AS MINHAS MEMÓRIAS

ANTÓNIO RIBEIRO

Professor Adjunto da ESEV - Área Científica de Matemática

Estávamos em 1983. Era eu um jovem professor de Desenho na Escola Secundária de Vila Nova de Foz Côa e já estava a entrar no 3º ano da minha actividade como docente. Uma actividade aliciante, apesar de não muito bem remunerada. As minhas habilitações conseguidas com meia dúzia de cadeiras do 1º ano, outras tantas do 2º e algumas do 3º ano de Engenharia Civil do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa não permitiam que eu pudesse concorrer com habilitação própria. Era, pois, o terceiro ano de trabalho com habilitação suficiente. Do mal o menos, estava empregado numa altura em que o desemprego era uma ameaça para muita gente...

Antes de ser professor recebia quase 24 contos como oficial miliciano (alferes, para ser mais preciso), numa companhia da Brigada Mista Independente em Santa Margarida, mas para chegar às 9 horas da manhã de Segunda-Feira e estar devidamente fardado na parada (as botas engraxadas, a barba aparada, os botões apertados,...) era preciso sair de casa no Domingo por volta das três horas da tarde. Gozava poucos fins de semana porque cada vez que viajava perdia dois dias nos caminhos. Os dias lá eram muito duros. Aquela Unidade era conhecida pela sua operacionalidade, conseguida à custa de intensos treinos diários (por vezes 24 sobre 24 horas por dia), o que não deixava muito tempo para descansar ou fazer outras coisas.

Ser professor de Desenho, apesar de representar uma quebra orçamental na ordem dos três contos por mês, sempre era bem melhor. Só se trabalhava 22 horas por semana, era mais perto de casa, tinha-se mais tempo para namoriscar, e o estatuto também era outro...

Tinha acabado de concorrer pela terceira vez e sentia-me muito satisfeito porque suspeitava que iria ser admitido. Para o próximo ano se veria. Teria que concorrer novamente, esperar que não houvesse opositores fortes e que as coisas corressem bem. E se corressem mal? Já me sentia autónomo há cinco anos – três anos de serviço militar e dois de ensino – quem me iria ajudar nas despesas e nos compromissos que, entretanto, assumira? Que futuro iria ser o meu, se nem pensar em regressar a Lisboa? Começar um novo curso? Se começasse... quando é que iria acabar? Se calhar nem poderia matricular-me noutro curso... (mais curto, mais perto de casa,...). Frequentemente deparava comigo a levantar estas e outras questões que me seguravam à dura realidade de um futuro pouco promissor. Afinal as coisas não estavam assim tão bem porque a idade começava a marcar a sua presença e não tinha grandes esperanças de conseguir uma vida mais estável. Não podia continuar a contar com alguns pequenos projectos de habitações que, por vezes, fazia durante a noite com o objectivo de conseguir mais uns trocados para comprar os cigarros e alimentar a "sucata" que tinha comprado por meia dúzia de patacos. A fase de crescimento da aldeia estava a terminar... Quase todos os meus amigos, aqueles que eram da minha geração, se tinham já arrumado ou estavam em vias de se arrumar e pareciam estar melhor do que eu.

Alguma amargura, algum desencanto e até algum desespero começaram, por esta altura, a tomar conta de mim.

Fruto do acaso, o Sr. Delegado Escolar do meu concelho ouvira falar da abertura de uma Escola Superior de Educação em Viseu e, também por acaso, forneceu-me essa informação dizendo que tinham entrado em funcionamento alguns cursos entre os quais o de professores para o Primeiro Ciclo. Não é que alguma vez tivesse pensado no assunto, mas esta informação levou-me a considerar a hipótese de concorrer. A esperança começou a misturar-se com o desânimo.

Identifiquei, no entanto, alguns problemas que teria que ultrapassar. Nesta altura já era necessário o 12º Ano e eu tinha frequentado currículos onde se fazia o 7º ano antigo (que corresponde agora ao 11º). Assistia-se a uma massificação do ensino e as Faculdades começavam a rebentar pelas costuras. As notas tinham sido inflacionadas e a minha média não era das mais altas... Pensei num processo de transferência e, com um pouco de sorte, até podia ser que conseguisse algumas equivalências. Como tentar nada custava, resolvi por esta via. Pedi a transferência de Lisboa para Viseu.

