falta de espaços, de equipamento e de "abertura" para os perceberem e compreenderem. E então começou a tarefa de tentar ganhar um "espaço de liberdade" para fazer as necessárias experiências inerentes aos projectos, o que por vezes era difícil.

Estávamos em 1986 ou 1987 e propus a compra de alguns computadores para a Escola (a informática pessoal estava, em Portugal, no início do seu desenvolvimento). Com o pretexto da instalação desses computadores, consegui um espaço (na cave da ENEI) a que "pomposamente" se chamava CENTRO de INFORMÁTICA da ESEV (CIESEV). Nesse espaço começamos a fazer algumas das experiências, a nível nacional, do uso dos computadores no processo de ensino/aprendizagem.

É por esta altura que me começo a aperceber da existência de um "poder", para mim pouco nítido nos contornos, que às vezes dificulta o desenvolvimento de algumas ideias. Não posso deixar de recordar, com alguma tristeza, as peripécias por que passei para o Pólo de Viseu do Projecto Minerva ficasse sediado na Escola Superior de Educação. Actividade essa que só trouxe benefícios para a Escola e para quantos nela trabalhavam.

Outros problemas, inerentes ao desenvolvimento e crescimento, começaram a surgir e muitas das vezes as decisões eram tomadas já sem uma grande discussão e, por vezes, sem muita lógica de solução dos problemas. Nesta fase, a Escola passou, no meu entender, por momentos difíceis ( alguns deles potenciados por situações externas à Escola mas outros internos) e que em alguns períodos tiveram influência no trabalho que era desenvolvido na própria Escola.

De qualquer forma e, apesar destas dificuldades, era compensador receber informação do bom trabalho que os professores (nossos ex-alunos) estavam a desenvolver nas escolas onde trabalhavam. Era também compensador verificar que muitos dos ex-alunos continuavam a ir à Escola partilhar connosco as experiências, os problemas e os sucessos e obter uma palavra de incentivo.

As mudanças que o sistema de ensino nacional foi operando levaram a que a Escola fosse fazendo mudanças e se fosse adaptando. E, no meu entender, neste processo de mudança e adaptação foram cometidos alguns erros que de pouco em pouco me foram afastando do projecto da Escola Superior de Educação. Deixei a Escola Superior de Educação em 1993, mas a experiência que durante mais de dez anos vivi, enquanto aqui trabalhei, é para mim uma referência.

Doutora Ana Maria - Eu sou um dos elementos mais novos desta casa, dos pioneiros, portanto. O meu percurso é interessante porque eu acabava de sair da Faculdade de Letras de Coimbra, em 1982, com uma primeira experiência pós-faculdade numa escola secundária do distrito de Coimbra e recebo, simultaneamente, um convite para ser monitora de uma disciplina do Curso em que me tinha licenciado e o convite da Doutora Avelina para ser assistente de Língua Francesa da E.S.E.V.

Tudo isto se passa no ano lectivo de 1982/1983. Eu tinha acabado de tomar as minhas opções, achando que era muito cedo para ir para a Universidade como professora. A Doutora Avelina, contudo, não me largou, em todos os fins de semana que eu vinha a casa, e acabei por aceitar, tendo o lado familiar também contribuído. O interessante para mim, ao aceitar este convite, foi o facto de eu vir de uma formação científica e não ter uma formação específica no que dizia respeito à formação de professores, contrariamente ao que o Fernando disse e que dirá a Paula e o Soares. Eu seria eventualmente a única em que o único parâmetro importante era trabalhar a nível científico e formar aqueles alunos segundo os objectivos que me tinham dado na formação científica de base.

Confesso que me foi difícil; trabalhei muito para poder participar e acompanhar tudo, nomeadamente os princípios metodológicos que fomos construindo, em conjunto, e que estavam subjacentes a esta primeira E.S.E. Tudo o que o Fernando disse há pouco eu não vou repetir, mas com este recuo de 16 anos posso olhar à minha volta e afirmar, como qualquer um de nós que está aqui, que foram estes primeiros momentos que sedimentaram e formaram as coisas e se não fosse este início não estaríamos aqui a discuti-las desta maneira, nem com este espírito de equipa que caracterizou o nosso início nesta casa, sem esquecer a interacção com esse primeiro grupo de alunos de 1982, com essa primeira direcção da Escola e com os primeiros funcionários que nós tivemos e com quem ainda hoje se mantém uma cumplicidade profunda, de raízes feitas.

