LEITURAS DE INVERNO

 

VASCO OLIVEIRA CUNHA *

 

 

Sempre elegi o inverno como tempo de leituras, imersões frequentes em linguagens que ajudam a moldar o mundo e a vida, companhia da carne e do sangue, como dizia Wordsworth, a chama ainda vibrante e altiva nascida da adesão íntima à fé revolucionária de 1789, invenção de um espaço que o frio, a chuva e o bramir do vento não alcançam. Que lá fora está tudo morto, à espera de renascer. A mais de 40 de latitude Norte.

Ritual antigo, planeado com algum rigor, sempre o privilégio de uma época e de um lugar, mas com margens de fuga para não perder o contacto com as coisas importantes que forem surgindo (este ano, Ein Weites Feld, Uma Longa História, de Günther Grass, o paralelismo entre dois patamares do tempo, separados por pouco mais de um século - a atmosfera mental e os meios subjacentes às unificações alemãs de Otto von Bismark (1871) e de Helmut Kohl (1989); La Divina Commedia, de Dante Alighieri, na tradução portuguesa de Vasco Graça Moura, a sabedoria humana de Virgílio, antes da iluminação do cristianismo; a fé, simbolizada em Beatriz, que só como objecto de amor pode salvar o homem conduzindo-o ao conhecimento de Deus; as Obras Completas, de Jorge Luís Borges, a descrença dos dogmas e das escolas literárias, a busca das manhãs e da serenidade, Nombres Propios, de José Hierro, selecção de poemas de uma vida assente em três lealdades fundamentais - para consigo próprio, para com os outros, para com a poesia), e com duas leis apenas, até hoje nunca violadas: a exclusão de ficções do futuro, entidade a que não reconheço existência, a vida desenvolvendo-se em presentes contínuos que em cada fracção do tempo se tornam passado; a opção por autores preocupados com os altos e os baixos de cada idade, isto é, com a vida.

Este ano escolhi a América e o vigor do movimento naturalista da sua poesia no primeiro quartel do nosso século, mergulho no Midwest e no Southwest de Vachel Lindsay e nas suas Rhymes to be Treaded for Bread, ritmos excitantes da pradaria e do matraquear das cidades, ecos tortuosos de uma selva africana quase esquecida, canções ousadas e antigas do céu e da primavera, a crença na existência de um evangelho de beleza, poesia nova, nativa, sensibilidade desperta para a música e para o espírito dos ritmos folk; intimidade conivente com a reflexão do humanismo de Robert Frost, gerada na fé emersoniana da essência indestrutível da alma humana, substituto da crença dificilmente atingível num deus simultaneamente omnipresente e benevolente; releitura, enriquecida pelo tempo, dos epitáfios de Edgar Lee Masters, compostos para as gentes que amou e que odiou em Lewistown, Illinois, o peso da ruína das vidas pequenas, insignificantes; o regresso a Robinson Jeffers e à necessidade de o homem fugir do centro do seu próprio pensamento, todas as culturas (e também a americana) inexoravelmente condenadas a perecer de introversão, mas deixando a cada ser a capacidade de libertação de uma teia complexa; a visita (talvez a centésima) a Carl Sandburg, um velho amigo de muitas décadas, a Smoke and Steel, perspectiva do aço da industrialização americana apenas como fumo e sangue do homem; ao coração original das gentes simples de Rootabaga Stories ; às baladas e às canções de todas as raças da América - The American Songbag; aos acordes da guitarra, acompanhando os hoboes, gente deserdada cruzando clandestinamente o país imenso em comboios de mercadorias, farejando emprego ao ritmo das sementeiras e das colheitas no Iowa e no Nebraska, na construção dos caminhos de ferro no Missouri, lavando pratos nos restaurantes de Kansas City, colhendo fruta na California, cortando a cana no Alabama e no Mississipi e árvores no Oregon; à violência crua e à sabedoria coloquial das gentes de Chicago Poems.

 

Leituras de inverno, retempero do coração, oxigenação da mente, reduzindo-lhe a velocidade do percurso imparável para o esquecimento e para o nada que lhe vem a seguir, cortando o passo ao bla bla bla de um entulho que abastarda e que cada vez mais teima em nos roubar a individualidade e a inteligência, tudo por amor de mercancias sem fim; livros velhos, revisões novas, a busca das causas, dos motores, uma bruma remota e densa sempre delimitando a fronteira do sonho, o espírito desperto obrigado a trabalhar interpretações e explicações para não deixar o universo suspenso do nada, pronto a desabar a todo o momento e a precipitar-se em abismos sem retorno; linguagens, torrentes de pensamento que, como rios, num belíssimo poema de Sandburg, brotam da montanha e se despenham no vale, que alteram o seu curso sem fronteiras que as detenham na corrida para o mar e para a morte, as palavras amassadas hoje na boca e filtradas nos dentes e nos lábios, para dar forma às ideias, desgastando-se, emurchecendo, perecendo, transformando-se em hieróglifos indecifráveis que amanhã deixarão de ecoar, como o vento que soprou há dez mil anos. Para outras novas nascerem...

 

BIBLIOGRAFIA

 

ALIGHIERI, D. A Divina Comédia. Lisboa: Círculo de Leitores, 1998. Título Original: La Divina Commedia.

BORGES, J.L. Obras Completas. Lisboa: Círculo de Leitores, 1998.

CUNHA, V.S.O. Capitalismo e Democracia na Obra Poética de Carl Sandburg. Ensaio não publicado, 1962.

FROST, R. The Complete Poems. New York: Henry Holt and Company, Inc., 1948.

GRASS, G. Uma Longa História. Lisboa: Editorial Presença, 1998. Título Original: Ein Weites Feld.

HIERRO, J. Nombres Propios. Ediciones Universidad de Salamanca, 1995.

HORTON, R.W. and EDWARDS, H.W. Backgrounds of American Literary Thought. New York: Appleton-Century-Crofts, Inc., 1952.

SANDBURG, C. Complete Poems. New York: Harcourt, Brace and Company, Inc., 1953.

SPILLER, R.E. The Cycle of American Literature - An Essay in Historical Criticism. New York: The New American Library (Third printing), 1960.

VAN NOSTRAND, A.D. and WATTS II, C.H. (eds.) The Conscious Voice - An Anthology of American Poetry from the Seventeenth Century to the Present. Indianapolis/New York: The Liberal Arts Press, Inc., 1959.

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* Professor-Coordenador da ESEV

SUMÁRIO