Setembro do mesmo ano. Tendo acabado de telefonar para a secretaria da Escola Superior para saber da minha situação, soube que fiquei em sexto lugar havendo apenas 6 vagas para transferências. Por um triz, entrei para a Escola Superior de Educação de Viseu! Em último dos últimos mas entrei! Não cabia em mim de tanto entusiasmo! A calma, no entanto, regressou porque me apercebi de que teria ainda algumas barreiras para ultrapassar. Em primeiro lugar, porque já me sentia um pouco desactualizado, e depois, porque, imaginei eu, ia ter que frequentar disciplinas como História e Português às quais nunca fora um aluno brilhante e, por essa razão, tinha abandonado há vários anos. Na Matemática tinha o sentimento de que havia assuntos de que já me tinha esquecido. Desde o 5º ano (antigo) que não tinha Ciências e também nunca me tinha entusiasmado lá muito nalgumas destas áreas, principalmente com a Biologia e com a Química, contrariamente à Física, à Astronomia ou à Geografia. Pode ser que o curso não tenha muita Biologia, pensava eu.

Dúvidas, questões, muitas incertezas, inseguranças e receios. Por tudo me senti invadir. Não posso negar que, à mistura, também senti alguma confiança, esperança e até um pouco de orgulho. Iria ser verdadeiramente "setôr" como já me acostumara a ouvir. Na prática já me tratavam assim, embora indevidamente. Aquele ano iria ser um ano duro, nem sabia mesmo se iria aguentar, pensava eu. Estudar de novo (não sei bem que disciplinas) e, ainda por cima a dar aulas, algumas delas de noite e tão longe...

Chegou o dia "D". Encontrei uma escola diferente. O edifício impunha o seu respeito pela sua arquitectura mas era agradável com toda aquela vegetação à sua frente. Os corredores eram amplos, as salas enormes e a precisar de restauro... A Escola não se parecia em nada com o Técnico. Pouca gente. Alguns, cerca de trinta, já lá andavam desde Março. Agora éramos mais uns sessenta caloiros. Até aqueles que iriam ser os meus futuros colegas eram diferentes daqueles a que eu estava habituado. Primeiro, porque eram quase todos do sexo feminino, e depois, não sei bem explicar, eram todos muito calmos... Não havia correria nos corredores, não se atropelavam para apanhar os autocarros, não havia filas para nada – nem sequer para tratar um assunto na secretaria. Os professores não estavam distantes e tratavam-nos com respeito. No Técnico não se faziam horários como aqueles – sem furos – eram bons horários, a Sexta-feira de tarde e o Sábado livres (podia conciliar o meu horário de aluno com o meu horário de professor)...

Aí estava eu para enfrentar mais uma etapa da minha vida. Como todos os caloiros, fui baptizado em Novembro (não me lembro o dia e do certificado também não consta).

As cadeiras que fui encontrar, enfim, foi aquilo que eu já esperava: Língua Portuguesa; História de Portugal; Psicopedagogia; Introdução às Ciências da Educação; Educação Física, Matemática e Prática Pedagógica. Cadeiras semestrais, com continuação no segundo semestre. A diversidade de cadeiras justificava-se pelo facto de existir aquilo a que chamavam de "tronco comum". Era suposto que todos os alunos possuíssem um corpo de conhecimentos mais ou menos gerais, já que todos iríamos ser professores bivalentes: 1º Ciclo e outro. No segundo ano já haveria mais especificidade, de acordo com o ramo que cada um seguisse. Uns iriam para Educadores de Infância, outros seguiriam um ramo do 2º Ciclo: Matemática/Ciências da Natureza; C. Sociais/História; Português/Francês ou Português/Inglês. Penso que eram estas as variantes existentes nessa altura.

