UNIVERSITAS CAROLINA

VASCO OLIVEIRA E CUNHA *

 

Uma bula de 1347, de Clemente VI, estabelece um studium generale em Praga, e logo no ano seguinte, em 7 de Abril, Karel (Carlos) IV, imperador do Sacro Império Romano e rei da Bohémia, cria na cidade a primeira universidade da Europa Central. Conhecida pela designação de Universitas Carolina, era constituída por quatro faculdades, como era comum nas grandes instituições medievais de ensino - Artes Liberais, Medicina, Direito e Teologia. Depois de uma breve fase inicial de dispersão das instalações precárias pela cidade, as faculdades ficaram sediadas (1383) num palácio da Cidade Velha.

Acompanhar a sua história é, simultaneamente, provocar a evocação inevitável de um símbolo vivo da cultura checa num percurso político, científico e cultural pleno de vontade de afirmação nacional face ao peso de sucessivas influências e imiscuições exógenas. A começar pela primeira convulsão institucional, em 1409, o Decreto de Kutná Hora, de Wenceslas IV, conduzindo à afirmação da maioria da nação bohémia na universidade, os estrangeiros deixando o reino e fundando instituições novas em outras paragens. Em Leipzig, por exemplo.

Universidade Carolina - Aula Magna

Oito anos volvidos, a adesão pública ao ideário do movimento hussita (utraquismo) suscita a proibição das actividades pelo Papa, e a guerra que se lhe seguiu levou a que a universidade funcionasse apenas com a Faculdade de Artes Liberais até ao século XVII.

Entre 1556, data da chegada dos Jesuítas a Praga e da fundação da academia designada por Clementinum num modesto edifício junto da Ponte Carlos - Karluv most - (o estatuto de Universidade sendo-lhe conferido em 1616), com estudos de Filosofia e de Teologia, e 1773, ano da extinção da Ordem, a vida da Universitas Carolina passou por transformações estruturais e por agitações sucessivas, ora por razões religiosas, ora por questões de natureza política: introdução de um plano fixo de estudos; cessação da obrigatoriedade do celibato para os professores; gestão dos assuntos económicos atribuída a um Questor (1609); participação na revolta contra o monarca católico (1618); recatolicização da instituição e sua entrega aos Jesuítas (1622), Jan Jessenius, o reitor, sentenciado à morte pela sua participação activa no levantamento contra os Habsburgos; supervisão directa do estado imposta às faculdades seculares (Medicina e Direito) em 1638; o chamado Decreto de União (1654), do imperador Fernando III, reunindo as Universidades Carolina e Clementina numa só - a Universitas Carolo-Ferdinandea -, com quatro faculdades.

Finalmente, no início do séc. XVIII, a reconstrução da Carolina, em estilo barroco, pelo arquitecto Kanka.

O início do período Iluminista é marcado por uma série de novas reformas na universidade: permissão de inscrição para estudantes católicos (1781); abolição da autonomia financeira da instituição e sua colocação sob controlo estatal (1783); cancelamento da jurisdição institucional (1784) e, no mesmo ano, a introdução do Alemão como língua de ensino, decisões que representavam um golpe duro no orgulho da cultura de matriz checa, e que em 1848 a universidade procurou reverter exigindo liberdade académica e igualdade das línguas checa e alemã aproveitando os ventos favoráveis de uma breve primavera dos povos nascida de um movimento revolucionário que varria toda a Europa e em que se mesclavam aspirações liberais e unitárias.

No ano seguinte assiste-se a uma diminuição da pressão centralizada sobre a universidade conseguindo-se uma maior liberalização e um aumento de poder para o Senado e para os professores.

Em 1882, a Universitas Carolo-Ferdinandea foi dividida em duas instituições independentes por decreto do imperador Francisco-José I, o ensino sendo ministrado em duas línguas - o checo e o alemão.

A universidade foi aberta à mulher em 1897, na Faculdade de Filosofia, estendendo-se depois esta decisão à Faculdade de Medicina (1900) e à Faculdade de Direito (1918).

Unificadas de novo as duas Universidades (1920) sob a designação de Universitas Carolina, a instituição cresceu no decurso deste século sendo actualmente integrada por dezasseis faculdades, três delas fora de Praga (Medicina em Plzen e em Hradec Krávolé, a SW da capital; Farmácia, também em Hradec Krávolé).A sua frequência era, em Outubro de 1996, de 31.037 alunos (incluindo 1.634 estrangeiros), 53,8% deles mulheres.

Um crescimento pleno de sobressaltos, de dificuldades, de luta e de luto. Primeiro, com a ocupação Nazi, em 1939, o seu nome transformado em Deutsche Karlsuniversität Prag, e, logo após, na sequência das manifestações estudantis de 17 de Novembro, encerrada, juntamente com outras universidades e colégios checos. Depois da guerra, com a derrota da Alemanha, a reabertura; em 1948, e na sequência de manifestações estudantis, a nova organização do estado centralizador com forte influência soviética, a expulsão de professores e de estudantes não afectos ao regime saído do conflito; a revogação da lei de autonomia académica (1959); o início de reformas institucionais; a criação das Faculdades de Matemática e de Física (1952); a divisão da Faculdade de Medicina em três: Medicina Geral, Higiene e Pediatria (1953); a integração do Instituto de Educação Física e Desportos (1959), designado a partir de 1966 por Faculdade de Educação e Desporto; a criação (1965) da Faculdade de Educação Pública e de Jornalismo, a partir de 1990 chamada Faculdade de Ciências Sociais.

Com a Primavera de Praga, de 1968, a Universitas Carolina regressou a uma instabilidade que iria durar até 1989, quando uma manifestação de estudantes, organizada para comemorar o 17 de Novembro de 1939, inicia o processo rápido da queda do regime político apoiado pela União Soviética. Na sua sequência, a nova lei de ensino superior, de 1990, estabelece a autonomia universitária e a liberdade de investigação e de ensino e autoriza a integração das três faculdades teológicas de Praga - católica, evangélica e hussita - na Universitas Carolina.

De uma brilhante constelação de professores e de reitores que ao longo de mais de 650 anos aprofundaram o valor da Universitas Carolina, salientamos aqui, e apenas pelo facto de serem universalmente conhecidos e reconhecidos, os nomes de Jan Hus, reformador da Igreja, morto na fogueira da Inquisição; Thomas Masaryk, filósofo e sociólogo, primeiro Presidente da República da Checoslováquia; Albert Einstein, professor de Física na Faculdade de Filosofia.

Fizemos recentemente uma visita guiada à Universitas Carolina, possível, pelas diligências do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Agricultura de Praga, onde, como bolseiro da U.E., nos encontrávamos em Visita Preparatória, e pela afabilidade com que o pedido foi aceite pela administração da Carolina. Para as duas instituições checas, o nosso melhor agradecimento.

No interior de uma atmosfera de quase sonho e lenda, uma surpresa nos aguardava. Nos velhos claustros medievais da universidade, a exposição magnífica da epopeia portuguesa por mares nunca dantes navegados, iniciativa da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

Capítulo importante da história portuguesa e do mundo, na nossa língua, ali bem no centro da Bohémia, no coração da Europa Central, a perspectiva que Viseu não viu. Imperdoavelmente!

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* Professor-Coordenador da ESEV

SUMÁRIO