Reflexões em torno de um "novo" paradigma de formação

MARIA JOÃO AMARAL*

 

As funções de Supervisora da Prática Pedagógica (Inglês) dos alunos do 4º ano do Curso da Variante de Português-Inglês, os desafios que essas funções anualmente me colocam, e a necessidade de me manter actualizada em relação às últimas "descobertas" levaram-me mais uma vez a Aveiro.

Pareceu-me que as "Primeiras Jornadas da Unidade de Investigação", subordinadas ao tema Construção do Conhecimento Pedagógico nos Sistemas de Formação – Construção do conhecimento profissional e o novo paradigma científico e pedagógico, poderiam constituir mais um momento na minha constante busca de uma auto-formação que reputo como a base essencial para o desenvolvimento profissional e pessoal de todos os docentes.

Tal como foi afirmado nestas Jornadas, não se poderá estar à espera que os outros pensem por nós e descubram aquilo que poderá muito bem ser "descoberto" pelos profissionais devidamente empenhados nas suas funções. Temos que procurar os nossos interesses, reflectir sobre as nossas dificuldades e tentar encontrar respostas, nunca definitivas, com a ajuda da investigação realizada nas mais diversas disciplinas, com especial referência para estudos mais recentes desenvolvidos no domínio das neuro-ciências e das ciências cognitivas.

Embora imbuída deste espírito de busca e de aceitação crítica do que pudesse vir a ser discutido, não estava à espera "da resposta", nem "do novo paradigma científico pedagógico". Pretendia apenas encontrar outras pessoas que sobre o assunto tivessem reflectido, que me pudessem ajudar a concluir com mais "certezas científicas" que, provavelmente, esse novo paradigma ainda não está totalmente definido, nem tão pouco poderá alguma vez sê-lo!

Esta minha dúvida, quase certeza, parece ter sido uma das conclusões a que se chegou – não será fácil "rotular" o(s) paradigma(s) incipiente(s)!

A globalização da educação e de todo o acto educativo, a efemeridade dos conhecimentos, a necessidade de se construírem currículos de "banda larga" onde se pratique uma interdisciplinaridade em todos os níveis do saber, a necessidade de romper com os paradigmas instalados, não na procura da ruptura pela ruptura, mas da ruptura criadora de equilíbrio e da inovação, levaram-me a concluir, se calhar com algum atrevimento, que o "novo" paradigma terá de estar sempre na mudança, na ruptura, na procura constante do equilíbrio, perdendo o seu carácter de novidade com alguma rapidez, pelo que pressupõe também uma inovação constante.

Esse novo paradigma será o resultado da permanente procura que cada profissional desenvolver no desempenho das funções que lhe estão atribuídas (formador ou formando), partindo das necessidades e desafios colocados no terreno que pisa. Será ainda inspirado pelas reflexões dialogadas que esses desafios e necessidades provocam quer nos formandos, quer nos formadores.

Esse novo paradigma parece não apontar para uma "receita", para um "cartaz" a que nos possamos agarrar sem o questionar. Será antes o resultado da convergência das necessidades, das preocupações, das teorias públicas e privadas, das reflexões críticas, das conclusões efémeras ... daqueles que, no terreno, sentiram a audácia de fazer ouvir a sua voz. Parece que este paradigma, incipiente há já algum tempo, mas com dificuldade em fazer vingar os seus pontos de vista, pelas cedências que a sua aceitação implica, aponta para a importância das contribuições de todos os que se interessam pela construção do conhecimento profissional.

Essas contribuições serão reunidas num esforço conjunto e cíclico de Acção-Reflexão-Investigação-Acção. Não implicará que se inicie o processo obrigatoriamente na investigação ou na reflexão. A acção poderá ser o embrião. Sobre ela se reflectirá e investigará para melhorar a sua qualidade.

Parece, por isso, que este paradigma, já sem a qualificação de "novo", se baseia na aceitação do movimento do professor/profissional investigador, o qual, reflectindo sobre a acção desenvolvida por si ou por aqueles com quem interage, a investiga, com o auxílio das mais diversas áreas do saber, tornando-se capaz de uma actuação mais eficaz, mais provada e aceite/aceitável, porque baseada numa investigação que em Aveiro apelidaram de "dialogada".

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* Prof. Requisitada do Polo de Lamego do ISPV

SUMÁRIO