PRAGA, FALAR AO CORAÇÃO E O ECLIPSE DO SOL

 

MARIA DA CONCEIÇÃO*

Praga - Ponte Carlos

 

Foi por acaso. Puro e simples acaso. Juro chicuembo chanhaca(1). Não estava previsto no meu plano de férias deslocar-me à República Checa. Muito menos a Praga. Mas aconteceu. E ainda bem que assim foi. Já vão ver porquê...

Quando entrámos em Praga, a cidade das cem torres, como é vulgarmente apelidada, ao crepúsculo do dia 10 de Agosto, antevimos um pouco do que nos esperava. Ainda no autocarro, a irrepreensível guia portuguesa que nos acompanhava, a nossa Julieta, disse-nos que, se quiséssemos, poderíamos falar ao coração. Estranho! Que seria tal coisa? Já sabíamos que Praga era uma cidade imensamente bela, pejada de igrejas, catedrais, mausoléus e um sem número de monumentos. Mas falar ao coração nunca nenhum de nós supôs ser possível fazer em Praga.

O mistério foi finalmente deslindado. O que era então? Nada mais nada menos do que um enormíssimo coração metálico que, à primeira vista, mais não parecia do que um disforme mastodonte. Mas não. Era grandioso. Podiam ver-se as veias, protuberantes no pericárdio, e até a aorta estava colocada no seu devido lugar, feita, imaginem, daquele tubo plástico, ou metálico, canelado, que se utiliza nos exaustores ou extractores de fumo. Um espanto! Mas não era tudo. Estava fendido ao meio, entranhas à mostra, suspenso acima das nossas cabeças, a uns bons metros de altura, logo abaixo da abóbada convexa do hall do hotel. Don Giovanni de seu nome. Escusado será dizer que todos quisemos ir falar-lhe. O truque consistia, afinal, em subir ao primeiro andar, colocar-se o emissor e o receptor nos respectivos locais estratégicos devidamente assinalados, em frente ao coração, virados um para o outro, e conversar normalmente. Foi um assombro. Um coro de Oooos de imediato se fez ouvir. É que, apesar de se encontrarem a uma distância considerável um do outro, falando através da fenda do enorme coração, conseguiam ouvir perfeitamente o que diziam. E como? Vai-se lá saber... O segredo está, certamente, na arquitectura da abóbada, convexa, e na altura a que o dito cujo se encontra. Para início, não estava mal...

À noite, estômago aconchegado pelas iguarias locais, vai de descobrirmos a cidade. A Praça da Cidade Velha era o nosso objectivo. Entrados no metro, Mustek era o fim da jornada. Assim foi. Já cá fora, à nossa direita, a Praça de Venceslau. À luz da lua, tinha o seu quê de mistério. Contudo, o nosso caminho era oposto. Passeando pela avenida vamos observando, extasiados, as fachadas dos prédios, as lojas de cristais, a multidão ruidosa. Ouve-se de tudo. Até português. Mas os espanhóis e os japoneses estão em todas. Por curvas e contracurvas lá chegámos à Praça Velha. O Relógio Astronómico saudou-nos, fazendo soar as badaladas das onze da noite. Mas, tristeza das tristezas, nenhuma das figuras se mexeu. Um centímetro que fosse. Nem o esqueleto do tempo se dignou mover uma só tíbia em nossa honra. É preciso ter azar! Mas a velha praça estava à nossa frente, fulgurante, sombreada pelo negro da noite. Do centro, olhando em redor, tem-se uma sensação única, indescritível. Sentimo-nos insignificantes perante tanta beleza. Torres barrocas profusamente iluminadas, esplanadas de restaurantes e cafés à pinha e flamantes garçons, vestidos à Mozart, angariam clientes apregoando salivantes cardápios aos embasbacados transeuntes. E a música. Sobretudo, e sempre, a música. Música a rodos. Não esqueçamos que foi aqui que Mozart escolheu viver alguns anos da sua curta e atribulada vida, e aqui fez questão de estrear Don Giovanni, em honra de Praga e dos seus habitantes. Dirigiu, inclusive, a própria orquestra. Também lá se pode admirar o enigmático memorial a Jan Huss (1370-1415) que, na Universidade Carlos, a mais antiga da Europa Central, pregou a liberdade de pensamento e propagou a reforma entre os Checos. Pagou com a vida. Na fogueira dos hereges.

