A TRADUÇÃO DA BÍBLIA PARA INGLÊS NA INGLATERRA RENASCENTISTA

MARIA ESTER VARGAS *

 

"If God spare my life, ere many years pass I will cause a boy that driveth the plough shall know more of the Scriptures than thou dost."

(Tyndale, dirigindo-se a um dos seus críticos)1

E a profecia cumpriu-se.

(Apesar de Deus não ter poupado a sua vida)

 

1. INTRODUÇÃO

Com a apresentação do estudo intitulado A Tradução da Bíblia para inglês na Inglaterra Renascentista, é nosso objectivo dar uma panorâmica, ainda que sumária, do grande movimento religioso que foi a Reforma na Inglaterra, movimento esse que foi alicerçado e difundido por um grande número de traduções da Bíblia para inglês, de modo que a palavra divina pudesse chegar a todos os lares e ser entendida pelo cidadão comum, espalhando os ideais dos Reformadores.

Será dada maior importância à tradução de William Tyndale por ter sido o primeiro e a grande referência dos tradutores que se lhe seguiram, e à Authorized Version, que culminou o período analisado, sendo considerada a tradução da maturidade, que vencendo as reticências iniciais de alguns, se impôs de maneira fulgurante durante um longo período, com todo o vigor de um inglês que tinha acabado de travar grande luta pela sua afirmação e que aparecia agora com grande elegância e eloquência.

Vejamos o que se passou em Inglaterra na época do Renascimento relativamente às traduções da Bíblia, realçando o papel do tradutor que, mais do que um servidor de um texto ou de um autor, era encarado, segundo Bassnett-Mcguire (1985), um verdadeiro activista revolucionário, tendo chegado, em alguns casos, a pagar a sua ousadia com a própria vida.2

 

2. AS TRADUÇÕES NO RENASCIMENTO

2.1. RENASCIMENTO E HUMANISMO

Tal como o próprio nome indica, o Renascimento foi, entre muitas outras coisas, um período de mudança ao longo do qual se privilegiou o indivíduo, que pela primeira vez toma consciência da sua tarefa histórica.

Com efeito, as descobertas científicas, o crescente poder dos estados nacionais, a irrupção de novos mercados e matérias-primas, especialmente através da América recém-descoberta, e ainda o aparecimento na Europa de uma nova e pujante classe social - a burguesia, levaram a que se tivesse uma nova visão do mundo, patente não só no tipo de sociedade então existente, mas sobretudo no campo cultural.

Tradicionalmente, tem-se afirmado que o Renascimento pressupõe uma ruptura com as ideias, os costumes, as formas literárias e a arte da Idade Média, chamando a si as ideias, a literatura e a arte da antiguidade greco-latina. Actualmente, esta ideia já vai sendo posta de lado, e segundo E. Iañez (1989), nem a Idade Média foi tão obscura, como durante tanto tempo se pensou, nem o retorno à antiguidade se revelou tão brusco e inovador.3

Assim, a tradução clássica no Renascimento não será a leitura obrigatória de um passado já distante e perdido, mas sim um ponto de encontro com uma concepção vital virada para o futuro: o intelectual, nessa época formado não só em meios exclusivos da cultura clássica, derivará, no seu pensamento, para um humanismo descoberto no período clássico e não necessariamente do ponto de vista da moral cristã, como até então.

Esta nova concepção humanista teve impacto também no plano religioso levando à descoberta da necessidade de uma reforma, que gradualmente resultou no protestantismo e em lutas religiosas. O estudo e o interesse pela civilização clássica e com ela, pelas línguas que o serviram, viria a originar um interesse paralelo pelas línguas nacionais, pela sua sistematização e enriquecimento.

Importante será referir o papel de certos mecenas - nobres e grandes burgueses - ao apoiarem humanistas, poetas, artistas e estudiosos em geral, os quais colocavam as suas obras à disposição da casa ou linhagem, recebendo em troca o prestígio social e económico da classe que serviam.

Tal facto levou a que o artista e o intelectual, incluindo o tradutor, deixe de ser colectividade, cujo centro estava no mosteiro ou na escola abacial (situação característica na Idade Média), para passar a ser individualidade, que coloca o seu trabalho à disposição da melhor oferta ou ao serviço de um ideal, como era o caso dos tradutores de textos de carácter religioso durante a Reforma.

