Visitas Preparatórias Especiais Sócrates

 

Escola Superior Agrária e Instituto Superior Politécnico de Viseu na

Hungria e República Checa

 

ANTÓNIO MORAIS *

SÓNIA SILVA **

 

Ao abrigo do programa comunitário Sócrates e, em particular, da sua medida de incentivo à realização de visitas preparatórias especiais, deslocaram-se, em Março (15 a 20), à Hungria e à República Checa representantes da Escola Superior Agrária de Viseu (ESAV) e do Instituto Superior Politécnico de Viseu (ISPV), com o objectivo de realizar contactos exploratórios para o estabelecimento de relações de cooperação académica com duas instituições de ensino superior, nomeadamente a Universidade de Horticultura e Indústria Alimentar de Budapeste (Hungria) e a Universidade Checa de Agricultura (Praga, República Checa). Trata-se de uma iniciativa enquadrada pela política de relações internacionais do ISPV, que aponta para a necessidade de intensificar e diversificar (disciplinar e geograficamente) o plano de cooperação internacional actualmente mantido por esta instituição.

Da delegação do ISPV faziam parte o seu Presidente, Professor Doutor João Pedro Barros, o seu Vice-Presidente, Doutor Vasco Cunha, e, ainda, a técnica superior de relações internacionais Sónia Silva. A representar a Escola Superior Agrária de Viseu estava o seu Director, Dr. António Morais. Apesar dos constrangimentos impostos pela falta de tempo para a realização de todas as actividades desejadas, as visitas em causa proporcionaram um conhecimento razoável da organização e recursos das instituições estrangeiras e, acima de tudo, permitiram a criação de um clima de empatia que resultou no estabelecimento de laços de cooperação e na vontade de estreitar gradualmente a ligação originada, quer através do reforço das actividades acordadas, quer através do seu alargamento a outros domínios e projectos.

Concretamente, e no que diz respeito à instituição checa, ficou acordada a assinatura de um protocolo geral de cooperação, que permite a ambas as partes definirem anualmente um conjunto de actividades nos seguintes domínios: intercâmbio de estudantes; actividades de investigação conjuntas; participação em seminários e conferências; desenvolvimento de infraestruturas institucionais. Prevê-se que no ano lectivo 2000/2001 sejam implementadas as primeiras actividades de mobilidade de estudantes e docentes. Para o ano lectivo em curso, está em preparação um intercãmbio de pessoal administrativo na área das relações internacionais. Em Junho passado, o Reitor e Vice-Reitor desta instituição retribuiram a visita do ISPV/ESAV, tendo, ao longo da estadia em Viseu, tomado contacto com estas realidades institucionais e regionais e participado numa conferência destinada a divulgar, junto de estudantes e docentes, instituições estrangeiras com as quais o ISPV coopera. Para além disso, foi, ainda, assinado o protocolo de cooperação apresentado no primeiro contacto estabelecido entre estas duas instituições

Relativamente à Universidade de Horticultura e Indústria Alimentar de Budapeste, estão já em curso actividades de cooperação, nomeadamente ao nível da mobilidade de estudantes e do desenvolvimento curricular. Encontra-se em Viseu, para a realização de um período de estudos de 6 meses, uma estudante húngara, que inaugura, assim, o plano de actividades então acordado. Para além disso, o ISPV, e, em particular, a ESAV, foram incluídos num grupo de trabalho internacional, coordenado por aquela instituição, que está actualmente a desenvolver um curriculum para a criação de uma licenciatura comum na área da agricultura biológica. Para 2000/2001, está previsto o reforço da mobilidade de estudantes, que, por enquanto, está ainda na sua fase experimental, e a introdução do intercâmbio de docentes, assim como de outras actividades de cooperação que possam revelar-se de interesse mútuo.

Na sequência da realização das referidas visitas foi elaborado um relatório que nos dá conta, de uma forma mais pormenorizada, das actividades desenvolvidas ao longo daqueles dias, assim como do conjunto de expectativas que estes contactos originaram. O referido relatório, da autoria do Director da ESAV, Dr. António Morais, é a seguir apresentado.

HUNGRIA E REPÚBLICA CHECA: O ALARGAMENTO DA COOPERAÇÃO À EUROPA CENTRAL

Introdução

 

A Globalização do Ensino Superior Agrário é cada vez mais uma constante. Da habilitação adequada de Técnicos (Superiores) resultará, seguramente, a instalação de uma rede empresarial dotada de capacidades e de meios tecnológicos necessários à aguerrida competitividade dos mercados agrícolas.

Torna-se então essencial que os conhecimentos a transmitir sejam tão actuais quanto possível, e resultado de uma recolha de dados tanto mais abrangente quanto menos diversificada for a região de actuação daqueles técnicos.

