Razões de um curso de Língua e Cultura

(A propósito da cadeira de Língua e Cultura Inglesa, na Escola Superior de Educação.)

LUÍS MANUEL MENDES *

 

"Da minha língua vê-se o mar..."

Vergílio Ferreira

 

No segundo parágrafo dizemos porquê. A pressa começa no contrário da perfeição. Há uma identidade para ser discutida: a minha, a do(s) outro(s), a das coisas. No Programa de Inglês do Ensino Básico referem-se a identidade e a diversidade, ou seja, o dizer e o desdizer. É um mar de águas de todos os sentidos. Nós avançamos sem pressa, que é para ver surgir. Para termos a percepção súbita, que é a verdade - ou a beleza, definidas por Sócrates nas duas parcelas a que dá igualdade; e daqui a perfeição.

No outro parágrafo fica tudo por dizer. Essa ideia de perfeição entende-se no conhecimento secreto das coisas. O professor tem a função cultural de propor mistérios. Os alunos são para seduzir. A identidade não é uma descoberta e não tem nada de novo e, além disso, não tem pressa. O que interessa.

Ser a extrema gravidade de tudo, para sempre.

Quando interpelado por Moisés sobre o Seu nome, Ele respondeu: Eu sou Aquele que sou, Ego sum Qui sum, Ich bin der Ich bin, I am That I am. Eliot, no The Naming of Cats1, refere três nomes de cada gato: o que tem, de uso familiar ("sensible everyday names"), o seu nome exclusivo e distintivo ("particular, peculiar, more dignified"), verdadeiramente próprio, e o nome que só ele sabe, inefável, profundo, misterioso, singular ("deep and inscrutable singular name"). Aqui está a identidade, a definição e a justificação.

Daqui partimos e daqui há-de haver mar e outras terras, outros gestos, outras leis. Este é o tema aglutinador dos estudos de cultura, fazendo da língua início, fim e meio de viagem. Como na cadeira de Língua e Cultura Inglesa, do curso de professores disso mesmo. Nisto nós percebemos que a diversidade é uma unidade. Pelo meio, fazemos a aproximação aos mistérios: o inefável e a intemporalidade ou eternidade, pelos seus opostos directos - dizemos e acontecemos, somos. (É, aliás, aqui, que Virginia Woolf encontra a perfeição, a frase fica de memória: "neste momento, hoje, aqui, agora, ao sol, era suficiente - demasiado, até".)

As aulas são um processo de negociação para conduzirmo-nos à noção de sentido/sentidos, e ainda, citando B. Morgan2:

Identity is not so much a map of experience - a set of fixed coordinates - as it is a guide with which ESL students negotiate their place in a new social order and, if need be, challenge it through the meaning-making activities they participate in.

O mapa de experiências dá lugar a um mapa de significados, e é por ele que vamos, depois da construção que dele fazemos. À procura de um nome.

Os estudos de cultura são decifrações de sinais, leituras. As diversas identidades são-nos pretextos para a tarefa maior do desenvolvimento pessoal e social. Da definição de lugares de ser e de estar, múltiplos. Conta Borges3 que o "seu" Shakespeare, "antes ou depois de morrer, soube-se em frente a Deus e disse-lhe: Eu, que tantos homens fui em vão, quero ser um e eu. A voz de Deus respondeu-lhe, dum turbilhão: Tão-pouco eu sou; eu sonhei o mundo como tu sonhaste a tua obra, meu Shakespeare, e entre as formas do meu sonho estás tu que, como eu, és muitos e ninguém."

A ilusão. Recriamos o "ceci c'est pas une pipe" de Magritte. Ou seja, fazemos representações e interpretações que constituem a ilusão do que lá está. É imaginação, porque se trata de criar as nossas imagens e a maneira singular de lermos e percebermos o Mundo. Mas nada é falso. São propostas, diferenciações, percursos, estruturas de encaminhamento numa direcção de dois sentidos: de nós para o Mundo e do Mundo para connosco, indiferenciadamente. São os cruzamentos do que há, e o que permite que o que existe exista.

A representação, como no caso do célebre cachimbo, é uma transformação, que se explica nos modelos construtivistas de apropriação psicológica da realidade, ou, poeticamente, em Pessoa4, por este dizer "Dizem que finjo ou minto / Tudo o que escrevo", sabendo que o que é visto é "como que um terraço / Sobre outra coisa ainda. / Essa coisa é que é linda."

E é por isto que, mais uma vez, o método é o da interrogação. Aqui cabem os pressupostos culturais e a definição do eu numa teia ou rede muito complexa e diversificada de relações. Aliás, a utilização das palavras teia e rede - por relação com "net" e "web" -, são nada mais que tremendamente adequadas ao mundo contemporâneo, globalizante, e assente, ou dependente, da comunicação.

Aqui cabem também as palavras "cheias de memória" de Eugénio de Andrade5, que "inseguras navegam" . O cumprimento do passado e o avançar na inexistência de presente para se construir o tempo. A compreensão, a interpretação e a realização. Para nós, em estudos de cultura, fica-nos esta navegação com muitas propostas de rumos e rotas: "Da minha língua vê-se o mar...".