A tradução surge, pois, com grande profusão, estabelecendo uma certa lógica quer na relação com o passado e o presente, quer entre línguas e tradições diferentes, que iam emergindo do meio de grandes conflitos nacionalistas e religiosos. (Steiner: 1975) 4

2.2. O RENASCIMENTO INGLÊS

Na Inglaterra, o Renascimento foi um pouco mais tardio do que noutros países europeus. O peso do Latim na prosa e na educação era muito forte e a poesia tendia a imitar modelos estrangeiros, apesar de pairar no ar uma certa consciência da necessidade de mudança e de que seria imprescindível traduzir grande número de obras que levassem o cidadão médio a penetrar em áreas que até então lhe tinham sido vedadas.

Foi no período isabelino que se notou com maior amplitude este interesse pelas novas disciplinas, sobretudo pelo conhecimento das línguas clássicas.

Os humanistas ingleses foram fundamentalmente filólogos, estudiosos das línguas e literaturas, quer contemporâneas quer antigas, convencidos da pertinência do seu estudo como base indispensável para posterior aplicação a qualquer ramo do saber, numa altura em que o vernáculo estava "at its freshest and most vigorous".5

A invenção da imprensa e o seu progresso permitiu a difusão de livros antigos anteriormente inacessíveis, satisfazendo as exigências de camadas crescentes de população, nomeadamente novos mercadores e ricos proprietários rurais que não dominavam o latim como os membros do clero e da nobreza da Idade Média, mas que nem por isso queriam permanecer na "escuridão", desconhecendo obras que lhes mostravam realidades e lhes revelavam novos valores.

2.3. A REFORMA PROTESTANTE E A PROBLEMÁTICA DAS TRADUÇÕES

Article XXIV - To have public prayer in the church or to minister the sacraments in a tongue not understandes of the people is plainly to the word of God and the custom of the primitive Church.6

Se, por um lado, a Reforma protestante foi o movimento que deu grande incremento às traduções, por outro, ela não teria tido um impacto quase imediato na sociedade inglesa se não estivesse já criado o hábito de traduzir textos para vernáculo devido ao interesse referido no ponto anterior.

Fazendo uma breve retrospectiva, na Inglaterra dos últimos anos do século XV e início do XVI estava criado o hábito de se frequentar as igrejas, muitas delas construídas e reconstruídas ao longo do século XV. A devoção popular manifestava-se espontaneamente, ainda que eivada de alguma superstição. O grande número de obras de carácter religioso publicadas na época atestam a religiosidade do povo inglês. Segundo Reardon (1981), dos 349 livros impressos em Inglaterra entre 1468 e 1530, 176 eram obras sobre religião7, que circulavam a par de muitos outros títulos importados do Continente, nomeadamente Plenaria, pequenos livros que continham traduções de passagens da Escritura utilizadas nos serviços religiosos, cópias de alguns salmos e extractos dos Evangelhos e das Epístolas.8

À luz da teologia protestante, o conhecimento das Escrituras tinha mais valor do que qualquer outro - A Palavra de Deus é a única autoridade. Como tal, tornava-se imperioso que toda a comunidade conhecesse os seus textos e fosse apoiada nesse conhecimento por trabalhos de críticas e comentários às mesmas.

Contudo, por estranho que pareça, numa primeira fase, não existia em Inglaterra uma tradução da Bíblia em inglês que fosse lida na missa aos domingos, continuando-se a utilizar a versão latina de S. Jerónimo; por outro lado, na mesma altura, entre 1466 e 1522, na Alemanha havia já 20 traduções completas e impressas da Bíblia, enquanto que em França, entre 1487 e 1521, a tradução da Bíblia feita por Jean de Rély fora reimpressa sete vezes.9

A justificação para tal discrepância parece residir na proibição de 1408 de qualquer tradução da Bíblia que não fosse sancionada pelos bispos. De qualquer modo, o que estava em causa não era propriamente a tradução da Bíblia, mas o problema da autorização superior para a execução da mesma, com o intuito de evitar a repetição do grande abalo que tinha sido provocado pela tradução de Wycliff e dos Lolardos, sendo preciso esperar até 1526 para que, com a tradução do Novo Testamento feita por Tyndale, a Inglaterra tivesse a Palavra de Deus em vernáculo.