O dia do eclipse amanheceu solarengo, embora um pouco frio. Saímos do hotel por volta das oito da manhã, à descoberta da cidade, devidamente artilhados. Máquinas fotográficas, câmaras de vídeo em riste e nem os futuristas óculos metalizados, indispensáveis para uma visão inócua do fenómeno, foram esquecidos! A nossa guia local, Alena, uma checa roliça, de meia-idade, sorridente, de uma comicidade esfuziante, havia-nos informado, em castelhês, que é como quem diz um misto de castelhano e português, perfeitamente entendível, que, em Praga, o início estava previsto para as onze e vinte e um. Abro aqui um parêntesis para falar da guia. Senhores, nunca assim vimos uma coisa! Nem o Speedy Gonzalez lhe fazia sombra!... Aquilo é que era vê-la voar pelas ruas e praças. Digo voar pois a criatura caminhava com um tal desembaraço, chapéu de chuva verde erguido bem alto na mão direita, à laia de ponto de referência, que nós, pobres turistas, nos vimos, não raras vezes, em palpos de aranha para a acompanhar. Acontece que a senhora é praticante de marcha pedestre e tem corrido meio mundo para participar em maratonas da modalidade.

Primeira paragem da nossa peregrinação, o Castelo. Desde 1918, residência dos presidentes checos. Logo à entrada, como que em sessão de boas vindas, vem em nossa direcção um pelotão de imberbes militares, tez leitosa, galante farda azul-bebé e armas de reluzentes baionetas erectas. Tratava-se apenas, e tão somente, do render da guarda. Dali à catedral de S. Vito, magnífica, é um passo. Ficámos a saber que o presidente checo, Waclav Havel, crente fervoroso, tem na catedral a sua capela privada, chamemos-lhe assim, onde se desloca, frequentemente, em oração. Continuando, seguimos, em passo de corrida, a intrépida guia checa. Vamos passando por sinuosas e labirínticas ruas, apreciando belas tabuletas de artífices, tabernas, lojas de marionetas, típicas da cidade, até que chegámos à zona das embaixadas. Aguardavam-nos duas surpresas! À porta da embaixada da Itália, afobados candidatos a emigrantes, preenchiam sofregamente formulários verdes. Para alguns, os mais afortunados, passaportes para uma vida de sonho. Já na rua da embaixada americana, o cenário era hollywoodesco. Soldados e mais soldados, munidos de armas que não tinham mais de dois palmos, que presumimos tratar-se de metralhadoras. Todo este aparato se ficava a dever, disseram-nos, às recentes manifestações à porta da embaixada contra a intervenção da Nato nos Balcãs. O seguro morreu de velho...

Eis-nos agora às portas da Igreja do Menino de Jesus de Praga, assim chamada graças à homónima imagem que acolhe. De seu nome verdadeiro Igreja de Nossa Senhora da Victória, foi doada, em 1624, à Ordem Carmelita Descalça. No entanto, a veneranda e diminuta estátua, de 45 centímetros apenas, feita de cera, data de 1628. Sinal de devoção universal ao Menino Deus, as setenta e três vestes diferentes, com as quais as Carmelitas o vestem, consoante as diversas épocas eclesiásticas do ano. Ex-votos, em sinal de gratidão, forram uma das suas paredes. Ainda hoje, do mundo inteiro, chegam enormes quantidades de cartas endereçadas ao Menino Jesus de Praga...