Eu tenho ainda alunos da primeira leva que colaboram comigo na PP e que são alunos em quem eu confio a 100%, a nível da sua formação, que evoluíram e são os que agora fazem formação nas suas escolas ou estão a fazer pós-graduação e tenho inclusive alunos que, neste momento, estão como assistentes nesta casa em várias áreas científicas, nomeadamente de Matemática, Ciências, Inglês, Francês e Português.

Em relação às instalações, falando agora um bocado em brainstorming, tenho pouco a dizer. Eu penso que nós tínhamos um bar que funcionava exemplarmente, onde todos nós nos juntávamos e trocávamos impressões sobre os alunos, sobre as aulas, coisas que nunca mais foi possível fazer.

Em relação ao ENEI, quando o Fernando falou há bocado no Centro Informático, eu não me posso esquecer que a minha tese de mestrado, em 86/87, foi feita no Gabinete do Fernando com o Macintosh e quantas vezes a luz foi abaixo e quantas vezes tinha de fazer tudo de novo porque o contador era fraco para todo o equipamento que ali sobrevivia precariamente…

Doutor Fernando - E é bom que isso se diga porque essas coisas são impensáveis nos tempos que correm, mas foi assim que tudo começou. Uma tese de mestrado que foi feita num gabinete exíguo, num computador fraquíssimo, para uma instituição de ensino superior, e que pertencia ao Centro de Informática.

Doutora Ana Maria - E foi também nesta altura que eu consegui ter, pela primeira vez, com os fracos recursos que nós tínhamos, um laboratório de línguas que eu usava orgulhosamente na formação dos alunos e dos professores do ano de indução. Fiz acções de formação ao secundário e ao preparatório, naquele laboratório de línguas, a ouvir, no corredor, os meus colegas que tinham de trabalhar na sala de cima do ENEI, ao lado da secretaria, que era tudo em madeira, como ainda se recordam, e eu fazia gravações e os registos fonéticos com todos estes barulhos de fundo. Quando, depois, ia rever, para fazer a análise fonética e as transcrições fonéticas, estava tudo registado, inclusive a funcionária a chamar o aluno tal que se tinha esquecido de preencher os papéis...

Professora Paula - Não posso, também, deixar de referir como é que eu apareci, em Viseu, vinda de Lisboa. Tinha acabado a licenciatura há muito pouco tempo e, um dia, quando chego da Escola, no Outono de 82, tinha uma mensagem da Faculdade de Ciências para entrar em contacto com a Senhora Professora Doutora Maria Odete Valente. Fui à Faculdade e a Professora Odete, pondo-me a par do arranque da ESEV, informou-me da abertura, a curto prazo, de um concurso para Assistente do 1º Triénio de Ciências da Natureza. Eu ouvi e a minha primeira pergunta foi: "O que é isso de uma E.S.E.?" Só muito mais tarde é que recorri a um mapa para me certificar da localização de Viseu ...

Vim a Viseu entregar a minha candidatura, depois de ter decidido abandonar o meu lugar de efectiva, no 4º Grupo, numa escola praticamente ao lado de casa. Entreguei o requerimento ao falecido Senhor Medeiros, a quem presto a minha homenagem, na Rua Alexandre Lobo. Penso que todos lhe prestamos aqui a nossa homenagem. Foi importante para mim ter encontrado o Senhor Medeiros, naquela altura, por me ter inspirado confiança e convencer-me que a minha decisão em vir para Viseu era acertada. Recordo-me de ter sido candidata única ao referido concurso.

O processo de contratação foi rápido e, em Março de 83, estava a dar aulas, seguindo um programa intitulado "Anteprojecto de um Programa Experimental de Ciências da Natureza", da responsabilidade da Professora Odete e da Professora Amália Bárrios. O programa foi elaborado para um semestre e era de uma exigência incrível. Tratava-se do primeiro programa de Ciências da Natureza feito para um curso de formação integrada de professores, a nível nacional. Tive de trabalhar exaustivamente na preparação daquela disciplina. Tratava-se de vários módulos de ciência integrada, sendo a minha licenciatura em Física. Do resultado do meu trabalho fiz recair sobre os estudantes das duas turmas um grau de exigência muito elevado. Ainda hoje, quando olho para os respectivos dossiers fico perplexa, com os materiais distribuídos e trabalhados.