Nesta linha de pensamento, são importantes os contactos de cooperação com Instituições de Ensino Superior Agrário de reputada idoneidade e de vasta experiência, nos campos de investigação e experimentação, mas também com credibilidade no campo pedagógico.

 

Objectivos das Visitas

 

 

Áreas de Estudo , Áreas Específicas de Interesse e Programas de Estudo

 

    1. BUDAPESTE
    2.  

      1. Áreas de Estudo: 01. 4 horticultura; 01. 9 outras - engenharia das indústrias agro-alimentares
      2.  

      3. Áreas Específicas de Interesse: vinicultura, vinificação e enologia; instalações/ equipamentos das indústrias agro alimentares
      4. Programas de Estudo - destinatários preferenciais: docentes e estudantes dos cursos de engª agrícola - variante hortofruticultura e engª das indústrias agro-alimentares da ESAV, tendo em vista os correspondentes programas na instituição anfitriã.

       

    3. PRAGA
    4.  

      1. Áreas de Estudo: 01.4 horticultura; 01.7 pecuária
      2. Áreas Específicas de Interesse: culturas de estufas; instalação/ equipamento de horticultura/pecuária.
      3. Programas de Estudo – destinatários preferenciais: docentes e estudantes dos cursos bietápicos de licenciatura em engª agrícola - variante hortofruticultura e em engª agrícola - variante zootécnica, tendo em vista os correspondentes programas na instituição anfitriã.

 

Resumo das Actividades

 

Dia 15 - Visita à Universidade Checa de Agricultura (UCA). A representação do ISPV foi recebida pelas 10:15 horas, na Reitoria da Universidade, pelo Prof. Pavel Kovár, Vice-Reitor da Instituição, que, após as respectivas apresentações, fez uma breve resenha histórica da sua Universidade. Seguiu-se a sessão técnica de apresentação das duas instituições.

 

O Sr. Doutor Vasco Cunha, Vice-Presidente e responsável pelo Departamento Cultural do ISPV, coadjuvado pela Srª Drª Sónia Silva, das Relações Internacionais da mesma instituição, fez a caracterização do Instituto Superior Politécnico de Viseu, focando a sua constituição orgânica, historial e objectivos do Ensino Politécnico em Viseu.

O Director da ESAV, começando por agradecer a oportunidade por se encontrar numa das mais antigas e conceituadas Escolas de Ensino Superior Agrário da Europa, procedeu à apresentação da unidade orgânica do ISPV da sua responsabilidade. Referindo a instalação da Escola Superior Agrária em Viseu e na região, como o resultado das reivindicações dos variados sectores da actividade agrária, definiu o posicionamento da Escola na organização interna do ISPV e a sua recente criação (Dez. de 1994). Tendo a seguir localizado geograficamente o País, a Zona Centro e a Região onde a Escola se encontra inserida, passou em revista os principais objectivos a atingir, a metodologia seguida para se poder projectar a Instituição, bem como a estruturação de um plano de desenvolvimento concertado. Caracterizando o posicionamento socio-económico da ESAV, transmitiu a necessidade de se elaborar uma análise interna e outra externa. Internamente, identificou e descreveu as áreas de formação em que a Escola se encontra empenhada e os graus de formação que actualmente confere. Ainda ali foram divulgados os dados referentes à evolução do número de alunos, a sua distribuição pelos 3 cursos desde a sua criação, as opções de candidatura no ingresso, a percentagem de sucesso escolar, a evolução do corpo docente, quer em número quer em formação e, por fim, a execução de várias acções voltadas para o exterior, a complementar o estreitamento com o tecido empresarial.

Externamente, com base no importante papel que a agricultura representa na evolução de um país, evidenciou a posição estratégica da Região e a excelência das vias de comunicação que possui, bem como as suas vastas potencialidades, tendo em conta o perfil do Ensino Politécnico em geral e do Ensino Agrário em particular.

Referindo-se ao perfil da Escola, foram colocados em relevo os seus três principais objectivos, nomeadamente a melhoria da qualidade do ensino, a consolidação da ligação à comunidade, através da prestação de serviços e do recurso a empresas, explorações agrícolas, centros de investigação, e outras organizações com interesse para o sector agrário e o desenvolvimento de actividades de investigação e experimentação.

Por fim, mencionou a internacionalização ou globalização do ensino, como corolário da inclusão de Portugal na União Europeia. E que este desiderato encontra uma expressão mais real na mobilidade quer do seu corpo docente, quer dos estudantes, estando implícita ainda uma cooperação científica e tecnológica a nível de projectos comuns de desenvolvimento e outras acções.