Após a visita e oração dos fiéis, de novo continuámos. Já perto das onze e vinte e um, hora prevista para o início do eclipse, damos entrada na Ponte Carlos. Meus Deus, só quem por lá passa pode ter uma ideia da sua magnitude e beleza. Sobre o Vltava, o rio que banha Praga, a ponte une a cidade velha à chamada cidade menor. De lá, é estupenda a vista sobre o Castelo e a Catedral de S. Vito. Ladeada de magníficas estátuas, negras face à passagem inexorável do tempo e à poluição, é poiso de pintores, caricaturistas, vendedores ambulantes e, sobretudo, paragem obrigatória de turistas. É que é imperdoável estar em Praga e não tirar uma fotografia na Ponte Carlos, na base de uma das suas estátuas. Escolhemos a de São João Nepomuceno, o santo lançado ao rio por ter recusado revelar ao rei o segredo que a rainha lhe havia confiado. De alcova, dizem...

Saindo da Ponte, à esquerda, à sombra da estátua de Carlos IV, ensaiamos a primeira espreitadela ao sol, já ofuscado pela lua. Dali seguimos para a Praça da Cidade Velha. Se ontem era magnífica à luz da lua, hoje, iluminada pelo ratado sol, afigurava-se-nos ainda mais grandiosa. As torres tinham, agora, outro encanto. As tendinhas dos artífices e artesãos que, à nossa frente, desenrolavam o seu mister, exerciam sobre nós um atractivo irresistível. A amarela casa de Kafka, o resistente que fez da literatura a sua arma, escrevendo em alemão, fica a um piscar de olhos. E, de novo, Jan Hus.

Rumamos agora à cidade nova. Datada em grande parte do séc. XIX, a sua traça foi, contudo, delineada por Carlos IV no séc. XIV. Aqui, deparámos com um cenário estapafúrdico. Felliniano, quase. Sentados no chão, verdadeiro tapete humano, centenas, para não dizer milhares, aguardavam, estupefactos, o desenrolar do eclipse. Cada um deitou mão aos mais díspares artefactos para o poder observar. Havia de tudo. Vidros fumados, radiografias, óculos de soldador e, imagine-se, disquetes. Sim, essas mesmo que introduzimos nos nossos computadores. É que, no seu interior, dispõem de uma espécie de película escura. Os mais eruditos, utilizavam dois papéis. A sombra de um reproduzia fielmente, no outro, o que se passava no astro-rei. Coisa curiosa...

De repente, saído não se sabe bem de onde, levanta-se um vento forte e umas nuvens negras surgem ameaçadoras. Coincidência ou não, o facto é que ficou escuro. A temperatura desceu de uma forma drástica e rápida. Como se isto não bastasse, grossas pingas de chuva vai de caírem em cima das potenciais testemunhas que se encontravam espalhadas um pouco por todo o lado. Foi ver quem mais fugia. Perante o temporal que se abateu sobre nós, ninguém mais quis saber do bendito eclipse. Nós não fomos excepção. Até porque a nossa indumentária, calções e sandálias, não dava grande jeito perante o frio e a chuva que nos varria. Valeu-nos um McDonald's. E como o estômago já pedia clemência...

Acalmada a intempérie e passado o malfadado eclipse que, afinal, só pudemos ver até metade, rumamos agora à estátua equestre de Venceslau. Magnífica, defronte do Museu Nacional. Antes, em sinal de respeito, detivemo-nos perante uma singela cruz de madeira, rodeada de flores. Assinala o local onde, em 1968, Palach deu a vida imolando-se pelo fogo, em sinal de protesto contra o esmagamento da chamada Primavera de Praga, por parte das tropas do Pacto de Varsóvia. Estamos agora junto de Venceslau. O Bom Rei Venceslau como é conhecido. Padroeiro dos checos, foi assassinado no séc X por seu irmão que, desta forma torpe e cobarde, ascendeu ao trono. Ergue-se, altivo, dignamente sentado no seu cavalo, estandarte na mão direita, elmo na cabeça, envergando uma cota de malha. Pelas costas, uma capa ou manto. Diz a lenda que, um dia, ressuscitará e guiará o seu povo. Curioso o facto de o nome Venceslau (Waclav) estar estreitamente ligado à então Checoslováquia e hoje República Checa. Na ditadura, um Venceslau ousou resistir. Quebradas as amarras, o mesmo Venceslau ressurge para liderar o seu povo. Falo de Waclav (Venceslau em Português) Havel, hoje Presidente da República Checa.