Lembro-me de uma das muitas vezes que entrei em contacto com a Professora Odete para apoio durante aquele semestre. Fui esperar a Professora ao aeroporto da Portela, vinda de um congresso no estrangeiro. Marcámos um encontro, que veio a ter lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, na Avenida de Berna. Nessa altura, disse-me que se tratava de um programa experimental e que eu seria a única pessoa que melhor o poderia gerir, ajustando-o às capacidades e competências dos alunos. Mas, naquela época, tinha sido acabada de formar para ensinar, de acordo com a pedagogia por objectivos, e sentia que, perante um curso de formação de professores de duração de três anos, nada melhor que cumprir com o programa, independentemente da sua extensão e dificuldade. Só mais tarde, depois de Janeiro de 85, tendo concluído o mestrado, é que eu consegui interpretar o programa de uma outra forma e verificar as várias possibilidades que ele oferecia. É um programa que, ainda hoje, se mantém actualizado se tivermos por referência os papers sobre a elaboração de um curriculum de Ciências, no âmbito das linhas orientadoras para o final da década de 90.

Penso que aquilo que nós aqui fizemos e temos vindo a fazer, sempre se pautou por um espírito inovador e feito com grande responsabilidade, por parte de todos nós.

No período de 85-87, tivemos o grande contributo do, infelizmente já falecido, Professor António Bettencourt. Com ele, e com o Dr. Nelson Lima, um pouco antes, conseguimos, no espaço da cave da E.N.E.I., montar o que designámos por "Laboratório das Ciências". Era constituído pelo nosso gabinete, que sofria alterações da posição de mobiliário constantemente, devido às múltiplas necessidades e exigências da docência, o laboratório propriamente dito, onde decorriam as aulas práticas e o "Grande Hall", o espaço/zona de aulas teóricas, posteriormente partilhado por outras áreas científicas. Convém frisar que o laboratório não era arejado nem possuía sistema de ventilação. Daí, o facto de todos os cheiros dos reagentes chegarem ao andar de cima, impregnando a secretaria e a biblioteca de vapores.

Lembro-me da cromatografia ser uma das actividades que mais transtorno causava aos restantes serviços e "vizinhos", sendo quase impossível permanecer na secretaria com o cheiro a éter. Mas, não eram essas dificuldades que inviabilizavam a nossa vontade de realizar a actividade experimental, apesar da incompreensão de algumas pessoas, especialmente as de fora da instituição. Elas não percebiam que, mais do que a realização de experiências, trabalhávamos com os estudantes para ensinarem "crianças - futuros cientistas". Daí a importância do treino de processos científicos inerentes ao desenvolvimento das actividades experimentais. Não nos esqueçamos que formávamos professores de Ciências para ensinarem dentro dos parâmetros do modelo da "Aprendizagem por Descoberta".

O número elevado desses alunos que possuem hoje o mestrado e estão em programas de doutoramento é indicador da qualidade do trabalho desenvolvido por essa equipa de docentes da ESEV. Com a experiência de docência aqui adquirida, não tive qualquer dificuldade em ser aceite pelo agora Reitor do King's College London, para ingresso no programa de doutoramento, pelo que muito me orgulho de ter integrado e integrar o corpo docente desta Instituição.

Doutora Ana Maria - Antes que me esqueça, eu penso que é importante falar dos mestrados, porque não deixaram de ser um marco, esses dois primeiros mestrados em Ciências da Educação, que abriram quase a seguir à constituição da nossa E.S.E., e as duas primeiras pessoas a ir para esse mestrado e serem aceites, na qualidade de assistentes, e isso é importante, fui eu para o mestrado de Ciências da Educação na especialidade de Didáctica do Francês e a Fernanda Martins no mestrado de Ciências da Educação na especialidade de Psicologia, mestrados esses que abriram em 84. Nós tínhamos a Universidade de Aveiro como suporte e fomos de facto os únicos professores, alheios à Universidade, a entrar como assistentes. Este dado é muito importante porque, a partir desses mestrados, não abriram outros mestrados em Ciências da Educação durante uns anos largos.