A apresentação da Universidade Checa de Agricultura (UCA), a cargo do Prof. Pavel Kovár, Vice-Reitor, foi iniciada com agradecimentos aos elogios dirigidos à sua instituição, expressando votos para que a estadia da representação da ESAV/ISPV pudesse vir a resultar em projectos comuns. Passou de seguida à discrição da orgânica da UCA: Internamente a Universidade Checa de Agricultura está estruturada em quatro Faculdades, nomeadamente uma de Agronomia, uma de Engenharia Florestal, uma de Economia e Gestão Agrárias, uma Técnica (científica e pedagógica) e ainda um Instituto de Agricultura Tropical e Subtropical. Para além destas áreas, a Universidade gere departamentos independentes - o Centro de Estudos e Informação, o Instituto de Informática (Computer Institute), o Instituto de Formação de Professores e o Departamento de Educação Física, os quais respondem às necessidades de todas as faculdades. Por outro lado, a UCA tem também empresas próprias: uma quinta experimental em Lány, uma exploração florestal em Kostelec, os serviços de Acção Social (residências e cantinas), assim como uma representação comercial, a Unic Agric.

Todas as faculdades, assim como o Instituto de Agricultura Tropical e Subtropical, oferecem uma formação universitária completa, organizam as suas próprias pós graduações, bem como outros tipos de formação contínua. Os cursos normais decorrem em cinco anos e, desde o ano lectivo de 1998/99, apresentam-se em dois ciclos. O primeiro ciclo, com três anos de duração, é concluído com um exame final ("state examination"), recebendo os estudantes um diploma de Bacharel (Bc.).O segundo ciclo é de especialização (existem disponíveis mais de 40 cursos de especialização) e é concluído com um exame final num diversificado conjunto de disciplinas e a defesa de uma tese. O aluno graduado recebe o grau de "Engenheiro" (Ing.). Os estudantes podem ainda combinar um grupo individual de disciplinas que pretendam e, conjuntamente com a sua tese, constituir um determinado perfil de especialização, adequado às suas preferências.

Quanto à cooperação com outras instituições de Ensino Superior Agrário, têm já em progressão uma série de mecanismos a nível dos programas europeus de mobilidade e cooperação, (inclusive o Programa Sócrates/Erasmus). Para uma melhor eficácia na mobilidade dos seus estudantes, a UCA aderiu ao Sistema Europeu de Transferência de Créditos (ECTS), o que faz com que os estudos daqueles (exames e diplomas) sejam certificados por outras universidades. Naquele sistema, um crédito representa o período de tempo (quer em acções lectivas, quer em trabalho independente) que um aluno médio necessita para a qualificação numa determinada disciplina. Para além dos graus de licenciado (Ing.) e bacharel (Bc.), administrados localmente ou à distância, a universidade organiza ainda vários cursos e sessões de formação, incluindo as voltadas para professores do ensino secundário (na área da agricultura). Após a licenciatura (Ing.), a universidade oferece cursos de pós graduação, com a duração de três anos para a frequência local e de cinco para formação à distância. O grau de doutoramento (PhD) é atingido após rigorosos exames e defesa de uma tese.

 

Dia 16 – Visita às instalações das Ciências Agrárias, guiada pelo Prof. Miroslav Bechyne, precedida por uma reunião conjunta dos elementos do ISPV e dos responsáveis pelos departamentos de produção animal e de produção vegetal, respectivamente Prof. Jakubeck e Prof. Majzlik.

A visita decorreu com muito interesse, tendo-se percorrido sucessivamente os laboratórios de genética, microbiologia e biologia, após o que se passou para as instalações exteriores de produção animal (vacaria, pocilga, departamentos de avicultura e cunicultura) e de produção vegetal (quatro estufas).

Ás 11:30 horas, na Reitoria, teve lugar uma cerimónia de apresentação de cumprimentos protagonizada pelo Reitor da UCA, Prof. Jan Hron, e pelo Presidente do ISPV, Prof. Doutor João Pedro Barros.

Na sequência da troca de cumprimentos, ficaram expressas as vontades recíprocas de cooperação, que vieram a culminar com a elaboração de um documento de trabalho, denominado "Memorandum de Entendimento", a ser subscrito pelas respectivas tutelas, designadamente o Presidente do Instituto Superior Politécnico de Viseu e o Reitor da Universidade Checa de Agricultura de Praga.

Da parte da tarde visitou-se a Universidade de Carlos IV, na cidade de Praga, onde na altura decorria uma exposição (itinerante) sobre os Descobrimentos Portugueses. De referir que esta instituição de Ensino Superior é uma das primeiras Universidades da Europa Central, fundada no Séc. XIV.