A proliferação de obras de cariz religioso em inglês levou a que os autores e tradutores justificassem a sua opção relativamente à utilização deste idioma, como é o caso de Richard Whitforde, que escreveu The Pomander of Prayer em 1527, embora só com publicação em 1568. No prefácio da sua obra, afirma que escreveu não "for the learned (for they understand scrypture...) but for the unlerned that lack knowledge of holy scrypture to instruct them in the order of prayer".10

O grande desejo de cativar o maior número possível de adeptos recomendava que a literatura controversa da Reforma, quer católica quer protestante, fosse escrita ou traduzida em vernáculo.

Confome cita a fonte anterior11, Edward Dering, em 1568, acusava os católicos de pretenderem que as pessoas lessem em inglês as aventuras de Robin Hood, Merlin e Lancelot du Lac, mas "of Paul, of Peter, James and John, besides the bare names, not one among a hundred could tell a lyne, notwhitstanding the continual crying of wysoome in the streets, the calling of our Savior for the sielie lyttle ones."

A polémica entre católicos e protestantes estava lançada e o seu apaziguamento demoraria muito tempo. Vários nomes surgiram de ambos os lados, sobretudo no decorrer do séc. XVI, salientado-se Thomas Becon, que defendeu acerrimamente a posição do vernáculo face à grande acusação dos católicos de o mesmo ser rude e não passar de uma língua bárbara, indigna de veicular a palavra divina.

Começando por aceitar o ataque relativamente ao barbarismo da sua língua, acaba por o desmontar em 1562, no seu tratado The Glorious Triumph of Gods Most Blessed Words. De acordo com a posição puritana e tal como refere Jones12, Becon considerava dois grandes inimigos da versão inglesa da Bíblia:

- os católicos, que lhe apontavam inúmeras heresias;

- os Humanistas, que davam preferência ao conhecimento clássico e à eloquência;

Humanismo e Catolicismo apareciam fundidos na sus hostilidade à "barbaridade" da tradução. Becon não afirma que a sua língua é eloquente, mas vai depreciar essa mesma eloquência ao associar o conhecimento e a verdade a uma língua simples e acessível.

A reacção católica surgiu de imediato e foram inúmeras as vozes que recusavam a tradução da Bíblia para inglês, utilizando em muitos casos uma linguagem demasiado forte, como é o caso de Harding (1567) citado por Jones13, ao referir:

"Yee, (Protestants) prostitute the Scryptures as baudes doo theire Harlottes, to the Ungodly, Unlearned, Rascal people... Prentises, Light Personnes, and the rifferaffe of the people".

e ainda:

"The Unlearned people were keapte from the Reading of Scryptures by the special providence of God, that pretious stoanes should not be throwen before Swine".

Outros fortes argumentos utilizados pelos católicos prendiam-se ao facto de alguns dos mistérios da Bíblia não deverem ser divulgados nem poderem ser compreendidos por algumas pessoas de menor cultura e de classes sociais mais baixas (The Bible is not a mystery... that is open to euery mans; or that is blowen in their eare); segundo esta linha de pensamento, a publicação destes mistérios em inglês só tinha levado à desobediência e à inimizade. Analisando a questão, poderemos afirmar ainda que enquanto a Igreja (como instituição) teve o monopólio da Palavra de Deus, a importância e o prestígio dos seus clérigos eram amplamente realçados. O facto de em cada casa passar a haver um exemplar da Bíblia iria perturbar, sem dúvida, a estrutura hierárquica de uma Igreja imbuída de tradição e de poder.

Nicolas Sanders, professor de Teologia na Universidade de Lovaina nesta altura, defendia que a universalidade do latim tornava possível que a Vulgata estabelecesse elos de ligação e promovesse a harmonia e a unidade da Igreja em todo o mundo e que essa imutabilidade ajudava à preservação da verdade bíblica, em oposição às línguas modernas que fomentariam a diferença e, consequentemente, a desunião.14

No meio de toda esta controvérsia, as palavras de Erasmo, grande inspirador humanista, eram do conhecimento geral mas pretensamente ignoradas na prática. Tinham elas a ver com a necessidade das traduções de textos de carácter religioso, em especial das Escrituras, para o progresso e bem-estar espiritual do Homem. Nas suas Exhortations to the Diligent Study of Scriptures, traduzidas para inglês por Tyndale em 1529, Erasmo afirmava:15

I would desire that all women should reade the Gospell and Paule's epistles, amd I wold to god they were translated in to the tonges of all men. So that they might not only be read and knowne of the scotes and yryshmen, but also the Turkes and saracenes. Truly it is one degree to good livinge, yee the first (I had almost sayde the cheffe) to have a little sight in the scripture, though it be but a grosse knowledge... I wold to god the plowman wold singe a texte od the scripture at this plowbeme, and that the wever at his lowme with this would drive away the tediousness of tyme.