Doutor Soares - Começaria por cindir a minha intervenção em duas partes: por um lado, referindo a gratificante, enriquecedora e humana experiência, enquanto professor, que mantenho indelével na minha memória, e de membro da Comissão Instaladora, marcado por grandes convulsões a partir de certa altura e que me levou a pedir a demissão de tal cargo.

Enquanto professor, tratou-se da minha primeira experiência no Ensino Superior que coincidiu também com a minha entrada na Universidade Católica.

Desses gloriosos tempos guardo a mais grata das recordações, marcados por um clima de grande amizade, de enorme fraternidade, diria até de uma saudosa fraternidade que simpateticamente nos unia a todos. E fomos até capazes de estender esse clima e essa onda de humanismo não apenas aos funcionários como até aos próprios alunos. Constituíamos, em suma, uma família muito unida, naturalmente enriquecida com as salutares diferenças de que cada um de nós era portador.

Havia, então, entre nós uma sadia cumplicidade, irmanados do mesmo ideal que era o da construção de um novo projecto, qual "avis rara" no sistema educativo português.

Conseguimos, ademais, extrapolar esse clima para fora das quatro paredes da Escola, materializado em sãos convívios, cimentadores de amizades então nascentes.

Um outro aspecto que gostaria de realçar aqui foi o idealismo com que abraçámos este projecto, que pelo seu pioneirismo, nos assumimos no contexto do Ensino Superior Politécnico como verdadeiros bandeirantes. Todos os dias se assistia à álacre descoberta de coisas novas, de novos conceitos que nós sofregamente bebíamos, porque não podíamos deixar mal quem em nós havia depositado ilimitada confiança.

Tínhamos que estar, como dizia o supervisor americano, constantemente at look.

Para não falar já das longas, intermináveis, diria socráticas discussões sobre a Prática Pedagógica, o Ano de Indução e o Regulamento Interno da Escola, mas sempre reveladoras de uma indómita vontade de contribuir para a edificação de um projecto pioneiro para o país.

Recordo também os bons momentos passados na nossa sala, num corredor muito velho, ao fundo, acho que era em baixo, onde todos nós nos concentrávamos e eu e o Fernando fizemos daquilo um antro da má língua, no bom sentido.

Doutora Ana Maria - Essa sala era a sala das reuniões onde me lembro que, quando eu cheguei a esta casa para me apresentar ao serviço à Doutora Avelina, estava uma funcionária idosa, sentada então numa mesinha de madeira à entrada do corredor onde agora é a biblioteca. Eu vinha de Coimbra para me apresentar ao serviço, em Abril de 83, e vinha de kispo e de caneleiras. Ela olha para mim e diz-me: "a menina onde é que pensa que vai"? eu digo-lhe que queria falar com a Doutora Avelina, ao que ela prontamente me responde dizendo que a Doutora Avelina estava em reunião e que os alunos não podiam passar daquela porta. Foi aí que tive de lhe dizer que era professora e vinha apresentar-me ao serviço. Tinha 21 anos…

Doutor Fernando - Eu penso que era nesse sentido que o Soares Marques dizia há pouco que aquela sala era um antro de má língua ... deve ser percebido como um espaço onde se punha tudo em causa no sentido de chegar a ... um trabalho melhor ... a uma boa solução.

Doutor Soares - Éramos, que saudades, Deus meu, uma grande família, que ainda hoje, apesar de dispersa pelos quatro cantos do país se manifesta em pequenos gestos aquando de esporádicos encontros com algum desses meus alunos. E foram estes também impregnados por esse espírito e por essa mística que se assumiram como a mais valia de um subsistema que ainda hoje tem o ferrete de filho de deus-menor.

Enquanto vogal da Comissão Instaladora, a partir de um determinado momento a experiência foi deveras traumatizante. Todavia, guardo da primeira fase do meu mandato uma recordação muito enriquecedora.

Com efeito, praticamente sozinho, apanhei a batata quente na pior altura, coincidindo com o final dos cursos dos primeiros alunos sem haver uma linha sequer de legislação empreendedora para esse tipo de novos docentes. Foi um verdadeiro corrupio entre Viseu e Lisboa, correndo Seca e Meca, explicando nos corredores ministeriais, até à exaustação, o que era isto do Ensino Politécnico, perante a efervescente pressão dos alunos com manifestações públicas no centro da cidade e sem lhes poder temporalmente valer, já que também eu era perfeitamente solidário com a sua luta.