A coexistência de alunos oriundos de diferentes áreas: Ciências e Letras – nomenclatura utilizada no meu tempo – fazia com que houvesse, por parte dos professores, bastante compreensão, não obstante a exigência que também se verificava por parte de quem era responsável pela regência e avaliação nas diferentes disciplinas. Esta postura promoveu entre os alunos fortes laços de união e cumplicidade. Espontaneamente, formavam-se grupos de estudo e trabalho, não movidos ou motivados por afinidades de conhecimentos ou interesses, mas pela complementaridade. Vi-me muitas vezes debaixo de uma árvore no Fontelo ou numa esplanada de um café a ter aulas de História e Português e a dar aulas de Matemática – qual antecipação da profissão!

Interessante foi a disciplina de Prática Pedagógica. Inicialmente pensei que iria ser mais um "bico de obra" a vencer – dar aulas num infantário (nessa altura percorriam-se os três níveis de ensino)... Eu, que tinha na minha história episódios, ainda que simulados, de combate em campanha; aprendido a colocar a voz num timbre adequado ao comando de um pelotão de soldados, feito um considerável esforço para não transportar para uma sala de aulas uma postura fria, um passo certo, e uma disciplina militar – sem nunca saber se o consegui – ter agora que lidar com bebés de um, dois ou três anos! Inventar actividades adequadas, responder com aquela paciência de Jó às solicitações mais infantis que se possam imaginar! Valeram-me a grande força de vontade, os incentivos das boas companhias, alguma facilidade na expressão visual e artística e, também, alguma facilidade em imaginar actividades.

Apesar de não ter muito tempo para estudar em consequência das aulas que também dava, consegui fazer todas as disciplinas. Passei para o segundo ano. A média final nem era muito baixa, mas suficientemente fraca para não poder entrar no curso que entretanto me tinha decidido seguir: "Matemática/Ciências da Natureza". As disciplinas que mais me estavam a prejudicar a média eram, como previa, a História de Portugal e a Língua Portuguesa. Passei as férias do Verão a estudar para levantar as notas a uma série de disciplinas. Penso que não havia limite, se havia era suficientemente grande porque melhorei pelo menos a quatro ou cinco dessas disciplinas. Consegui, desta forma, mas à tangente, entrar no curso que pretendia.

Entrei em décimo segundo lugar para uma das doze vagas que existiam! Uma vez mais em último dos últimos, mas entrei! Deus é grande e teve, concerteza, em conta o sacrifício que fiz ao longo do ano e as férias que, afinal, não tive.

Apesar do trabalho que nos era exigido, havia sempre tempo para conviver. Recordo-me de uma grande sala que existia onde é agora o Gabinete dos professores de Português e o Centro Informático. Nessa altura era um enorme bar onde estava uma mesa de ping-pong. Mais tarde, foi-nos cedido um outro espaço ocupado actualmente pela sala 9 e a Gabinete a ela contíguo junto à entrada lateral. Aí passei parte dos tempos livres. Cantávamos, tocávamos viola, contávamos anedotas (algumas picantes) e até disputávamos campeonatos de ping-pong. Os professores mais ágeis também participavam e foi contra um deles que aí consegui um suado mas honroso 2º lugar já que o dito professor, não sei bem como, digamos que talvez com um bocado de sorte, me conseguiu vencer. O meu certificado:

Como já referi, à frente da Escola já existiam aquelas árvores que ainda hoje existem mas o espaço não estava alcatroado e não se podia estacionar. Podia-se, isso sim, jogar a bola. Todos, éramos poucos para constituir duas equipas, mesmo recorrendo a alguns professores. Enfim, lá íamos fazendo o que podíamos e chegámos mesmo a defrontar uma equipa poderosa da Universidade Católica. Já não me lembro muito bem do resultado mas creio que perdemos.

Havia, também, tempo para se revelarem os dotes artísticos de cada um. Apesar de gostar de tocar viola gostava também de desenhar. Desenhei, sob diversas perspectivas, aquela que começaria a chamar de "a minha escola", tal era o afecto que lhe começava a dedicar. A um desses desenhos juntei um "hino" que um colega mais vocacionado para essas artes lhe dedicou.