A luta foi grande e difícil de vencer, mas com a tenacidade de alguns a Palavra de Deus chegou às mãos do cidadão comum, numa verdadeira missão evangelizadora que aproximou bastante os Reformadores dos Cristãos Primitivos.

 

3. A BÍBLIA NO CONTEXTO DAS TRADUÇÕES NO RENASCIMENTO INGLÊS

3.1. TYNDALE - PIONEIRO E MÁRTIR

William Tyndale's last prayer:

" Lord, open the King of England's eyes."16

Para cumprir os ideais da Reforma não bastava, como já vimos, que o número restrito de eruditos tivesse o privilégio de ler a Bíblia em Hebraico, Grego ou Latim. Era pois fundamental que qualquer cidadão dispusesse de uma Bíblia na sua própria língua, de modo a que a sua leitura passasse a ser uma actividade familiar diária e ele fosse capaz de discernir a verdade da mentira e o bem do mal.

Neste contexto, verifica-se a existência de várias traduções publicadas umas a seguir às outras - no séc. XVI, onze, até à Authorized Version, sendo de realçar a reacção da facção católico-romana à invasão do mercado pelas suas congéneres protestantes, concretizada na publicação em 1582 de uma tradução do Novo Testamento feita em Reims a partir da Vulgata Latina de S. Jerónimo, que seria completada com a tradução do Antigo Testamento realizada em Douai, e que viria a lume entre 1593 e 1610. Este conjunto, vulgarmente designado por Bíblia de Douai-Reims, pretendeu ser tão fiel ao espírito da sua fonte que muitas expressões não faziam qualquer sentido em inglês. Este esforço acabou por não passar de mais uma tentativa frustrada pela liderança do processo de traduções da Bíblia numa época tão conturbada como a da Reforma inglesa, apesar de se ter mantido como a Bíblia oficial dos católico-romanos ingleses durante muito tempo. Segundo o Prof. Doutor João Soares Carvalho, só em meados do séc. XVIII é que a mesma foi revista pelo bispo católico-romano Richard Challoner, que a expurgou dos seus muitos defeitos estilísticos.

Como grande marco e ponto de referência para a tradução bíblica na Inglaterra renascentista, referiremos a tradução do Novo Testamento e de alguns livros do Antigo (Pentateuco, Jonas e a maior parte dos livros históricos) feita entre 1515-36 por William Tyndale, (ca. 1494-1536), a quem Thomas More chamou "the captain of our Englishe heretikes."17

Tendo estudado em Oxford, radicou-se em Cambridge após a sua ordenação, onde contactou com muitos dos futuros líderes da Reforma, tais como Coverdale, que curiosamente viria a completar a sua tarefa, Latimer e Cranmer. Ao pretender fazer uma tradução da Bíblia a partir dos originais gregos e hebraicos, o que não era habitual, e porque tal empreendimento implicava dinheiro, mudou-se para a capital com o intuito de obter o patrocínio do bispo de Londres. Perante a recusa deste, decidiu deixar o seu país e continuar a tradução na Alemanha, mais precisamente em Colónia, onde foi fortemente marcado pelas doutrinas de Lutero. Vítima de perseguições, Tyndale teve de se refugiar em Worms e em 1526 foi possível publicar a edição completa da sua tradução do Novo Testamento, que provocou a ira dos bispos ingleses, que incumbiram Thomas More de o atacar bem como à sua tradução, ataque esse que daria azo a uma controvérsia que, apesar de vigorosa, não surtiu o efeito esperado pelos católicos.

O ataque de More incidia sobretudo na falta de autorização da hierarquia eclesiástica e do próprio rei, facto que impedia a distribuição normal da tradução em território inglês. Contudo, com a ajuda de alguns comerciantes londrinos que perfilhavam os ideiais da Reforma, a publicação espalhou-se nos seus arredores. O bispo de Londres baniu-a publicamente em 20 de Outubro de 1526 e dois dias depois todas as publicações que foram apanhadas foram queimadas em St. Paul's.