Tempos bem difíceis esses mas não menos aliciantes, restando-nos hoje a consciência de que com o nosso entusiasmo, a nossa dedicação e o nosso empenhamento foi possível erguer um projecto que dignifica todos os viseenses.

Gostaria de salientar aqui, porque por vezes tal é ignorado, o papel de cabouqueiro deste edifício que foi a Doutora Avelina Raínho, como elemento fundamental na construção deste empreendimento altamente inovador no contexto do Ensino Superior Politécnico. Inovação não apenas em termos de currículo como também ao nível da concepção. A talhe de foice recordo quão difícil foi implementar o celebérrimo Ano de Indução e sobretudo explicar a sue filosofia notoriamente antipódica à que subjazia aos estágios clássicos.

E que dizer da peregrinação pelas Escolas a tentar recrutar e aliciar professores para cooperarem connosco no referido Ano de Indução !!! E lembro-me, como se fosse hoje, que mal batia à sua porta logo me ripostavam que não precisavam de livros, de tal modo eles me confundiam com um chato vendedor de livros ou de enciclopédias.

Pôr, com efeito, este edifício de pé, foi sem dúvida algum um verdadeiro cabo de trabalhos, uma tarefa manifestamente ciclópica, exigindo de todos nós uma versatilidade espantosa!

Ele era e experiência inerente a uma Prática Pedagógica nascente, ele era uma nova concepção de avaliação, ele era até uma nova linguagem e uma nova postura pedagógica, ele era ainda a de ter de ser um autêntico bombeiro-voluntário na regência de tantas cadeiras, no meu caso concreto da Linguística à Literatura Portuguesa da Prática Pedagógica nos Jardins de Infância à leccionação de Literatura Infanto-Juvenil.

E tudo isto, como se já não bastasse, à custa de cirandar geograficamente pela cidade em autêntico contra-relógio, desde a Escola Primária da Ribeira à Universidade Católica, passando ainda pelo ex-ENEI e até pela Rua dos Casimiros, para além de termos ainda de dar uma saltada à Rua Alexandre Lobo.

Tempos difíceis esses e cujas agruras estão hoje a ser imaginadas, porque não vividas, por tantos quantos hoje leccionam na ESEV. Mas os alunos, esses, também não menos sacrificados foram, uma vez que se viram confrontados com as mesmíssimas dificuldades, quiçá até mais agravadas.

Todavia, pegando o touro pelos cornos, irmanados no mesmo ideal, fomos capazes de contornar obstáculos, ultrapassar dificuldades, e enfrentar alguns Adamastores viseenses, que adeptos da terra queimada não queriam abrir os olhos à realidade.

É este o singelo testemunho de alguém que abraçou com paixão, como agora se diz, um projecto que sem falsas modéstias, ajudou também a construir.

Doutora Ana Maria - A propósito da Prática Pedagógica, nós tínhamos muitas vezes discussões que passavam, não só pelos aspectos científico e pedagógico, mas que tinham a ver com a maleabilidade das nossas personalidades para aceitar situações e para as gerir e tínhamos discussões do arco da velha. Depois, finda mais uma daquelas sessões de trabalho, saíamos daqui e íamos todos no jeep da Fernanda Martins almoçar.

Os mais novos recorriam com toda a humildade a qualquer um de vocês, inclusive à Doutora Avelina, à Doutora Maria José e qualquer um de vocês nos ajudava com toda a vossa critica e ética profissional. Faziamos de facto uma equipa e, por isso, estamos aqui hoje ... depois de 16 anos! A si, Avelina devemos o estarmos aqui e temos mantido muitos dos nossos constructos ... em termos éticos, profissionais e científicos ... é verdade!

Doutora Anabela - Uma das primeiras coisas que gostaria de referir é que fiquei muito feliz por me terem contactado, para recordar o início do projecto inovador da ESEV, projecto determinante para o desenvolvimento da formação de Professores do Pré-Escolar e Ensino Básico em Portugal.