O segundo ano parecia bem mais facilitado, até porque já não tinha que andar a correr de um lado para outro (Viseu - Foz Côa; Foz Côa - Viseu). Senti que me poderia dedicar mais aos estudos e à vida académica. Por esta altura já me tinha apercebido que as médias finais poderiam ter alguma importância no futuro porque ainda tinha o sabor amargo de umas férias sem férias e o alento que uma vitória difícil nos dá. Sabia, pois, que melhorar os meus desempenhos poderia ser difícil mas possível, bastava aplicar-me um pouco mais. Em termos académicos estava tudo ao meu alcance.

Apesar de ter formulado o propósito de estudar mais, apercebi-me de que o tempo bem gerido, ainda poderia permitir algum espaço para outras actividades. Comecei por propor um novo modelo para as "Certidões de baptismo" dos caloiros e propus-me dar uma aula de Matemática (com um teste diagnóstico e tudo) passando pelo seu novo professor. Vejo, ainda, alguns olhos esbugalhados e outros chorosos principalmente daqueles colegas provenientes da área de Letras a tirar apontamentos à pressa daquilo que, naturalmente, nada percebiam.

Senti, nesta altura, necessidade de me envolver noutras actividades, até porque se começava a sentir alguma falta de um espírito e vivência académica que mais tarde recordamos com saudade. Pensei que o sentimento poderia ser extensivo a outros colegas meus que, por uma razão ou por outra, se deixavam absorver demasiado pelos estudos, libertando cada vez menos tempo para os encontros, as serenatas na Sé, a folia, e porque não dizê-lo, algumas noitadas nas casas uns e de outros, acompanhadas por duas ou três imperiais.

Recordo-me que esteve em embrião um grupo de teatro, também ele constituído por alunos e professores que ainda hoje estão a exercer a sua actividade na Escola Superior de Educação. Esse grupo desfez-se, não me lembro bem das razões, mas devo reconhecer que comigo não poderia ter grande futuro... Apesar de tudo, fizeram-se grandes festas naquele palco ainda existente no Ginásio. Aí me estreei a fazer ilusionismo, a cantar o fado e a fazer poesia. Este exemplar não foi passado em computador porque ainda não tínhamos acesso a esses "luxos"...

Nestas festas houve grandes revelações. Uns colegas revelaram grandes capacidades para fazer sátira parodiando os nossos professores, outros, grandes dotes artísticos, dramáticos e vocais.

 

Também se começava a sentir alguma necessidade de se formar uma associação. Estava tudo muito parado e o sangue pululava nas veias revelando a face rebelde que em nós existe nestas idades. Começava-se a pensar nos bailes de finalistas, nas reivindicações, nas semanas académicas, sei lá que mais. Era preciso começar por algum lado e decidi-me apresentar em referendo (já naquela altura) um conjunto de esboços daquele que iria ser adoptado como o primeiro emblema da primeira Associação de Estudantes.

 

O primeiro foi aquele que colheu mais simpatia e, por essa razão, começou a ser adoptado.

Em termos académicos, o segundo ano foi talvez aquele que deixou mais saudades. Por um lado, ainda éramos poucos alunos e, por outro lado, estávamos todos juntos, num edifício que, apesar de degradado, tinha espaço. Mas enfim, precisava e encerrou para obras.

Particularmente marcante foi, novamente, a Prática Pedagógica no Primeiro Ciclo do Ensino Básico em consequência do trabalho que deu. Tantas noitadas em claro para fazer material, inventar canções apropriadas a cada assunto e afinar violas. Todos colaborávamos. Ainda tenho presente a canção do "Elé", uma canção para apresentar o "e" numa turma do 1º ano de que eu fui autor da música e uma colega a autora da letra e que começava assim: Ai a égua do Elé, é bonita, ai é, pois é...