Universidade Checa de Agricultura (UCA)

 

Dia 18 – Em Budapeste, a comitiva do ISPV deslocou-se à Universidade de Horticultura e Indústria Alimentar (UHIA), onde foi recebida na Reitoria pela Srª Drª Piroska Lukács, Coordenadora Institucional para o Programa Sócrates / Erasmus. Na altura, foi feita de modo muito claro a resenha da instituição anfitriã:

Ali, o ensino da Horticultura começou quase há 150 anos. Actualmente, a UHIA é um centro húngaro de investigação e formação superiores, nos campos da horticultura, indústria alimentar, arquitectura paisagística e ciências ambientais relacionadas. Inclui 5 unidades orgânicas:

 

Faculdade de Indústria Alimentar, em Budapeste;

Faculdade de Horticultura, em Budapeste;

Faculdade de Arquitectura Paisagística, Protecção e Desenvolvimento, em Budapeste;

Escola Superior de Indústria Alimentar, em Szeged;

Escola Superior de Horticultura, em Kecskemét

 

As Faculdades conferem licenciaturas e as Escolas Superiores bacharelatos, dentro das estruturas quer do ensino normal, quer do ensino por correspondência, nos seus níveis iniciais ou de pós graduação.

Os principais objectivos da Universidade centram-se em: bacharelatos, licenciaturas, trabalhos de investigação e de extensão. Dispõe de mais de 20 licenciaturas. Com 6 planos de doutoramento, há cerca de 150 doutorandos envolvidos em estudos e trabalhos de investigação, para a obtenção do respectivo grau (PhD).

O número total de alunos atinge os 3 700, incluindo 2 300 em cursos normais, e 1 400 nos outros sistemas daquele ensino superior.

Quanto à apresentação do I.S.P.V., foi seguida a mesma metodologia empregue em Praga.

Na sequência da troca de impressões quanto às vantagens e dificuldades de cada um dos sistemas (sem grandes diferenças na prática), houve oportunidade para verificar algumas das condições de apoio social e cultural oferecida no Campus, já que a comitiva viseense foi convidada para almoçar na cantina principal da Universidade.

Ainda nessa tarde, realizou-se uma reunião com os responsáveis dos diversos Departamentos da Universidade, na qual se transmitiu de novo não só a orgânica do ISPV, mas ainda o percurso feito até aqui pela ESAV e os seus objectivos mais próximos.

Após viva troca de impressões, foi sugerida a proposta de se levar por diante um projecto conjunto, apoiado pelo programa Sócrates/Erasmus.

O projecto, traduzido por um curso em Agricultura Biológica, foi apresentado pelo Prof. Dr. Lásaló Radics, responsável pelo Departamento de Sistemas de Produção Ecológica e Sustentável.

Depois da reunião e dado o avançado da hora, só houve oportunidade para visitar as Instalações da Faculdade de Horticultura. Nesta visita fomos sempre acompanhados pela Srª. Engª. Zita Scalai.

 

Dia 19 - Visita pormenorizada às instalações laboratoriais da Faculdade das Indústrias Alimentares, com uma prévia abordagem de temas comuns às duas instituições no gabinete do Prof. J. Farlcas. Por amabilidade daquele responsável, foram-nos entregues cópias de alguns trabalhos coordenados por aquele departamento.

Universidade de Horticultura e Indústria Alimentar de Budapeste (UHIA)

 

Conclusões

 

Estas visitas preparatórias revestem-se de importância significativa para a Instituição em geral, mas são particularmente construtivas para as Escolas, cujos contactos com entidades ao seu nível permitem definir posicionamentos em vários sectores (pedagógico, científico, curricular e de gestão).

Baseados nos sucessos (ou insucessos) das parceiras visitadas, verificando in loco a aplicação de diferentes metodologias, mais fácil se torna adaptar à nossa realidade as melhores soluções encontradas.

Por outro lado, parece-nos que, pela internacionalização cada vez mais evidente, só haverá vantagens em contactar estabelecimentos do Ensino Superior como aqueles que referimos, dados os seus percursos seculares, de forma a beneficiarmos das suas vastas experiências que seguramente nos enriquecerão.

Ambas as instituições visitadas conferem actualmente os mesmos graus de formação (Bacharelato e Licenciatura) da ESAV, com durações temporais idênticas e planos curriculares muito aproximados.

Marcadas, durante muito tempo, por um Sistema de Ensino e de Política Social manifestamente centralizado, estas instituições, não obstante algumas dificuldades normais em períodos de transição, emergem agora entusiasticamente para uma nova realidade europeia.

Estamos cientes, por fim, que os contactos efectuados e a informação recolhida, a vários níveis, venham a ser de utilidade para a consolidação de uma melhor Escola Superior Agrária em Viseu.

Bibliografia

Czech University of Agriculture, 1998. Czech University of Agriculture Prague. Agentura Grafa. Prague, p. 31.

University of Horticulture and Food Industry, 1998. Faculty of Food Engineering. Budapest, p. 13.

University of Horticulture and Food Industry, 1997. University of Horticulture and Food Industry. Budapest, p. 24.

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* Director da Escola Superior Agrária de Viseu

** Técnica Superior de "Relações Internacionais" do ISPV

SUMÁRIO