Continuando a trabalhar no Continente, Tyndale escreveu ainda em 1528 The Parable of a Wicked Mammon e The Obedience of a Christen Man, que, conseguindo penetrar na Inglaterra, se juntaram à lista dos livros proscritos.

A partir de então, a Igreja Católica decidiu reagir a estas "heresias" através da publicação de obras, curiosamente escritas no idioma que tanto tinha atacado - o inglês. Esta mudança de atitude ficou a dever-se ao facto de se pretender que o maior número possível de cidadãos tivesse conhecimento não só do que se estava a passar, mas que, através disso, o doutrinação da Igreja, enquanto instituição, fosse mais generalizada. Punham-se em causa determinados termos utilizados por Tyndale, que fugiam à tradição católica, como por exemplo:

senior em vez de priest

congregation em vez de church

Love em vez de Charity

repetence em vez de penance

favour em vez de grace

Contudo, e segundo o Prof. Doutor João Soares Carvalho, o problema não estava na tradução, uma vez que ela se podia justificar a partir do seu sentido original na língua grega, mas nas doutrinas que essa tradução denunciava. Sir Thomas More acusava Tyndale de na sua tradução ter alterado o significado habitual de alguns termos para alterar a própria fé:

"Tyndale changed in his translation the common known words to the intent to make a change in the faith."18

Aliás, o próprio Tyndale na sua Answer to Sir Thomas More Dialogue explicita o seu conceito de church, conforme Evans (1985) nos apresenta na sua obra The Language and Logic of the Bible.19 Tendo originariamente significado local, ou casa onde os fieis se reuniam para ouvir a palavra de Deus numa língua a todos acessível, o termo church passou a designar o clero, naquilo a que Tyndale considera ter sido "abused and mistaken for a multitude of shaven, shorn and oiled.". Contudo, Tyndale considera que há, ou deverá haver, uma terceira explicação para o termo, que é a de congregation, ou seja, um grupo de pessoas de todas as classes sociais que se juntam para ouvir e viver a mensagem de Cristo. Para ele, esta será a verdadeira igreja de Cristo, de acordo com as Escrituras:

"For where two or three are gathered together in my name, there am I in the midst of them." (Mt 18:20)

Aliás, Tyndale não estava sozinho nesta linha de pensamento, pois era este o conceito dos reformadores da época. A título de exemplo, vejamos o que Whitaker nos diz a este propósito, na sua Disputation on Holy Scripture, pp. 279 f.f., referido por Hughes:20

"Now the Church we understand not, as they (the Papists) do, the pastors, bishops, councils, pope; but the whole multitude of the faithful. For this whole multitude hath learned from the Holy Spirit that this Scriptures is sacred, that these books are divine."

Toda a querela se baseou, pois, numa posição de valores exegéticos excessivos de ambas as partes, em detrimento de valores puramente hermenêuticos.

Em 1536, Tyndale foi traído e queimado perto de Bruxelas, sob a acusação de herege. Por ironia do destino, nessa altura o rei de Inglaterra "já tinha aberto os olhos", pois embora com algumas reticências e uma certa prudência, Henrique VIII tinha aceitado patrocinar a Bíblia de Miles Coverdale em 1535, que incluiria grande parte do trabalho de Tyndale, e três anos após a morte deste um decreto real exigia que cada igreja tivesse uma cópia da Bíblia em inglês para uso dos paroquianos, como se Deus tivesse ouvido a sua última prece.

Polémico, incompreendido no seu tempo, mártir, Tyndale foi o grande pioneiro da tradução bíblica ao pretender fazê-la a partir dos originais.

As versões que se lhe seguiram não eram no fundo novas traduções, pois cada tradutor pegava nas dos seus antecessores, com especial relevo para Tyndale, e tentava melhorá-las e refiná-las, culminando tal processo na Authorized Version de 1611.

A fidelidade ao texto original que o novo conceito de tradução das Escrituras exigia tornava as novas versões um pouco estranhas (foreign-sounding), como refere M. Roston (1982) no seu livro Sixteenth Century English Literature21. A influência de um idioma arcaico dominado por cadências que não eram familiares ao ouvido dos ingleses tornava ainda maior o interesse pelas traduções.