Mas é caso para dizer: "ano novo... vida velha". Foi preciso mudar para as velhas instalações do INEI, para as instalações da Universidade Católica e penso que também existiam turmas numa ou duas salas da Escola do 1º Ciclo da Ribeira, o que ocasionou alguma correria para aqui e para ali com consequências negativas para todos, particularmente para o desenvolvimento de actividades colectivas. Confesso que ainda hoje há colegas que não me recordo de ter visto na Escola apesar de terem sido meus contemporâneos. O terceiro ano ficou marcado pelo stress, pela insegurança e também pelo muito trabalho. O stress e a insegurança decorriam não apenas da diversidade de espaços físicos que ocupávamos mas também porque se começava a suspeitar que os cursos ainda não estavam devidamente regulamentados e já se começava a falar da Lei de Bases do Sistema Educativo. Temíamos pelo desemprego. Víamos Comissões Instaladoras que desapareciam, outras que surgiam para logo desaparecerem. Fazíamos perguntas para as quais não obtínhamos respostas convincentes. Tudo junto fazia desconfiar apesar das promessas, das "palmadinhas nas costas" e das doces palavras de conforto. Era necessário tomar providências. Nesta altura as coisas não estavam muito facilitadas porque estávamos fisicamente distantes e dificilmente nos encontrávamos. Mas era imperioso que nos reorganizássemos para exigir respostas. Fizemos greve (estava na moda), aproveitámos o primeiro desfile académico organizado em conjunto com outras Associações de Estudantes (Universidade Católica, Secundária Alves Martins e, até ao último instante, a contar com os colegas finalistas do Seminário) para manifestar o nosso desencanto e organizou-se uma expedição a Lisboa. Essa viagem eu não fiz porque nessa altura não tive disponibilidade para a fazer. As esperanças não eram muitas e as promessas não nos convenciam. Apesar disso, tínhamos que continuar a trabalhar.

Uma vez mais, e não sei porquê, ficou marcada na minha memória a Prática Pedagógica. Tantos e tantos sábados de tarde nas velhas "catacumbas" – era assim que nós chamávamos à cave do INEI – a preparar, sob o olhar atento do supervisor (um grande professor e um grande homem que infelizmente já não está na nossa companhia), as experiências de Ciências da Natureza que iríamos apresentar na sala de aula, bem como a elaborar em rigorosa conformidade com a taxonomia de Bloom aqueles planos orientados por objectivos. Nada podia ficar ao acaso.

Presente tenho também as aulas de Matemática e Metodologia da Matemática. A linguagem LOGO começou, por esta altura, a ter seguidores em Portugal. Entendeu a professora que seria um bom investimento. Abracei de corpo e alma a ideia. A linguagem LOGO para os Spectrum demorava cerca de cinco minutos a "carregar" mas era engraçada, no meu entender. De tal forma me interessei que acabei por dar 16 000$00 por um desses computadores e que hoje guardo como se fosse uma relíquia – com oferta de um medidor de tensão digital que já não sei onde pára. Confesso que me deixei de tal forma envolver por essa tecnologia que acabei por não ter fins de semana em família e a família acabou por não ter fins de semana com televisão já que era precisa para ligar o computador. Sábados e Domingos passados a "programar" padrões de "mosaicos" que, depois nas aulas, orgulhosamente apresentava aos colegas e à professora que não se cansava de admirar e elogiar. Outros professores, em tom de brincadeira, perguntavam se a Escola se tinha transformado numa olaria.

Eis algumas dessas "obras primas" que estão já pouco visíveis porque, nessa altura, se imprimia utilizando um papel térmico (muito caro) e, com o tempo, a imagem foi perdendo qualidade.

Mas, para além dos azulejos, que, nalguns casos, envolviam complicados cálculos Matemáticos, também se programavam paisagens com o sol a subir (muito lentamente) e fontanários com a lua igualmente a subir e a água a pingar, a pingar ...

Este escudo já foi feito muito depois das notas terem sido dadas. Com este escudo levei a professora a fazer um comentário muito elogioso: "só lhe dei x? Se soubesse que tinha feito isso, tinha-lhe dado y". Naturalmente que este y era igual a x+1.

Todos estes trabalhos e tantos outros, elaborados por colegas meus, foram, creio eu, como que uma espécie de recompensa para a professora que, um dia, me convidou a mim, ao técnico de audio-visuais dessa época (uma pessoa ainda ao serviço da Escola) a passar uma longa tarde para os gravar em vídeo. Não sei bem qual o objectivo, mas desconfio que se tratou de uma oportunidade (uma conferência, uma exposição, um trabalho académico, ...) que a professora não perdeu para expor publicamente o fruto do seu e nosso trabalho. Um acto louvável e gratificante, depois de tanto empenho.