De seguida, não posso deixar de associar esta iniciativa à minha entrada na carreira do Ensino Superior Politécnico. Na entrevista para o lugar de Assistente na ESEV, a Doutora Avelina Raínho, então Presidente do Júri, alertou-me para os riscos que corria ao aceitar o lugar, para colaborar num projecto em que só estavam envolvidas cinco pessoas, sendo que o sucesso do mesmo dependeria do trabalho e empenho do grupo que eu passaria a integrar. Confrontada com esta realidade, que me obrigava a decidir sobre a minha vida profissional, decidi-me a aceitar o desafio, o que fiz com agrado, e até hoje nunca me arrependi.

No que diz respeito ao Projecto de Formação, considerei-o desde logo de grande qualidade, não só pelo conjunto das disciplinas constantes nos planos de estudo dos diferentes cursos, mas sobretudo no que dizia respeito ao programa da disciplina que vim leccionar. O programa que encontrei era bem elaborado e estruturado, defendia valores democráticos e de formação que o momento político exigia, sendo esse programa que tentei cumprir e avaliar o melhor possível. Aliada à minha participação na Formação Inicial, recordo ainda a participação nas sessões de reflexão das Práticas Pedagógicas, com a participação de todos os docentes e discentes; nestas sessões confrontavam-se pontos de vista, validava-se a aplicação de conhecimentos das diferentes áreas científicas nas Práticas Pedagógicas; sessões nem sempre pacíficas, quer porque os professores tinham formação e experiência profissional diferente, quer pelos alunos, que esgrimiam os seus argumentos de forma empolgada e entusiasta.

Também as diferentes actividades desenvolvidas, quer a nível de viagens de estudo, realçando aqui a ida à 17ª Exposição, quer a nível de contactos com instituições de Viseu e olhando para a Paula, recordo o do Cine Clube de Viseu, foram possíveis de desenvolver, porque o conjunto de Professores que aqui trabalhavam, era de facto constituído por pessoas empenhadas no Projecto da Escola, que passe a imodéstia, vingou com o meu contributo e com o contributo daquele núcleo inicial de que destaco a vontade expressa e determinada da Doutora Avelina Raínho, sem a qual seria impossível este projecto ter tido a repercussão que teve a nível da Formação neste país...

Quantas tentativas falhadas, para dar uma formação para estes níveis de ensino a nível Superior tinham já ocorrido? Várias.

Recordo as recomendações da UNESCO, que eram bem claras quanto à necessidade de formação de nível superior, primeiro Bacharelato e depois Licenciatura, aos futuros professores do Ensino Básico e Educadores de Infância e aqui em Viseu estavam criadas as condições para arrancar a 1ª Escola Superior de Educação do país, o que se conseguiu, como aqui e agora podemos constatar.

Enfim, este é o meu testemunho sobre a Escola Superior de Educação de Viseu, duma escola localizada geograficamente no interior do país, em que diziam: é interior, as pessoas são fechadas, não vão receber bem esta iniciativa inovadora... Tudo mentira. As gentes receberam muitíssimo bem a colaboração de todos os que aqui vieram e aqui estiveram, no meu caso durante dois anos, integrando-nos facilmente com enorme simpatia e amizade.

Sinto-me orgulhosa por ter participado neste projecto que teve a dimensão que teve, mas sobretudo estou contente por estar aqui convosco a falar dele...

Doutor Soares - ... fomos os cabouqueiros deste projecto... é como quem cria um filho ...

Doutora Anabela - Essa expressão cabouqueiro, utilizei-a também no texto que redigi para vos trazer. É curioso que até no uso das palavras estamos em sintonia ...

Doutor Soares - E agarrámos este projecto a sério ... como se fosse uma coisa nossa ... Por outro lado, também acho que as sucessivas ameaças que pairavam sobre ...

Professora Paula - ... sobre o sistema de ensino ... Sim, fez com que nos uníssemos mais ...

Doutora Anabela - Fez com que agarrássemos ainda mais este projecto e nos uníssemos mais para o levar a termo ...

Doutor Soares - .. até porque havia muita gente que, despeitada por não ter sido convidada pela Doutora Avelina para trabalhar aqui, diziam cobras e lagartos... Como quem desdenha quer comprar ... Efectivamente, nós tivemos de remar contra a maré, por um lado, contra as indefinições e, sobretudo, contra muita gente de fora ...