Não querendo continuar a aceitar as Escrituras do mesmo modo como tinham sido filtradas pela exegese católica, os tradutores da Reforma estavam determinados a analisar as fontes, a ir além da Vulgata de S. Jerónimo e chegar aos originais hebraico e grego, correspondentes respectivamente ao Antigo e Novo Testamento.

John Selden22 queixava-se deste novo e estranho inglês, dizendo:

"There is no book so translated as the Bible. For the purpose, if I translate a French book into English, I turn it into English phrase and not into French English. Il fait froid, I say It's cold, not It makes cold; but the Bible is translated into English words rather than into English phrase. The Hebraisms are kept and the phrase of that language is kept, as for example He uncovered her shame, which is well enough so long as scholars have to do with it, but when it comes among the common people, Lord, what gear do they make of it."

O padrão seguido pelos tradutores da Bíblia no Renascimento baseava-se na tradução literal, preservando as cadências dos textos originais, conseguindo efeitos retóricos notáveis através da repetição de orações e de frases, ampliando-as, com o objectivo de dar ênfase a determinadas palavras ou conceitos, para além de tornar mais clara a ideia anterior.

O iniciador de tal processo já não vivia para o acompanhar, mas a sua mensagem frutificou nos trabalhos de tradução bíblica mais importantes que apareceram em Inglaterra. A sua missão estava, pois, cumprida.

3.2.1. A AUTHORIZED VERSION - INOVAÇÃO OU EVOLUÇÃO NA CONTINUIDADE?

"Translation it is that opened the window, to let in the light; that braketh the shell, that we may eat the kernel."23

Ao assumir o trono de Inglaterra após a morte de sua prima Isabel em 1603, Jaime I, sendo de origem escocesa, tinha como objectivo unir os dois reinos através de uma unificação linguística, já que em termos políticos e religiosos as tensões estavam bastante agudizadas. Em Janeiro de 1604 presidiu a uma conferência especial em Hampton Court, com duração de três dias, na qual participaram elementos do Privy Council, nove bispos e cinco deões, com o intuito de discutir e tentar apaziguar algumas diferenças religiosas. De entre as várias deliberações, uma houve que iria ter grande impacto na evolução da língua inglesa, proporcionando-lhe uma das suas obras-primas do período do Renascimento - a Authorized Version, ou King James's Bible, como também ficou conhecida.

Ao contrário das traduções que a precederam, esta versão não foi assumida por nenhum tradutor, mas sim por um conjunto de 47 eruditos, divididos em 6 grupos por Westminster, Oxford e Cambridge.

Após seis anos de intenso labor, cada grupo enviou os seus trabalhos para Londres, onde foram revistos e analisados ao longo de nove meses por uma equipa composta por dois representantes de cada grupo.

Foi a primeira vez que uma tradução da Bíblia seguiu esta metodologia de trabalho, que teve muito a ver com o desejo do rei de ter "one uniforme translation" que diminuísse a fricção entre Anglicanos e Puritanos e que servisse de elo de união entre os cidadãos dos dois reinos.

No entanto, os tradutores afirmavam que a Authorized Version não era propriamente uma nova tradução, dado que eles apenas se tinham limitado a rever o que já existia e a aperfeiçoar aquilo que já consideravam ser muito bom.24

Esta posição, para além de comprovar uma realidade, uma vez que os eruditos tinham partido da tradução de Tyndale e seguido os princípios por ele preconizados, nomeadamente a não inclusão dos livros deuterocanónicos, poderia igualmente ser encarada como uma defesa perante os ataques da Igreja Católica, "sacudindo a água do capote" de uma maneira discreta e elegante.

Apesar da grande oposição inicial por parte dos Puritanos e de outros sectores da Church of England, a Authorized Version passou a ser o livro mais divulgado desde a sua publicação fazendo parte da biblioteca de quase todos os lares britânicos e sobrevivendo a versões posteriores que nunca conseguiram granjear grande prestígio. Ainda hoje, em algumas paróquias inglesas, é esta a Bíblia que é utilizada, sendo amplamente apreciada pelo seu estilo elegante e fluente, e, com ela, indirectamente, continua o seu grande inspirador - William Tyndale.

