16 Anos da Escola Superior de Educação de Viseu

14 Anos de Memórias – desordenadas no tempo e condensadas em algumas linhas

MARIA HELENA SANTOS DE OLIVEIRA E CUNHA

Equiparada a Professora Adjunta da ESEV - Área Científica de Matemática

Muitas vezes ouvi e ouço dizer que um professor é alguém que nunca conseguiu "sair" da escola. Muitas vezes sinto que um professor prefere sempre ser aluno. Senão vejamos: quatro anos de ensino primário, dois de preparatório e três de unificado, seguidos de três anos de secundário, de quatro ou de cinco anos mais de ensino superior, quando por aí se fica ... Deste lado devem acrescentar-se outros seis. E a soma é já de vinte e dois anos, ou seja, dois terços da minha existência. Sem esquecer os quatro anos em que fui "apenas" professora.

Em 1985/1986 fiz o primeiro ano do curso, que na altura tinha um ano de tronco comum, da Variante de Matemática/Ciências da Natureza na tão recentemente criada Escola Superior de Educação de Viseu. Se quiserem saber onde se situava a escola, terão de me acompanhar numa visita pela cidade: a secretaria e algumas salas de aula funcionavam num dos pisos do edifício da Universidade Católica Portuguesa; a Comissão Instaladora reunia e trabalhava num andar de um prédio da Rua Alexandre Lobo; o Laboratório de Ciências ficava na cave da antiga Escola Normal de Educadores de Infância, mais conhecida como ENEI, na Avenida Infante D. Henrique. As aulas de Educação Física realizavam-se no actual Ginásio (embora as condições não fossem as de hoje). Também no Ginásio decorreu uma experiência no âmbito da Prática Pedagógica do 1.º Ano que nunca mais se repetiu: não me lembro dos nomes de todos os professores, mas recordo aqueles que ainda hoje pertencem à Escola ou que recentemente se aposentaram: nas Expressões, o Doutor Fraga, a Doutora Clara Portas e a Dra. Emília Duarte. Da professora de Sociologia tenho apenas presente o corte de cabelo à Beatriz Costa e a naturalidade – o Porto. Por vezes, o número de professores nessas aulas aumentava substancialmente: víamos o "nosso" espaço invadido por todos aqueles que, por curiosidade, ou não, espreitavam a nossa actividade. Mas as aulas de Expressão Dramática também se realizaram num dos claustros do Museu Grão Vasco, e as de Educação Física no Fontelo. No 3.º ano passámos a frequentar também as instalações da Escola da Ribeira. A visita pela cidade ainda não terminou. Basta pensar que devemos sempre ter presentes as escolas onde decorreu a minha Prática Pedagógica propriamente dita: Escola Primária de Massorim, Escola Primária de S. Miguel e Escola Preparatória de Vasco Fernandes (actualmente conhecida por escola E.B. 2, 3 de Grão Vasco).

A descrição já se alongou, talvez, em demasia. É mais fácil descrever do que escrever. É mais fácil lembrar do que contar.

Muitos foram os episódios que recordei, ainda que de relance, quando se falou na realização deste número da Millenium. Foi preciso voltar atrás no tempo, e a memória tende a atraiçoar-nos – esconde-se quando mais precisamos dela.

Recordo a primeira "aula", que de aula não teve muito. Realizou-se na Universidade Católica. Um grupo de professores e de alunos andava num frenesim louco. Na época, quem podia dizer quais os alunos e quais os professores? Confundiam-se e, no meio da confusão, penso que até contribuímos para a recolha de dados da tese de mestrado de algum dos professores da época (nunca soubemos de quem, mas também que importância podia ter esse conhecimento!?).

As ideias e os ideais que transpareciam de alguns dos nossos professores pareciam-me tão arrojados; as suas práticas eram consequentes e, no meio de um primeiro ano agitado e conturbado, recordo que muito do que aprendi me foi depois extremamente útil, tanto na minha vida de professora, como na minha vida de estudante.

Em conversa com alguns antigos colegas de curso, relembro o muito que aproveitei das aulas que sempre me foram mais caras: as de Matemática. Costuma-se dizer que quem corre por gosto não cansa e, na época, este ditado popular podia bem ser lido à letra. Sair de uma aula de Prática Pedagógica no Massorim, passar pelo Laboratório de Ciências da ENEI e classificar umas quantas rochas para a Doutora Bi, matematizar uma situação na aula de Metodologia da Matemática da Doutora Avelina e assistir, ainda, a uma aula de Matemática na Universidade Católica, ao fim do dia, era quase impensável. Digamos que demonstrar uns teoremas ao fim da tarde me ajudava a encarar um novo dia de agitação permanente.

A alteração dos currículos e a passagem dos bacharelatos para as licenciaturas nos cursos das variantes também nos fez passar algumas tardes e noites nas RGA’s (Reuniões Gerais de Alunos) onde as discussões e o debate de ideias eram uma constante.

A escola era pequena: os professores poucos e os alunos também (cerca de sessenta, distribuídos por duas turmas no meu primeiro ano). Conhecíamos toda a gente. O ambiente era muito familiar.

O grupo de amigos que se formou durante o curso permaneceu por longos anos. Permanece ainda em alguns casos. De tal maneira que acabámos por nos encontrar nos mestrados.

A escola estabeleceu-se como elo de ligação entre as pessoas. E nunca a sua vida pequena em tempo conseguiu limitar os horizontes de quem a frequentou.

Olhando agora para trás, e sem a preocupação de a minha redacção ser entendida como lugar comum, posso dizer que a minha voz ainda se embaraça e que os meus olhos ainda se humedecem quando recordo alguns dos episódios de então. A vida de estudante é sempre a melhor. Talvez por isso nunca tenha "saído" da escola.

Nas salas do actual edifício da Escola Superior de Educação já fui aluna do ensino primário e do superior. Hoje desempenho funções diferentes nas mesmas salas. Estar do lado de cá tem sempre mais vantagens do que desvantagens, pensam os alunos. Estar nos dois lados ao mesmo tempo será sempre um objectivo que espero poder nunca esquecer e sempre atingir. Deste lado encontrei antigos colegas e professores. A vida tem a vantagem de nos surpreender sempre. Nós temos a oportunidade de a viver.

SUMÁRIO