Doutora Anabela - Podíamos não ter sido pioneiros de nada. Todas as tentativas anteriores a esta fracassaram! O que terá sido dito, por quantos estavam em desacordo, com o facto do primeiro curso se ter iniciado no 2º Semestre do ano lectivo?

A este propósito, não posso deixar de referir o apoio incondicional de três pessoas, a saber: O Doutor António Oliveira, Professor Catedrático da Universidade de Coimbra, de quem fui Assistente na ESEV, o Doutor João Evangelista Loureiro, da Universidade de Aveiro, já falecido, e o senhor Medeiros, funcionário da ESEV, que também não se encontra entre nós.

Doutor Soares - ... que morreu, afinal de contas, no seu posto ...

Doutora Anabela - Soube há pouco tempo a notícia da sua morte, o que muito me entristeceu ...

Doutor Soares - ... morreu no seu posto. É como um soldado voluntário ...

Doutora Anabela - Recordo-me que era uma pessoa aparentemente dura, mas na realidade muito afável, então para mim, que era jovem, tratou-me sempre com o máximo de consideração, podendo afirmar que ...

Doutor Soares - ... foi a mola impulsionadora dos Serviços Administrativos desta Escola ...

Doutora Anabela - Claro que há pessoas que colaboraram nesta área, mas de facto foi este homem, com o seu savoir faire, com a sua calma, às vezes com a sua irritação, porque ele também era uma pessoa que às vezes se zangava com muitas perguntas ...

Doutor Soares - ... ele agarrou o projecto ...

Doutora Anabela - Este projecto não funcionava só com o corpo docente ...

Doutor Soares - ... ele tinha vindo de Moçambique ... agarrou isto com unhas e dentes ... e morreu realmente como um soldado de Pompeia ... morreu ali no seu posto. Ele morreu em favor desta causa. Morreu abraçando esta causa ...

Doutora Anabela - A última vez que o vi foi numa exposição. Habitualmente trocávamos as Boas Festas. Houve um ano que não mandou e estranhei, mas como estava habituada e enviar-lhas, no ano seguinte voltei a fazê-lo, só que ninguém me respondeu. Só depois é que soube, não sei por quem, que tinha falecido.

Professora Paula - Eu também não posso deixar de me lembrar, quando estive em Londres, em Doutoramento, as ligações que tinha com a Escola eram sempre com o Senhor Medeiros. E houve um dia em que a chamada não foi passada para o Senhor Medeiros... e a empregada contou-me o que sucedera.

Fiquei chocadissima porque, de facto, me marcou muito. Era um apoio que tinhamos aqui. Era com ele que eu discutia, e já muito depois da saída da Doutora Avelina, os fortes problemas de instalação do Laboratório. Instalação essa que há bocado o Duarte dizia consistir em meia dúzia de tubos de ensaio, mas que, para instalar aquilo, levou ao afastamento definitivo da Professora Odete Valente do Conselho Científico desta casa. Era, de facto, através do Senhor Medeiros que eu ia "conquistando" materiais ... Era a ventoinha, era tudo. Uma máquina de escrever eléctrica conquistei-a ao choro ... fui até às lágrimas ...

Doutor Soares - A primeira reacção era abrupta ... mas, depois, bem conversado ... o Senhor Medeiros tinha um coração grande ...

Doutora Anabela - Do que ainda tenho presente do Sr Medeiros é que só fazia o que tinha a certeza absoluta, que não iria causar mal algum à estabilidade institucional. Defendia a organização financeira desta Escola, provavelmente sem grandes meios financeiros.

E para terminar, lembram-se da vinda para este edifício? No lado esquerdo do edifício ficavam as instalações do Magistério Primário, no lado direito do edifício ficavam as instalações da ESEV. Contudo, foi no bar do antigo Magistério Primário à volta da salamandra, dado o frio que se sentia, que se estabeleceram laços de cordialidade em contactos informais entre docentes e alunos das duas instituições.

Professora Avelina - Terminámos ...

Resta-me agradecer a todos o contributo para o momento inesquecível que aqui vivemos e o facto de mais uma vez terem contribuído, desta vez com os vossos depoimentos históricos, para a dignificação da Instituição que com muito carinho e dedicação vimos nascer e que desejamos ver implantada como um marco importante do sistema educativo português.

Muito obrigada a todos e até ... ao próximo capítulo da história da Escola Superior de Educação de Viseu.

SUMÁRIO