De volta, a intempérie! Chuva, vento, frio. Triste fado o nosso! Já de regresso ao hotel, vai de visitarmos o cemitério judeu onde se encontra Kafka, precocemente levado pela tuberculose. Logo à entrada, aos homens é entregue um kipah, o tradicional chapéuzinho hebraico (não sei se estou a fazer-me entender, mas decerto me perdoam a heresia). A placa indicava o sepulcro para o lado direito. Depois de muito calcorrear, por entre campas e mausoléus, autênticas obras de arte, de uma pedra negróide que nos pareceu mármore, nada... Resolvemos então questionar o guarda. O que fomos nós fazer! O pobre não falava, nem entendia, uma palavra de inglês. Quando ensaiámos perguntar-lhe onde estava Kafka, tentou dizer-nos qualquer coisa, em checo certamente, pois não percebemos nada. Levantou quatro dedos da mão esquerda, como se estivesse a contar até quatro, murmurou algo que nos pareceu ser libânia, apontou para a direita, primeiro, em direcção ao portão, e depois para a esquerda. Bonito serviço... Ficámos na mesma! Novo rodopio e, de repente, como que por encanto e, refira-se, por mero acaso, surge-nos ao nosso lado direito. Simples, de uma pedra amarelada, lembrando um obelisco. Como identificação, apenas o nome e as datas de nascimento e falecimento. Na base, uma mão cheia de pequenos papéis, dobrados e colocados sob pedras. Chamou-nos particular atenção uma, de dimensões maiores, ovóide, manuscrita a preto. Percebemos depois que o guarda, quando levantou os quatro dedos e pronunciou o que nos pareceu ser libânia, apontando à esquerda e à direita, queria dizer-nos que ficava junto ao quarto portão, à direita do cemitério, mas à nossa esquerda.

Last but not least. À noite, voltámos a degustar a culinária checa, desta feita num restaurante típico. Assistimos, depois, a um magnífico espectáculo musical e teatral. Um punhado de artistas brindou-nos com uma soirée verdadeiramente inolvidável. Foi aqui que vi, pela primeira vez, o chamado Teatro Negro. Actores vestidos de negro, movimentam-se num palco, também negro, sem palavras, perfeitamente desnecessárias, manipulam contornos fosforescentes, simulam as mais diversas formas, animais e humanas, contando-nos, desta forma, uma série de curtas rábulas hilariantes. Só visto...

Mas, é sabido que tudo o que é bom acaba depressa. Também a nossa visita a Praga, infelizmente, exalava o último suspiro. Se o eclipse nos havia gorado as expectativas, a cidade, essa sim, proporcionou-nos um turbilhão de sensações, odores e sabores que vão perdurar, para sempre, nas nossas retinas, mentes e, sobretudo, corações.

Praga, ahoy(2) !...

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* Assistente Administrativa Principal do ISPV.

1 Expressão Moçambicana, utilizada em jeito de invocação dos deuses, que se aplica quando se pretende reafirmar e confirmar algo que se está a dizer.

2 Adeus. (Não sei se é assim que se diz, nem sei se é assim que se escreve. Pelo menos foi assim que nos pareceu soar quando, a nossa Julieta, nos ensinou a despedirmo-nos de Praga).

SUMÁRIO