3.2.2. A RELAÇÃO ENTRE A VERSÃO DE TYNDALE E A AUTHORIZED VERSION

Como já referimos anteriormente, foi enorme a influência que a tradução de Tyndale exerceu no conjunto dos especialistas que apresentaram a Authorized Version ao rei Jaime I. Contudo, são patentes algumas diferenças entre as duas Bíblias, separadas por uma diferença temporal de mais de cem anos, durante os quais os contextos político, social e religioso se alteraram. Cohen (1962), refere que um livro necessita sempre de ser traduzido de novo uma vez em cada século25 para satisfazer as alterações dos padrões exigidos e os gostos das novas gerações, não coincidentes com os do passado. Estamos em crer que foi isso que se verificou nestas duas versões, concordantes nos seus princípios-base, mas divergindo pontualmente por serem produtos de épocas diferentes. Por outro lado, convém não esquecer que em 1611 a língua inglesa tinha já percorrido um longo caminho na sua evolução e fixação, sendo no início da dinastia Stuart muito mais rica e variada, em parte devido aos empréstimos de outras línguas de que se foi servindo para suprir as suas lacunas.

Como ilustração destas nossas afirmações, socorremo-nos de um extracto do Livro dos Juízes, 19; 20-22, referente ao Levita que se dirige a Belém em busca da sua mulher:

TEXTO DE TYNDALE:

The old man said, Peace be with thee: all that thou seekest thou shalt find me, only abide not in the streets all night. And he brought him into his house, and gave fodder unto his asses. And they washed their feet, and did aet and drink. And as they were making their hearts merry, the men of the city, which were wicked, set the house round about, and thrust at the door, and spake to the man of the house, the old man, saying: Bring forth the man that came unto thine house, that we may know him.

AUTHORISED VERSION:

And the old man said, Peace be with thee; howsoever, let all thy wants lie upon me, only lodge not in the street.

So he brought him into his house, and gave provender unto the asses; and they washed their feet, and did eat and drink. Now as they were making their hearts merry, behold, the men of the city, certain sons of Belial, beset the house round about, and beat at the door, and spake to the master of the house, the old man, saying, Bring forth the man that came into thine house, that we may know him.

Comparando os dois textos, é óbvio que a fonte foi a mesma. Contudo, verifica-se que apesar da repetição de orações consecutivas sucessivas introduzidas por and, Tyndale consegue atingir um certo ritmo na sua narrativa. Hammond (1988) mostra que, apesar da prosa inglesa não ter ainda atingido um estilo próprio na época de Tyndale, este tradutor foi mestre na criação de narrativas bíblicas, com especial relevo para os textos do Antigo Testamento, fértil em livros históricos. Na verdade, e apesar da distância que nos separa, os termos que utiliza são claros, vivos, coloquiais, conseguindo prender a atenção do leitor, recorrendo a um estilo vivo e directo.

Em apenas três versículos, o leitor passa de uma situação pacífica de hospitalidade - Peace be with thee, para uma situação de profunda hostilidade - Bring forth the man.

Ainda sobre a questão da repetição constante do connector and na versão de Tyndale, Hammond refere que o objectivo é produzir um texto de fácil compreensão e que traduza a grande simplicidade do hebraico, conferindo-lhe uma certa elegância ao transpôr o waw hebraico para and.

Centrando a nossa atenção na Authorised Version, notamos que sintacticamente se aproxima mais do padrão actual, pois já substitui alguns elementos conectores por outras construções frásicas. No entanto, o resultado final não é tão diferente como seria de esperar.

A expressão Let all thy wants lie upon me parece respeitar mais o sentido literal do hebraico, segundo a mesma fonte, do que All that thou seekest thou shalt find with me, mas esta última poderá demonstrar mais o desejo do ancião de ser cordial.

A nível lexical, notamos algumas diferenças, destacando:

TYNDALE

A. VERSION

wicked

sons of Belial

thrust at the door

beat at the door

A justificação para a diferente utilização destes vocábulos poderá, em meu entender, ter a ver com a época em que ambas as versões são escritas. Tyndale fez a sua tradução numa época conturbada e cheia de radicalizações extremistas. Logo, era necessário ser incisivo, directo, chamando as coisas pelos nomes, sem subterfúgios. Em contrapartida, a Authorised Version surge num momento de tentativa de apaziguamento (não nos esqueçamos dos objectivos da reunião de Hampton Court), em que o bom senso e a moderação tinham a primazia relativamente à confrontação. Provavelmente, tal facto teria implicações no tipo de linguagem e será essa a minha explicação para a expressão Sons of Belial em vez de wicked, bom como de beat at the door em substituição de thrust at the door. A linguagem utilizada na Authorized Version é já mais suave, mais polida e mais requintada, reflexo do que se passava na época.

