FLORBELA ESPANCA

 

SOFIA AZEVEDO *

 

 

A primeira vez que li SONETOS de Florbela Espanca era ainda muito jovem. Não podia compreender aquilo que lia, por isso depressa fechei e guardei aquele livro na prateleira, junto a tantos outros, criticando, no fundo, na minha ingenuidade infantil, a pessoa que me havia ofertado tamanha complexidade de letras, quando na realidade eu ainda queria continuar a ler a história da Branca De Neve, da Gata Borralheira e da Bela Adormecida nas suas mais diversas ilustrações.

Depois de muito tempo ali guardado, voltei a folhear esse livro e, então, com um pouco mais de maturidade, a sua releitura fez-me como que sentir, de uma maneira intensa, a mesma dor da poetisa.

Florbela dedica o seu LIVRO DE MÁGOAS àqueles que, como ela, também se sentem torturados, pois só esses poderão compreendê-lo, de senti-lo de verdade. Neste sentido, intitula-o mesmo de Bíblia de Tristes. Isto, apesar de muito triste, possui uma beleza profunda e inegável.

A Poetisa identifica-se completamente com a sua obra. Ela é a sua obra e a sua obra é ela e em quase todos os seus poemas existe uma prova flagrante dessa identificação absoluta. Florbela Espanca consegue transpor fielmente para o papel todo o seu mundo interior. É fácil perceber logo desde o início que a dor a persegue constantemente, fruto de amores impossíveis, fruto de dois filhos que ela não conseguiu trazer dentro de si e ainda de um Amor de Mãe que ela nunca conheceu. Mas também é fácil compreender a sua, talvez, incapacidade de superar essa mesma dor. Florbela exagera o seu sofrimento e, deste modo, esse exagero passa a ser uma realidade para ela. A Poetisa possui como que uma predisposição para o sofrimento e por isso cultiva-o, desenvolve-o, deixa-o crescer ainda mais dentro de si, escrevendo e referindo constantemente o passado, insistindo numa recordação saudosista exagerada.

SONETOS de Florbela Espanca é uma lamentação constante. Tudo é triste, tudo é nostálgico. A Poetisa escreve sobre o Amor, a Morte, o Ódio e a Dor de uma forma quase chocante, mas ainda assim cativante. É fácil perceber os símbolos que Florbela escolheu para evidenciar as suas sensações. Nada foi deixado ao acaso. O exemplo mais flagrante é talvez o das cores. O roxo, o preto, o cinzento, aparecem na maioria dos poemas. Cores tristes que representam o luto, a morte e a solidão. O preto aparece ainda de outras formas, como em alguns títulos: Nocturno, Noitinha. Sombra, Anoitecer. As flores aparecem também inúmeras vezes. Flores de cor roxa, como o lírio e o lilás que simbolizam igualmente a dor. Os próprios títulos dos poemas são à partida alusivos ao estado d'alma de Florbela, como por exemplo: Crucificada, Loucura, Deixai Entrar a Morte, Nostalgia, Saudades, O Meu mal, Alma Perdida, A minha Tragédia, Tortura, Sem Remédio e tantos outros exemplos que poderíamos dar.

Florbela trata a morte por tu e chama-a para si, para assim sarar o seu mal, exclamando no soneto À Morte: Morte minha senhora dona morte, tão bom que deve ser o teu abraço! Dona morte dos dedos de veludo, fecha-me os olhos que já viram tudo! Prende-me as asas que voaram tanto!

Não é fácil compreender tamanhas sensações e sentir-lhes a beleza, mas ela está lá, num ponto que ultrapassa muitos de nós, pois como a própria poetisa escreveu: Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens!

Leiam!!

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* Aluna do Curso de Português/Francês da ESEV.

SUMÁRIO