O plano de estudos estava percorrido. Faltava a fase final, o Ano de Indução. Era um ano diferente, na medida em que já estávamos colocados (provisoriamente), já tínhamos um pequeno vencimento, e já éramos quase responsáveis por algumas turmas. Havia nas escolas hospedeiras, chamemos-lhes assim, um professor a quem competia a orientação dos formandos que éramos nós. Em paralelo, tínhamos que frequentar e ter aproveitamento em seminários para complementar a nossa formação.

Não havia tradição deste tipo de estágio, cabendo à Escola Superior de Educação de Viseu, a primeira Escola Superior de Educação do país, as honras de abertura. Mas, como diz o ditado: "não há rosas sem espinhos". Houve, tanto quanto me pude aperceber, algumas dificuldades, por parte da Escola, em encontrar quem se dispusesse a colaborar. Ainda estou para perceber que contrapartidas a Escola ofereceu às escolas hospedeiras para que nos recebessem...

Em termos profissionais, o Ano de Indução foi um ano francamente positivo. Encontrei dois excelentes professores orientadores, um para Matemática e outro para Ciências da Natureza.

Assistíamos às aulas desses professores, assistíamos às aulas dos nossos colegas de grupo e dávamos as nossas próprias aulas, que eram devidamente preparadas com o cooperante e com os colegas e, no final da semana, objecto de reflexão. Hoje fala-se muito em trabalho cooperativo ou colaborativo mas, já naquela altura, era a nossa forma de estar e de trabalhar. Em grupo, preparávamos as aulas (os planos, os materiais,...), algumas actividades que fazíamos incluir no então "Plano Anual de Actividades" das escolas onde estávamos colocados e, até, algumas actividades recreativas. A encenação e dramatização da obra de Alice Vieira, "Graças e desgraças na Corte de El-Rei Tadinho", constitui um exemplo de uma actividade preparada e desenvolvida nesse ano, em colaboração com outros grupos de estágio, designadamente o de Português/História/Estudos Sociais e o de Portufuês/Francês.

O final desse ano trouxe consigo muitas alegrias e muitas tristezas. Muitas alegrias, porque tinha concluído aquele curso de que, por acaso num dia de sorte, tinha ouvido falar; que, sem grande convicção, me tinha decidido fazer e em que, com alguma sorte, me tinha conseguido matricular; que, apesar do esforço, o factor sorte pode ter contribuído para que pudesse frequentar; aquele curso que viu dias negros de indefinições e muitas amarguras; aquele curso que me deu oportunidade de conhecer tanta e boa gente vinda de Norte a Sul do país. A juntar a tudo isso, tinha acabado em primeiro lugar porque, apesar de empatado com mais dois ou três colegas em termos de classificação final, tinha a meu favor a idade e algum tempo de serviço. Muitas tristezas porque ia, a partir de agora, recomeçar a vida, abandonar a Escola que me tinha trazido a esperança, afastar-me, só Deus sabia por quanto tempo, daqueles colegas a quem já me ligavam fortes laços de amizade em parte devidas, muito mais aos momentos difíceis do que aos momentos mais agradáveis. Tal como diz o ditado: "é nos momentos difíceis que se conhecem os amigos".

Deixei claro que não foram quatro anos fáceis. Digo, agora, que nunca me senti tão acompanhado.

Passados dez anos senti necessidade de rever alguns desses colegas e organizei, em conjunto com um colega dessa altura, um almoço de curso. Iria ser o primeiro de outros que já se seguiram e prometem seguir. Juntaram-se colegas que já não via desde essa altura. Imaginava que poderia encontrar alguns a arrastar os pés, com os óculos ao fundo do nariz, mais trémulos, quem sabe de bengala...Engano. Uma festa onde se recordaram histórias, se falou dos velhos tempos, se acabaram conversas por terminar, se recordaram professores e colegas ausentes, se actualizaram endereços e telefones e onde os filhos, alguns já crescidotes, marcaram a sua presença e dominaram alguns temas de conversa. Enfim... Encontros em família.

SUMÁRIO