Como podemos ver, as traduções são o reflexo de toda a conjuntura social envolvente, sobretudo na sua forma, ainda que os pontos de partida sejam idênticos.

 

4. CONCLUSÃO

"The scriptures sprang out of God, and flow unto Christ, and were given to lead us to Christ. Thou must therefore go along by the Scripture as by a line, until thou come at Christ, which is the way's end and resting-place."

W. Tyndale26

Chegar a Deus pelas Escrituras foi um dos objectivos primordiais dos Reformadores ingleses. Sentindo-se embaixadores de Cristo, os tradutores da Bíblia encetaram a difícil tarefa de fazer chegar a todos os cidadãos a mensagem divina, enfrentando a reacção negativa dos católico-romanos, que se baseavam nos princípios da tradição, da autoridade dos Concílios e do Magistério.

A convicção de que a Bíblia é a autoridade suprema advinha do facto de os reformadores acreditarem que Deus, e mais ninguém, tinha sido o seu autor primário, assumindo eles um papel de missionários, ao terem que dar a conhecer as Escrituras aos que até esse momento viviam na ignorância. Neste sentido, é grande o elo entre os reformadores ingleses do séc. XVI e os Cristãos Primitivos, que igualmente sentiam a necessidade de partilhar a palavra de Deus com os outros.

James Pilkington27 afirmava mesmo:

"Scriptures cometh not first from man, but from God (...) The Gospel saith" It is not you that speak, but the spirit of your Father that speaketh in you (...)"

O êxito da missão não se fez esperar e o que é certo é que a Bíblia passou a ter leitura generalizada, fazendo parte quer da biblioteca do erudito, quer do simples lavrador que se reunia com a sua família para ouvir a palavra divina.

A eloquência que algumas das suas traduções atingiu foi de tal ordem que alguns termos e mesmo expressões passaram para a linguagem quotidiana dos ingleses, com manifestos exemplos na literatura.

Os objectivos iniciais dos reformadores foram ultrapassados pois as traduções da Bíblia para vernáculo contribuíram para a união e apaziguamento de facções rivais, cumprindo a vontade divina e levando o Homem à salvação eterna.

"Take the helmet of Salvation, and the sword of the spirit, which is the word of God." Eph. 6:17

"Search os Scriptures; for in them ye think ye have eternal life: and they are they which testify of me." In 5:39

 

5. BIBLIOGRAFIA UTILIZADA

Barthes, R. et al. Exégèse et Herméneutique, Paris, Aux Editions du Seuil, 1971;

Bassnett-Mcguire, Susan, Translation Studies, London and New York, Methuen, 1985 (1980);

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_________________

* Equiparada a Assistente do 2º Triénio da ESEV

1 P.E. Hughes, Theology of the English Reformers; p. 14

2 in Susan Bassnett-Mcguire, Translation Studies, p. 58

3 in O Renascimento Literário Europeu, p. 11

4 G. Steiner in After Babel, p. 247

5 in J. Cohen, English Translators and Translations, p. 9

6 in P.E. Hughes, op. cit., p. 20

7 in B.M.G. Reardon, Religious Thought of the English Reformers, p. 241

8 In Reardon, op. cit. p. 12

9 in Hughes, op. cit., p. 100

10 in R.F. Jones, The Triumph of the English Language, p. 33

11 idem, p. 54

12 idem, p. 58/9

13 idem, p. 63

14 idem, p. 66

15 in Steiner, op. cit., p. 245

16 in Hughes, op. cit., p. 15

17 in Rainer, Thomas More and Tudor Polemics, p. 37

18 in Lefèvere, Translation/History/Culture, p. 70

19 op. cit., p. 29

20 op. cit., p. 34

21 p. 31

22 idem

23 in "The translator's preface to the Authorized Version", in Lefèvere, op. cit. p. 72

24 in G. Hammond, The Making of the English Bible, p. 174

25 op. cit. p. 9

26 in Hughes, op. cit., p. 9

27 in Hughes, op. cit., p. 21

SUMÁRIO