Trata-se de reflexão-acção (ou invertam-se os termos). Trata-se de uma invenção. Disto resulta que o processo avaliativo tem em conta a criatividade, a capacidade reflectiva ou reflexiva, de análise e interpretação, a construção pessoal do conhecimento, a informação produzida (nova, original, única, singular).

Uma construção maior a que nos propomos, quer pelo seu alcance, como pelo seu fundamento ético universalista e humanista, é a de uma comunidade de respeito. Partimos da diversidade e da interacção: aprender com as diferenças, compreender o que os outros compreenderam ( e como o compreenderam), discordar (porque não sou eu), interagir comigo mesmo, por reflexão e introspecção. O problema simples que aqui se coloca é o da identidade, sempre: que construção de identidade - e que identidade - pelo meio da diversidade, das opções propostas, dos vários percursos possíveis e das minhas escolhas e valorizações em determinado momento?

Respeitar é interagir, é conhecer, construir. O mais importante é mesmo não concordar, para afirmarmos a diversidade - regiões que conhecem um território de existência em comum, interdependente, se quisermos, e se estivermos dispostos ao enriquecimento que resulta das construções de respeito. Este é o plano social e comunitário da interacção e da existência, mas também (e talvez que no início), o pessoal. Profundamente educativo, portanto.

A reflexão sobre mim próprio, os processos de introspecção, são percursos do conhecimento do outro, das suas diferenças, das várias singularidades que me conduzem a uma apropriação plural da realidade, em mim sintetizada, na contínua equilibração das construções e conhecimentos vários.

Encontramo-nos perante uma sociedade multireferencial, miscigenada, onde as escolhas não são fáceis, mas revelam, ainda, o direito à diferença e a capacidade de as pessoas se inventarem. Uma grande diversidade de atitudes e o predomínio de um exacerbado individualismo. Mas, também, a interdependência de todos os factores que eu utilizo para me definir e que eu, pela minha vez, defino. Como muito bem explicou António José Saraiva6,

A estreita dependência do indivíduo em relação ao meio aparece claramente se fizermos este raciocínio: eu defino-me em função de uma infinidade de termos (uma infinidade de factos e uma infinidade de indivíduos); cada um desses factos e desses indivíduos definem-se, por sua vez, em relação a uma infinidade de outros, um dos quais sou eu próprio. Mas eu sou apenas um nesse conjunto que define cada um dos meus definidores e entro apenas como um elemento numa infinidade para o definir, ao passo que o conjunto que me define está definido por uma infinidade de funções.

Ainda, e para finalizar, a este propósito, não podemos deixar de referir a importância da globalização da comunicação hoje em dia, quer pela utilização de uma linguagem comum (a unidade na diversidade?), quer pela generalização do acesso a todas e quaisquer áreas de informação cultural pela Internet. Sobre isto veja-se o estudo de opinião intitulado Teen Mood, da responsabilidade da agência multinacional de publicidade FCB, sobre os efeitos da globalização nos jovens, acerca do qual o Diário de Notícias apresentou a reportagem "Geração global", em 25 de Outubro último.

A educação multicultural, cujos pressupostos estão presentes neste texto, e que constitui o âmbito dos nossos estudos de cultura, é tão só a educação para a autonomia, a liberdade, a responsabilidade e a cooperação. Um verdadeiro projecto global, que surge da actualidade e a promove e constrói, de que ninguém se pode demitir, seja qual for o seu campo ou área de trabalho educativo.

Em Língua e Cultura Inglesa a "largura" (breadth, width) que a competência linguística, em todas as suas vertentes (comunicativa, discursiva, estratégica, sócio-linguística, intercultural, de processo), imprime à intertextualidade de culturas, justifica tudo o que fica dito.

 

Lamego, 26 de Outubro de 1998

 

Sugestões para um início de leituras:

 

Campbell, N. & Kean, A. (1997). British Cultural Identities. London: Routledge.

Fantini, A. E. (Ed.) (1997). New Ways in Teaching Culture. Alexandria, VA: TESOL.

Gorski, P. et al. Initial Thoughts on Multicultural Education [online]. 13 October 1998 accessed <http://curry.edschool.virginia.edu/go/multicultural/initial.html>.

Storry, M. et al. (Eds.) (1997). British Cultural Identities. London: Routledge.

 

NB: é actualmente muito extensa a bibliografia existente no âmbito dos estudos de cultura. Estes são quatro exemplos recentes muito diferentes entre si, quer no género, quer nas propostas que fazem e representam, de um vasto interesse pela educação multicultural.

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* Equip. Assistente do 1º Triénio do Pólo de Lamego da ESEV

1 Eliot, T. S. (1939). Old Possum's Book of Practical Cats. London: Faber & Faber.

2 Morgan, B. (1995/1996). Promoting and assessing critical language awareness. TESOL Journal, 5 (2), 10-14.

3 Borges, J. L. O Fazedor (2.ª ed.). Lisboa: Difel.

4 Pessoa, F. "Isto", in Poemas Escolhidos. Editora Ulisseia.

5 Andrade, Eugénio de (1994). "As Palavras", in Antologia Breve (6.ª ed.). Porto: Fundação Eugénio de Andrade.

6 Saraiva, A. J. Para a História da Cultura em Portugal, vol. I. Lisboa: Gradiva, pp.10 e 11.

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